De tudo o que vivemos hoje no país, o
que mais salta aos olhos é a arrogância dos que defendem legendas partidárias. A
dar fé no que eles dizem, tem-se a impressão de que, eles sabem tudo, vêm
andes de todos e estão tão certos de suas posições que, não pode haver erro ou
engano no que pensam e fazem. Com tantos a saber de tudo e antever tudo antes
de todos, como chegamos então, tão fundo e tão rápido, ao lodaçal em que estamos. Estou farto desse fla-flu. Inunda-me o tédio.
Religião e cultura
Foto: Rogério Soares, Catedral Nossa Senhora Santana, Caetité, 2016.
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Em A
Civilização do Espetáculo, o escritor peruano Mario Vargas Llosa responsabiliza
as religiões, especialmente a Cristã no Ocidente, pelo desenvolvimento das
artes (música, pintura, escultura, arquitetura etc.). O alijamento das
religiões, provocaria para o escritor, o engessamento das culturas tais como a
conhecemos hoje e infertilizaria a vida a níveis inaceitáveis. Seria, portanto,
deletério para as culturas, o fim das religiões. Pois em torno delas, seja para
exaltá-las ou para criticá-las, viceja um campo muito propício à criação de expressões
artísticas, que não são outros senão, formas dos homens externarem os
desassossegos de uma mente deslumbrada com os mistérios do mundo.
Na biografia dedicada ao poeta Cruz e
Souza, Paulo Leminski, recorda um pormenor de ter lido “no jornal, uma
entrevista recente com o maior teatrólogo da Nigéria, um intelectual de esquerda”
que nos faz pensar em termos mais claros sobre o papel das religiões na
manutenção da vida e das artes: Lembrando as contribuições da Europa aos países
da África o teatrólogo diz:
“Os
brancos nos trouxeram coisas de valor. Como o seu pensamento científico e
filosófico, incluindo o marxismo. Mas o preço que temos que pagar é alto
demais. O ateísmo é a morte dos deuses. Com a morte dos deuses, vem a morte das
danças, que são para os deuses. Com a morte da dança, vem a morte da música,
que acompanha as danças. Ao adotarmos filosofia ateia, estaremos matando toda a
árvore da nossa cultura. Um marxismo, para nós, não pode nem deve negar nossas
crenças. Porque estaria negando a nós mesmos.”
Como vemos, não era tolerável, mesmo
para um intelectual de esquerda o fim das religiões, sobre pena de que esta
precipitasse o fim das culturas. Abandonei a fé nas religiões quando ainda era
um adolescente. O ateísmo que pratico desde então não me permite acreditar numa
entidade que com força desconhecida governa o desgoverno do mundo. Sei, porém, reconhecer
que, são as religiões, criadas a partir da perplexidade do homem sobre a sua
condição, as grandes responsáveis por encorajarem e propiciarem, denodados artistas,
caminhos para externarem as suas muitas inquietações sobre as faltas de sentido
para a existência.
Maquilar a realidade
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Steve McCurry é sem sombra de dúvida o
mais reputado dos fotojornalistas da atualidade. Com mais de 40 anos de
serviços prestado à arte de fotografar, ele se notabilizou para o mundo,
cobrindo guerras e registrando com sensibilidade incomum, os dramas de homens e
mulheres em zonas de conflito. Porém, hoje, ele se vê às voltas com uma
discussão que põem em questão o seu oficio artístico e sua propalada
sensibilidade. É que algumas de suas fotos publicadas em seu sítio na internet
e mais algumas outras encontrados por jornalistas, sugerem que ele manipula as
suas imagens. Alguns poderiam dizer: “que bobagem, o que há de errado em
manipular as fotos?” Nada. Não há nada de errado em fazer mudanças nas fotos. Afinal
de contas a imagem é dele. O problema é que McCurry sempre negou que usasse
recursos para tornar as suas imagens mais expressivas. E para piorar a
história, descobriu-se também que não são feitas apenas ajustes de contrastes
de cores e tons, mas que são alterados elementos significativos das fotos
sugerindo ambientes, situações e paisagens destituídas de veracidade. Fico aqui
a pensar: o que há de verdadeiro no mundo?
Fiéis
Foto: Rogério Soares. Igreja e seus fiéis. 2016.
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Ultimamente tenho ido à igreja. Não vou
lá quando o padre ou os fiéis fazem a genuflexão e estendem as suas preces, em
coro aos céus. Estou cansado de tanta gente a minha volta. Por isso, prefiro a
igreja quando uns poucos a visitam. Gosto de ver o silencioso murmurinho dos
que suplicam aos céus, remédios às suas chagas. Mas não são só estes os que lá
vão. Também estão lá, os que buscam sinceramente expor as suas faltas. Esperam
com isso ajustar as suas contas. Nessas horas os observo. Tiro foto. Penso
comigo o que será que eles fizeram para pedirem remição ou qual foi a graça
alcançada para estarem lá agradecendo? Não tenho resposta a estas perguntas. Quando
eles se vão, volto a solidão. Agora tiro fotos do que me surge à frente. Em
instantes a vida parece sem agravos e aborrecimentos. Sem pecadores ou
redimidos sou só eu, as luzes, as formas, os contrastes e mais uma vez o
silêncio divino. Mas é por pouco tempo. Logo a igreja volta a ser tomada por
alguém disposto a emendar todos os seus vícios.
