Se de Rudyard Kipling

Se

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu filho!



"If", de Rudyard Kipling; tradução de Guilherme de Almeida. Em tempos nebulosos, onde palácios de governos se confundem com lupanários, e onde políticos estão absolutamente disponíveis para negociatas as abertas, If, de Rudyard Kipling restitui-nos a grandeza humana apostando naquilo que ela tem de mais honrosa: A persistência em novas atitudes , mesmo ante tão maus exemplos.

Economês

Ontem os jornais anunciaram que a taxa de juros selic caiu 0,25 pontos percentuais. No mesmo dia, os membros do maior cartel do mundo (que também atende pelo nome de OPEP) foi à imprensa anunciar a redução da produção de petróleo, com o intuito de ajudar as economias dependentes da exportação desse produto, aumentarem as suas receitas. Não entendo economês, mas jurava que todos esses anúncios na imprensa, pelo ar de contentamento dos apresentadores, sugeriam que a engrenagem da economia estava sendo, finalmente, azeitada com óleo e não com arreia. Desejoso de comprar um livro saltei do sofá e corri à internet. Se a economia vai bem os livros devem estar uma baba. Ledo engano. O entusiasmo dos economistas não se refletiu no ânimo das lojas virtuais. Imagina que um livro que namoro há dias saia da loja na semana passada por 9,90 mangos. Ontem o mesmo livro estava por 35,94 mirréis. Hoje o livro só sai da loja pela assustadora quantia de 44,93 dinheiros. Não adianta a taxa de juros caírem, os carteis acenarem com boas notícias, ninguém está acreditando mais nos gurus de Wall Street. O resultado disso tudo é que a estante lá de casa vive reclamando orfandade dos livros.


O Brasil que envegonha

OS DEPUTADOS NESSA MADRUGADA DESCONFIGURARAM E SEPULTARAM DE VEZ AS MEDIDAS PROPOSTAS PELA POPULAÇÃO DE MORALIZAÇÃO DA POLÍTICA. VEJAM O QUE FOI REJEITADO:

1. A tipificação de crime de enriquecimento ilícito de funcionários públicos;
2. A ideia de tornar a prescrição de crimes mais difícil;
3. A facilidade de retirar os bens adquiridos com atividade criminosa;
4. A instituição do chamado “delator do bem” (pessoa que garantia uma recompensa por entregar autoridade envolvidas em crimes);
5. Outras medidas suprimidas foram as sugeridas pelo MP de endurecimento da Lei de Improbidade e da possibilidade de cassação do registro e de punições mais severas a partidos e dirigentes que cometeram crimes graves;

O QUE FICOU:

1. A criminalização específica do crime de caixa dois

2. Inclusão de alguns crimes na categoria de hediondos, caso o valor desviado supere R$ 8,8 milhões

O povo cubano

Fotos: Peter Turnley - Cuba.

A morte de Fidel, ocorrida na última semana, mobilizou, como era esperado, um mundo de emoções. Os meus amigos do Face refletiram bem os humores que veem à tona, quando em causa estar o lugar de Fidel e da revolução na história.

Uns deram graças pela morte do comandante. Outros lamentaram.

Do que pude perceber dos discursos foi que: A estima ou o repúdio expressado pelo comandante eram todos motivados por posicionamentos caolhos do pensamento ideológico. É triste que assim seja.

As ideologias, apesar dos floreados, do rococó discursivo ou de possíveis subtilezas maneiristas, não passa de ser o que é: um ladrar sobre coisas que estão de acordo com aquilo que a sua cartilha ideológica permite dizer.

Não quero polemizar com os amigos se Fidel tinha ou não razão em dar lugar ao pensamento único e ao arredamento dos ideais democráticos. Por isso guardo comigo o que penso dele.

Foco atenção hoje no povo que é o que de melhor existe em Cuba. E penso que sobre este deve haver alguma unanimidade que permita que um post não se torne um campo de batalha apaixonado, cujo resultado não é outro senão, o aumento de tensões desnecessárias entre pessoas que se tivessem em outra situação teriam, com certeza, bons motivos para se tornarem fraternos amigos.

E quem melhor pode revelar um povo senão a fotografia.

Recentemente, descobri uma série de fotos feitas por um fotógrafo americano que nos faz pensar a ilha pela perspectiva de sua gente.

Os registros são simplesmente deslumbrantes. Nele quem esperava ver um povo moribundo e enfunado em suas queixas, espantasse com o registro de Cuba irradiante de cores, luz, alegria e altivez.

Estas fotos faz pensar que, talvez os ocidentais avaliem a liberdade pelo conceito que têm dela mesma, e não sobre a ótica de outra realidade histórica.

