Fotografar pessoas: os pequenos episódios da vida

Foto: Rogério Soares. Romeiros do Bom Jesus, 2015.
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Em fotografia, interessa-me pouco aqueles temas que não estejam relacionados a pessoas. Não tenho gosto pelas paisagens, apesar de admirar Ansel Adams. Enfada-me fotos do pôr-do-sol. São puros clichês. As flores do campo e os montanhas silentes, não me atraem tanto que façam deles temas de interesse. Também não encontro outra coisa a não ser tédio, nas fotos de arquitetura. Quem consegue passar horas percorrendo as formas de um prédio e de um interior de casa e ainda assim achar naquilo algum interesse maior do que o mero passatempo das horas mortas. Há bem mais coisas no olhar de um homem e nas formas de um corpo que em toda paisagem natural, ou nas figuras geométricas de uma forma arquitetônica. Sem gente os lugares ficam vazios e pouco ou quase nada dizem de relevante, que mereça um registro fotográfico sério. Os motivos humanos são bem mais atraentes. Por isso os dramas humanos em suas múltiplas facetas produzem melhores temas para a fotografia. Mas quem escolhe esse tema, deve estar atento ao fato de que, fotografar pessoas é, acima de tudo, uma atividade que requer muito bom senso. Sei bem dos riscos da natureza da abordagem desse tema. Estar-se sempre correndo o perigo de que as pessoas que você fotografe não gostem da ideia de ser flagrada em sua privacidade. Por certo, existem boas razões para as pessoas manterem a intimidade de suas vidas resguardada de olhares bisbilhoteiros. Por essa razão, sempre que vou fotografar alguém, ou mesmo depois de já ter feito a fotografia, (são sempre tentadores os temas inesperados) peço à pessoa que me autorize a fazer o registro ou que me licencie a foto, depois dela feita. Caso elas recusem - algumas vezes isso acontece - respeito as vontades e apago na frente da pessoa o registro indesejado. Em outras ocasiões as pessoas recebem bem a proposta e se mostram muito dispostas a serem fotografadas. Ocorreu isso ao fazer a foto desses simpáticos romeiros mineiros que estavam de visita ao Santuário do Bom Jesus. Eles me contaram que há décadas visitam a cidade e trazendo consigo, como acompanhante dessa jornada, as suas distintas senhoras. Na ocasião da foto eles já havia visitado o Santuário e entregue ao Bom Jesus as suas preces. Como fazem, em todas as visitas, depois de cumprirem os seus votos sagrados, eles partem para o primeiro bar que encontraram, para desafogar o desejo de provar outras riquezas da terra sagrada. Foi lá que eu os encontrei. Alegres e descontraídos eles me pareceram bem mais jovens do que as imagens da foto depois me sugeriram. O registro dessa foto me fez pensar que: Fotografar pessoas é extremamente gratificante e enriquecedor. Há uma vida e uma história por trás da foto. Há uma singularidade nela que mesmo imperfeita a torna valiosa.  Além do maior interesse em pessoas o que me atrai, neste tipo de fotografia, é o desafio que ela constitui: não é fácil, do ponto de vista técnico, obter o efeito necessário para que a imagem resulte bem. As fotos de pessoas, diferentes de paisagens inócuas, requerem do fotógrafo uma maior atenção àqueles que deseja registrar. Por todos esses motivos e muitos outros gosto de fotografar pessoas e pequenos episódios da vida. 

Uma aventura inesquecível

Hoje 2 de abril comemora-se o dia Internacional do Livro Infantil. Nas mãos dos pequenos o livro se torna o primeiro transporte de uma aventura que eles jamais esquecerão. Das leituras apanhadas na infância, os miúdos aprenderão as lições que podem desvendar os caminhos mais seguros na jornada pela vida. O bom livro literário oferece ao pequeno leitor a possibilidade de satisfazer a sua criatividade, fertilizar a sua imaginação e animar os impulsos de aventura que os fazem reconhecer o mundo como a morada de todos. A leitura aproxima a criança e o jovem à vivências e saberes que expandirão sua visão de mundo para além dos horizontes domésticos. A leitura abre com isso horizontes possíveis e instiga visões alternativas das realidades dadas. Ela faz com que as crianças interroguem, questionem, comparem, avaliem... Ler ainda é divertido. São nas horas com o livro que partilhamos os melhores momentos de nossas vidas. Felicitações a todos os profissionais do livro que fazem as alegrias de crianças de todas as idades.

Declaração de princípios.

Desculpem-me os partidos, as seitas, os lóbis, os templos, os ideólogos, os deuses, os mitos (inclusive os de pés de barros e de poucos dedos) mas declaro-me, absolutamente indisponível aos seus apelos. Antes de vocês eu já havia sido seduzido pelas artes, senhora absoluta de minhas vontades.


Contar histórias

Perguntam-me sempre o que me parece ser uma boa fotografia. Digo que não sei o que os outros pensam, mas para mim uma boa fotografia é aquela que conta por si mesmo uma boa história, independentemente das circunstâncias de tempo e de lugar.

Foto: Robert Doisneau: Les Hélicoptères, 1972.


Quando a fotografia não acontece, isso me deixa mal.