Foto: Rogério Soares. Igreja e seus fiéis. 2016.
Frei Damião e os impressionadores de multidões.
Foto: Sebastião Salgado (Reprodução do livro Terra) Frei Damião evangelizando.
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Muitas tradições se vão perdendo em
nosso país. É o caso daquela que é conhecida como missionária. Missionários
foram aqueles homens que devotaram as suas vidas a causa da bem-aventurança e
por essa razão foram consagrados pelo povo como Santos vivos. Pelos Sertões
adentro Padre Cícero Romão e Frei Damião de Bozzano, foram os nomes mais
famosos dessa tradição no século XX. Antes desses, outros os precederam, é o
caso de: Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, e talvez o mais
antigo de todos, Frei Vidal da Penha, famoso missionário do Século XVIII que em
uma de suas profecias previu que: “o
sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. Mais tarde, pela lei da convergência,
o Conselheiro fará recair sobre si a lenda de que será ele, o autor dessa
previsão. Em derredor desses nomes cresceu e prosperou uma veneração coletiva,
alimentada pela crença popular nas qualidades espirituais desses homens, e
claro, no temor infundido por eles em profecias que previam o fim das Eras. Segundo alguns dos seus inúmeros
fiéis, a simples presença deles entre o povo, era capaz de suspender os muitos
e agonizantes males, que afligiam os atormentados flagelados da seca, da fome e
das injustiças sociais e os reconduzirem à paz e à serenidade, diante das durezas
do Nordeste. Por essa razão acorriam a eles multidões exaltadas. Querendo fugir
do inferno terrestre, ávidos campesinos buscavam as intervenções dos
taumaturgos, na firme certeza de que com isso, estariam amenizando o seu fardo.
Câmara Cascudo, ao que me consta não escreveu sobre Frei Damião, mas sobre
Padre Cícero não poupou tinta. Sobre o Padim
Padi Ciço, como era carinhosamente chamado pelo povo o Padre de Juazeiro, Câmara
Cascudo escreveu em Vaqueiros e Cantadores, que ele: “não educou nem melhorou o nível moral de seu povo. Antes, desceu-o a
uma excitação febril, guardando segredos de perpétua irritação coletiva, para
mais decisiva obediência geral”.
Criticou ainda o padre, pela indulgência com que este tolerava os
desmandos dos poderosos contra os menos favorecidos e seu ânimo bizarro por
alimentar sobre si uma “onda fanática de
‘romeiros’ e beatos...”. Escusadas as críticas aos missionários, o certo é
que eles se confundiram com a história do Nordeste, e não há hoje, como tirar-lhes
a importância que o povo serenamente lhes foi consentindo. Quando pequeno, na Paraíba, eu mesmo
testemunhei por duas ocasiões a devoção do povo a esses missionários. Na década
de 80 a minha avó me levou ainda criança para uma das missões do Frei Damião. As
Missões eram, o nome atribuído pelo Frei Damião ao seu estilo de evangelização.
Elas se caracterizavam por um certo ritual. Anunciava-se a chegada do Frei à
cidade. Ao cair da tarde, o missionário era recebido e conduzido, geralmente em
carreata, à igreja matriz, ali dirigia as primeiras palavras à multidão que o
esperava, sedenta para ouvir as suas prédicas. Lá em casa ainda são recorrentes
as lembranças desse encontro. Sempre que nos reunimos a minha avó gosta de
lembrar que fui abençoado pelo missionário. Mais tarde um pouco mais velho, mas
ainda criança, vi e assisti uma das missões do Frade na cidade de São Bento,
interior da Paraíba, cidade onde passei a infância. A figura do personagem domador
de valentes e guia de almas, nunca mais me saiu da memória. Ao escrever esse
testemunho lembro vivamente o fervor do povo que sobre os cantos de “Frei Damião meu bom Frei Damião /O seu
perdão numa confissão faz um bom cristão /Frei Damião meu bom Frei Damião / Eu
sou nordestino, eu estou pedindo a sua benção...”, recebiam
entusiasticamente o Frei Capuchino. Os versos são de Janduhy Finizola e ficou
famoso na voz de Luiz Gonzaga que na década de 70 gravou a música Frei Damião. Esta não é a única
homenagem do Rei do Baião ao missionário. Uma década antes Gonzaga gravou a música
Meu Padrim (Frei Damião), uma
composição do Frei Marcelino de Santana. Há ainda no Nordeste Brasileiro uma
vasta produção literária dedicada ao Frei Capuchino e aos outros missionários. Recentemente
encontrei por acaso no livro do fotógrafo Sebastião Salgado uma linda
fotografia que retrata o Frei em missão de evangelização. A foto como era de se
esperar é perfeita. Sobre ela podemos pousar o olhar e nos demorar longamente. Ela
capta a atmosfera de devoção do povo ao Santo homem, que entre eles andou. Os pormenores
que o autor incorpora na imagem: os pés descalços do Frei, a sandália abrigada
ao pé do púlpito improvisado, a atenção no olhar dos homens, e mais o contraste
do preto-branco da imagem que sugerem incontáveis coisas, fazem com que a foto
não passe indiferente. Música, Literatura, Fotografia, fé, religiosidade, uma
vastidão de manifestações atestam a importância incontestável desses
impressionadores de multidões.