P.S. Todas essas fotos foram obtidas na Internet. Todas as que forem objeto de direitos de autor, e a tal publicação o seu titular se oponha, serão removidas imediatamente por mim assim que receber qualquer notificação.



Seu Helvércio

Remanescente da comunidade de Rio das Rãs que vive hoje em Serra do Ramalho. O Senhor Helvércio nasceu e se criou numa fazendo na região do Rio das Rãs. Tanto ele como os familiares serviram a vida inteira ao Coronel Deocleciano Teixeira que em inicio do século XX estabeleceu o controle sobre as terras da região do Rio das Rãs e manteve sobre o seu domínio remanescentes quilombolas como agregados. Os conflitos que se iniciaram na década de 70 entre posseiros, grileiros e remanescentes, precipitou a saída de Seu Helvércio do Rio das Rãs, onde era vaqueiro, para Serra do Ramalho região que na ocasião, passava por uma ampla reforma de distribuição de terras. Hoje seu Helvércio é pescador. No dia em que o encontrei (27 de novembro de 2016) ele tecia a rede que em breve voltaria a lançar no Rio São Francisco, depois de ter cumprido o período de defeso. O Seu Helvércio é um sobrevivente. Primeiro dos desmandos dos coronéis da região, depois das disputas de terra e por fim das precárias condições de vida impostas pela desigualdade social que impera no nosso país.

FIDEL CASTRO.


Em fins dos anos 50, Fidel Castro e seus companheiros pôs o mundo a sonhar. A sonhar com uma sociedade livre e igualitária. Em parte ele concretizou o seu grande plano.

Por décadas Cuba se orgulhou de não ter uma única criança mendigando na rua ou viu as suas mulheres terem que se prostituirem, como faziam no antigo regime, para sobreviverem.

Ainda hoje Cuba é uma referência para o mundo, quando em causa está o respeito a alguns direitos da sociedade. Cuba foi o primeiro país das Américas a erradicar o analfabetismo. Nem mesmo o EUA chegou perto disso. Recentemente a ONG Save the Childre divulgou dados que mostram que Cuba é o melhor país da América Latina para se nascer uma menina.

Os cubanos sobre o regime de Castro viveram tempos de prosperidade. Porém, no meio do caminho, o sonho se tornou um pesadelo.

Para algumas centenas de milhares de pessoas, o regime representou o que de pior poderia haver em matéria de política.

Estima-se que El Comandante mandou ao "el paredón", cerca de 17 mil desafetos. Alguns atribuem estes revezes, as tentativas de Washington de frearem o empenho de Castro em levar adiante as reformas sociais que possibilitariam melhores condições de vida ao seu povo.

Não podemos perder de vista que, após as relações com Cuba azedarem, dois anos depois da Revolução, o governo Americano se empenhou em deter a escalada cubana rumo à autossuficiência econômica e política.

Sobre a influência de Washington, dissidentes do Regime Cubano armaram, por muito tempo, atentados contra Cuba. Criaram rádios em Miami para influenciarem a população cubana e chegaram ao cumulo de fazerem sobrevoos nas plantações de tabaco nas fazendas campesinas, para inviabilizarem a economia do tabaco na ilha.

A Revolução venceu todos as tentativas de sabotagem. Até que Washington deu a última cartada. Impôs sobre a ilha um embargo econômico que impede que países comercializem com o regime. As consequências dessa medida Cuba e seu povo sentem até hoje.

Agora que a notícia da morte de Castro chega aos jornais do mundo, a pergunta que todos se fazem é: O que será de Cuba sem a presença de seu grande símbolo?

Vida Interior


O ator britânico, Richard Burton, famoso por interpretar do cinema personagens fortes e fora das telonas, pelo comportamento autodestrutivo e pelo conturbado relacionamento com Liz Taylor, escreveu durante muitos anos um diário.

Nos escritos saltam aos olhos os relatos do gosto pessoal do ator pela literatura.

São raros os dias em que ele não anota estar lendo um livro, visitando livrarias ou planejando a compra de exemplares para as próximas férias.

Numa das entradas do diário há uma curiosidade. Burton sempre que visita os amigos procura saber onde fica a biblioteca na casa do anfitrião.

Ao ser convidado por Frank Sinatra, para um fim de semana em sua mansão em Nova Iorque, Burton ficou chocado com a quantidade e a qualidade dos livros na sala de estar do velho filho de imigrantes pobre da Itália.

Mais tarde conversando com um amigo Burton veio a saber que Sinatra nunca visitou a biblioteca de sua residência.


Todos aqueles livros eram peças de decoração. Os velhos olhos azuis gostava de outro tipo de passatempo.

Um primor de foto


Foto: Claudio Rasana: Katlehong Matsenen 2016 from the series Similar Uniforms.

