Quando a fotografia não acontece, isso me deixa mal.
Foto: Rogério Soares. Cavalhada na Agrovila 07, Serra do Ramalho - 2015.
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Desde que comprei uma câmera passei a
ver dezenas de oportunidades fotográficas à minha volta. Há sempre bons motivos
fotográficos espreitando-nos por aí. Dia desses, por exemplo, enquanto
aguardava o carro para o trabalho, vi um senhor encostado a uma árvore, aí o
imaginei em mil ângulos. De pronto me veio à mente: Por que não ando com a
minha máquina a tiracolo? Estava ali uma boa fotografia que não aconteceu. Isso
deixou-me mal. Penso que o mesmo se passa com os poetas, os romancistas, ou
qualquer um que vive da arte mimética. Os dados da realidade sugerem sempre
outras possíveis realidades, que se escondem atrás das aparências, e são tão ou
mais interessantes do que a realidade imediatamente percebida. Quando essas
realidades se descortinam a nossa frente e não estamos com uma máquina à mão
temos mesmo bons motivos para nos recriminarmos por isso.
São sem conta o número de novos extremistas
Bosch. A Parábola dos Cegos (1568): Essa
tela é uma alusão ao Evangelho de Mateus 15:14 "Deixai-os: são condutores
cegos: ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova."
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Quando surgiram no face levantes
contra os discursos de saudação ao retorno da ditadura, achei exagerado. Não
quis acreditar que existisse alguém capaz de cogitar a hipótese, de ter no
governo, homens de coldre na cintura. Achei que eram poucos e insignificantes
as vozes que se alevantavam pedindo o injustificável. E por isso era dispensável
perder tempo com eles. Estava errado.
Não eram exagerados os levantes e nem poucos os extremistas. Há sim, mais e mais, quem simpatize com os imoderados e ande de mãos dadas com os imorais que fingem
inocência histórica. Por todos os lados, as bestas ganham adeptos e seguidores,
e uma legião de cegos, levados por embusteiros, seguem prazenteiros rumo ao
abismo.
THE BOOKLOVERS
Dia a dia admiro mais e mais os
portugueses. Motivos não faltam para isso. Um deles é que lá eles acarinham os
seus escritores. Dão-lhes atenção, promovem os seus talentos e fazem festa com
a sua existência. A prova provada dessa realidade pode ser vista no mais novo
projeto do escritor, músico e fotógrafo Fernando Dinis. The Booklovers, é um
saite que registar informalmente escritores portugueses. Através de belas
fotografias e um despretensiosos perfil biográfico ficamos sabendo que os
autores que mais admiramos têm olhos tão penetrantes quanto as palavras que
fustigaram o nosso corpo, quando estivemos a ler os seus livros.
P.S. Há pelos menos um nome que aguardo
ansiosamente por sua chegada a essas paragens. Ele é um blogueiro avesso a
cerimonias, talvez por isso custe a aparecer, mas me traria muito contentamento
em saber que também ele esteve ao lado de tantos bons nomes.
Vazio
O secretário do Alckmin que admira idealismo do Isis.
É somente em momentos de grave crise
moral, ética e política, como a que vivemos agora, que o desarrazoamento, ganha
respeitabilidade e sentimentos antes reprimidos encontram voz e profetas. Tempos nebulosos nos esperam no futuro. Quem será
capaz de nos livrar dessas ciladas? Apeguem-se aos botes e corram à popa que
esse barco desgovernado, está em rota de colisão.
Embotar os sonhos
Foto: Ferdinando Scianna – Capri, 1984.
Penso, que ainda vive em mim, uma
vontade ridícula de ganhar o mundo com uma mochila nas costas. Quem me conhece,
também pensaria o mesmo que eu, se soubesse o que vive em mim de sonhos. Ridículos
sonhos. Querer bater o pó da estrada, tendo como veículo, os próprios pés, e
como bússola, na ausência de um melhor guia, o pau da venta, são coisas que não
me cabem mais. Tivesse hoje os meus velhos dezessete anos. Andasse só no mundo,
e talvez essa ideia não fosse, assim como parece hoje: ridícula. Mas já se
passaram os anos. Os dezessete, tenho-os hoje em dobro. Assim como também não
ando mais só. A vida vai embotando os nossos melhores sonhos e se encarregando
de tornar, o que parecia outrora lindo, um tormento sem fim, por se saber
impossível.
Desertificar
Já nem bem completei três décadas de
vida e percebo, com desagradável surpresa que, ando a despedir-me, inesperada e
involuntariamente, daqueles que, ainda ontem, emolduraram comigo uma foto para
o futuro. Sinto que a vida vai aos poucos se desertificando.
Literatura clássica e suas relações com a cultura popular: Ceci e Peri - Trio de Ouro (Carnaval de 1937)
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Fala-se amiúde em excluir os clássicos das
escolas. Os defensores dessa ideia dizem serem as obras inacessíveis aos jovens.