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Observação: A imagem que ilustra essa
postagem foi retirada do livro Terra do fotógrafo Sebastião Salgado. Sendo essa imagem objeto de direitos de autor,
e a tal publicação o seu titular se oponha, ela será removida do blog, logo que
recebida notícia do fato. Desde já o autor do blog explica que não há, na
publicação da foto, qualquer intenção comercial. Esperando com isso não receber
nenhuma restrição pela publicação.
Correlato
Foto: Don McCullin, Soldado Americano ferido no fronte. Vietnã.
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Podemos olhar para uma fotografia e não
encontrar nela nada que seja capaz de nos tocar. Há várias razões para que isso
aconteça. Uma delas é o fato de que a fotografia, como de resto acontece com
quase toda a obra mimética, fala a cada um segundo o seu próprio valor
intelectual. Outra razão pode estar no fato do fotógrafo não ter habilidade de
composição ou intenção de trabalhar a imagem para que esta produza uma mensagem
que ultrapassasse o seu mero registro imediato, não tendo, portanto, outro
sentido possível, a não ser àquele que a fez. Já quando o fotógrafo trabalha a
imagem organizando os elementos a sua vista, de forma a estes desencadearem uma
carga emocional no espectador, diz-se, então, que ele empregou os recursos capazes
de formar uma composição significativa. Tão significativa que ele é capaz de
mobilizar as emoções do espectador valendo-se apenas dos artifícios da
composição. Na fotografia, a composição é tudo. O melhor fotógrafo não será
aquele que espera que o acaso o premie com uma foto, que o distinga dos demais. Para
que uma imagem resulte bem o fotógrafo terá que trabalhar a composição. Para
isso, ele precisa organizar os elementos a sua disposição em: grupos de objetos,
em situação, ou numa cadeia de eventos, de modo que os fatos internos da foto evoquem
correlatos (entenda aqui como correlato, aqueles elementos comparativos que se
faz entre duas coisas que se assemelham) que possam causar no expectador a
emoção desejada. Tomemos, para tornar a compreensão mais simples, o exemplo da
fotografia acima. Ela foi feita pelo fotojornalista Don McCullin. Na década de
70 ele cobriu a guerra do Vietnã. Durante uma incursão com os soldados
americanos a um cerco numa vila vietnamita ele flagrou, em meio a refrega, um soldado
ferido nas pernas, sendo socorrido por dois outros militares. A foto é um
primor de composição. Nela McCullin enquadra os soldados tendo como referência
as imagens de Cristo sendo retirado do calvário. De pronto a foto comoveu o
mundo e de alguma maneira precipitou a retirada das tropas americanas que há
décadas combatiam sem sucesso no Vietnã. Ao evocar a figura de Cristo em meio
aos horrores da guerra, prefiguradas na imagem de um soldado ferido, McCullin
provoca no espectador aquela carga de emoção que ele um dia já sentiu enquanto
era doutrinado pela iconografia religiosa. A concepção fotográfica de Don
McCullin elaborada do ponto de vista da religiosidade, apela aos sentimentos
cristãos dos espectadores. Aludindo a figura piedosa de Cristo martirizada no
madeiro, ele faz da foto um objeto significativo e capaz de falar a muitos pelo
aparência, que vagamente faz uma foto de um soldado, se assemelhar a imagem de
Cristo crucificado.
Pintura: A flagelação de Cristo. Caravaggio - 1607.
Erasmo Carlos - A Carta Do Índio
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Erasmo Carlos - A Carta Do ìndio
(Adaptação da Carta escrita em 1855 pelo Cacique
Seattle da Tribo Dwamish - USA)..
O grande chefe branco
Quer comprar as nossas terras
Quer nossa amizade
Mas não precisa dela
Tão certo como as estações do ano
Trarão armas na certa
Pela paz dos nossos filhos
Vamos pensar na oferta
Ninguém compra ou vende o céu
Nem o calor da terra
Como podem comprá-los de nós?