O prêmio Taylor Wessing, atribuído pela National Portrait Gallery de Londes foi este ano para o suíço Claudio Rasana. A fotografia laureada é um primor de registro. Alguns poderão dizer, mais o que esta foto tem de tão especial que mereça ser destacada com um prêmio? Essa pergunta acontece sempre. Eu mesmo já ouvi inúmeras vezes muita gente inteligente perguntar o que pode ter de especial uma foto. Isso ocorre, penso eu, porque estamos mal acostumados a imaginar na foto no que ela tem apenas de aparente, e não naquilo que ela tem se sugestivo.

Num contexto de uma sociedade que tudo quer enquadrar, alinhar e uniformizar, a foto de Rasana sugere, através do olhar de atitude inquieta do rapaz e da gravada desmazelada, um desalinho com as normas que impõem homogeneização às individualidades. Está aí o quê de especial na foto. Ela demonstra o inconformismo e o desalinho com as convenções que tenta nos impor vontades. O indivíduo revela-nos a foto de Rasana, prevalecerá sempre, a despeito das tentativas de uniformização.



O indiferença dos vereadores de Caetité ou como os homens exercem seus podres poderes

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Olhando displicentemente pela janela do meu apartamento vejo, uma paisagem que era rara há alguns anos. Espalham-se pelo horizonte placas de ALUGA-SE nas casas, prédios e imóveis, até aonde minha vista pode alcançar. Não sou nenhum economista. Tenho certa dificuldade em operar os números. Mas imagino que esse cenário sugere uma desidratação na economia local. A debandada das empresas com contingentes enormes de homens também deve ter afetado os cofres públicos. As razões são óbvias. Por sua vez esses reveses também devem ter atingido de forma negativo o comercio – grande fonte de recursos tributários para o município. Como são praxe nessas ocasiões, os patrões, pensando na saúde financeira de seus empreendimentos, devem ter cortado a um número mínimo os seus funcionais. O impacto dessa desaceleração deve ter atingido todo mundo. Porém, aos vereadores de Caetité não é suposto que estejamos vivendo um momento que pede dos políticos serenidade e respeito, além de ações eficientes no estancamento dessa sangria econômica. Com menos de um mês após as eleições, com uma desfaçatez nunca antes vista, eles têm a cara de pau, em meio a esse cenário de terra arrasada, votarem um aumento salarial vultoso que contempla única e exclusivamente os seus próprios interesses. Alguém aí avise aos digníssimos senhores do legislativo que há uma crise em curso no país e que ela está vitimando gente. Ou eles pensam que ainda estamos no período das vacas gordas? Saiam de seus gabinetes excelências.

A farra com o dinheiro público

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Imaginem que em meio a uma crise sem precedentes no país, os vereadores de Caetité votaram, em sessão pra lá de controversa, um aumento vultoso em seus já nababescos salários. Fazem isso, enquanto estoura demissões de trabalhadores no município feito pipoca na panela quente. E em vez de ajudarem o povo a superarem essas dificuldades, os digníssimos vereadores preferem agirem em causa própria. Dão assim um vergonhoso exemplo de como são insensíveis aos dramas de pais e mães, que têm que conviverem diariamente com o terror do desemprego. Viram as costas àqueles que deveriam defender e mostram-se sem vexame diante da situação financeira do município. Sinceramente senhores, vocês não são dignos do posto que ocupam.

Uma nova descoberta.

Depois que ingressei no Instagram descobri um mundo novo para fotografia. Nele encontro todos os dias o trabalho de grandes mestres. O mais recente achado foi o trabalho do Americano Alex Webb. São surpreendentemente simples e belas as suas imagens. Elas me fizeram pensar as minhas próprias imagens, com tudo o que tenho ainda para aprender. Por exemplo, percebi com ele que, devemos dar a máxima atenção às sombras na composição de uma foto, quando se quer extrair dela mais do que um simples registro banal. E mais, é possível contar diversas histórias em uma única imagem, tomando o devido cuidado e mantendo a sensibilidade, para não poluir demais a foto com motivos que não estejam em equilíbrio.

