Brandos costumes

Foto:   Ernst Haas


Ligo a tevê e ouço aos berros alguém dizer: “nós vamos descer o pau”. É o presidente de um sindicato, ameaçando um prefeito e os usuários de um serviço de transporte, do qual ele é contra. Mudo de canal. Dou com a notícia de que o filho de um ex-presidente, sugere em uma rede social que “o país vai pegar fogo” se o seu pai, que é hoje alvo de investigações sobre suposto favorecimento em negócios com empreiteiras, que estão sobre acusação de desvios de recursos públicos, continuar sendo investigado. Não suporto o que vejo e corro a outro canal. Aí encontro, possesso, um apresentador, falar estridentemente aos seus espectadores que, “bandido bom é bandido morto”. Fala isso, enquanto uma enquete, em baixo do vídeo, mostra os números de espectadores que concordam com ele subindo sem parar, na frente dos que esmorecem desencorajados pela pergunta, se são contra ou a favor das ideias tresloucadas do jornalista falastrão. Desisto da tevê. Vou à escola e encontro amigos professores que também não se constrangem mais em afirmar coisas, que há tempos achava superado pela posição que eles ocupam. Muitos pedem a expulsão de alguns alunos e dizem com todas as letras que alguns “não têm jeito” ou que estão ressentidos por não “poderem dar às crianças aquilo que os pais não deram: peia”. Ouço, leio e vejo todas essas barbáries e dou graças a deus que ainda bem que o poder dessas pessoas não está à altura de suas vontades, porque de outra sorte, o mundo seria um lugar dantesco, com gente a bater com paus em seus desafetos, queimar pessoas em desacordos com suas opiniões e castrar crianças por serem crianças e darem trabalho como as crianças costumam dar.  

As novidades literárias não param de chegar às livrarias

Todos os dia alguma novidade literária desembarca nas livraria, inflacionando ainda mais as boas opções de leitura disponíveis aos leitores. No entanto, não falta quem invente desculpas para não ler. Estou cansado de ouvir de alguns que, não lê porque “não tem opções cativantes”, “faltam novidades”, “é tudo sempre igual”, “desconhece os novos autores”.  Em que mundo andam as pessoas? Para onde olham quando querem mesmo buscar uma boa leitura? Penso que para o lugar errado. Voltasse os olhos para fora das tevês e das revistas do jet set, por alguns instantes, veriam um mundo novo em que as novidades superam o luxo dos cenários, das roupas e dos penteados dos artistas que tanto os mesmerizam. As novidades literárias, não param de chegar às livrarias, só os leitores não deram por isso. 

A fotografia e seus múltiplos temas

Foto: Imogen Cunningham

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Parece não haver um tema, que não tenha sido visto com interesse, pela fotografia. Ao estudar os trabalhos dos grandes fotógrafos nos deparamos com a seguinte constatação: durante o percurso de formação, eles vão apurando o estilo e perseguindo um tema, que os entusiasmam mais do que os outros, e assim formam o seu caráter fotográfico. Não é raro, porém, encontrar fotógrafos que nutrem mais interesses e alarguem seus temas a horizontes mais dilatados. Estes não concentram o seu foco de interesse em um único objeto. Inquietos que são estendem suas lentes a múltiplos pontos. Fazem isso muitas vezes movidos pelo germe da curiosidade de saberem como seria alterar códigos inexoráveis. Veja-se a propósito, o caso da americana Imogen Cunningham (1883-1976). Ela iniciou o seu percurso fotográfico fazendo estudos químicos sobre os processos de revelação. Era uma expert nessa área. Os estudos foram financiados com fotografias de plantas, para o departamento de botânica da Universidade de Washington em Seattle. Desse impulso inicial, movido pela necessidade, ela refinou o seu estilo, tomando um novo interesse nos estudos das texturas, das formas e das variedades de flores, especialmente a magnólia. A fotografia botânica que surgiu daí acabou por aliar a curiosidade científica com a expressão criativa de uma verdadeira artista. Após as flores, vieram os interesses no corpo humano. Em 1915 ela casou com o artista Roi Partridge, juntos eles exploraram os terrenos da natureza e do corpo humano. São famosas as suas imagens de Roi Partridge. Logo, não tardou que seu novo objeto de interesse passasse a ser alvo de estúpidos. A censura, imposta pela opinião pública da época, a fizeram engavetar os negativos de uma série de nus no deserto que realizou com um modelo contratado para exposição de sua lente. Depois desse trabalho, ela focou as suas fotografias nas mãos de grandes músicos e artistas. Esse último tema a levou à revista Vanity Fair. Como vemos os temas que apaixonam um fotógrafo podem ser múltiplos. Imogen Cunningham passou para história da fotografia com seus deslumbrantes close-up de flores. Mas junto a esse requinte, não lhe faltou sensibilidade, para encarrar as formas humanas em poses e gestos que a sensibilidade tacanha de alguns patuscos não foi capaz de suportar. Ela continuou a fotografar e a ensinar a sua nobre arte, até pouco antes de sua morte aos 93 anos em 24 de junho de 1976 em San Francisco.

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 Foto: Judy Dater (1974). O flagrante é de uma aula de Imogen Cunningham sobre nu artístico. Essa foto foi o primeiro nu frontal a ser publicado na revista Life.

Das trincheiras

O facebook tem me provado que, para ser-se intolerante e estar enfurecido com os outros, não é necessário habitar zonas de conflitos e assentar-se em trincheiras diferentes. Basta antes, encontrar alguém que, em desacordo com as cores que você escolheu, para ilustrar o seu perfil, teime em lhe dizer quais as melhores para colorir. Não entramos em acordo nem para permitir a liberdade de escolha de cores pessoais, como vamos fazer um mundo diferente?