A ganância do homem branco
Empobrecerá a terra
Deixando desertos e sóis
Jamais se encontra a paz
Na cidade do homem branco
Não se ouve a primavera
Nem o crescer do campo
Porém, se aceitarmos a oferta,
Imporemos condições
Daremos nossas mãos
Homens, animais e árvores
Vivendo como irmãos
Mais depressa que outras raças
O branco vai fazer
A sua desaparecer
Restará o fim da vida,
Mulheres tagarelas,
E a luta pra sobreviver
[Como um recém-nascido
Ama o bater do coração de sua mãe
Se vendermos nossas terras
Ama-a, como nós a amávamos
Protege-a, como nós a protegíamos
Ferir a terra é demonstrar
Desprezo pelo criador
Com força, poder e coração
Conserva-a para teus filhos
Nosso Deus é o mesmo Deus
Esta terra é querida por ele
Nem mesmo o homem branco
Pode mudar o nosso destino comum
Cacique Seattle,
Tribo Duwamish,
Washington,
1855,
Estados Unidos da América do Norte]
Os nossos grandes lideres e seus amantes
Foto: Cornell Capa, California. 1960.
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Um giro à volta e tem-se a impressão
que, o mundo converteu-se ao fanatismo. As pessoas andam endeusando tudo:
partido, seitas, agremiações, políticos, etc. Com predileção atualmente pelo
deus partido. A ninguém parece suposto alguma dúvida, sobre seus pontos de
vista. Enfronham-se nas bandeiras e defendem as suas cores, e não pressentem que elas exalam odores desagradáveis. Quem atentar para o que dizem as vozes que ecoam dos gabinetes e mansardas, não deixará de perceber que de lá falam todos aqueles que se sentem na posse da
milagrosa bússola que aponta para o norte das decisões capazes de nos resgatará
a felicidade geral. A dar ouvido a estas vozes, tenho a impressão que, será
outro, o destino dessa grande nau em que todos nos metemos. Não falo isso aos
amigos, porque chegamos ao estágio em que eles pressupõem que onde há crítica
há desamor.
O monstro e o homem civilizado
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Há tempos ouvi de alguns amigos, que
sofriam com medo da escalada da violência na minha cidade, o pedido de que as
autoridades públicas locais, interviessem no caos instaurado e providenciassem
soluções imediatas. Para minha surpresa os amigos não pediam mais escolas, mais
saúde, mais justiça social para todos. Não lhes ocorriam que a fonte da
violência pudesse estar na ausência desses bens às comunidades mais
fragilizadas, mas numa suposta degeneração moral de alguns, somente corrigida
com o amparo de velhos métodos domésticos. Eles clamavam pela imediata vinda da
polícia do cerrado. Queriam o que de mais truculento, torpe e desumano, pode
haver em matéria de polícia e se negavam a acreditar em outras alternativas
além dessa. A solução sugerida, como visto, era a instauração de uma força
policial que todos reconhecem como desrespeitosa dos direitos humanos, mas
acredita, mesmo assim, ser esta postura um dado menor, quando está em causa a
"restauração da paz e da ordem". Paz à custa de cassetetes e coturnos
não é paz. Um Estado civilizado responde as demandas com racionalidade e
espirito moderno. Vejam o caso que noticiam hoje os jornais. Vem do norte, a notícia de que uma juíza norueguesa decretou justa, a causa do extremista Anders
Behring Breivik que, acusa o Estado Norueguês de lhe implicar um regime
prisional desumano. Breivik está em completo isolamento. Desde que sua mãe
morreu há três anos ele não tem mais contato com ninguém. Todos vão se lembrar de
Breivik, ele está preso por ter assassinado cruelmente 77 pessoas na Noruega em
2011. Fez isso movido pelo ódio de imigrantes e contra o multiculturalismo. De pronto uma onda de
intolerância passou a criticar a ação da juíza. Nos jornais os comentários
reprovam, peremptoriamente, a ação que deu causa ao pedido do assassino.
Invocando uma pretensa justiça que pensávamos superada desde Hamurabe, seguem-se
discursos não condizente com quem acredita realmente na paz e na justiça. “Haviam de lhe fazer o mesmo que ele fez aos
77 seres humanos.” Diz um dos que comentam a matéria dos jornais. “...esses facínoras do oriente e do
ocidente estão muito acima do nosso fraco poder de exaltar ou de rebaixar...
Mata 72 pessoas e ainda é indemnizado! Kkkkkk.”, outro não deixa por menos
e emenda. Causa-me espanto que, em pleno século XXI, alguns ainda não entendam
que o horror dessa besta humana, não pode ser respondido por uma nação
civilizada, com outra força, senão a lei dos direitos humanos que ele ignora e
combate. Quando a vida se bestializa, ao ponto de andarmos clamando nas ruas o
sangue dos monstros, passamos e nem percebemos aos estados primitivos que
nega-nos o direito de sermos chamados Humanos. Ao nos barbarizarmos como
aqueles que causa-nos espanto pelo seu comportamento deplorável, descemos como
eles ao rés do chão e não podemos pedir justiça, porque esta não entende esse
chamado para fazer derramar o sangue de quem quer que seja. Independente do
fato monstruoso que ele cometeu, e por mais repugnante e inquietante que possa ter
sido o seu comportamento, nada justifica que um Estado civilizado, infrinja
seus valores e sua moral para se ombrear com os que querem que o ódio vença
todas as causas. Não é uma questão de somenos importância. É por aqui que
começa a distância entre um monstro e um homem civilizado.