Antônio Carlos Viana


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Téo Júnior me acordou hoje com a triste notícia, de que aquele que tantas vezes nos foi o motivo de encontros felizes, nos deixou hoje. Partiu o escritor sergipano Antônio Carlos Viana. Embora ele não tenha sido um escritor de grandes multidões, assim mesmo deixou-nos um conjunto de contos que, se mostram indispensáveis a quem queira apanhar, mais do que sorrisos bobos com a literatura. Além de seu legado literário, ele também nos deixou o bonito exemplo de uma vida dedicada à docência. Ainda enquanto buscava um lugar ao sol na literatura, Viana passou a vender, na frente de uma escola, cachorro-quente, para conseguir o dinheiro e o tempo que o permitisse fazer o sonhado curso de letras. Nos intervalos de atendimento, entre um cliente e outro, ele lia, incansavelmente, todos os grandes mestres da literatura e assim se preparava para o cumprimento de seu tão desejado sonho. Hoje que se comemora o dia do professor e os professores reclamam direitos e o governo manda sobre eles os cães como se de vulgares bandidos se tratasse, quis o destino que o melhor de nossos exemplos de resistência e luta deixasse-nos. Chora assim duplamente a literatura que perde um de seus melhores mestres e a docência que deixa de contar com a mais digna das vozes de oposição ao descaso. Descanse em paz Antônio.

Sobre a proibição da vaquejada pelo STF

É interessante a leitura da discussão. Nela percebemos que ainda albergamos em nós o pensamento evolucionista, que se pauta na ideia de que antes vivíamos num estágio inferior e agora, com as novas práticas subimos um degrau na evolução. Penso que isso é muito pretensioso. Mas é comum. Ensina-nos a história, que as comunidades de um determinado tempo se acham acima das demais e se sentem superiores as que a antecederam.

Se as práticas culturais existem, isso se deve ao fato de que elas servem para cumprir, em determinadas comunidades, papeis simbólicos que permitem a sobrevivência dos grupos sociais a ela vinculadas. Não se trata de primitivismo.

Além disso, falamos com desprendimento dos costumes alheios como se parte dele fizesse, e por isso podemos condena-los e inferiorizá-los. Agiram de modo semelhante os primeiros antropólogos que visitaram uma comunidade no pacífico que mantinha, aos olhos dos expedicionários, uma prática primitiva de confecção de totens. 

Cada agrupamento da ilha mantinha um totem como símbolo de seu grupo. Um era peixe, outro era ave... O tabu imposto pela tradição impedia que homens de um determinado grupo tivessem relação com as mulheres que cultuavam o mesmo totem. Logo, os doutos cientistas sociais, querendo integrar aqueles homens “primitivos”, num novo mundo, onde as superstições haviam sido abolidas, se encarregaram de destruírem os totens. 

Marcel Mauss vai dizer mais tarde que aquela intervenção precipitou o fim da comunidade. Os totens de vários grupos tinham funções de evitar os laços consanguíneos, que numa comunidade pequena era a salvaguarda contras as doenças, porque agia para fortalecia a variação genética que permitia a perpetuação dos vários grupos. 

“Não há”, dizia Claude Levi-Strauss “costumes que sobrevivam sem motivos”. As práticas de uma determinada sociedade, por mais brutais que pareçam, servem a propósitos comunitários e sociais, que nem sempre percebemos a razão. Essas práticas estão quase sempre associadas à ideia de iniciação. Creio que não compete a nós dizer aos outros os que são melhores. 

“Nas sociedades primitivas”, escreveu Joseph Campbell “dentes são arrancados, dolorosas escarificações são feitas, há circuncisões, toda sorte de coisas acontecem, para que você abdique para sempre do seu corpinho infantil e passe a ser algo inteiramente diferente. Quando eu era criança, nós vestíamos calças curtas... calças pelos joelhos. E chegava então o grande momento em que você vestia calças compridas.” 

As mutilações fazem parte de ritos de iniciação que integram as crianças ao mundo dos adultos. As mutilações têm portanto uma função, não são meros atos bárbaros. Em nossa sociedade os ritos de passagem foram abolidos ou edulcorados, não ajudam mais as pessoas a se “relacionar com o mundo, ou a compreendê-lo, para além do meramente visível.”. O resultado é que as crianças, escreveu Campbell, não sabem que já são homens e precisam abandonar as criancices. Crescem como os jogadores de futebol, infantilizados e imaturos. Ou como as madames, presas da propaganda cosmética, que iludem as velhinhas com a promessa da eterna juventude. 

No extraordinário ensaio sobre a arte da tauromaquia, o antropólogo francês Michel Leiris, diz que o espetáculo brutal da luta do homem contra o touro na arena ocupa aquele lugar de revelação de experiências cruciais que esclarecem partes obscuras de nós mesmos.  A luta e a matança do touro opera desse modo uma purgação que aplaca os picos de febre sem que o homem tenha que recorrer, para se exteriorizar, seja a uma via explosiva, seja a um disfarce utilitário ou racional das vias reais. 

“Mas em nossos dias”, escreveu o antropólogo, “não é mais possível encontrar escape confessável para tais impulsos... Daí o tédio, a impressão de vida castrada, a tal ponto que, aos olhos de alguns, as conjunturas mais catastróficas podem parecer desejáveis, uma vez que ao menos teriam o poder de colocar em jogo a totalidade de nossa existência.”. 