De asno então...

Foto: Cristina Garcia Rodero, s/d.
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"Antes asno que me carregue que cavalo que me derrube"  Gil Vicente

"A NÓS A LIBERDADE" - Um filme injustamente esquecido e que deveriam conhecer.

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Esse não chega a ser um filme injustamente esquecido porque na verdade ele nem chegou a ser lembrado algum dia. O mais justo então seria alterar a legenda para: um filme desconhecido e que todos deveriam conhecer. E por que todos deveriam conhecê-lo? O que o faz tão especial que mereça ser arrancado das sombras e vir à lume. Talvez o fato de ser uma obra pioneira na crítica à vida burguesa, que faz do trabalho e da mecanização dos processos de produção, na vida moderna, uma fórmula de alienação e de automatismo do indivíduo em sociedade. Mais aí vocês me dirão que isso não chega a ser nada inovador, Chaplin andou a frente desse projeto e saiu na dianteira, com o genial Tempos Modernos. Ai reside um pequeno engano. Tempos Moderno, incontestável obra prima do realizador inglês, é na verdade, não um plágio, mais uma obra que está cheia de coincidências com o filme de René Clair.

JÁ VAI CEDO

Foto: Téo Júnior por ele mesmo.


Após 40 anos, “Playboy” brasileira deixa de circular

Por. – TÉO JÚNIOR

Esses últimos anos não têm sido fáceis para o mercado editorial brasileiro por n motivos. Destacaria o pouco investimento em propaganda, a ausência de incentivo governamental de mais impacto, a preguiça dos brasileiros para ler (me acuda, Sílvio Romero! Estamos na média de 1,5 livro por ano para cada pessoa; um escárnio!), a desimportância que os livros e jornais tem na vida da maioria das pessoas, incapazes que são de dar 30 contos num Saramago porque “é muito caro” e a facilidade da internet como meio que, gratuitamente, substitui o papel.

É bom frisar que nem todos os bons livros estão disponíveis na rede. E os jornais só liberam parcialmente suas matérias, e não todo o conteúdo, para não-assinantes.

Um amigo me falou, outro dia, que eu gosto das coisas físicas. Tem toda razão. Não tenho paciência para ler nada em PDF (já me basta meu trabalho cotidiano que consiste em eu ficar horas seguidas na frente de um computador, baixando a barra e subindo; uma amiga, quando tomou meu notebook emprestado, à minha revelia baixou “Cinquenta Tons de Cinza”, que adorou. Não li porque estava ocupado com as memórias de Bruna Surfistinha, uma vagabunda, pois sim) e evito ao máximo ouvir música em pen-drive, ver filmes em Youtube ou baixados de internet (uma exceção foi “O Bebê de Rosimary”; cometi a loucura de assisti-lo numa noite insone, 3 da madrugada). Como sou bastante fã de Gutemberg, ainda prefiro ler no papel. Também gosto mais de ver filme em DVD e depois guardar na estante. Nada substitui, para mim, folhear um livro, virar a página, ler na cama ou manusear um disco e a ficha catalográfica. Abrir a caixa do Submarino (com a faquinha de mesa) com livros da Black Friday, então? Um orgasmo.

Recentemente, uma grande editora teve de fechar as portas porque os lucros não estavam compensando o alto investimento nos livros, cujo catálogo é composto por gente da envergadura de Paz e Tolstói. Um dos últimos foi a extraordinária biografia de Michelangelo. O dono preferiu encerrar a empresa a baixar o nível de suas publicações, como seria a reação natural em momento de desespero econômico, com uma folha de pagamento para cobrir. Ao justificar o fim da Cosac Naif, o proprietário disse que “não queria comprometer seu passado e sua história”. Fez muito bem. Preferiu encerrar a empresa a cogitar a possibilidade de jogar no mercado biografias que certamente poderiam alavancar as vendas (quem sabe salvar a empresa?) de figuras como Claudia Leitte, Ivete Sangalo ou Luan Santana – mas sem qualquer valor intelectual ou minimamente relevante. A vida de Wesley Safadão ao lado de Bertolt Brecht? Numa edição de luxo? Capa dura? Sem chance. Ou então recorrer àquelas publicações infantis, mas para adultos, que consiste em fazer coisas estúpidas tipo “Destrua Este Diário”. “Nesta página, coloque a cera de seu ouvido – ela é parte de você, sua companheira”; na outra, “cole um pedaço de sua unha”; “esta página você rasgue, para se desapegar das coisas”; “já esta você rasgue e amasse com toda força, para descarregar o ódio que você sente de seu chefe” e por aí vai. Melhor encerrar. Ninguém é obrigado.

A Planeta, nestes últimos anos, vem editando a autobiografia de Edir Macedo; até o momento estamos no vol. 3. Como dizem os crentes, uma bênção! Best-seller. Através de seu império chamado Igreja Universal, Edir tem a oportunidade de divulgar sua obra nos quatro cantos do mundo. Ensina como converter pessoas e como, barnabé do setor de loterias, portanto assalariado, teve a bendita ideia de fundar uma igreja onde, antes, funcionava uma funerária. Se “Nada a Perder” tivesse saído pela Cosac, a editora talvez pudesse se manter mais um tempo.