Os clássicos seriam datados e diriam pouco às massas de adolescentes oriundas
das camadas pobres. Melhor proveito tirariam eles em ler as obras mais “acessíveis”
(entenda-se os best sellers). O
curioso é que, só na cabeça dos defensores, da exclusão dos clássicos das
escolas, ocorre pensar que eles são inacessíveis as camadas populares. Desde
sempre a literatura dita, canônica, esteve intimamente ligada as raízes
populares em parcerias insuspeitas. Veja-se a propósito o caso do livro O
Guarani. Anos depois de Carlos Gomes estrear a sua versão musical da obra de
José de Alencar no Teatro Scala de Milão, as histórias de Peri e Ceci
ressurgiriam em uma bela intertextualidade do clássico com o popular no
carnaval de 1937. Quem encarregou-se da tarefa foi o compositor Príncipe Pretinho e teve como interpretes o Trio de Ouro: Dalva de Oliveira, Herivelto
Martins e Nilo Chagas. A marchinha foi gravada no primeiro disco do trio. O
Guarani também inspirou vários sambas-enredos de sucesso, que desfilaram pelo
carnaval através da interpretação popular. A Império Serrano levou para avenida em 1954 o enredo: O Guarani, baseado na obra de J. de Alencar e inspirada na
música de Carlos Gomes; em 1971 foi a vez da Unidos de Bangu desfilar na
avenida com o enredo: O Guarani, de José de Alencar; em 1990 quem encantou o
público, recontando no carnaval a saga do amor de Ceci e Peri, foi a União de
Vaz Lobo (Guaraná, Guarani). Esses são alguns dos exemplos da relação de
proximidade entre o clássico e o popular. Tivemos outros sambas-enredos,
inspirados na obra do Cearense José de Alencar. Não só José de Alencar e sua
obra magistral mereceram honraria iguais, outras grandes obras da nossa
literatura também foram acarinhada pelo popular em marchinhas, sambas e outras
manifestações que denunciam a sua inquestionável relação de proximidade. Agora
pergunto? Como pode ser tão inacessível, uma obra que esteve sempre ligada as
fontes de inspiração popular? Seriam hoje os nossos jovens tão atabalhoados que
não se dariam conta daquilo que foi tão evidente em outros tempos, por quem
teve bem menos acesso a informação do que eles?
O riso na fotografia de Elliot Erwitt
Já referi aqui sobre como nada escapa ao
interesse da fotografia. Todos os temas lhes são caros. Vemos por aí fotografia
de rua, fotojornalismo, fotografia de moda, de natureza, paisagens, viagens,
etc... Mas há um tema em particular que, quase nunca vemos, ao menos com a
recorrência dos demais. Refiro-me a fotografia de cunho humorístico. Falta
humor nas fotografias de nosso tempo.
Não creio que isso ocorra porque os
fotógrafos o entenda como uma expressão menor. Esta é uma interpretação dos tolos
e dos tirano. Os tolos pela estultícia de suas mentes e os tiranos pelos temores
de que suas ambições encontre questionadores, que ousem desmentir as certezas que
lhes asseguram as posições.
Acho mais provável a alternativa que
advoga a ideia de que fazer humor em fotografia é difícil. E por essa razão, os
interessados em abordarem o tema, desistam da ideia quando mal aventaram a
possibilidade. Fazer humor bobo, patético ou grosseiro tem sido o mais próximo
que muitos conseguem chegar do tema. Esse tipo de humor qualquer um é capaz de
fazer. Mas um humor que profane o solene, desbote o verniz, que maquila as
aparências e infrinja as certezas postiças que, envolvem a nossa sociedade, esse
humor é tarefa para destemidos, que não se deixam vencer pelas ideias vazias
que vai pelas cabeças dos patetas.
Humor pateta é fácil. Humor com
substância interrogativa e desvendadora da natureza humana são outros
quinhentos. Mas há pelo menos um nome na fotografia que tomou para si a tarefa de
encarar o tema com o talento e perspicácia que lhe é devida. Foi o francês Elliot
Erwitt (Elio Romano Ervitz é o seu nome de batismo). Erwitt nasceu em Paris em
1928. Foi criado na Itália, mas a partir de 1941 adotou os EUA como pátria. Fez
isso quando teve que fugir com a família, da tirania nazista que encobria a
Europa e ameaçava o mundo com ideias tenebrosas de hegemonia racial.
Nos EUA Elliot Erwitt construiu uma
carreira respeitada e se tornou um dos poucos fotógrafos dedicados ao riso. Sua
lente em décadas de atividade esteve apontada para os flagrantes de momentos irônicos
e indiscretos que revelam detalhes risíveis do nosso comportamento quando não
estamos ocupados demais em fingir decoro. Veja-se a propósito disso a seleção
de algumas de suas melhores fotografias sobre o tema abaixo:
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Versailles, 1975.
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Espanha, Madrid, 1995. Museu do Prado.
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East Hampton, Nova York, EUA, 1983.
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Central Park, Nova York, 1990.