Foto: Rogério Soares. Cavalhada na Agrovila 07, Serra do Ramalho - 2015.
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Desde que comprei uma câmera passei a ver dezenas de oportunidades fotográficas à minha volta. Há sempre bons motivos fotográficos espreitando-nos por aí. Dia desses, por exemplo, enquanto aguardava o carro para o trabalho, vi um senhor encostado a uma árvore, aí o imaginei em mil ângulos. De pronto me veio à mente: Por que não ando com a minha máquina a tiracolo? Estava ali uma boa fotografia que não aconteceu. Isso deixou-me mal. Penso que o mesmo se passa com os poetas, os romancistas, ou qualquer um que vive da arte mimética. Os dados da realidade sugerem sempre outras possíveis realidades, que se escondem atrás das aparências, e são tão ou mais interessantes do que a realidade imediatamente percebida. Quando essas realidades se descortinam a nossa frente e não estamos com uma máquina à mão temos mesmo bons motivos para nos recriminarmos por isso.   

Perspectiva

À Lucélia Pardim 
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Se de asas me vê,
Enxergas-me pela metade.
Olhasse em direto,
Verias, que as sombras
Me acompanham.

São sem conta o número de novos extremistas

Bosch. A Parábola dos Cegos (1568): Essa tela é uma alusão ao Evangelho de Mateus 15:14 "Deixai-os: são condutores cegos: ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova."
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Quando surgiram no face levantes contra os discursos de saudação ao retorno da ditadura, achei exagerado. Não quis acreditar que existisse alguém capaz de cogitar a hipótese, de ter no governo, homens de coldre na cintura. Achei que eram poucos e insignificantes as vozes que se alevantavam pedindo o injustificável. E por isso era dispensável perder tempo com eles.  Estava errado. Não eram exagerados os levantes e nem poucos os extremistas. Há sim, mais e mais, quem simpatize com os imoderados e ande de mãos dadas com os imorais que fingem inocência histórica. Por todos os lados, as bestas ganham adeptos e seguidores, e uma legião de cegos, levados por embusteiros, seguem prazenteiros rumo ao abismo. 

A Nêspera

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

Mário-Henrique Leiria in Novos Contos do Gin

Versão dita por Mário Viegas aqui

THE BOOKLOVERS



Dia a dia admiro mais e mais os portugueses. Motivos não faltam para isso. Um deles é que lá eles acarinham os seus escritores. Dão-lhes atenção, promovem os seus talentos e fazem festa com a sua existência. A prova provada dessa realidade pode ser vista no mais novo projeto do escritor, músico e fotógrafo Fernando Dinis. The Booklovers, é um saite que registar informalmente escritores portugueses. Através de belas fotografias e um despretensiosos perfil biográfico ficamos sabendo que os autores que mais admiramos têm olhos tão penetrantes quanto as palavras que fustigaram o nosso corpo, quando estivemos a ler os seus livros.


P.S. Há pelos menos um nome que aguardo ansiosamente por sua chegada a essas paragens. Ele é um blogueiro avesso a cerimonias, talvez por isso custe a aparecer, mas me traria muito contentamento em saber que também ele esteve ao lado de tantos bons nomes. 

Vazio


O secretário do Alckmin que admira idealismo do Isis.

É somente em momentos de grave crise moral, ética e política, como a que vivemos agora, que o desarrazoamento, ganha respeitabilidade e sentimentos antes reprimidos encontram voz e profetas.  Tempos nebulosos nos esperam no futuro. Quem será capaz de nos livrar dessas ciladas? Apeguem-se aos botes e corram à popa que esse barco desgovernado, está em rota de colisão.  

Embotar os sonhos

Foto: Ferdinando Scianna – Capri, 1984.

Penso, que ainda vive em mim, uma vontade ridícula de ganhar o mundo com uma mochila nas costas. Quem me conhece, também pensaria o mesmo que eu, se soubesse o que vive em mim de sonhos. Ridículos sonhos. Querer bater o pó da estrada, tendo como veículo, os próprios pés, e como bússola, na ausência de um melhor guia, o pau da venta, são coisas que não me cabem mais. Tivesse hoje os meus velhos dezessete anos. Andasse só no mundo, e talvez essa ideia não fosse, assim como parece hoje: ridícula. Mas já se passaram os anos. Os dezessete, tenho-os hoje em dobro. Assim como também não ando mais só. A vida vai embotando os nossos melhores sonhos e se encarregando de tornar, o que parecia outrora lindo, um tormento sem fim, por se saber impossível.

Desertificar

Já nem bem completei três décadas de vida e percebo, com desagradável surpresa que, ando a despedir-me, inesperada e involuntariamente, daqueles que, ainda ontem, emolduraram comigo uma foto para o futuro. Sinto que a vida vai aos poucos se desertificando. 