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Elefante manso
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Não temos uma revista dedicada à
literatura. As editoras que um dia se preocuparam com a qualidade literária
pagaram o preço dessa ousadia e hoje se encontram de portas cerradas. Nos jornais, os suplementos literários, que já
foram palco para grandes discussões, deixaram de ser importantes e
desapareceram das páginas dos diários. Com eles sumiram também a figura do
crítico, do ensaísta, do polemista e do intelectual, naqueles termos que
postulava Ortega y Gasset em: A Rebelião das Massas, o indivíduo que:
aclarava um pouco as coisas, enquanto os outros, pelo contrário, costumavam
consistir em confundi-la mais do que já estavam.
Todas essas notícias deveriam nos
sugerir que não andamos a ler nada e não estamos nem um pouco interessados com
o mundo à nossa volta. Mas estranhamente, ocorre precisamente o contrário.
Diz-nos um jornal português que, nunca andamos tanto com um livro à mão como
agora. Nunca estivemos tão à frente do mundo no quesito consumo de livros como
nesse instante. Ninguém nos faz sombra, estamos na crista da onda. Podem se
rir, achar que é tontaria, desequilíbrio, mas o fato é este mesmo, nunca tivemos
tantos livros em nossas casas como hoje. O mundo nos inveja.
Mundo estranho. Justamente quando
passamos a ser os maiores consumidores de livros do mundo amargamos estatísticas
que não condizem com um público ilustrado pelas letras. Ou vão me dizer que
acham normal não termos revistas, jornais e intelectuais pensando e dialogando
com esse mar de gente que anda a ler incessantemente? Talvez o fato de estarmos
todos enfronhados pela cultura do entretenimento e da massificação, que
rebaixou tudo ao nível das mentalidades debiloides, expliquem melhor esse
fenômeno quimérico que é o Brasil de hoje.
Não somos leitores com letra maiúscula.
Não estamos ansiosos em ler para nos encorajar a desempenhar o papel clássico
do elefante na loja de porcelana. Somos na verdade consumidores de bens
culturais que são vendidos pelos discursos persuasivos e aliciantes da
publicidade. Basta-nos que o livro nos consinta o status simbólico de posse de
algum bem, e assim ele terá cumprido o seu valioso papel de fazer-nos sentir
menos estúpidos, diante de um mundo que só reconhece o valor material e que foi convertido ao atrativo comercial sem nenhuma reserva moral.
Rogério Duarte rumo aos planetas celestiais.
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Deixou-nos ontem, três dias após
completar 77 anos de vida, Rogério -Raghunatha Dasa- Duarte, Rogerio Duarte.
Ele foi um ícone de nossa cultura. Sob sua batuta, o movimento Tropicalista
ganhou forma e cores. Foi ainda importante na criação estética dos cartazes do
cineasta Glauber Rocha.
Para mim, porém, ele significou um
verdadeiro achado. Quando li a sua belíssima tradução do venerável livro
Bhagavad Gita: Canção do Divino Mestre, que ele lançou em 1998, fui tomado por
uma experiência que alterou a minha vida para sempre.
Sua intensa luz de amor à vida e sua
sabedoria das coisas imperecíveis, ensinou-me que esse estágio da vida tem:
percalços e acidentes, assim como alegrias e prazeres, não estando nenhum
desses sentimentos acima nem abaixo, mas fazendo parte de um todo, que
precisamos aceitar e não desistir das lutas ou nos afeiçoarmos demais aos prazeres
enganosos.
"Lute apenas por lutar
sem pensar em perda ou ganho,
em alegria ou tristeza,
em vitória ou em derrota,
pois, agindo desse modo,
você, nunca pecará."Estar atento aos enganos possíveis
Foto: Rocco Morabito, The kiss of life.
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Por retratar um instante e não a
sequência de ações que a envolvem, a fotografia, por vezes, se presta a
dubiedades ou sugestões falsas. A primeira vista, a foto que ilustra o nosso
texto de hoje, pode sugerir uma ideia equivocada. O que parece ser um beijo
amoroso, entre dois homens que se entregam a luxuria dependurados no alto de um
poste, é na verdade uma tentativa de ressuscitação. “The Kiss of Life" foi a imagem vencedora do Prêmio Pulitzer de
1988. Ela foi tirada pelo fotógrafo americano Rocco Morabito (1920-2009).
Em uma manhã de 1987 quando Morabito
estava a caminho de uma pauta, encontrou a cena inusitada em que o operário
J.D. Thompson tenta salvar a vida de seu companheiro de trabalho, Randall G.
Champion após este ter recebido uma descarga de alta tensão. A imagem mostra
Thompson fazendo uma respiração boca a boca, enquanto aguarda o resgate. Essa
imagem exemplifica bem o quanto um registo fotográfico pode induzir a um erro
de interpretação quando está fora de contexto.