Brandos costumes
Foto: Ernst
Haas
Ligo a tevê e ouço aos berros alguém
dizer: “nós vamos descer o pau”. É o presidente de um sindicato, ameaçando um
prefeito e os usuários de um serviço de transporte, do qual ele é contra. Mudo
de canal. Dou com a notícia de que o filho de um ex-presidente, sugere em uma
rede social que “o país vai pegar fogo” se o seu pai, que é hoje alvo de
investigações sobre suposto favorecimento em negócios com empreiteiras, que
estão sobre acusação de desvios de recursos públicos, continuar sendo
investigado. Não suporto o que vejo e corro a outro canal. Aí encontro,
possesso, um apresentador, falar estridentemente aos seus espectadores que, “bandido
bom é bandido morto”. Fala isso, enquanto uma enquete, em baixo do vídeo,
mostra os números de espectadores que concordam com ele subindo sem parar, na
frente dos que esmorecem desencorajados pela pergunta, se são contra ou a favor
das ideias tresloucadas do jornalista falastrão. Desisto da tevê. Vou à escola
e encontro amigos professores que também não se constrangem mais em afirmar
coisas, que há tempos achava superado pela posição que eles ocupam. Muitos pedem
a expulsão de alguns alunos e dizem com todas as letras que alguns “não têm
jeito” ou que estão ressentidos por não “poderem dar às crianças aquilo que os
pais não deram: peia”. Ouço, leio e vejo todas essas barbáries e dou graças a
deus que ainda bem que o poder dessas pessoas não está à altura de suas
vontades, porque de outra sorte, o mundo seria um lugar dantesco, com gente a
bater com paus em seus desafetos, queimar pessoas em desacordos com suas
opiniões e castrar crianças por serem crianças e darem trabalho como as
crianças costumam dar.
As novidades literárias não param de chegar às livrarias
Todos os dia alguma novidade literária desembarca
nas livraria, inflacionando ainda mais as boas opções de leitura disponíveis
aos leitores. No entanto, não falta quem invente desculpas para não ler. Estou
cansado de ouvir de alguns que, não lê porque “não tem opções cativantes”, “faltam
novidades”, “é tudo sempre igual”, “desconhece os novos autores”. Em que mundo andam as pessoas? Para onde
olham quando querem mesmo buscar uma boa leitura? Penso que para o lugar
errado. Voltasse os olhos para fora das tevês e das revistas do jet set, por alguns instantes, veriam um
mundo novo em que as novidades superam o luxo dos cenários, das roupas e dos
penteados dos artistas que tanto os mesmerizam. As novidades literárias, não param de chegar às livrarias, só os leitores não deram por isso.
A fotografia e seus múltiplos temas
Foto: Imogen Cunningham
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Parece não haver um tema, que não tenha
sido visto com interesse, pela fotografia. Ao estudar os trabalhos dos grandes fotógrafos
nos deparamos com a seguinte constatação: durante o percurso de formação, eles
vão apurando o estilo e perseguindo um tema, que os entusiasmam mais do que os
outros, e assim formam o seu caráter fotográfico. Não é raro, porém, encontrar fotógrafos
que nutrem mais interesses e alarguem seus temas a horizontes mais dilatados. Estes não concentram o seu foco de interesse em um único objeto. Inquietos que são estendem suas lentes a múltiplos pontos. Fazem isso muitas vezes movidos pelo germe da curiosidade de saberem como seria alterar códigos inexoráveis. Veja-se a propósito, o caso da americana Imogen Cunningham (1883-1976). Ela iniciou
o seu percurso fotográfico fazendo estudos químicos sobre os processos de
revelação. Era uma expert nessa área.
Os estudos foram financiados com fotografias de plantas, para o departamento de
botânica da Universidade de Washington em Seattle. Desse impulso inicial,
movido pela necessidade, ela refinou o seu estilo, tomando um novo interesse
nos estudos das texturas, das formas e das variedades de flores, especialmente
a magnólia. A fotografia botânica que surgiu daí acabou por aliar a curiosidade
científica com a expressão criativa de uma verdadeira artista. Após as flores,
vieram os interesses no corpo humano. Em 1915 ela casou com o artista Roi
Partridge, juntos eles exploraram os terrenos da natureza e do corpo humano.
São famosas as suas imagens de Roi Partridge. Logo, não tardou que seu novo
objeto de interesse passasse a ser alvo de estúpidos. A censura, imposta pela
opinião pública da época, a fizeram engavetar os negativos de uma série de nus
no deserto que realizou com um modelo contratado para exposição de sua lente. Depois
desse trabalho, ela focou as suas fotografias nas mãos de grandes músicos e artistas.
Esse último tema a levou à revista Vanity Fair. Como vemos os temas que
apaixonam um fotógrafo podem ser múltiplos. Imogen Cunningham passou para
história da fotografia com seus deslumbrantes close-up de flores. Mas junto a esse requinte, não lhe faltou sensibilidade,
para encarrar as formas humanas em poses e gestos que a sensibilidade tacanha
de alguns patuscos não foi capaz de suportar. Ela continuou a fotografar e a
ensinar a sua nobre arte, até pouco antes de sua morte aos 93 anos em 24 de
junho de 1976 em San Francisco.
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Foto: Judy
Dater (1974). O flagrante é de uma aula de Imogen Cunningham sobre nu artístico. Essa foto foi o primeiro nu frontal a ser publicado na
revista Life.
Das trincheiras
O facebook tem me provado que, para
ser-se intolerante e estar enfurecido com os outros, não é necessário habitar
zonas de conflitos e assentar-se em trincheiras diferentes. Basta antes,
encontrar alguém que, em desacordo com as cores que você escolheu, para ilustrar
o seu perfil, teime em lhe dizer quais as melhores para colorir. Não entramos
em acordo nem para permitir a liberdade de escolha de cores pessoais, como
vamos fazer um mundo diferente?