Literatura clássica e suas relações com a cultura popular: Ceci e Peri - Trio de Ouro (Carnaval de 1937)


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Fala-se amiúde em excluir os clássicos das escolas. Os defensores dessa ideia dizem serem as obras inacessíveis aos jovens. Os clássicos seriam datados e diriam pouco às massas de adolescentes oriundas das camadas pobres. Melhor proveito tirariam eles em ler as obras mais “acessíveis” (entenda-se os best sellers). O curioso é que, só na cabeça dos defensores, da exclusão dos clássicos das escolas, ocorre pensar que eles são inacessíveis as camadas populares. Desde sempre a literatura dita, canônica, esteve intimamente ligada as raízes populares em parcerias insuspeitas. Veja-se a propósito o caso do livro O Guarani. Anos depois de Carlos Gomes estrear a sua versão musical da obra de José de Alencar no Teatro Scala de Milão, as histórias de Peri e Ceci ressurgiriam em uma bela intertextualidade do clássico com o popular no carnaval de 1937. Quem encarregou-se da tarefa foi o compositor Príncipe Pretinho e teve como interpretes o Trio de Ouro: Dalva de Oliveira, Herivelto Martins e Nilo Chagas. A marchinha foi gravada no primeiro disco do trio. O Guarani também inspirou vários sambas-enredos de sucesso, que desfilaram pelo carnaval através da interpretação popular. A Império Serrano levou para avenida em 1954 o enredo: O Guarani, baseado na obra de J. de Alencar e inspirada na música de Carlos Gomes; em 1971 foi a vez da Unidos de Bangu desfilar na avenida com o enredo: O Guarani, de José de Alencar; em 1990 quem encantou o público, recontando no carnaval a saga do amor de Ceci e Peri, foi a União de Vaz Lobo (Guaraná, Guarani). Esses são alguns dos exemplos da relação de proximidade entre o clássico e o popular. Tivemos outros sambas-enredos, inspirados na obra do Cearense José de Alencar. Não só José de Alencar e sua obra magistral mereceram honraria iguais, outras grandes obras da nossa literatura também foram acarinhada pelo popular em marchinhas, sambas e outras manifestações que denunciam a sua inquestionável relação de proximidade. Agora pergunto? Como pode ser tão inacessível, uma obra que esteve sempre ligada as fontes de inspiração popular? Seriam hoje os nossos jovens tão atabalhoados que não se dariam conta daquilo que foi tão evidente em outros tempos, por quem teve bem menos acesso a informação do que eles? 

O riso na fotografia de Elliot Erwitt

Já referi aqui sobre como nada escapa ao interesse da fotografia. Todos os temas lhes são caros. Vemos por aí fotografia de rua, fotojornalismo, fotografia de moda, de natureza, paisagens, viagens, etc... Mas há um tema em particular que, quase nunca vemos, ao menos com a recorrência dos demais. Refiro-me a fotografia de cunho humorístico. Falta humor nas fotografias de nosso tempo.

Não creio que isso ocorra porque os fotógrafos o entenda como uma expressão menor. Esta é uma interpretação dos tolos e dos tirano. Os tolos pela estultícia de suas mentes e os tiranos pelos temores de que suas ambições encontre questionadores, que ousem desmentir as certezas que lhes asseguram as posições.

Acho mais provável a alternativa que advoga a ideia de que fazer humor em fotografia é difícil. E por essa razão, os interessados em abordarem o tema, desistam da ideia quando mal aventaram a possibilidade. Fazer humor bobo, patético ou grosseiro tem sido o mais próximo que muitos conseguem chegar do tema. Esse tipo de humor qualquer um é capaz de fazer. Mas um humor que profane o solene, desbote o verniz, que maquila as aparências e infrinja as certezas postiças que, envolvem a nossa sociedade, esse humor é tarefa para destemidos, que não se deixam vencer pelas ideias vazias que vai pelas cabeças dos patetas.   

Humor pateta é fácil. Humor com substância interrogativa e desvendadora da natureza humana são outros quinhentos. Mas há pelo menos um nome na fotografia que tomou para si a tarefa de encarar o tema com o talento e perspicácia que lhe é devida. Foi o francês Elliot Erwitt (Elio Romano Ervitz é o seu nome de batismo). Erwitt nasceu em Paris em 1928. Foi criado na Itália, mas a partir de 1941 adotou os EUA como pátria. Fez isso quando teve que fugir com a família, da tirania nazista que encobria a Europa e ameaçava o mundo com ideias tenebrosas de hegemonia racial.   

Nos EUA Elliot Erwitt construiu uma carreira respeitada e se tornou um dos poucos fotógrafos dedicados ao riso. Sua lente em décadas de atividade esteve apontada para os flagrantes de momentos irônicos e indiscretos que revelam detalhes risíveis do nosso comportamento quando não estamos ocupados demais em fingir decoro. Veja-se a propósito disso a seleção de algumas de suas melhores fotografias sobre o tema abaixo:  

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Versailles, 1975.
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Espanha, Madrid, 1995. Museu do Prado.
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East Hampton, Nova York, EUA, 1983.
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Central Park, Nova York, 1990.