No campo das revistas, a tristeza não é menor. Uma ausência sentida foi a de “Bravo!”. Uma publicação linda, bem-feita, mas que se tornou um calcanhar de aquiles para a editora. A Abril estava, com a melhor publicação de cultura do Brasil, “vendendo o almoço para pagar a janta”, como se diz. É público e notório que quando uma revista ou um caderno de jornal precisa ser fechada (o), para conter gastos, é para a cultura que a tesoura se volta primeiramente, e não para o ramo de veículos, casa & jardim ou celebridades. O indivíduo pode perfeitamente ficar sem saber a última cotação de um quadro de Van Gogh ou um texto inédito de Virginia Woolf, pode passar o resto da vida sem conhecer a biografia de um pintor extraordinário chamado Raimundo de Oliveira, mas é imprescindível que ele saiba que Claudia Raia está de dieta ou Cauã Reymond arrumou uma namorada nova. Nada posso fazer, a não ser lamentar tudo isso. Tomara que “Bravo!” volte um dia. Parou na edição 192.

“Bravo!” não circula mais. “Contigo”, porém, está aí, firme e forte.

 O FIM DE “PLAYBOY” – Não sei se estou escorregando no óbvio ululante – alô, Nelson! –, mas “Playboy”, cuja derradeira edição circulou até 10 de janeiro, não é – nem nunca foi – apenas uma revista de mulher pelada. Trata-se de uma publicação de alto nível cultural, séria, com entrevistas com gente que tem o que dizer e um elenco de repórteres e cronistas de primeira linha, dentre os quais eu destacaria Ruy Castro, Ivan Lessa e Mario Prata. Mesmo após a invasão dessas meninas nível “BBB”, a “Playboy” não escorregou ao lugar-comum e sobreviveu durante 40 anos. Lembro de um depoimento do jornalista Marcelo Rubens Paiva, que recordou seu pai (deputado que “sumiu” na “ditabranda”) lendo “Playboy” no jantar da família. Discorria, suponho, sobre conteúdo de caráter político. Por aí se tira sua importância. Como Paiva morreu antes do início da publicação brasileira, imagino que ele estivesse se referindo à “Playboy” americana.

Onde, por exemplo, eu li que o ex-sindicalista Lula disse “admirar Hitler” (“não o homem, mas sua obstinação”)? Que Tarantino não faz a menor questão de conhecer o pai? Que o manifesto contra a homofobia de Herchcovitch é ser gay assumido, casado e na fila da adoção? Que Kajuru não passa um dia sem um processo nas costas? Que Jece Valadão afirmou que frequentou a umbanda e fingia receber o Exu tão-somente para transar com a mãe de santo? Que Sandy disse que... (deixa essa pra lá!).

Mesmo aqueles que não são compradores contumazes de “Playboy”, como eu, ficaram tristes porque uma revista de alto conceito não mais existe. É uma a menos. Fará falta.

Uma revista que atingiu a vendagem de 1,3 milhão de exemplares com Joana Prado na capa (dezembro de 99) amargava tiragem inferior a 50 mil

“Playboy” marcou minha adolescência, sim senhor! Puxo pela memória que meus colegas, no 2° ou 3° ano, levavam para a escola revistas de seus irmãos mais velhos, e até colegas mulheres, no intervalo, a folheavam na maior naturalidade do planeta (admirando ou invejando um pouquinho?). Não tinha professora dando piti nem o diretor da escola arrotando falso moralismo, Deus nos livre!, indignado com aquele material impróprio para menores, passando de mão em mão na sala. Nada disso. Tudo liberado, a bem da fantasia da garotada.             A Pátria já era educadora nos tempos de Fernando Henrique. País rico é país onde sua juventude se instrui adequadamente. “Playboy” era nosso Carlos Zéfiro pós-Diretas Já. Colégio Tereza Borges. Caetité, Bahia. Uma beleza! Tenho muita saudade.


Ah, como todo mundo tem a sua “Playboy” preferida, a minha é a da “Anita” Mel Lisboa, de agosto de 2004. É isso aí. 

Sítios novos



Uma coisa verdadeiramente gostosa é encontrar sítios novos, onde se possa, alegremente, gastar as vistas com fotos que lhe transpõem para um universo paralelo. Em busca por trabalhos dos grandes fotógrafos de todos os tempos, encontrei, de forma casual, o saite SANTANGO. Desde então, não há um único dia em que não o visite. O saite é dedicado a um tema: FOTOS DE DANÇARINOS. Pelo que pude apurar, preferencialmente de Tango. A monotonia do tema não deve assustar quem aprecie grandes trabalhos fotográficos, pois, por mais vezes que um objeto tenha sido fotografado, é sempre possível tratá-lo de uma maneira nova, prova-nos, sem receio, esse saite viciante. Além das fotos hipnotizantes, o clima de sedução estética é reforçado com uma seleção de clássicos do gênero Portenho, que acompanha o visitante entre uma página e outra.


Tenho apenas uma ressalva ao saite, é que ele foi muito descuidado ao não creditar a autoria das fotos.

Ettore Scola (1931-2016)

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Quando éramos criança não era comum recebermos a notícia de alguma morte. Estávamos ocupados a desvendar os segredos do mundo, ou ainda não tínhamos criado vínculos com pessoas e coisas, que hoje são importantes demais para passarem despercebidas quando se ausentam?