Em termos artísticos, a fotografia tem licença
para enganar o olhar através da sugestão de realidades falseadas. Esse é um
imperativo das expressões artísticas. Porém, quando não está a serviço da arte,
o malogro pode ser um perigoso instrumento de manipulação de desavisados, sobre
os usos possíveis de uma imagem. É preciso então, estar atento, para não ser
enganado por uma ideia falsa, sugerida por uma imagem fora de contexto ou vista
de forma apressada e julgada de modo esdrúxula, apenas por parecer que assim é,
porque lhe convém.
Feira de Caetité
Foto: Rogério Soares. Feira de Caetité, 2016.
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Tomei coragem e desci hoje ao mercado
para tirar algumas fotografias. Há tempos vinha planejando esse ensaio. Mas um
receio bobo de sair à rua, bisbilhotando a vida alheia, e mais, o temor de ser
enxovalhado por alguém que, não gostasse da ideia de ser alvo de uma lente indesejada,
foi adiando o meu propósito para bem mais tempo do que o previsto. Porém, hoje
não me contive. Corri ao mercado e tirei algumas fotos. Não me demorei por lá.
Dei apenas uma volta em torno do mercado e logo retornei para casa. A
experiência, como vocês podem ver no post, não correu lá muito bem. O resultado
não foi dos melhores. As fotos não resultaram bem, e por mais que me esforçasse
elas não passaram de clichês. Estão bem longe de atingirem aqueles pequenos
instantâneos da vida, que tornam o registro fotográfico um momento de revelação
de outros significados para as coisas. Creio que isso se deve a três fatores:
1. Tomei demasiado cuidado em solicitar as
pessoas que me autorizassem a fotografá-las. Isso teve como consequência,
indesejada, a perda da espontaneidade da foto. Ninguém diante de uma câmera age
naturalmente. Nas raras situações em que pude visualizar algo de interessante,
pruridos morais me frearam os anseios e lá fui eu pedir licença para
fotografar.
2. Não domino ainda os dois princípios
básicos para fazer uma boa fotografia: a técnica e a expressão.
3.
Fiquei demais preocupado em não fazer
figura de parvo na feira e não me concentrei naquilo que realmente queria
fazer: boas imagens fotográficas.
Mesmo não tendo alcançado bons resultados
nos registros de hoje, tomei ao menos umas boas lições e espero emendar os meus
defeitos em outras incursões. Agora estou mais atento à geometria da
composição, à luz, aos contrastes, aos pormenores e ao uso dos espaços como
parte da mensagem daquilo que pretendo dizer com a imagem. Não sendo lá grande
coisa, os registros de hoje tiveram ao menos o mérito de me ter permitido,
superar alguns temores e ainda me ter feito descobrir alguns novos elementos
possíveis na composição. Vá lá que, nem tudo foi assim, tão ruim.
Foto: Rogério Soares. Feira de Caetité, 2016.
A política nacional
O TRIUNFO DOS PORCOS.
As eleições existem para coroar o
triunfo dos porcos. Penso que essa impressão apenhei lendo Orwell ou foi em 36
anos de vida... Já não sei mais o que é literatura e o que é realidade. Sei
apenas que a afirmação procede.
À FLOR DA PELE
Penso que já vivi o suficiente para não
mais escandalizar-me com a política. Mas a política é implacável e produz todos
os dias bons motivos para nos deixar com os nervos à flor da pele.
FAUNA POLÍTICA
São tantos os nomes de animais que
qualificam o eleitorado que ao fim e ao cabo das eleições têm-se a impressão de
que chamar um eleitor de besta não se configura uma ofensa e sim um elogio.
FÁBULA
A corrida por um lugar nos gabinetes
governamentais já começou. Daqui a pouco os mais civilizados entre os nossos
deixará de pensar como gente e assumirá o seu posto de besta.
A vida em círculo
Ao ler a Odisseia,
uma obra que conta
milênios de existência,
têm-se a impressão de que
a vida sempre foi o que é:
uma sucessão de desencontros,
paixões mal resolvidas,
malogros, angustias
e lutas encarniçadas,
movida pela ambição
mais desmedida...
Rogério Soares
Grandes fotógrafos Brasileiros
Foto: Araquém Alcântara.
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A fotografia brasileira é inteiramente
dominada por um nome: Sebastião Salgado. Os trabalhos desse mineiro são obras
primas da fotografia. Ninguém parece capaz de lhe fazer frente, tamanho empenho
ele dedica às suas produções. Diz-se que ele faz fotografia como um pintor
compõe um quadro: preocupado com a harmonia e o equilíbrio das formas.
É ainda importante a atenção dada por
ele a textura dos motivos. Saltam aos olhos dos seus admiradores os
microcontrastes que surgem das imagens que ele captura. Não se perde nenhum
detalhe da imagem que Sebastião faz. Isso se deve a escolha acertada do
preto-e-branco na composição das suas imagens. O PB torna mais perceptíveis os
tons, os contrastes e os pormenores da imagem tornam-se evidentes.
Por tudo isto, não falta também quem
afirme, que ele alcançou uma qualidade em seus registros que só encontra
precedente em outros nomes maiúsculos da fotografia: Cartier-Bresson, W. Eugene
Smith... Nenhum de seus trabalhos parecem menos que perfeitos. Creio não estar
exagerando.