Brandos costumes

Foto:   Ernst Haas


Ligo a tevê e ouço aos berros alguém dizer: “nós vamos descer o pau”. É o presidente de um sindicato, ameaçando um prefeito e os usuários de um serviço de transporte, do qual ele é contra. Mudo de canal. Dou com a notícia de que o filho de um ex-presidente, sugere em uma rede social que “o país vai pegar fogo” se o seu pai, que é hoje alvo de investigações sobre suposto favorecimento em negócios com empreiteiras, que estão sobre acusação de desvios de recursos públicos, continuar sendo investigado. Não suporto o que vejo e corro a outro canal. Aí encontro, possesso, um apresentador, falar estridentemente aos seus espectadores que, “bandido bom é bandido morto”. Fala isso, enquanto uma enquete, em baixo do vídeo, mostra os números de espectadores que concordam com ele subindo sem parar, na frente dos que esmorecem desencorajados pela pergunta, se são contra ou a favor das ideias tresloucadas do jornalista falastrão. Desisto da tevê. Vou à escola e encontro amigos professores que também não se constrangem mais em afirmar coisas, que há tempos achava superado pela posição que eles ocupam. Muitos pedem a expulsão de alguns alunos e dizem com todas as letras que alguns “não têm jeito” ou que estão ressentidos por não “poderem dar às crianças aquilo que os pais não deram: peia”. Ouço, leio e vejo todas essas barbáries e dou graças a deus que ainda bem que o poder dessas pessoas não está à altura de suas vontades, porque de outra sorte, o mundo seria um lugar dantesco, com gente a bater com paus em seus desafetos, queimar pessoas em desacordos com suas opiniões e castrar crianças por serem crianças e darem trabalho como as crianças costumam dar.  

As novidades literárias não param de chegar às livrarias

Todos os dia alguma novidade literária desembarca nas livraria, inflacionando ainda mais as boas opções de leitura disponíveis aos leitores. No entanto, não falta quem invente desculpas para não ler. Estou cansado de ouvir de alguns que, não lê porque “não tem opções cativantes”, “faltam novidades”, “é tudo sempre igual”, “desconhece os novos autores”.  Em que mundo andam as pessoas? Para onde olham quando querem mesmo buscar uma boa leitura? Penso que para o lugar errado. Voltasse os olhos para fora das tevês e das revistas do jet set, por alguns instantes, veriam um mundo novo em que as novidades superam o luxo dos cenários, das roupas e dos penteados dos artistas que tanto os mesmerizam. As novidades literárias, não param de chegar às livrarias, só os leitores não deram por isso. 

A fotografia e seus múltiplos temas

Foto: Imogen Cunningham

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Parece não haver um tema, que não tenha sido visto com interesse, pela fotografia. Ao estudar os trabalhos dos grandes fotógrafos nos deparamos com a seguinte constatação: durante o percurso de formação, eles vão apurando o estilo e perseguindo um tema, que os entusiasmam mais do que os outros, e assim formam o seu caráter fotográfico. Não é raro, porém, encontrar fotógrafos que nutrem mais interesses e alarguem seus temas a horizontes mais dilatados. Estes não concentram o seu foco de interesse em um único objeto. Inquietos que são estendem suas lentes a múltiplos pontos. Fazem isso muitas vezes movidos pelo germe da curiosidade de saberem como seria alterar códigos inexoráveis. Veja-se a propósito, o caso da americana Imogen Cunningham (1883-1976). Ela iniciou o seu percurso fotográfico fazendo estudos químicos sobre os processos de revelação. Era uma expert nessa área. Os estudos foram financiados com fotografias de plantas, para o departamento de botânica da Universidade de Washington em Seattle. Desse impulso inicial, movido pela necessidade, ela refinou o seu estilo, tomando um novo interesse nos estudos das texturas, das formas e das variedades de flores, especialmente a magnólia. A fotografia botânica que surgiu daí acabou por aliar a curiosidade científica com a expressão criativa de uma verdadeira artista. Após as flores, vieram os interesses no corpo humano. Em 1915 ela casou com o artista Roi Partridge, juntos eles exploraram os terrenos da natureza e do corpo humano. São famosas as suas imagens de Roi Partridge. Logo, não tardou que seu novo objeto de interesse passasse a ser alvo de estúpidos. A censura, imposta pela opinião pública da época, a fizeram engavetar os negativos de uma série de nus no deserto que realizou com um modelo contratado para exposição de sua lente. Depois desse trabalho, ela focou as suas fotografias nas mãos de grandes músicos e artistas. Esse último tema a levou à revista Vanity Fair. Como vemos os temas que apaixonam um fotógrafo podem ser múltiplos. Imogen Cunningham passou para história da fotografia com seus deslumbrantes close-up de flores. Mas junto a esse requinte, não lhe faltou sensibilidade, para encarrar as formas humanas em poses e gestos que a sensibilidade tacanha de alguns patuscos não foi capaz de suportar. Ela continuou a fotografar e a ensinar a sua nobre arte, até pouco antes de sua morte aos 93 anos em 24 de junho de 1976 em San Francisco.

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 Foto: Judy Dater (1974). O flagrante é de uma aula de Imogen Cunningham sobre nu artístico. Essa foto foi o primeiro nu frontal a ser publicado na revista Life.

Das trincheiras

O facebook tem me provado que, para ser-se intolerante e estar enfurecido com os outros, não é necessário habitar zonas de conflitos e assentar-se em trincheiras diferentes. Basta antes, encontrar alguém que, em desacordo com as cores que você escolheu, para ilustrar o seu perfil, teime em lhe dizer quais as melhores para colorir. Não entramos em acordo nem para permitir a liberdade de escolha de cores pessoais, como vamos fazer um mundo diferente?

De asno então...

Foto: Cristina Garcia Rodero, s/d.
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"Antes asno que me carregue que cavalo que me derrube"  Gil Vicente

"A NÓS A LIBERDADE" - Um filme injustamente esquecido e que deveriam conhecer.