Fim de semana

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Passei horas a entreter-me na internet. Vi fotos dos melhores fotógrafos de sempre. Li blogs de escritores admiráveis. Estive em saites de notícias, páginas de editoras e livrarias. Consultei os preços de produtos eletrônicos que estou namorando. Visitei as redes sociais. Mas ai não me demorei. É que estavam lá jovens que nasceram na democracia, pedindo o retorno da ditadura, como se essa não tivesse feito o que fez, e isso causou-me um embrulho no estômago. Para completar o desgosto, vi também por lá a camarilha política. Estavam, como de costume, fingindo que o governo não tem culpa nos malfeitos que, anda metendo os seus mais próximos aliados aos magotes, nas masmorras, que por aqui também atendem pelo nome de cadeias públicas. Cansei. Pulei aos vídeos de música, humor e pitei o sal da terra. De tudo, penso que não tirei o que pudesse me confortar desse mundo. Tomei então assento ao divã e pus-me a ler os suplícios de Tântalo, triste história.


Constatação

Distraio-me fácil. Perco-me sem razão em meus pensamentos. Sem quê, nem porquê, ando quase sempre à deriva, ziguezagueando em minha mente. Nessas horas o pensamento voa. Sem porto ou direção, sou carregado de um lado a outro em completo desgoverno. Mas, de vez em quando, eu também sou capaz de ser tomado por alguma razão. Quando isso me acontece dou basta aos devaneios, e baixo à terra, em pouso forçado, tudo o que estava no ar. Deito tudo ao seu lugar e digo a mim mesmo que, nada mais me ousará escapar ao meu controle. Faço isso, não sem antes, deixar de perceber que, mais me assemelho a uma folha ou a uma nuvem, que são apascentadas pelo vento, do que, um prédio bem assentado em suas sólidas bases de concreto, que não tem temor algum de ser sacudido fora, por qualquer intempérie ousada, trazida pelos maus ventos. Desculpem-me a franqueza é que ando com a máscara frouxa. 

Sobrevive a capacidade de se surpreender


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Tão raro quanto encontrar um político honesto é ver algum jovem dado à leitura no passeio público. Mas por vezes isso sucede. É raro, mas sucede. Aí quando essa imagem lhe surge, fica-se a imaginar, por instantes, que o sol anda a nos pregar peça, e o que julgávamos, como alguém a ler pelas ruas, não passava na verdade de um devaneio, de uma mente sobressaltada pela fornalha que se tornou a cidade, nesses dias de sol inclemente. Essas coisas costumam acontecer também aos incautos que desafiam o deserto. Não seria raro, então, em cidades cujo sol é, tão ou mais, impiedoso, quanto nos terrenos, onde somente os camelos estão livres dos delírios. Mas este não foi o caso. Dei mesmo de encontro com uma jovem a ler no passeio público. Não foi um devaneio, estou certo. Toquei-lhe realmente o livro, elogiei-lhe o título e fiz menção de inveja, por ainda não ter ousado tanto na leitura, e subido os degraus do olimpo literário, como ela estava fazendo, para lê a dramática história do jovem Raskólnikov, escrita pelo genial russo Dostoiévski. De repente, ao ver que uma jovem perambula por aí, levando ao braço, um catatau literário, me dei conta de que não é inteiramente verdade que, os jovens se tornaram reféns de experimentalistas literários grosseiros que se comprazem no aviltamento da linguagem para facilitarem as vendas. Ainda há quem se guie por rotas insuspeitas e não ande a dar bolas aos modismos. Pode-se mesmo querer ver nos modismo algum valor literário, mas é somente nos grandes escritores que, encontraremos respostas àquelas inquietações que enevoam a alma e nos impede de ver mais claro o mundo. 

Afortunado

Pintura: Sacerdotes astecas realizando um sacrifício para os deuses ao queimar incenso e oferecer sangue no Códice Tovar, atribuído ao jesuíta mexicano Juan de Tovar do século XVI.
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Uma casa que, mesmo alugada, não deixas de sentir que é uma morada. Um emprego que, mesmo longe e mal remunerado não deixas de ser um emprego. Um país que mesmo desgraçado por corruptos não deixas de chamar de seu. Ter-se quase chegado a professor universitário e mesmo baldado os maiores esforços, ainda assim sentir-se realizado com o falhanço. Ter sobrevivido a três pneumonia, e não a pôr-se doente, a mais seis meses, apesar de sentir um cansaço em que todo o esforço parece demasia... Que vida afortunada eu levo. Quantos poderiam ser assim tão felizes como eu? Há, de certeza, muitos que me invejam por todas essas conquistas. Viro-me então para os deuses é agradeço-lhes os favores imerecidos.


A moral ensacada e a liberdade frouxa

Foto: Pedro de Moraes: Rio de Janeiro, 1965.
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Questiono-me, o que pode haver de amoral ou de descente, nos trajes que alguém escolhe para vestir? Faço isso, porque, meio sem querer, testemunhei a indignação de uma distinta senhora que, ao ver passar a rua, uma jovem em trajes mínimos, sagrou-a puta, só de ver a roupa que a jovem vestia. 

A visão micro, daquilo que a moral achou dever ser maior, causou-lhe, indignação instantânea. Tanta que, não pode conter a boca, o que o juízo avaliou em um só olhar. Achou tão certo, o que sua cabeça em instantes julgou, que sem receios ou pudor fez de uma jovem, alguém que talvez passe ao largo de ser o que os olhos apresados pensam saber. 

Nossa sociedade, muito zelosa de nossos hábitos e costumes, manda-nos sermos obedientes às práticas que nos fazem imaginar distintos e nobres, por andarmos envergando os símbolos da decência. Quanta ilusão. Fazem isso, estimulando-nos o comedimento nos trajes, a discrição nos volumes e a sensatez nas medidas. 