"A NÓS A LIBERDADE" - Um filme injustamente esquecido e que deveriam conhecer.
Esse não chega a ser um filme
injustamente esquecido porque na verdade ele nem chegou a ser lembrado algum
dia. O mais justo então seria alterar a legenda para: um filme desconhecido e
que todos deveriam conhecer. E por que todos deveriam conhecê-lo? O que o faz tão
especial que mereça ser arrancado das sombras e vir à lume. Talvez o fato de
ser uma obra pioneira na crítica à vida burguesa, que faz do trabalho e da
mecanização dos processos de produção, na vida moderna, uma fórmula de alienação e de
automatismo do indivíduo em sociedade. Mais aí vocês me dirão que isso não
chega a ser nada inovador, Chaplin andou a frente desse projeto e saiu na
dianteira, com o genial Tempos Modernos. Ai reside um pequeno engano. Tempos
Moderno, incontestável obra prima do realizador inglês, é na verdade, não um
plágio, mais uma obra que está cheia de coincidências com o filme de René Clair.
JÁ VAI CEDO
Foto: Téo Júnior por ele mesmo.
Após 40 anos, “Playboy”
brasileira deixa de circular
Por. – TÉO JÚNIOR
Esses últimos anos não têm sido fáceis para o mercado
editorial brasileiro por n motivos. Destacaria
o pouco investimento em propaganda, a ausência de incentivo governamental de
mais impacto, a preguiça dos brasileiros para ler (me acuda, Sílvio Romero! Estamos
na média de 1,5 livro por ano para cada pessoa; um escárnio!), a desimportância
que os livros e jornais tem na vida da maioria das pessoas, incapazes que são
de dar 30 contos num Saramago porque “é muito caro” e a facilidade da internet
como meio que, gratuitamente, substitui o papel.
É bom frisar que nem todos os bons livros estão
disponíveis na rede. E os jornais só liberam parcialmente suas matérias, e não
todo o conteúdo, para não-assinantes.
Um amigo me falou, outro dia, que eu gosto das coisas
físicas. Tem toda razão. Não tenho paciência para ler nada em PDF (já me basta
meu trabalho cotidiano que consiste em eu ficar horas seguidas na frente de um
computador, baixando a barra e subindo; uma amiga, quando tomou meu notebook
emprestado, à minha revelia baixou “Cinquenta Tons de Cinza”, que adorou. Não
li porque estava ocupado com as memórias de Bruna Surfistinha, uma vagabunda, pois
sim) e evito ao máximo ouvir música em pen-drive, ver filmes em Youtube ou
baixados de internet (uma exceção foi “O Bebê de Rosimary”; cometi a loucura de
assisti-lo numa noite insone, 3 da madrugada). Como sou bastante fã de
Gutemberg, ainda prefiro ler no papel. Também gosto mais de ver filme em DVD e
depois guardar na estante. Nada substitui, para mim, folhear um livro, virar a
página, ler na cama ou manusear um disco e a ficha catalográfica. Abrir a caixa
do Submarino (com a faquinha de mesa) com livros da Black Friday, então? Um
orgasmo.
Recentemente, uma grande editora teve de fechar as portas
porque os lucros não estavam compensando o alto investimento nos livros, cujo
catálogo é composto por gente da envergadura de Paz e Tolstói. Um dos últimos
foi a extraordinária biografia de Michelangelo. O dono preferiu encerrar a empresa
a baixar o nível de suas publicações, como seria a reação natural em momento de
desespero econômico, com uma folha de pagamento para cobrir. Ao justificar o
fim da Cosac Naif, o proprietário disse que “não queria comprometer seu passado
e sua história”. Fez muito bem. Preferiu encerrar a empresa a cogitar a
possibilidade de jogar no mercado biografias que certamente poderiam alavancar as
vendas (quem sabe salvar a empresa?) de figuras como Claudia Leitte, Ivete Sangalo
ou Luan Santana – mas sem qualquer valor intelectual ou minimamente relevante.
A vida de Wesley Safadão ao lado de Bertolt Brecht? Numa edição de luxo? Capa
dura? Sem chance. Ou então recorrer àquelas publicações infantis, mas para
adultos, que consiste em fazer coisas estúpidas tipo “Destrua Este Diário”.
“Nesta página, coloque a cera de seu ouvido – ela é parte de você, sua
companheira”; na outra, “cole um pedaço de sua unha”; “esta página você rasgue,
para se desapegar das coisas”; “já esta você rasgue e amasse com toda força,
para descarregar o ódio que você sente de seu chefe” e por aí vai. Melhor
encerrar. Ninguém é obrigado.
A Planeta, nestes últimos anos, vem editando a
autobiografia de Edir Macedo; até o momento estamos no vol. 3. Como dizem os
crentes, uma bênção! Best-seller. Através de seu império chamado Igreja
Universal, Edir tem a oportunidade de divulgar sua obra nos quatro cantos do
mundo. Ensina como converter pessoas e como, barnabé do setor de loterias,
portanto assalariado, teve a bendita ideia de fundar uma igreja onde, antes,
funcionava uma funerária. Se “Nada a Perder” tivesse saído pela Cosac, a
editora talvez pudesse se manter mais um tempo.