Trouxe esses exemplos de "brutalidade" cultural para mostrar que eles existem por que cumprem funções nas sociedades que as criaram. Aboli-las, pareceriam a nos que não fazemos parte dessa realidade, a coisa mais sensata a se fazer. Porém, isso implicaria um dano a elas que ameaçaria a sua sobrevivência. Como aconteceu com as comunidades do pacifico que foram vítimas das melhores intenções ocidentais. 

Temos que ter cautela ao nos pronunciamos sobre realidades que nos são “estranhas”. No campo cultural o que nos parece insensato funciona muitas vezes, como uma peça da grande engrenagem que sustenta um todo social. 

A vaquejada, que alguns dizem querer não ter existido, cumpriu um importante papel na consolidação e expansão da interiorização do país. Ajudou a criar e diversificar as manifestações culturais a ela vinculadas e esteve presente nos processos de socialização dos grupos migratórios que foram tangidos de seus lugares para outros. Reunidos entorno de uma prática comum os nordestinos dispersos pelo país encontraram na vaquejada um elemento de socialização que lhes garantiu por muito tempo a resistência cultural. 

Isso posto é preciso dizer também que não se pode ignorar o fato de que novos tempos pedem respondas diferentes às necessidades sociais. Hoje já não se tolera tanto a brutalidade. Além disso, talvez a vaquejada não seja mais tão importante ao conjunto da sociedade que a sustentou por tanto tampo. Cai-se então a resistência e a importância que ela tinha para tantos. Novas necessidades impõem-se. Outras vozes não contempladas pela cultura do couro de boi e do vaqueiro também pressionam pelo fim de uma cultura que representa os padrões de uma sociedade que urge ser alterada as suas fronteiras.  

Contos Folclóricos Brasileiros - Marco Haurélio



CONTOS POPULARES DO SERTÃO DA BAHIA

RESENHA

HAURÉLIO, Marco. Contos folclóricos brasileiros. São Paulo: Paulus, 2010. 144 p.

Por Rogério Soares Brito[1]

Em todas as épocas os homens sempre encontraram bons motivos para ouvir ou contar histórias. As tradições populares, através de suas variadas manifestações culturais, encarregaram-se de manter vivas as inúmeras histórias que há tempos persistem no imaginário e são constantemente recontadas na forma de lendas, fábulas, contos, parábolas e histórias fantásticas.

Ecos de tempos passados, muitas histórias encantadoras e maravilhosas, que habitam o imaginário popular, têm sido exaustivamente estudadas por pesquisadores, historiadores, psicanalistas, além de inspirarem os trabalhos de escritores, como os irmãos Grimm, grandes coletores de contos, Charles Perrault, Jean de La Fontaine, Hans Christian Andersen, Monteiro Lobato entre outros. Marca indelével da cultura popular, a literatura oral segue o ritmo da espontaneidade do povo, suas crenças, tradições e festas.

Muitos foram os coletores de contos populares ao longo da história; seus enredos exóticos e personagens misteriosos despertam a curiosidade e a simpatia de um público variado, que não consegue ficar indiferente a essas narrativas. Só para ficar no Brasil, essas narrativas populares foram o foco de interesse de grandes estudiosos da cultura popular, entre eles estão Sílvio Romero, Amadeu Amaral, Aluísio de Almeida, Câmara Cascudo, Henriqueta Lisboa e outros. Porém, esses não são os seus criadores, elas são criações do povo, manifestações genuínas das capacidades criativas de populações historicamente marginalizadas.

Esse trabalho de pesquisa ou de recolhimento das narrativas populares nunca foi pacífico. Alguns estudiosos modificaram um pouco os relatos que coletaram. Outros simplesmente ignoraram os valiosos e exemplares conselhos contidos nas histórias e, por excessivo brio religioso, social ou político, resolveram mutilar os contos, caso do padre francês Antoine Galland. Responsável pela tradução da obra As mil e uma Noites para o Ocidente, ele interferiu diretamente na tradução ao deixar de fora inúmeras narrativas. Acreditava assim preservar as consciências religiosas das imoralidades que se ocultavam em várias histórias contadas pela princesa Cheherazade.

Todavia a literatura oral segue viva e conquistando mais e mais leitores, além de continuar atraindo o interesse de outros pesquisadores, caso do poeta, editor e folclorista Marco Haurélio, nome de prestígio no campo de estudo da cultura popular brasileira. Marco Haurélio tem atuado na linha de frente das ações de valorização e preservação da herança cultural do nosso povo, pesquisando, escrevendo e divulgando essa tradição através da literatura de cordel e de livros infantojuvenis que abordam sempre os temas da cultura popular.