A excelente reputação que construiu,
tornou Sebastião Salgado um nome incontornável. Mas o que é a glória para uns,
pode bem ser o tormento para outros. Por seu gigantismo, Sebastião Salgado,
acabou por fazer sombra a muitos outros bons fotógrafos nacionais, que não têm,
como ele, a devida atenção do público, nem gozam do prestígio merecido pelos
méritos incontestes que demonstram.
Porém, ao olharmos com atenção mais
detida, talvez vislumbremos outros nomes, que se não chegam a impressionar como
Salgado, ao menos têm o mérito de nos prender demoradamente a atenção. E em
tempos fugazes, onde o mote da vida é a aceleração do tempo, não pode existir
qualidade maior no trabalho de um fotógrafo, do que este de deter o olhar do
expectador, e o capturar em horas mais alargadas de atenção sobre o objeto
apreciado.
Um desses nomes é o do fotógrafo Araquém
Alcântara. Com mais de quatro décadas de trabalho ele faz valer as horas que se
gastam em apreciar tudo o que ele faz em termos fotográficos. No site que
mantêm na internet podemos vislumbrar um pouco dos seus inúmeros trabalhos. O
que se evidência ali, além das qualidades fotográficas evidentes, são as
ocorrências de alguns temas.
Um dos seus prediletos, parece ser: as
paisagens naturais do Brasil. Isso talvez se deva ao fato dele combater
obstinadamente as agressões que põem em risco a exuberante natureza nacional. A
fotografia para Araquém confunde-se com o ativismo ambiental. Ele não esconde
que é um fotógrafo, como ele mesmo gosta de dizer, “engajado”.
Além das paisagens ele insere em suas
incursões os motivos humanos. Quando ele se volta para estes, emergem pulsantes
personagens. Todos eles são facilmente reconhecidos por nós brasileiros. Mas
alguém que não os conhecessem, também os apreciariam. Pois são expressivos e
dizem mais do que as circunstâncias geográficas sugerem. Os cenários em que
figuram esses tipos, ressaltam as regiões que formam o país uma unidade na
diversidade.
Através das lentes de Araquém
vislumbramos um Brasil que, longe dos grandes centros urbanos, vive e celebra a
sua riqueza. São fotos de enorme qualidade e mestria técnica, que nos revelam
um país, cheio de vida e de dinamismo, sobre o qual ninguém consegue ficar
indiferente. Mesmo que se tenha uma sombra encobrindo a sua presença, a fotografia
de Araquém se faz perceptível.
Foto: Araquém Alcântara.
Em vão
Hoje, queria estar a salvo do meu país
Mas ele me invade sem ao menos pedir
licença.
Bate a minha porta com violência
e estende os braços para pegar-me.
Tende paciência, em vão, lhe peço.
Não quer sabe e se precipita
E me arremessa, para fora de minha morada.
Antes, arranca-me os livros e as roupas
Tomando-me todo o meu abrigo.
Assim, com pressa, atira-me à rua
Sem querer saber se estou
Com isso em desacordo.
Pudesse ouvir-me saberia ele
Que não era esse o país que desejava.
Rogério Soares
Fotografar pessoas: os pequenos episódios da vida
Foto: Rogério Soares. Romeiros do Bom Jesus, 2015.
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Em fotografia, interessa-me pouco aqueles
temas que não estejam relacionados a pessoas. Não tenho gosto pelas paisagens,
apesar de admirar Ansel Adams. Enfada-me fotos do pôr-do-sol. São puros clichês.
As flores do campo e os montanhas silentes, não me atraem tanto que façam deles
temas de interesse. Também não encontro outra coisa a não ser tédio, nas fotos
de arquitetura. Quem consegue passar horas percorrendo as formas de um prédio e
de um interior de casa e ainda assim achar naquilo algum interesse maior do que
o mero passatempo das horas mortas. Há bem mais coisas no olhar de um homem e
nas formas de um corpo que em toda paisagem natural, ou nas figuras geométricas
de uma forma arquitetônica. Sem gente os lugares ficam vazios e pouco ou quase
nada dizem de relevante, que mereça um registro fotográfico sério. Os motivos
humanos são bem mais atraentes. Por isso os dramas humanos em suas múltiplas facetas
produzem melhores temas para a fotografia. Mas quem escolhe esse tema, deve
estar atento ao fato de que, fotografar pessoas é, acima de tudo, uma atividade
que requer muito bom senso. Sei bem dos riscos da natureza da abordagem desse
tema. Estar-se sempre correndo o perigo de que as pessoas que você fotografe
não gostem da ideia de ser flagrada em sua privacidade. Por certo, existem boas
razões para as pessoas manterem a intimidade de suas vidas resguardada de
olhares bisbilhoteiros. Por essa razão, sempre que vou fotografar alguém, ou
mesmo depois de já ter feito a fotografia, (são sempre tentadores os temas
inesperados) peço à pessoa que me autorize a fazer o registro ou que me
licencie a foto, depois dela feita. Caso elas recusem - algumas vezes isso acontece
- respeito as vontades e apago na frente da pessoa o registro indesejado. Em