No campo das revistas, a tristeza não é menor. Uma
ausência sentida foi a de “Bravo!”. Uma publicação linda, bem-feita, mas que se
tornou um calcanhar de aquiles para a editora. A Abril estava, com a melhor
publicação de cultura do Brasil, “vendendo o almoço para pagar a janta”, como
se diz. É público e notório que quando uma revista ou um caderno de jornal precisa
ser fechada (o), para conter gastos, é para a cultura que a tesoura se volta
primeiramente, e não para o ramo de veículos, casa & jardim ou
celebridades. O indivíduo pode perfeitamente ficar sem saber a última cotação
de um quadro de Van Gogh ou um texto inédito de Virginia Woolf, pode passar o
resto da vida sem conhecer a biografia de um pintor extraordinário chamado
Raimundo de Oliveira, mas é imprescindível que ele saiba que Claudia Raia está
de dieta ou Cauã Reymond arrumou uma namorada nova. Nada posso fazer, a não ser
lamentar tudo isso. Tomara que “Bravo!” volte um dia. Parou na edição 192.
“Bravo!” não circula mais. “Contigo”, porém, está aí,
firme e forte.
O FIM DE “PLAYBOY” –
Não sei se estou escorregando no óbvio ululante – alô, Nelson! –, mas “Playboy”,
cuja derradeira edição circulou até 10 de janeiro, não é – nem nunca foi –
apenas uma revista de mulher pelada. Trata-se de uma publicação de alto nível
cultural, séria, com entrevistas com gente que tem o que dizer e um elenco de
repórteres e cronistas de primeira linha, dentre os quais eu destacaria Ruy
Castro, Ivan Lessa e Mario Prata. Mesmo após a invasão dessas meninas nível
“BBB”, a “Playboy” não escorregou ao lugar-comum e sobreviveu durante 40 anos.
Lembro de um depoimento do jornalista Marcelo Rubens Paiva, que recordou seu
pai (deputado que “sumiu” na “ditabranda”) lendo “Playboy” no jantar da
família. Discorria, suponho, sobre conteúdo de caráter político. Por aí se tira
sua importância. Como Paiva morreu antes do início da publicação brasileira,
imagino que ele estivesse se referindo à “Playboy” americana.
Onde, por exemplo, eu li que o ex-sindicalista Lula disse
“admirar Hitler” (“não o homem, mas sua obstinação”)? Que Tarantino não faz a
menor questão de conhecer o pai? Que o manifesto contra a homofobia de Herchcovitch
é ser gay assumido, casado e na fila da adoção? Que Kajuru não passa um dia sem
um processo nas costas? Que Jece Valadão afirmou que frequentou a umbanda e
fingia receber o Exu tão-somente para transar com a mãe de santo? Que Sandy
disse que... (deixa essa pra lá!).
Mesmo aqueles que não são compradores contumazes de
“Playboy”, como eu, ficaram tristes porque uma revista de alto conceito não
mais existe. É uma a menos. Fará falta.
Uma revista que atingiu a vendagem de 1,3 milhão de
exemplares com Joana Prado na capa (dezembro de 99) amargava tiragem inferior a
50 mil
“Playboy” marcou minha adolescência, sim senhor! Puxo
pela memória que meus colegas, no 2° ou 3° ano, levavam para a escola revistas
de seus irmãos mais velhos, e até colegas mulheres, no intervalo, a folheavam
na maior naturalidade do planeta (admirando ou invejando um pouquinho?). Não
tinha professora dando piti nem o diretor da escola arrotando falso moralismo, Deus
nos livre!, indignado com aquele material impróprio para menores, passando de
mão em mão na sala. Nada disso. Tudo liberado, a bem da fantasia da garotada. A Pátria já era educadora nos tempos
de Fernando Henrique. País rico é país onde sua juventude se instrui
adequadamente. “Playboy” era nosso Carlos Zéfiro pós-Diretas Já. Colégio Tereza
Borges. Caetité, Bahia. Uma beleza! Tenho muita saudade.
Ah, como todo mundo tem a sua “Playboy” preferida, a
minha é a da “Anita” Mel Lisboa, de agosto de 2004. É isso aí.
Sítios novos
Uma coisa verdadeiramente gostosa é
encontrar sítios novos, onde se possa, alegremente, gastar as vistas com fotos
que lhe transpõem para um universo paralelo. Em busca por trabalhos dos grandes
fotógrafos de todos os tempos, encontrei, de forma casual, o saite SANTANGO.
Desde então, não há um único dia em que não o visite. O saite é dedicado a um
tema: FOTOS DE DANÇARINOS. Pelo que pude apurar, preferencialmente de Tango. A
monotonia do tema não deve assustar quem aprecie grandes trabalhos
fotográficos, pois, por mais vezes que um objeto tenha sido fotografado, é
sempre possível tratá-lo de uma maneira nova, prova-nos, sem receio, esse saite
viciante. Além das fotos hipnotizantes, o clima de sedução estética é reforçado
com uma seleção de clássicos do gênero Portenho, que acompanha o visitante
entre uma página e outra.
Tenho apenas uma ressalva ao saite, é
que ele foi muito descuidado ao não creditar a autoria das fotos.
Fim de semana
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Passei horas a entreter-me na internet.
Vi fotos dos melhores fotógrafos de sempre. Li blogs de escritores admiráveis.