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Esse não chega a ser um filme injustamente esquecido porque na verdade ele nem chegou a ser lembrado algum dia. O mais justo então seria alterar a legenda para: um filme desconhecido e que todos deveriam conhecer. E por que todos deveriam conhecê-lo? O que o faz tão especial que mereça ser arrancado das sombras e vir à lume. Talvez o fato de ser uma obra pioneira na crítica à vida burguesa, que faz do trabalho e da mecanização dos processos de produção, na vida moderna, uma fórmula de alienação e de automatismo do indivíduo em sociedade. Mais aí vocês me dirão que isso não chega a ser nada inovador, Chaplin andou a frente desse projeto e saiu na dianteira, com o genial Tempos Modernos. Ai reside um pequeno engano. Tempos Moderno, incontestável obra prima do realizador inglês, é na verdade, não um plágio, mais uma obra que está cheia de coincidências com o filme de René Clair.

JÁ VAI CEDO

Foto: Téo Júnior por ele mesmo.


Após 40 anos, “Playboy” brasileira deixa de circular

Por. – TÉO JÚNIOR

Esses últimos anos não têm sido fáceis para o mercado editorial brasileiro por n motivos. Destacaria o pouco investimento em propaganda, a ausência de incentivo governamental de mais impacto, a preguiça dos brasileiros para ler (me acuda, Sílvio Romero! Estamos na média de 1,5 livro por ano para cada pessoa; um escárnio!), a desimportância que os livros e jornais tem na vida da maioria das pessoas, incapazes que são de dar 30 contos num Saramago porque “é muito caro” e a facilidade da internet como meio que, gratuitamente, substitui o papel.

É bom frisar que nem todos os bons livros estão disponíveis na rede. E os jornais só liberam parcialmente suas matérias, e não todo o conteúdo, para não-assinantes.

Um amigo me falou, outro dia, que eu gosto das coisas físicas. Tem toda razão. Não tenho paciência para ler nada em PDF (já me basta meu trabalho cotidiano que consiste em eu ficar horas seguidas na frente de um computador, baixando a barra e subindo; uma amiga, quando tomou meu notebook emprestado, à minha revelia baixou “Cinquenta Tons de Cinza”, que adorou. Não li porque estava ocupado com as memórias de Bruna Surfistinha, uma vagabunda, pois sim) e evito ao máximo ouvir música em pen-drive, ver filmes em Youtube ou baixados de internet (uma exceção foi “O Bebê de Rosimary”; cometi a loucura de assisti-lo numa noite insone, 3 da madrugada). Como sou bastante fã de Gutemberg, ainda prefiro ler no papel. Também gosto mais de ver filme em DVD e depois guardar na estante. Nada substitui, para mim, folhear um livro, virar a página, ler na cama ou manusear um disco e a ficha catalográfica. Abrir a caixa do Submarino (com a faquinha de mesa) com livros da Black Friday, então? Um orgasmo.

Recentemente, uma grande editora teve de fechar as portas porque os lucros não estavam compensando o alto investimento nos livros, cujo catálogo é composto por gente da envergadura de Paz e Tolstói. Um dos últimos foi a extraordinária biografia de Michelangelo. O dono preferiu encerrar a empresa a baixar o nível de suas publicações, como seria a reação natural em momento de desespero econômico, com uma folha de pagamento para cobrir. Ao justificar o fim da Cosac Naif, o proprietário disse que “não queria comprometer seu passado e sua história”. Fez muito bem. Preferiu encerrar a empresa a cogitar a possibilidade de jogar no mercado biografias que certamente poderiam alavancar as vendas (quem sabe salvar a empresa?) de figuras como Claudia Leitte, Ivete Sangalo ou Luan Santana – mas sem qualquer valor intelectual ou minimamente relevante. A vida de Wesley Safadão ao lado de Bertolt Brecht? Numa edição de luxo? Capa dura? Sem chance. Ou então recorrer àquelas publicações infantis, mas para adultos, que consiste em fazer coisas estúpidas tipo “Destrua Este Diário”. “Nesta página, coloque a cera de seu ouvido – ela é parte de você, sua companheira”; na outra, “cole um pedaço de sua unha”; “esta página você rasgue, para se desapegar das coisas”; “já esta você rasgue e amasse com toda força, para descarregar o ódio que você sente de seu chefe” e por aí vai. Melhor encerrar. Ninguém é obrigado.

A Planeta, nestes últimos anos, vem editando a autobiografia de Edir Macedo; até o momento estamos no vol. 3. Como dizem os crentes, uma bênção! Best-seller. Através de seu império chamado Igreja Universal, Edir tem a oportunidade de divulgar sua obra nos quatro cantos do mundo. Ensina como converter pessoas e como, barnabé do setor de loterias, portanto assalariado, teve a bendita ideia de fundar uma igreja onde, antes, funcionava uma funerária. Se “Nada a Perder” tivesse saído pela Cosac, a editora talvez pudesse se manter mais um tempo.