Sabem desses conselhos, os frequentadores das igrejas, os capelistas e os modistas dos hábitos alheios. Quem não frequenta esses sítios, têm dificuldade em aceita-los, preferem outros modos. 

Que medidas de roupas, determinam o caráter de alguém, pensam os que andam ensacados. Mas quando se estar debaixo de um sol fuzilante, e o calor incomoda, creio ser natural que as roupas, assim como a moral e os bons costumes andem meios frouxos ou curtos, além do que gostariam os guardiões dos melhores costumes. É demais querer que andemos todos metidos em panos, quando o sol está a nos convidar a celebrar os corpos livres. 

Com tantos desavergonhados na política, na religião, no comércio, nas casas de famílias, indignar-se com o pouco pano de uma roupa, soa-me a banalização dos fatos que, importam indignar-se. Do que adianta, cobrir-nos a todos o corpo, quando a vergonha maior não está em andar com partes generosas dele à mostra? 

Veneração

Quadro: A adoração do bezerro de ouro: Artista: Andrea di Lione
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A julgar verdadeira a crença burguesa, que prega que cada um é aquilo que exibe, logo se questiona: que estranhos modos, esses de ser, devedor de culto a quinquilharias.  


As fabriquetas da novíssima consciência



Os Budas de Bamiyan,
As Caçadas de Pedrinho,
A Teoria da Evolução,
As figuras paritais de Stone Mountain, na Geórgia,
Os artefatos milenares de Mossul,
O sexismo e o misogenismo de Homero e Eurípedes,
O falocentrismo de Henry Miller,
O antissemitismo de Shakespeare,
As fogueiras do "Ato Nacional contra o Espírito Não-Germânico"
Os horrores velados de Mark Twain e Hergé
As infamantes burcas no Ocidente.
Por todos os lados bafejam-nos,
ventos liberticidas.
Os iconoclastas nos salvarão
da ignorância de sabermos menos do que eles.
Farão isso a golpes de ferro e implosões,
ou em liturgias
em seus institutos de saberes,
que entre nós dão pelo nome de universidades.



Depravações políticas ou o impedimento forjado pelo sem-vergonha mor da nação

Foto: Max Scheler | Bruxelas, 1958
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Os políticos de Brasília nunca trabalharam tanto como nesses dias. Pena que não é em prol do Brasil, mas em causa própria. Acusam, xingam, mentem, falseiam e emprestam-se a todo tipo de sem-vergonhice. Com eles uma legião de capelistas ensinam-nos as razões do que foi, do que é, e do que só poderá acontecer quando A ou B estiver impedido ou devidamente encarcerado. De nós outros, os que não sabemos nem o suficiente para nós mesmos, mas que duvidamos sempre, estamos, pelo sim, pelo não, de costas a esse teatro bufa de triste-cômicos personagens. Podemos não saber muito, mas o que sabemos não nos permite tornarmo-nos cúmplices de modos tão depravados. 

Não gosto de agitações.

Foto: Sergio Larrain.
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Não gosto de agitações. Por isso gosto de cidades tranquilas. Me apraz a pasmaceira das províncias. Não estou nem um pouco preocupado se nada acontece ou deixa de acontecer nas cidades. Quero sossego e quietude. Já vivi em grandes metrópoles. Não posso dizer que foram experiências saudáveis. Ninguém que habite um lugar que, se gaste horas para ir de um ponto a outro, pode realmente estar satisfeito com a morada.


Olhar à volta.



Para melhor perceber as coisas precisamos de algum distanciamento. Além disso a imagem vista de muito perto, não nos dá uma perspectiva do todo. A esse propósito, lembro o José Saramago. No documentário Janela da Alma, ele diz de uma revelação que teve certa vez, em que foi forçado a mudar de lugar no meio de uma apresentação de ópera. Ele era grande apreciador dos espetáculos. Ia sempre à Ópera Real de Lisboa. Tanto que já tinha uma cadeira cativa em frente ao palco. Certo dia, ao chegar ao teatro, encontrou a sua cadeira ocupada. Com alguma resistência ele foi convidado a sentar-se num dos nichos contíguos ao palco. De lá, deslocado do seu ponto de vista habitual, ele viu o que nunca antes havia visto antes. O palco de cima e por trás. Aquele ambiente que respirava ares monárquico, visto de outro ângulo, pareceu-lhe sujo, empoeirado e nada agradável. E de fato o era. A imagem dos espectadores da plateia não lhes permitem ver além dos cenários montados e dos atores interpretando. Da cadeira cativa de onde sempre via os espetáculos tudo era suntuoso e limpo. De seu novo ponto a realidade era outra, bem menos nobre. Aí surgiu-lhe a mente a ideia de que, para conhecer mesmo uma coisa, verdadeiramente, precisamos todos de "dar-lhe a volta". Contornar os objetos para deles tirar melhores conclusões. Assegurar-se de que ela não é apenas uma fachada bonita, feita para impressionar, mas que também, em volta pode esconde coisas menos nobres, que denunciem melhor o seu todo. 

A Cosac & Naify fecha as portas, uma legião de leitores vê sua fonte secar.