outras ocasiões as pessoas recebem bem a proposta e se mostram muito dispostas
a serem fotografadas. Ocorreu isso ao fazer a foto desses simpáticos romeiros
mineiros que estavam de visita ao Santuário do Bom Jesus. Eles me contaram que
há décadas visitam a cidade e trazendo consigo, como acompanhante dessa
jornada, as suas distintas senhoras. Na ocasião da foto eles já havia visitado
o Santuário e entregue ao Bom Jesus as suas preces. Como fazem, em todas as visitas,
depois de cumprirem os seus votos sagrados, eles partem para o primeiro bar que
encontraram, para desafogar o desejo de provar outras riquezas da terra
sagrada. Foi lá que eu os encontrei. Alegres e descontraídos eles me pareceram
bem mais jovens do que as imagens da foto depois me sugeriram. O registro dessa
foto me fez pensar que: Fotografar pessoas é extremamente gratificante e
enriquecedor. Há uma vida e uma história por trás da foto. Há uma singularidade
nela que mesmo imperfeita a torna valiosa. Além do maior interesse em pessoas o que me
atrai, neste tipo de fotografia, é o desafio que ela constitui: não é fácil, do
ponto de vista técnico, obter o efeito necessário para que a imagem resulte
bem. As fotos de pessoas, diferentes de paisagens inócuas, requerem do
fotógrafo uma maior atenção àqueles que deseja registrar. Por todos esses
motivos e muitos outros gosto de fotografar pessoas e pequenos episódios da
vida.
Uma aventura inesquecível
Hoje 2 de abril comemora-se o dia
Internacional do Livro Infantil. Nas mãos dos pequenos o livro se torna o
primeiro transporte de uma aventura que eles jamais esquecerão. Das leituras
apanhadas na infância, os miúdos aprenderão as lições que podem desvendar os
caminhos mais seguros na jornada pela vida. O bom livro literário oferece ao
pequeno leitor a possibilidade de satisfazer a sua criatividade, fertilizar a
sua imaginação e animar os impulsos de aventura que os fazem reconhecer o mundo
como a morada de todos. A leitura aproxima a criança e o jovem à vivências e saberes
que expandirão sua visão de mundo para além dos horizontes domésticos. A
leitura abre com isso horizontes possíveis e instiga visões alternativas das
realidades dadas. Ela faz com que as crianças interroguem, questionem,
comparem, avaliem... Ler ainda é divertido. São nas horas com o livro que
partilhamos os melhores momentos de nossas vidas. Felicitações a todos os
profissionais do livro que fazem as alegrias de crianças de todas as idades.
Declaração de princípios.
Desculpem-me os partidos, as seitas, os
lóbis, os templos, os ideólogos, os deuses, os mitos (inclusive os de pés de
barros e de poucos dedos) mas declaro-me, absolutamente indisponível aos seus
apelos. Antes de vocês eu já havia sido seduzido pelas artes, senhora absoluta
de minhas vontades.
Quando a fotografia não acontece, isso me deixa mal.
Foto: Rogério Soares. Cavalhada na Agrovila 07, Serra do Ramalho - 2015.
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Desde que comprei uma câmera passei a
ver dezenas de oportunidades fotográficas à minha volta. Há sempre bons motivos
fotográficos espreitando-nos por aí. Dia desses, por exemplo, enquanto
aguardava o carro para o trabalho, vi um senhor encostado a uma árvore, aí o
imaginei em mil ângulos. De pronto me veio à mente: Por que não ando com a
minha máquina a tiracolo? Estava ali uma boa fotografia que não aconteceu. Isso
deixou-me mal. Penso que o mesmo se passa com os poetas, os romancistas, ou
qualquer um que vive da arte mimética. Os dados da realidade sugerem sempre
outras possíveis realidades, que se escondem atrás das aparências, e são tão ou
mais interessantes do que a realidade imediatamente percebida. Quando essas
realidades se descortinam a nossa frente e não estamos com uma máquina à mão
temos mesmo bons motivos para nos recriminarmos por isso.
São sem conta o número de novos extremistas
Bosch. A Parábola dos Cegos (1568): Essa
tela é uma alusão ao Evangelho de Mateus 15:14 "Deixai-os: são condutores
cegos: ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova."
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Quando surgiram no face levantes
contra os discursos de saudação ao retorno da ditadura, achei exagerado. Não
quis acreditar que existisse alguém capaz de cogitar a hipótese, de ter no
governo, homens de coldre na cintura. Achei que eram poucos e insignificantes
as vozes que se alevantavam pedindo o injustificável. E por isso era dispensável
perder tempo com eles. Estava errado.
Não eram exagerados os levantes e nem poucos os extremistas. Há sim, mais e mais, quem simpatize com os imoderados e ande de mãos dadas com os imorais que fingem
inocência histórica. Por todos os lados, as bestas ganham adeptos e seguidores,
e uma legião de cegos, levados por embusteiros, seguem prazenteiros rumo ao
abismo.
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