No campo das revistas, a tristeza não é menor. Uma ausência sentida foi a de “Bravo!”. Uma publicação linda, bem-feita, mas que se tornou um calcanhar de aquiles para a editora. A Abril estava, com a melhor publicação de cultura do Brasil, “vendendo o almoço para pagar a janta”, como se diz. É público e notório que quando uma revista ou um caderno de jornal precisa ser fechada (o), para conter gastos, é para a cultura que a tesoura se volta primeiramente, e não para o ramo de veículos, casa & jardim ou celebridades. O indivíduo pode perfeitamente ficar sem saber a última cotação de um quadro de Van Gogh ou um texto inédito de Virginia Woolf, pode passar o resto da vida sem conhecer a biografia de um pintor extraordinário chamado Raimundo de Oliveira, mas é imprescindível que ele saiba que Claudia Raia está de dieta ou Cauã Reymond arrumou uma namorada nova. Nada posso fazer, a não ser lamentar tudo isso. Tomara que “Bravo!” volte um dia. Parou na edição 192.

“Bravo!” não circula mais. “Contigo”, porém, está aí, firme e forte.

 O FIM DE “PLAYBOY” – Não sei se estou escorregando no óbvio ululante – alô, Nelson! –, mas “Playboy”, cuja derradeira edição circulou até 10 de janeiro, não é – nem nunca foi – apenas uma revista de mulher pelada. Trata-se de uma publicação de alto nível cultural, séria, com entrevistas com gente que tem o que dizer e um elenco de repórteres e cronistas de primeira linha, dentre os quais eu destacaria Ruy Castro, Ivan Lessa e Mario Prata. Mesmo após a invasão dessas meninas nível “BBB”, a “Playboy” não escorregou ao lugar-comum e sobreviveu durante 40 anos. Lembro de um depoimento do jornalista Marcelo Rubens Paiva, que recordou seu pai (deputado que “sumiu” na “ditabranda”) lendo “Playboy” no jantar da família. Discorria, suponho, sobre conteúdo de caráter político. Por aí se tira sua importância. Como Paiva morreu antes do início da publicação brasileira, imagino que ele estivesse se referindo à “Playboy” americana.

Onde, por exemplo, eu li que o ex-sindicalista Lula disse “admirar Hitler” (“não o homem, mas sua obstinação”)? Que Tarantino não faz a menor questão de conhecer o pai? Que o manifesto contra a homofobia de Herchcovitch é ser gay assumido, casado e na fila da adoção? Que Kajuru não passa um dia sem um processo nas costas? Que Jece Valadão afirmou que frequentou a umbanda e fingia receber o Exu tão-somente para transar com a mãe de santo? Que Sandy disse que... (deixa essa pra lá!).

Mesmo aqueles que não são compradores contumazes de “Playboy”, como eu, ficaram tristes porque uma revista de alto conceito não mais existe. É uma a menos. Fará falta.

Uma revista que atingiu a vendagem de 1,3 milhão de exemplares com Joana Prado na capa (dezembro de 99) amargava tiragem inferior a 50 mil

“Playboy” marcou minha adolescência, sim senhor! Puxo pela memória que meus colegas, no 2° ou 3° ano, levavam para a escola revistas de seus irmãos mais velhos, e até colegas mulheres, no intervalo, a folheavam na maior naturalidade do planeta (admirando ou invejando um pouquinho?). Não tinha professora dando piti nem o diretor da escola arrotando falso moralismo, Deus nos livre!, indignado com aquele material impróprio para menores, passando de mão em mão na sala. Nada disso. Tudo liberado, a bem da fantasia da garotada.             A Pátria já era educadora nos tempos de Fernando Henrique. País rico é país onde sua juventude se instrui adequadamente. “Playboy” era nosso Carlos Zéfiro pós-Diretas Já. Colégio Tereza Borges. Caetité, Bahia. Uma beleza! Tenho muita saudade.


Ah, como todo mundo tem a sua “Playboy” preferida, a minha é a da “Anita” Mel Lisboa, de agosto de 2004. É isso aí. 

Sítios novos



Uma coisa verdadeiramente gostosa é encontrar sítios novos, onde se possa, alegremente, gastar as vistas com fotos que lhe transpõem para um universo paralelo. Em busca por trabalhos dos grandes fotógrafos de todos os tempos, encontrei, de forma casual, o saite SANTANGO. Desde então, não há um único dia em que não o visite. O saite é dedicado a um tema: FOTOS DE DANÇARINOS. Pelo que pude apurar, preferencialmente de Tango. A monotonia do tema não deve assustar quem aprecie grandes trabalhos fotográficos, pois, por mais vezes que um objeto tenha sido fotografado, é sempre possível tratá-lo de uma maneira nova, prova-nos, sem receio, esse saite viciante. Além das fotos hipnotizantes, o clima de sedução estética é reforçado com uma seleção de clássicos do gênero Portenho, que acompanha o visitante entre uma página e outra.


Tenho apenas uma ressalva ao saite, é que ele foi muito descuidado ao não creditar a autoria das fotos.

Ettore Scola (1931-2016)

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Quando éramos criança não era comum recebermos a notícia de alguma morte. Estávamos ocupados a desvendar os segredos do mundo, ou ainda não tínhamos criado vínculos com pessoas e coisas, que hoje são importantes demais para passarem despercebidas quando se ausentam?