Estive em saites de notícias, páginas de editoras e livrarias. Consultei os
preços de produtos eletrônicos que estou namorando. Visitei as redes sociais. Mas
ai não me demorei. É que estavam lá jovens que nasceram na democracia, pedindo
o retorno da ditadura, como se essa não tivesse feito o que fez, e isso causou-me
um embrulho no estômago. Para completar o desgosto, vi também por lá a
camarilha política. Estavam, como de costume, fingindo que o governo não tem
culpa nos malfeitos que, anda metendo os seus mais próximos aliados aos
magotes, nas masmorras, que por aqui também atendem pelo nome de cadeias
públicas. Cansei. Pulei aos vídeos de música, humor e pitei o sal da terra. De
tudo, penso que não tirei o que pudesse me confortar desse mundo. Tomei então
assento ao divã e pus-me a ler os suplícios de Tântalo, triste história.
Constatação
Distraio-me fácil. Perco-me sem razão em
meus pensamentos. Sem quê, nem porquê, ando quase sempre à deriva, ziguezagueando em minha
mente. Nessas horas o pensamento voa. Sem porto ou direção, sou carregado de um
lado a outro em completo desgoverno. Mas, de vez em quando, eu também sou capaz
de ser tomado por alguma razão. Quando isso me acontece dou basta aos devaneios,
e baixo à terra, em pouso forçado, tudo o que estava no ar. Deito tudo ao seu
lugar e digo a mim mesmo que, nada mais me ousará escapar ao meu controle. Faço
isso, não sem antes, deixar de perceber que, mais me assemelho a uma folha ou a
uma nuvem, que são apascentadas pelo vento, do que, um prédio bem assentado em suas
sólidas bases de concreto, que não tem temor algum de ser sacudido fora, por
qualquer intempérie ousada, trazida pelos maus ventos. Desculpem-me a franqueza é que ando com a máscara frouxa.
Sobrevive a capacidade de se surpreender
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Tão raro quanto encontrar um político honesto
é ver algum jovem dado à leitura no passeio público. Mas por vezes isso sucede.
É raro, mas sucede. Aí quando essa imagem lhe surge, fica-se a imaginar, por
instantes, que o sol anda a nos pregar peça, e o que julgávamos, como alguém a
ler pelas ruas, não passava na verdade de um devaneio, de uma mente sobressaltada
pela fornalha que se tornou a cidade, nesses dias de sol inclemente. Essas
coisas costumam acontecer também aos incautos que desafiam o deserto. Não seria
raro, então, em cidades cujo sol é, tão ou mais, impiedoso, quanto nos terrenos,
onde somente os camelos estão livres dos delírios. Mas este não foi o caso. Dei
mesmo de encontro com uma jovem a ler no passeio público. Não foi um devaneio,
estou certo. Toquei-lhe realmente o livro, elogiei-lhe o título e fiz menção de
inveja, por ainda não ter ousado tanto na leitura, e subido os degraus do
olimpo literário, como ela estava fazendo, para lê a dramática história do
jovem Raskólnikov, escrita pelo genial russo Dostoiévski. De repente, ao ver
que uma jovem perambula por aí, levando ao braço, um catatau literário, me dei
conta de que não é inteiramente verdade que, os jovens se tornaram reféns de
experimentalistas literários grosseiros que se comprazem no aviltamento da
linguagem para facilitarem as vendas. Ainda há quem se guie por rotas
insuspeitas e não ande a dar bolas aos modismos. Pode-se mesmo querer ver nos
modismo algum valor literário, mas é somente nos grandes escritores que, encontraremos respostas àquelas inquietações que enevoam a alma e nos impede de
ver mais claro o mundo.
Afortunado
Pintura: Sacerdotes astecas realizando um sacrifício para os
deuses ao queimar incenso e oferecer sangue no Códice Tovar, atribuído ao
jesuíta mexicano Juan de Tovar do século XVI.
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Uma casa que, mesmo alugada, não deixas
de sentir que é uma morada. Um emprego que, mesmo longe e mal remunerado não
deixas de ser um emprego. Um país que mesmo desgraçado por corruptos não deixas
de chamar de seu. Ter-se quase chegado a professor universitário e mesmo
baldado os maiores esforços, ainda assim sentir-se realizado com o falhanço. Ter
sobrevivido a três pneumonia, e não a pôr-se doente, a mais seis meses, apesar
de sentir um cansaço em que todo o esforço parece demasia... Que vida afortunada
eu levo. Quantos poderiam ser assim tão felizes como eu? Há, de certeza, muitos
que me invejam por todas essas conquistas. Viro-me então para os deuses é
agradeço-lhes os favores imerecidos.
A moral ensacada e a liberdade frouxa
Foto: Pedro de Moraes: Rio de Janeiro, 1965.
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Questiono-me, o que pode haver de amoral
ou de descente, nos trajes que alguém escolhe para vestir? Faço isso, porque,
meio sem querer, testemunhei a indignação de uma distinta senhora que, ao ver
passar a rua, uma jovem em trajes mínimos, sagrou-a puta, só de ver a roupa que
a jovem vestia.
A visão micro, daquilo que a moral achou
dever ser maior, causou-lhe, indignação instantânea. Tanta que, não pode conter
a boca, o que o juízo avaliou em um só olhar. Achou tão certo, o que sua cabeça
em instantes julgou, que sem receios ou pudor fez de uma jovem, alguém que talvez
passe ao largo de ser o que os olhos apresados pensam saber.