.Alguns dos meus livros da Cosac.
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Só os muitos aficionados por livros entenderão. Os muitos satisfeitos com o mundo tal como é, não pressentirão que o anúncio do fechamento de uma editora pode ser sentido por alguns com pesar. E foi justamente com esse sentimento que recebi hoje a fatídica notícia que a editora Cosac & Naify encerou as suas atividades. Para quem não sabe, a Cosac & Naify é uma editora brasileira que a quase 20 anos vem produzindo livros que, primam pela qualidade literária sem nunca descuidar da edição gráfica. As seus edições de livros nos faz supor que, o livro é antes um relicário e não um monte de papel enfeixado para consumo descartável. Sei disso desde que comprei o primeiro livro dessa editora, lá nos idos de 2003. Cada livro dela é uma verdadeira obra de arte, uma joia que pode ser cultuada, tanto quanto os escritores que fazem parte do seu catálogo que reúne clássicos e importantes obras da literatura brasileira e estrangeira, muitos deles ignorados pelo grande público ou ainda desconhecidos no país. Antes do surgimento da Cosac, poucos poderiam imaginar no Brasil uma editora que pudesse ousar tanto na qualidade gráfica de suas produções. Uma nação de quase não leitores não atraia investidores com interesses em produzir livros com o cuidado e zelo que muitos merecem. Diante do fato de não encontrarmos leitores disponíveis, ficava evidente que em primeiro lugar, o mais importante era dá ao público opções de leitura. Só depois de consolidada uma audiência literária, as editoras poderiam pensar em oferecer um produto com riqueza de acabamento, esmero nos textos complementar e nas apresentações, qualidade de edição, singular apuro gráfico e outros luxos que só os leitores experimentados poderiam exigir. Mas antes que este público, exigente e ávido por um material mais cuidadoso, pudesse existir de verdade no país, a Cosac saiu à frente e resolveu encarar o fato, de editar obras para um público restrito de interessados em livros que, mantivessem os leitores em permanente estado de enamoramento pelo trabalho de edição. Hoje esse sonho chegou ao fim. Os muitos leitores de literatura que a editora conquistou, nesses longos anos de aventura e ousadia, souberam pela imprensa que, os sócios fundadores, resolveram pôr termo ao capricho que os levaram a fundar uma editora sem igual no mundo. Sinto que a cada dia uma certa ideia de cultura se torna rarefeita. Lamento mais essa perda para cultura brasileira.  Já não faz muito tempo tivemos o fechamento da única grande revista literária, a Bravo!. Ainda ontem os jornais traziam suplementos literários que hoje não fazem mais parte dos periódicos, o jornal O Globo bateu o último prego no caixão dos suplementos. Esse será o último suspiro de um geração que caiu ante as investidas da cultura de massa com seus apelos ao consumo desmiolado ou ainda teremos fôlego para suspender por mais tempo a respiração antes de sermos vencidos por um mundo seboso. O que fazer, quando o desnorte é a única estrela que nos guia?



Atento aos sinais

Raramente discuto política. Aprendi que essas discussões têm o desagradável efeito de provocarem, em quem nelas se envolve, uma pane instantânea na inteligência que, faz suspender o bom senso nuns, espumar as bocas noutros e provocar espasmos, semelhantes aqueles dos energúmenos tomados pela violência e o desequilíbrio. Desenganei-me de mais essa vaidade. Quando por acaso uma dessas discussões encontra o meu caminho, salto da calçada à rua e vou parar no outro lado, onde o passeio permite livremente que se suba ou desça, sem ter que dá com quem atravanque o caminho, com a boca ameaçadoramente babando certezas.  

Em que desejas falhar?

Encontrei dia desses, um velho amigo, que há muito tempo não via. Dividimos um apartamento, enquanto esperávamos que a vida, não nos derrotasse, antes de sermos devidamente diplomados pela academia. Chegamos lá e depois disso os nossos caminhos se bifurcaram. Ele agora é professor, creio que dos bons. Em meio as alegres lembranças, que nosso reencontro provocou, ele sorriu e me disse que dia desses lembrou-se de mim em uma de suas aulas. Retribui o sorriso e o ouvi, franzindo o cenho, como quem rumina os pensamentos quanto é tomado por uma inquietação. Meu amigo disse-me que falava aos seus alunos que, enquanto vivia os tempos da universidade conviveu com um amigo - batendo no meu ombro - a quem deveriam todos inspirar-se. Antes que pudesse terminar a mesura, emendei a pergunta: “Servir de inspiração? Eu? Talvez. Em que desejas que os seus alunos falhem?”

Perguntas cujas respostas fazem pensar que o mundo é uma laranja podre.

Por que ao invés de bombardearem os alojamentos do ISIS, encravado no coração das cidades Sírias e Iraquianas, povoadas de gente inocente, a coalizão internacional não manda as suas bombas cirúrgicas, sobre os caminhões que, contrabandeiam petróleo e alimentam assim de recursos o exército de lunáticos?  

A verdadeira política nacional



O Ministro Levi vai ao Congresso, conversa com os políticos e dá entrevista à televisão. Quer mais dinheiro para salvar o governo. Espera fazer isso criando mais impostos. Não foi suficiente aumentar a gasolina, a energia, os juros... Quando acabar, este Governo será lembrado, como aquele que enterrava as suas mãos tão fundo nos bolsos do povo que o fazia se sentir apalpado. Tenha dó governo não somos artista para andares metendo a mão aonde não gostaríamos que metessem, alguma dignidade ainda nos resta.

A verdadeira política nacional

Delcídio do Amaral é preso e o PT no Senado, a despeito de todas as evidências de que estivesse embaraçando as investigações da Lava-Jato, vota a favor de sua soltura. A oposição, formada por muitos demagogos, na contra-mão do "partido da moralidade" (duvidosa), pede a continuidade de sua prisão. O mundo é mesmo uma laranja podre. Mais vodka, por favor.