Fim de semana

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Passei horas a entreter-me na internet. Vi fotos dos melhores fotógrafos de sempre. Li blogs de escritores admiráveis. Estive em saites de notícias, páginas de editoras e livrarias. Consultei os preços de produtos eletrônicos que estou namorando. Visitei as redes sociais. Mas ai não me demorei. É que estavam lá jovens que nasceram na democracia, pedindo o retorno da ditadura, como se essa não tivesse feito o que fez, e isso causou-me um embrulho no estômago. Para completar o desgosto, vi também por lá a camarilha política. Estavam, como de costume, fingindo que o governo não tem culpa nos malfeitos que, anda metendo os seus mais próximos aliados aos magotes, nas masmorras, que por aqui também atendem pelo nome de cadeias públicas. Cansei. Pulei aos vídeos de música, humor e pitei o sal da terra. De tudo, penso que não tirei o que pudesse me confortar desse mundo. Tomei então assento ao divã e pus-me a ler os suplícios de Tântalo, triste história.


Constatação

Distraio-me fácil. Perco-me sem razão em meus pensamentos. Sem quê, nem porquê, ando quase sempre à deriva, ziguezagueando em minha mente. Nessas horas o pensamento voa. Sem porto ou direção, sou carregado de um lado a outro em completo desgoverno. Mas, de vez em quando, eu também sou capaz de ser tomado por alguma razão. Quando isso me acontece dou basta aos devaneios, e baixo à terra, em pouso forçado, tudo o que estava no ar. Deito tudo ao seu lugar e digo a mim mesmo que, nada mais me ousará escapar ao meu controle. Faço isso, não sem antes, deixar de perceber que, mais me assemelho a uma folha ou a uma nuvem, que são apascentadas pelo vento, do que, um prédio bem assentado em suas sólidas bases de concreto, que não tem temor algum de ser sacudido fora, por qualquer intempérie ousada, trazida pelos maus ventos. Desculpem-me a franqueza é que ando com a máscara frouxa. 

Sobrevive a capacidade de se surpreender


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Tão raro quanto encontrar um político honesto é ver algum jovem dado à leitura no passeio público. Mas por vezes isso sucede. É raro, mas sucede. Aí quando essa imagem lhe surge, fica-se a imaginar, por instantes, que o sol anda a nos pregar peça, e o que julgávamos, como alguém a ler pelas ruas, não passava na verdade de um devaneio, de uma mente sobressaltada pela fornalha que se tornou a cidade, nesses dias de sol inclemente. Essas coisas costumam acontecer também aos incautos que desafiam o deserto. Não seria raro, então, em cidades cujo sol é, tão ou mais, impiedoso, quanto nos terrenos, onde somente os camelos estão livres dos delírios. Mas este não foi o caso. Dei mesmo de encontro com uma jovem a ler no passeio público. Não foi um devaneio, estou certo. Toquei-lhe realmente o livro, elogiei-lhe o título e fiz menção de inveja, por ainda não ter ousado tanto na leitura, e subido os degraus do olimpo literário, como ela estava fazendo, para lê a dramática história do jovem Raskólnikov, escrita pelo genial russo Dostoiévski. De repente, ao ver que uma jovem perambula por aí, levando ao braço, um catatau literário, me dei conta de que não é inteiramente verdade que, os jovens se tornaram reféns de experimentalistas literários grosseiros que se comprazem no aviltamento da linguagem para facilitarem as vendas. Ainda há quem se guie por rotas insuspeitas e não ande a dar bolas aos modismos. Pode-se mesmo querer ver nos modismo algum valor literário, mas é somente nos grandes escritores que, encontraremos respostas àquelas inquietações que enevoam a alma e nos impede de ver mais claro o mundo. 

Afortunado

Pintura: Sacerdotes astecas realizando um sacrifício para os deuses ao queimar incenso e oferecer sangue no Códice Tovar, atribuído ao jesuíta mexicano Juan de Tovar do século XVI.
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Uma casa que, mesmo alugada, não deixas de sentir que é uma morada. Um emprego que, mesmo longe e mal remunerado não deixas de ser um emprego. Um país que mesmo desgraçado por corruptos não deixas de chamar de seu. Ter-se quase chegado a professor universitário e mesmo baldado os maiores esforços, ainda assim sentir-se realizado com o falhanço. Ter sobrevivido a três pneumonia, e não a pôr-se doente, a mais seis meses, apesar de sentir um cansaço em que todo o esforço parece demasia... Que vida afortunada eu levo. Quantos poderiam ser assim tão felizes como eu? Há, de certeza, muitos que me invejam por todas essas conquistas. Viro-me então para os deuses é agradeço-lhes os favores imerecidos.


A moral ensacada e a liberdade frouxa

Foto: Pedro de Moraes: Rio de Janeiro, 1965.
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Questiono-me, o que pode haver de amoral ou de descente, nos trajes que alguém escolhe para vestir? Faço isso, porque, meio sem querer, testemunhei a indignação de uma distinta senhora que, ao ver passar a rua, uma jovem em trajes mínimos, sagrou-a puta, só de ver a roupa que a jovem vestia. 

A visão micro, daquilo que a moral achou dever ser maior, causou-lhe, indignação instantânea. Tanta que, não pode conter a boca, o que o juízo avaliou em um só olhar. Achou tão certo, o que sua cabeça em instantes julgou, que sem receios ou pudor fez de uma jovem, alguém que talvez passe ao largo de ser o que os olhos apresados pensam saber. 