Nossa sociedade, muito zelosa de nossos hábitos
e costumes, manda-nos sermos obedientes às práticas que nos fazem imaginar
distintos e nobres, por andarmos envergando os símbolos da decência. Quanta
ilusão. Fazem isso, estimulando-nos o comedimento nos trajes, a discrição nos
volumes e a sensatez nas medidas.
Sabem desses conselhos, os
frequentadores das igrejas, os capelistas e os modistas dos hábitos alheios.
Quem não frequenta esses sítios, têm dificuldade em aceita-los, preferem outros
modos.
Que medidas de roupas, determinam o caráter
de alguém, pensam os que andam ensacados. Mas quando se estar debaixo de um sol
fuzilante, e o calor incomoda, creio ser natural que as roupas, assim como a
moral e os bons costumes andem meios frouxos ou curtos, além do que gostariam
os guardiões dos melhores costumes. É demais querer que andemos todos metidos
em panos, quando o sol está a nos convidar a celebrar os corpos livres.
Com tantos desavergonhados na política,
na religião, no comércio, nas casas de famílias, indignar-se com o pouco pano
de uma roupa, soa-me a banalização dos fatos que, importam indignar-se. Do que
adianta, cobrir-nos a todos o corpo, quando a vergonha maior não está em andar
com partes generosas dele à mostra?
As fabriquetas da novíssima consciência
Os Budas de Bamiyan,
As Caçadas de Pedrinho,
A Teoria da Evolução,
As figuras paritais de Stone Mountain,
na Geórgia,
Os artefatos milenares de Mossul,
O sexismo e o misogenismo de Homero e Eurípedes,
O falocentrismo de Henry Miller,
O antissemitismo de Shakespeare,
As fogueiras do "Ato Nacional contra
o Espírito Não-Germânico"
Os horrores velados de Mark Twain e Hergé
As infamantes burcas no Ocidente.
Por todos os lados bafejam-nos,
ventos liberticidas.
Os iconoclastas nos salvarão
da ignorância de sabermos menos do que
eles.
Farão isso a golpes de ferro e
implosões,
ou em liturgias
em seus institutos de saberes,
que entre nós dão pelo nome de
universidades.
Depravações políticas ou o impedimento forjado pelo sem-vergonha mor da nação
Foto: Max Scheler | Bruxelas, 1958
Os políticos de Brasília nunca
trabalharam tanto como nesses dias. Pena que não é em prol do Brasil, mas em
causa própria. Acusam, xingam, mentem, falseiam e emprestam-se a todo tipo de sem-vergonhice.
Com eles uma legião de capelistas ensinam-nos as razões do que foi, do que é, e
do que só poderá acontecer quando A ou B estiver impedido ou devidamente encarcerado.
De nós outros, os que não sabemos nem o suficiente para nós mesmos, mas que
duvidamos sempre, estamos, pelo sim, pelo não, de costas a esse teatro bufa de
triste-cômicos personagens. Podemos não saber muito, mas o que sabemos não nos
permite tornarmo-nos cúmplices de modos tão depravados.
Não gosto de agitações.
Foto: Sergio Larrain.
.
Não gosto de agitações. Por isso gosto
de cidades tranquilas. Me apraz a pasmaceira das províncias. Não estou nem um
pouco preocupado se nada acontece ou deixa de acontecer nas cidades. Quero
sossego e quietude. Já vivi em grandes metrópoles. Não posso dizer que foram
experiências saudáveis. Ninguém que habite um lugar que, se gaste horas para ir
de um ponto a outro, pode realmente estar satisfeito com a morada.
Olhar à volta.
Para melhor perceber as coisas
precisamos de algum distanciamento. Além disso a imagem vista de muito perto,
não nos dá uma perspectiva do todo. A esse propósito, lembro o José Saramago.
No documentário Janela da Alma, ele diz de uma revelação que teve certa vez, em
que foi forçado a mudar de lugar no meio de uma apresentação de ópera. Ele era
grande apreciador dos espetáculos. Ia sempre à Ópera Real de Lisboa. Tanto que
já tinha uma cadeira cativa em frente ao palco. Certo dia, ao chegar ao teatro,
encontrou a sua cadeira ocupada. Com alguma resistência ele foi convidado a
sentar-se num dos nichos contíguos ao palco. De lá, deslocado do seu ponto de
vista habitual, ele viu o que nunca antes havia visto antes. O palco de cima e
por trás. Aquele ambiente que respirava ares monárquico, visto de outro ângulo,
pareceu-lhe sujo, empoeirado e nada agradável. E de fato o era. A imagem dos
espectadores da plateia não lhes permitem ver além dos cenários montados e dos
atores interpretando. Da cadeira cativa de onde sempre via os espetáculos tudo
era suntuoso e limpo. De seu novo ponto a realidade era outra, bem menos nobre.
Aí surgiu-lhe a mente a ideia de que, para conhecer mesmo uma coisa,
verdadeiramente, precisamos todos de "dar-lhe a volta". Contornar os
objetos para deles tirar melhores conclusões. Assegurar-se de que ela não é
apenas uma fachada bonita, feita para impressionar, mas que também, em volta
pode esconde coisas menos nobres, que denunciem melhor o seu todo.