Natural de Riacho de Santana, Bahia, esse jovem escritor, que em julho completou 36 anos, recolheu, entre os anos em que viveu na cidade vizinha a sua terra natal, Igaporã, enquanto cursava Letras na UNEB/Campus VI (Caetité – BA) e lecionava numa escola pública do ensino básico, uma centena de contos populares, lendas e fábulas, colhidas direto da fonte mais preciosa, as vozes de anciões sabiamente nutridas pela tradição popular.

 Abertura da seção Contos de encantamento ou maravilhosos (ilustração de maurício Negro)

O seu mais novo livro, Contos Folclóricos Brasileiros, editado pela Paulus e ilustrado por Maurício Negro, é fruto desse trabalho de pesquisa da cultura popular, que desde cedo seduziu o autor. O livro não traz na íntegra todas as histórias recolhidas pelo autor durante o período em que viveu em Igaporã, mas apenas algumas das narrativas, coletadas entre as cidades de Serra do Ramalho, Bom Jesus da Lapa, Riacho de Santana, Igaporã, Caetité e Brumado.[2] Esse primeiro trabalho será ampliado num segundo livro, que além dos contos terá lendas e fábulas. Esse segundo trabalho está com data prevista ainda para este ano, e sairá pela Nova Alexandria, editora onde o autor trabalha como editor desde que saiu da Luzeiro, tradicional casa editorial de grandes cordelistas.

Nascido em uma família de trabalhadores rurais, Marco Haurélio ouviu, desde a mais tenra idade, de seu pai e de sua avó Luzia Josefina de Farias as deslumbrantes lendas, aventuras, cenas de amores e lutas religiosas, narradas saborosamente à luz de candeeiros movidos a querosene. Desse imaginário cheio de exotismo aprendeu as mais ricas e belas lições da vida em toda a sua maravilhosa diversidade. Dessas vivências é que ele tira a substância para os seus trabalhos, sempre associados ao universo da cultura e das tradições populares.

Com 36 contos, as narrativas contidas nesse livro abordam uma variedade de temas. Vão dos contos de animais em que os personagens, à moda das fábulas, personificam ações humanas, com fim moralizante, passando dos contos maravilhosos ou de encantamento onde as narrativas se desenrolam através das aventuras de personagens na busca de realizações emocionais, até, como é próprio da tradição cultural popular, narrativas com motivos religiosos, inspiradas nos evangelhos.

Outros temas, como os contos novelescos ou de amor e recompensa, contos jocosos ou humorísticos, contos de fórmula ou acumulativos e os contos de exemplo, completam a recolha. Os amantes das histórias dos irmãos Grimm e os leitores de Perrault reconhecerão de pronto os motivos de várias narrativas que aqui foram reincorporadas à tradição cultural do Nordeste. Uma característica dos contos populares é que eles podem sofrer transformações ao longo do tempo, porém sua essência é a mesma de um conto remoto, contado em época e lugar completamente diferente. Isso pode ser exemplificado pela máxima popular que diz: quem conta um conto aumenta um ponto.

Objetos de entretenimento, distração despretensiosa, são muitos os usos que se pode dar a essas histórias. O certo, no entanto, é que as várias narrativas presentes no imaginário popular, e agora reunidas nesse fabuloso trabalho, servem-se do extraordinário e encantatório, presentes nas histórias, como adereço à instrução dos homens, de todas as idades. A sabedoria contida no conto popular é capaz de levar o homem, nas palavras de Heinrich Zimmer, grande estudioso das culturas antigas, a uma consciência de si próprio, suas potencialidades, bem como ao reconhecimento de seus limites.

Despretensiosos em sua linguagem, os contos recolhidos e recontados por Marco Haurélio seguem fielmente os falares populares, tão variados e expressivos. Sem prejuízo ao entendimento do conto, ou ao trabalho de verter das fontes orais, cheias de redundância, para a escrita os vocábulos próprios e as expressões típicas dos contadores, os contos recolhidos aqui preservam as nuances idiomáticas que caracterizam a fala do povo. Veja-se um exemplo: no conto São Pedro e a questão das almas, a certa altura se lê “São Pedro foi o santo mais teimoso e arteiroso que já existiu...”. Arteiroso, expressão singular do vocabulário nordestino, aqui preservada. Familiarizados com essas expressões, os nordestinos, principalmente os da região onde foram recolhidos os contos, não encontrarão qualquer dificuldade em entender o significado da palavra. Os leitores de outras regiões terão o auxílio de um rico glossário atentamente preparado para desbaratar qualquer dúvida quanto aos significados regionais que abundam nos contos. Nele podemos ler: Arteiroso, sinônimo popular de teimoso e, em alguns casos, de inteligente.