Nossa sociedade, muito zelosa de nossos hábitos e costumes, manda-nos sermos obedientes às práticas que nos fazem imaginar distintos e nobres, por andarmos envergando os símbolos da decência. Quanta ilusão. Fazem isso, estimulando-nos o comedimento nos trajes, a discrição nos volumes e a sensatez nas medidas. 

Sabem desses conselhos, os frequentadores das igrejas, os capelistas e os modistas dos hábitos alheios. Quem não frequenta esses sítios, têm dificuldade em aceita-los, preferem outros modos. 

Que medidas de roupas, determinam o caráter de alguém, pensam os que andam ensacados. Mas quando se estar debaixo de um sol fuzilante, e o calor incomoda, creio ser natural que as roupas, assim como a moral e os bons costumes andem meios frouxos ou curtos, além do que gostariam os guardiões dos melhores costumes. É demais querer que andemos todos metidos em panos, quando o sol está a nos convidar a celebrar os corpos livres. 

Com tantos desavergonhados na política, na religião, no comércio, nas casas de famílias, indignar-se com o pouco pano de uma roupa, soa-me a banalização dos fatos que, importam indignar-se. Do que adianta, cobrir-nos a todos o corpo, quando a vergonha maior não está em andar com partes generosas dele à mostra? 

Veneração

Quadro: A adoração do bezerro de ouro: Artista: Andrea di Lione
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A julgar verdadeira a crença burguesa, que prega que cada um é aquilo que exibe, logo se questiona: que estranhos modos, esses de ser, devedor de culto a quinquilharias.  


As fabriquetas da novíssima consciência



Os Budas de Bamiyan,
As Caçadas de Pedrinho,
A Teoria da Evolução,
As figuras paritais de Stone Mountain, na Geórgia,
Os artefatos milenares de Mossul,
O sexismo e o misogenismo de Homero e Eurípedes,
O falocentrismo de Henry Miller,
O antissemitismo de Shakespeare,
As fogueiras do "Ato Nacional contra o Espírito Não-Germânico"
Os horrores velados de Mark Twain e Hergé
As infamantes burcas no Ocidente.
Por todos os lados bafejam-nos,
ventos liberticidas.
Os iconoclastas nos salvarão
da ignorância de sabermos menos do que eles.
Farão isso a golpes de ferro e implosões,
ou em liturgias
em seus institutos de saberes,
que entre nós dão pelo nome de universidades.



Depravações políticas ou o impedimento forjado pelo sem-vergonha mor da nação

Foto: Max Scheler | Bruxelas, 1958
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Os políticos de Brasília nunca trabalharam tanto como nesses dias. Pena que não é em prol do Brasil, mas em causa própria. Acusam, xingam, mentem, falseiam e emprestam-se a todo tipo de sem-vergonhice. Com eles uma legião de capelistas ensinam-nos as razões do que foi, do que é, e do que só poderá acontecer quando A ou B estiver impedido ou devidamente encarcerado. De nós outros, os que não sabemos nem o suficiente para nós mesmos, mas que duvidamos sempre, estamos, pelo sim, pelo não, de costas a esse teatro bufa de triste-cômicos personagens. Podemos não saber muito, mas o que sabemos não nos permite tornarmo-nos cúmplices de modos tão depravados. 

Não gosto de agitações.

Foto: Sergio Larrain.
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Não gosto de agitações. Por isso gosto de cidades tranquilas. Me apraz a pasmaceira das províncias. Não estou nem um pouco preocupado se nada acontece ou deixa de acontecer nas cidades. Quero sossego e quietude. Já vivi em grandes metrópoles. Não posso dizer que foram experiências saudáveis. Ninguém que habite um lugar que, se gaste horas para ir de um ponto a outro, pode realmente estar satisfeito com a morada.


Olhar à volta.



Para melhor perceber as coisas precisamos de algum distanciamento. Além disso a imagem vista de muito perto, não nos dá uma perspectiva do todo. A esse propósito, lembro o José Saramago. No documentário Janela da Alma, ele diz de uma revelação que teve certa vez, em que foi forçado a mudar de lugar no meio de uma apresentação de ópera. Ele era grande apreciador dos espetáculos. Ia sempre à Ópera Real de Lisboa. Tanto que já tinha uma cadeira cativa em frente ao palco. Certo dia, ao chegar ao teatro, encontrou a sua cadeira ocupada. Com alguma resistência ele foi convidado a sentar-se num dos nichos contíguos ao palco. De lá, deslocado do seu ponto de vista habitual, ele viu o que nunca antes havia visto antes. O palco de cima e por trás. Aquele ambiente que respirava ares monárquico, visto de outro ângulo, pareceu-lhe sujo, empoeirado e nada agradável. E de fato o era. A imagem dos espectadores da plateia não lhes permitem ver além dos cenários montados e dos atores interpretando. Da cadeira cativa de onde sempre via os espetáculos tudo era suntuoso e limpo. De seu novo ponto a realidade era outra, bem menos nobre. Aí surgiu-lhe a mente a ideia de que, para conhecer mesmo uma coisa, verdadeiramente, precisamos todos de "dar-lhe a volta". Contornar os objetos para deles tirar melhores conclusões. Assegurar-se de que ela não é apenas uma fachada bonita, feita para impressionar, mas que também, em volta pode esconde coisas menos nobres, que denunciem melhor o seu todo.