Teimar em não perder

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Uma menina, que anda na casa dos 15 anos, se recusou a fazer uma apresentação, lá na escola, só porque tinha que usar uma saia. A saia, segundo ela julgava, a deixava velha. Parecia-lhe um disparate usar uma saia abaixo do joelho em cores vivas e esvoaçante. Ninguém foi capaz de lhe fazer pensar o contrário. Ela estava certa do que era moda e do que estava mais adequado a uma jovem de sua idade. As ameaçadoras saias a faziam pensar em ser alguém que, como vemos, não lhe agradava muito pensar em ser.

Esta jovem aluna não está só em seus pensamentos. Ela age assim porque a própria sociedade se converteu a ideia de que ser jovem é um fim que todos devem perseguir. Já agora temos visto adultos que se comportam como adolescentes. Os custos dessa mentalidade juvenil, estamos todos vindo a contabilizar em abandono, daqueles que um dia nos serviram a comida ao prato, nos acalentaram nas noites enfermas e desafiaram o futuro, renunciando o seu presente, a nosso favor.  

Hoje, quando são os velhos a nos esperar a renúncia, em retribuição a sua entrega, voltamos as costas e ignoramos a sua presença. Projetamos uma sociedade em modelos juvenis, fingindo que a juventude não uma é fase transitória. Relutamos em acreditar que, um dia nós mesmos seremos velhos. Fazemos isso rejeitando tudo o que nos possa lembrar que, a vida passa por fases e que elas nos leva a estágios que precisam serem superados para nos erguermos dignos, e mais conscientes, ao próximo posso na concretização de nossa existência.


Precisamos de uma sociedade com adultos sérios e não com eles com aparelhos nos dentes e chicletes na boca. A juventude, também, precisa saber que os velhos de hoje foram os mesmos que um dia lhes possibilitaram a existência (só por isso eles já deveriam ser honrados), e que amanhã, eles (os jovens) serão, se não mudarem de comportamento, as vítimas dos monstros que abandonam e recusam os seus melhores exemplos de humanidade.  

Não podemos acolher a ideia de que o centro do mundo está nos 15 anos. Nessa idade pouco sabemos e não será nela que devemos esperar as respostas as inquietações e dúvidas da vida. Então por que seria ela o lugar onde gostaríamos de perpetuar o que teimamos em não perder?

Factoide

Foto: de John Cohen. Jack Kerouac ouvindo rádio em 1959.
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O país passaria melhor com um décimo das notícias. É inacreditável o que se ouve, vê e lê nos médias. Quem busca informações hoje está sujeito a encontrar de tudo, menos o que se procura. Uma verborragia, entulha os canais e fazem da imprensa um lugar sofrível.  Ninguém, que assista um jornal, leia uma revistas ou ouça o rádio, pode mesmo se julgar informado. Os médias agem, através de uma lógica, que transformam as notícias, em grotescos espetáculos circenses, que só aos acéfalos agradam.

O que menos importa parece ser a noção de que o público vai à impressa, porque deseja ser informado de algum coisa que lhe escapou e lhe interessa saber. São para isso que servem os média, trazer ao público informações. Mas as mídias abdicaram desse papel, e não se prestam mais a investigação dos fatos, não questionam nem contradizem os relatos, e não se preocupam com o contraditório. A impressão que se tem, é que o jornalismo se vulgarizou e se rebaixou a tal nível que hoje, fica difícil distinguir entre um jornalista e um animadora de torcida.

A mídia, faz de um tudo para manter o público entretido, quando o público só queria mesmo, era saber se vai mesmo ser necessário sair de casa carregando o guarda-chuva, ou por que o político patusco, que fingiu não possuir contas no exterior, ainda não encontrou o caminho da prisão e está presidindo um importante órgão da nação?

Tornou-se intolerável acompanhar as notícias. Dia desses, por exemplo, a cidade em que moro, foi mais uma vez vítima de um bárbaro assalto a banco. Não costumo ouvir rádio, porque as vezes em que tentei, acabei mais aborrecido do que informado. Além disso não suporto as músicas que colonizaram esse veículo, soam-me detestáveis. Mas, curioso em saber mais, sobre o que havia acontecido, de fato, no banco, corri ao fone de ouvido do celular e pluguei-me na primeira emissora de rádio que me apareceu. Deve haver umas 3 ou 4 por aqui. Mesmo suspeitando que, não encontraria muita informação, insisti na ideia de me informar, consultando o jornal do meio-dia que, segundo soube, tem audiência cativa dos ouvintes da rádio.

Do pouco que pude ouvir, entre os gritos histéricos do radialista e uma sirene bizarra que berrava incessantemente, a todo instante, enquanto ele falava (gritava), não foi mais do que o padeiro havia me dito horas antes, ou fui ouvindo pela rua e no caminho ao trabalho. Tanta parlapatice serve apenas ao propósito de não informar o ouvinte. Em meia hora de rádio, não apurei nada que pudesse acrescer às informações, que a população retransmitia em viva voz por intermédio do troca-troca de conversas que dão um colorido todo especial aos dias das cidades provincianas.

Não foi pelo rádio que soube que os bandidos malograram o assalto, também não foi pelo rádio que, fiquei a saber que esse foi mais um caso em que a polícia não tem a menor ideia de quem possa ser os assaltantes, ou o paradeiro dos delinquentes. Convenhamos, as notícias mais relevantes chegam-nos muito mais detalhadas e bem mais integras pelas comadres que se aprazem em reportar os casos que vão ouvindo nos comboios de ônibus, do que são apuradas nas redações de jornais e nas cabines de rádio. 