Fonte inesgotável de saberes, os contos populares, assim como as lendas e fábulas, são criações inspiradas de civilizações antigas com o mais elevado propósito: corrigir quando parecem incorrigíveis as malversações, alertar quando os sinais ainda não são totalmente visíveis, fazendo vivos erros que, de tão graves e grosseiros, não deveriam tornar a se repetir.

As distrações que eles promovem, não escondem as mensagens profundas que são encenadas por animais e outros seres mágicos, a fim de divertir, entretendo. Jean de La Fontaine, autor francês que modernizou as fábulas do grego Esopo, quando falou a respeito do propósito de suas fábulas, disse: “Sirvo-me dos animais para instruir os homens”.
Os contos populares estão ricamente espalhados por todos os lugares do mundo. Migrando de região em região, reincorporam elementos sempre novos das várias civilizações por onde andaram. Puro alimento espiritual de um sem número de povos que, em sua maioria, já não existem, mas que permanecem vivas, através dos tempos, como testemunhas de épocas remotas, essas narrativas tradicionais encontraram pouso tranquilo e morada segura nos rincões “carrascosos” do Brasil, e aqui persistem, graças aos esforços e ao trabalho de homens como Marco Haurélio.

Essas histórias guardam íntima relação com aquilo que chamamos de identidade de um povo. Se elas desaparecerem, parte significativa da memória, sabiamente abrigada por anos no seio de corações ardentes, some, e com ela, o registro dos hábitos e costumes que compõem as tradições populares, elo entre o passado e o futuro de uma nação, também desaparece. Estímulo às consciências, leitura prazerosa, os contos contidos nesse saboroso livro entretêm, ensinando. Passatempo divertido, os contos populares também servem de pretexto para reunir os amigos e a família numa roda descontraída de leitura onde a imaginação cavalga por terras distantes.

Publicado em: Crítica & Debates, v. 1, n. 1, p. 1-4, jul./dez. 2010

[1] Professor Auxiliar do curso de Letras da UNEB/Campus VI. Especialista em Literatura Comparada em Língua Portuguesa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC / 2008).


[2] Cidades baianas localizadas na região Sudoeste do Estado.

A estupidez

Foto: Retrato de um índio com o nome de Big Head, de 1905. (Biblioteca de S. Curtis Congresso / Edward)

Os Estados Unidos exterminou a sua população nativa em poucos anos de povoamento. Não contentes com a destruição física há anos investe na associação da memória de seus nativos às piores armas mortíferas de seu apocalíptico exército. Assim surgiu o míssil TOMAHAWK e o helicóptero BLACK HAWK. O que a intolerância não destruiu a estupidez não perdoa.

O munda infantil dos artistas espanhóis



Que mundo maravilhoso e enigmático não era aquele dos artistas espanhóis. Cheio de cores, formas inusuais, gestos inaugurais e traços surpreendentes. Mas o mais curioso ao pensar nos maiores artistas espanhóis do século XX, é perceber o quão distante, sua arte, muitas vezes parece estar daquele sentimento corrente, que associa o espanhol à figura do machão.

Quem ao vislumbrar esses trabalhos de Gaudí, Miró e Picasso, respectivamente, não encontra neles um quê de infantil, primitivo e rude no sentido inábil, frequentemente atribuído à criança que ensaia livremente a representação do mundo?


Mesmo Picasso, protótipo da fama espanhola aqui, quando expõe sua masculinidade na face feminina, (observem bem o rosto da figura) parece o fazer como uma daquelas crianças que pixa as portas dos banheiros incessantemente com a mesma figura.


Sem trégua. O país está em ebulição. Para os dias a fervura só aumentará.

Li nas redes sociais a seguinte nota do escritor Fernando Morais:

"Anos atrás recebi do então governador de Brasília Cristovam Buarque o "premio manuel bonfim", atribuído ao meu livro "Chatô, o rei do Brasil". Já pedi à Marília para localizar a placa de prata. Vou devolver. de golpista não quero nada. Nem prêmio".
Minha resposta ao Fernando Morais:

"Fernando Morais mostra como para o PT não há diferença entre partido, governo e estado. Não fui eu que dei o prêmio, foi o Governo do DF, selecionado pelo mérito de seu maravilhoso livro. Mas ele acha que foi uma bolsa-escritor. Porque, para ele, não há diferença entre partido-governante-governo-estado.


Que pena que nossos gênios estejam tão obtusos. E tão viciados no aparelhamento. O PT corrompeu mais do que a política, corrompeu a inteligência e o caráter. E aos poucos vão mostrando que a volta da Dilma por mais dois anos, com essa gente, vai embrutecer o País e seguir se apropriando do Estado. Pior que não tem juiz Moro para este tipo de roubo: da inteligência e do caráter. Ele não falou em devolver os dez mil que recebeu do prêmio. Na época eram dez mil dólares. Nem o que ele fazia no governo do Quercia".