A Cosac & Naify fecha as portas, uma legião de leitores vê sua fonte secar.
.Alguns dos meus livros da Cosac.
.
Só os muitos aficionados por livros
entenderão. Os muitos satisfeitos com o mundo tal como é, não pressentirão que
o anúncio do fechamento de uma editora pode ser sentido por alguns com pesar. E
foi justamente com esse sentimento que recebi hoje a fatídica notícia que a editora
Cosac & Naify encerou as suas atividades. Para quem não sabe, a Cosac &
Naify é uma editora brasileira que a quase 20 anos vem produzindo livros que,
primam pela qualidade literária sem nunca descuidar da edição gráfica. As seus
edições de livros nos faz supor que, o livro é antes um relicário e não um
monte de papel enfeixado para consumo descartável. Sei disso desde que comprei
o primeiro livro dessa editora, lá nos idos de 2003. Cada livro dela é uma
verdadeira obra de arte, uma joia que pode ser cultuada, tanto quanto os
escritores que fazem parte do seu catálogo que reúne clássicos e importantes
obras da literatura brasileira e estrangeira, muitos deles ignorados pelo
grande público ou ainda desconhecidos no país. Antes do surgimento da Cosac,
poucos poderiam imaginar no Brasil uma editora que pudesse ousar tanto na
qualidade gráfica de suas produções. Uma nação de quase não leitores não atraia
investidores com interesses em produzir livros com o cuidado e zelo que muitos merecem.
Diante do fato de não encontrarmos leitores disponíveis, ficava evidente que em
primeiro lugar, o mais importante era dá ao público opções de leitura. Só
depois de consolidada uma audiência literária, as editoras poderiam pensar em oferecer
um produto com riqueza de acabamento, esmero nos textos complementar e nas
apresentações, qualidade de edição, singular apuro gráfico e outros luxos que
só os leitores experimentados poderiam exigir. Mas antes que este público,
exigente e ávido por um material mais cuidadoso, pudesse existir de verdade no
país, a Cosac saiu à frente e resolveu encarar o fato, de editar obras para um
público restrito de interessados em livros que, mantivessem os leitores em
permanente estado de enamoramento pelo trabalho de edição. Hoje esse sonho
chegou ao fim. Os muitos leitores de literatura que a editora conquistou,
nesses longos anos de aventura e ousadia, souberam pela imprensa que, os sócios
fundadores, resolveram pôr termo ao capricho que os levaram a fundar uma
editora sem igual no mundo. Sinto que a cada dia uma certa ideia de cultura se
torna rarefeita. Lamento mais essa perda para cultura brasileira. Já não faz muito tempo tivemos o fechamento da
única grande revista literária, a Bravo!. Ainda ontem os jornais traziam
suplementos literários que hoje não fazem mais parte dos periódicos, o jornal O
Globo bateu o último prego no caixão dos suplementos. Esse será o último
suspiro de um geração que caiu ante as investidas da cultura de massa com seus
apelos ao consumo desmiolado ou ainda teremos fôlego para suspender por mais
tempo a respiração antes de sermos vencidos por um mundo seboso. O que fazer, quando
o desnorte é a única estrela que nos guia?
Atento aos sinais
Raramente discuto política. Aprendi que
essas discussões têm o desagradável efeito de provocarem, em quem nelas se
envolve, uma pane instantânea na inteligência que, faz suspender o bom senso
nuns, espumar as bocas noutros e provocar espasmos, semelhantes aqueles dos energúmenos
tomados pela violência e o desequilíbrio. Desenganei-me de mais essa vaidade. Quando
por acaso uma dessas discussões encontra o meu caminho, salto da calçada à rua
e vou parar no outro lado, onde o passeio permite livremente que se suba ou
desça, sem ter que dá com quem atravanque o caminho, com a boca ameaçadoramente
babando certezas.
Em que desejas falhar?
Encontrei dia desses, um velho amigo,
que há muito tempo não via. Dividimos um apartamento, enquanto esperávamos que
a vida, não nos derrotasse, antes de sermos devidamente diplomados pela academia.
Chegamos lá e depois disso os nossos caminhos se bifurcaram. Ele agora é
professor, creio que dos bons. Em meio as alegres lembranças, que nosso reencontro
provocou, ele sorriu e me disse que dia desses lembrou-se de mim em uma de suas
aulas. Retribui o sorriso e o ouvi, franzindo o cenho, como quem rumina os pensamentos
quanto é tomado por uma inquietação. Meu amigo disse-me que falava aos seus
alunos que, enquanto vivia os tempos da universidade conviveu com um amigo -
batendo no meu ombro - a quem deveriam todos inspirar-se. Antes que pudesse
terminar a mesura, emendei a pergunta: “Servir de inspiração? Eu? Talvez. Em que
desejas que os seus alunos falhem?”
Perguntas cujas respostas fazem pensar que o mundo é uma laranja podre.
Por que ao invés de bombardearem os alojamentos
do ISIS, encravado no coração das cidades Sírias e Iraquianas, povoadas de
gente inocente, a coalizão internacional não manda as suas bombas cirúrgicas,
sobre os caminhões que, contrabandeiam petróleo e alimentam assim de recursos o
exército de lunáticos?
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