Apalpar mais e confiar menos

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Parece-me que a todos é suposto saber, o quanto de perverso, maldoso e fingido, pode ser uma pessoa. Devo essa impressão, muito a Lombroso, famoso médico italiano que julgava o caráter de uma pessoa apenas medindo a regularidade do crânio e a simetria dos traços faciais. Outro médico, dessa vez alemão, também desenvolveu uma teoria similar à de Lombroso. No século XIX, o médico e anatomista Franz Gall, acreditava que podia desvendar a personalidade de uma pessoa através da simples palpação das saliências da cabeça de um indivíduo. De repente, percebo, meio envergonhado, que não ando empregando os sentidos corretos para julgar os que me andam à volta. 


O riso da besta

Aceito a ideia de que o homem é um ser bom. Há tempos optei por acolher essa tese, mas os dias e as ações humanas têm-me feito pensar em jogar a toalha. Experiências nada animadoras atiram-me, cotidianamente, à cara, mil motivos para desistir de aceitar o que já me parece uma alucinação. 

Há 72 anos nascia Manuel António Pina

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Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

[Amor como em casa, in "Todas as Palavras", Assírio & Alvim]

As coisas pelo nome que me escapam

Não sou grande conhecedor de árvores. Definitivamente não sirvo para botânico. 

Faltam-me atributos, para reconhecer uma árvore pelo nome. Pesa-me enormemente a ignorância das coisas simples. Mas se é verdade que, ignoro os nomes das árvores, e que me pesa a culpa de não lhes saber os nomes que o povo lhe dão, escapo a todas as faltas, sabendo que, não me falta sensibilidade, para admirá-las pela beleza. E como são belas as árvores que me surgem. 

Crescem nos caminhos que me levam ao trabalho, em meio a vegetação queimada pela inclemência do sol desses dias, umas árvores que, como já disse, me fogem os nomes. Mas estão tão belas pelas margens e ermos que, não me deixam indiferentes às suas insinuantes cores: vermelho carmim, roxo vivo e amarelo ouro. Já há muito desisti de tentar adivinhar-lhes os nomes. São saberes do povo e a eles pertencem. 

A mim hoje me basta saber que, lá estão, estendidas, heroicamente nos descampados das terras feridas pelas mãos humanas. As brutas mãos humanas. Até quando resistirão, exuberantes e coloridas? Quantos outros, elas ainda farão esquecer-se do labor diário, só por estarem a lhes contemplar as formosuras quando passam por elas?


Utopia

. Foto: Robert Doineau. 
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Todos temos, para bem da nossa saúde mental, a necessidade de idealizar um lugar que por mais improvável, não nos pareça, de todo, irrealizável.


Das coisas que gostaria de ter escrito

Não é para qualquer um assumir-se anti o que quer que seja. Ser-se anti não é apenas assumir-se uma posição contrária a, é ser-se pela negação do objecto que se despreza, é colocar-se numa posição de cegueira e de ódio. A ser anti qualquer coisa, eu seria, desde logo, antianti. Mas sem ponta de cinismo posso afirmar que sou anti-racismo, antimachismo, sou anti-homofobia. Pouco mais. Até a estupidez eu consigo admirar em certas circunstâncias, e frequentemente me rio de certas misérias alheias. São poucas as coisas no mundo, sobretudo as humanas, que me merecem desprezo. Adoptei o espírito do romântico e idealista Novalis. No mundo das ideias, aceito tudo e o seu contrário. Os opostos desafiam-me, não me inspiram ódios. As antinomias, os maniqueísmos, estimulam-me. De que me vale ser anti-nazismo? Não sou. O nazismo existe, tento compreendê-lo, esforço-me por estudá-lo para poder contradizê-lo. Não o aceito, mas não lhe tenho ódio precisamente para que nada de mim se possa rever nessa abjecta ideologia.

Via Antologia do Esquecimento, o blog do Henrique Manuel Bento Fialho. 

É que Narciso acha feio o que não é espelho.

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Interessa-me a fotografia. Interessa-me como enigma, como código que desvela outros por sugestões. Gosto dela quando indiciam coisas para além do óbvio. Mas em tempos de imagens omnipresentes as fotografias banalizaram-se. Mais do que ver outras coisas, a fotografia atualmente, tornou-se um espaço para ver narcisisticamente. Com isso as imagens não apelam mais à memória ou ao sentido de decifração que a tornava atraente e atemporal. Hoje tudo já está dado. Esvaziadas de algum sentido simbólico, elas agora não passam de suportes que, estampam rostos e corpos, empenhados em simular vidas alheias. Foram assim assenhoradas por aqueles que não entendem por que não foram parar nas capas de revistas do jet set e estão por isso fingindo estar onde não estão, mas se supõem, pela auto ilusão das bruxuleantes imagens que reproduzem o que a realidade não foi capaz de fazer.  

Não somos assim tão ingênuos, ou somos?

As pessoas reclamam que o the voice não tem música brasileira. O que queriam? O programa se chama the voice. Não se procura comida vegetariana em açougue ou se vai à missa por se ter enganado o caminho da casa da luz vermelha. Chega-se a estes lugares por opção. Portanto, se querem mesmo ouvir música brasileira, vão aos sítios aonde elas são prestigiadas e não estejam ingênuos aos programas da tevê brasileira, eles estão todos muito ocupados em os bestializarem e não têm tempo de ouvirem os seus queixumes.