Lições Americana



Dizem que as bibliotecas nas universidades americanas funcionam 24 horas por dia. Mesmo que ninguém esteja nelas, elas lá estão esperando quem queira delas tirar proveito. Há anos os americanos descobriram aquilo que a gente parece distante de saber; que bibliotecas não são lugares para depósito de livros. Depois da revolução feliz que foi a criação da rede de bibliotecas públicas que mudou o país - mais poderoso do mundo - estas instituições, passaram a ser pensadas também como lugares festivos, onde se pode estar a lê e gestar um mundo novo. Quando apanharemos essas lições? Penso que esse tempo está longe. Sim porque o que poderíamos apanhar de bom não apanhamos, mas sobra interesse nas futilidades e quinquilharias que eles produzem. 

Martine Franck

Foto: Henri Cartier-Bresson - As pernas de Martine, 1967.
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Martine Franck. Eis um nome. Descobri hoje este nome. Não sei como ele me escapou durante tanto tempo. Explico. Martine Franck foi a companheira de Henri Cartir-Bresson. Ela viveu com ele até a morte dele em 2004. Ambos foram fotógrafos e exerceram com igual maestria a nobre arte de plasmar instantes.  Ambos estiveram envolvidos em trabalhos que tinham como tema um ao outro. Mas coube a H.C-B. o lugar de eminência parda no mundo da fotografia. Ninguém que leve a sério o estudo da arte pode mesmo ignorar as suas estimadas contribuições.

Há anos estou envolvido no estudo e na apreciação da fotografia. Por esse tempo, Bresson esteve sempre presente nos textos, blogs e livros que ando lendo sobre o tema. Porém, o nome de sua companheira, nunca, antes de hoje, havia atravessado o meu caminho. Parecia que ela não existia. Foi em mais uma incursão por nomes de relevância no cenário fotográfico, que encontrei casualmente o nome de Martine Franck e pude assim finalmente encontrar a fonte do talento de Bresson. 

De cara sentir como se tivesse dado o primeiro passo para compreensão daquilo que julgava saber, mas estava enganado. Não sei nada sobre fotografia. Menos ainda sobre os grandes nomes dessa nobre arte. Apresso-me pois, para saber mais sobre Martine e assim parar de fazer figura de parvo por julgar com lupa tão míope um universo tão grande e variado.

Descubro que ela foi versátil em seus temas. Começou por cultivou o abstracionismo e o surrealismo. Dedicou-se, mais tarde, àquilo que se chama fotografia de rua ou fotojornalismo. Neste gênero demonstrou uma visão enternecida da realidade. Ainda mais caprichosos são seus registros no gênero retratista. Aqui ela transpôs as lições do retratismo ambiental de Arnold Newman e estabeleceu indubitáveis relações entre a pessoa retratada e o ambiente que mais a caracterizava. Veja a propósito o seu retrato de Foucault ou o registro do fotógrafo Paul Strand.


Foto Martine Franck - Michel Foucalt, 1978, Paris.
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Foto: Martine Franck - Paul Strand

Sobre esta série de retratos merece também destaque, os seus flagrantes do marido em ambientes bucólicos e idílicos, parte de uma nova fase do fotógrafo que deixou a máquina para se dedicar no fim da vida a pintura.

Ainda tenho muito caminho para percorrer. Devo essa lição a descoberta de Martine Franck, que me destituiu as certezas sobre o que conhecia e instaurou em mim o desejo de continuar perscrutando os mestres e suas divinas criações.  

Foto: Martine Franck - H.C.Bresson.
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Foto: Martine Franck - H.C.Bresson.


Mentes doentias

Há algo de doentio no fato de alguém ver imoralidade em tudo. Algo de muito perverso e perturbador se passa na cabeça de alguém que entende que o nu com fins a expressão artística é merecedor de reprovação.

Ao fim e ao cabo o que se passa mesmo é que quem assim age manifesta em si uma mentalidade reprimida fruta de uma experiência de vida limitada pela visão tacanha das potencialidades de um corpo.

As manifestações desse puritanismo estão por toda parte. Nos EUA quando foi lançado o álbum: Is This It dos Strokes a capa trazia uma surpreendente e insinuante imagem, de uma mulher que tinha sobre as nádegas uma mão pousada com uma luva preta. A foto é um primor, pelo que tem de sugestivo. E em arte a sugestão é tudo.


Tamanha ousadia foi tudo o que bastou para que os puristas se insurgissem contra o CD. Na tiragem seguinte do álbum, a capa original foi substituída por uma imagem inócua, porém, muito mais tranquilizadora das consciências moralizantes que vigiam o que podemos ou não ver.