MEUS POEMAS

LUTO

Ando meio dissoluto.
Em tudo na vida reluto,
E, enquanto mais luto,
Vejo-me tanto corrupto.

Já pedir um salvo conduto.
Quem sabe um indulto
Me faz bem menos bruto
E eu possa até dar fruto.

Conquanto os produtos,
Desse ventre tão fajuto
Serão por demais inculto
E darão, na certa insulto.

Não agüento esse furto
Assim sendo faculto
A quem queira frustro
Nem precisa consulto.


9 de fevereiro de 2008.

É PRECISO MUDAR TUDO PARA QUE NADA MUDE.

CANDIDATOS A PRESIDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS.

Os noticiários dos últimos dias têm dedicado muito atenção às eleições nos Estados Unidos. A corrida presidencial ao “posto mais importante do mundo”, domina os medias. Jornais, revistas, site e blogues destacam sem parar os episódios que podem decidir o futuro do próximo ocupante da Casa Branca. A nós, que proveito temos, em tanto interessa das mídias no futuro presidente norte-americano? A caminho do posto mais cobiçado do mundo, uma serie de questões, que interessam tanto a eles quanto a nós, estariam no centro de todo esse empenho jornalístico. A julgar pelo que vemos todos os dias e, se é certo que queremos fazer um melhor exame dos presidenciáveis, acreditando que temos interesses em comum, como crê a professora Maria de Aquino, eminência parda dos debates televisivos, estaríamos ai, na verdade, penso, nos enganando redondamente. O projeto americano de nação hegemônica independe do candidato que assuma em quatro de novembro. Uns mais ou menos conservadores não impor, todos asseguram, como bons norte-americanos, seu papel continuista de potência imperialista. Hillary Clinton, John McCain e Mitt Romney, que ainda resiste à disputa, diferem pouco entre si. Barak Obama, o estreante, conquanto pese sua inexperiência, profundamente explorado por seus opositores, usa o discurso reformista e engajado para atrair os eleitores. É inegável que o apelo por mudança nos rumos da política, conduzida até aqui com notável infelicidade por Bush pai, atraia tantos eleitores. Obama é um perfeito self-made man, que subiu na vida a despeito de todas as adversidades e revés. Filho de pai queniano e mãe americana foi criado na Indonésia e fez faculdade em Haverd. Seus discurso carismáticos seguem a tonica de outro líder, também muito popular, Martin Luther King. Porém, mesmo assim, não acredito em mudanças significativas na política de lá para o resto do mundo. O que poderá haver, caso Obama vença, é uma vitória simbólica de ideais. Agora dai até uma mudança significativa em posicionamentos como avanço industrial que mexe com questões ecológicas, equilíbrio na disputa entre judeus e palestinos, imigração latina, e principalmente, tolerância diplomática com o mundo árabes é vê pra crê. O embaraço americano, com as políticas de Bush, manchou a imagem dos lideres dos Estados Unidos e provocou a descrença em prováveis mudanças.

UM RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM – JAMES JOYCE

A história desse livro se confunde com a trajetória de seu autor. James Joyce (1882-1941) contava vinte e dois anos em 1904, quando escreveu um ensaio autobiográfico, para recém fundada revista Dana. O ensaio foi recusado pelos editores, que alegaram não poder publicar aquilo que não entendiam. Na verdade a objeção fio às menções a relações sexuais descrita pelo herói. Seja como for, Joyce resolveu trabalhar na continuidade do ensaio e transformá-lo em livro. Em 1914, dez anos depois, Um Retrato do Artista Quando Jovem chegava às suas páginas finais. Mesmo assim, o livro só veio a ser publicado dois anos depois em Nova York no ano de 1916. No seu primeiro romance, James Joyce descobre que podia se tornar um artista falando sobre o processo de se tornar um artista. No livro seguimos os passos do jovem Stephen Dedalus, alter ego de Joyce. Dos primeiros anos de sua vida à juventude libertária. Divididos em cinco capítulos, seus episódios variam na forma e no estilo para ajustar-se às diferentes idades e fases do seu herói. Diverso de tudo o que havia na ficção Inglesa da época, os romances típicos eram os de H. G. Wells e Arnold Benett, Joyce inaugura uma nova fase da literatura. O que nos faz pensar que a literatura escapa aos conceitos fechados e dogmáticos que muitos tentam impor. Seu caráter é sempre o da provisoriedade. Em Joyce a estrutura narrativa não mais se assenta em ações onde o impacto direto de um personagem sobre o outro tece o drama. O que vemos, ao contrário do que ocorria no romance comum, é uma descrição psicológica do personagem, como numa série de retratos e em estágios sucessivos de seu desenvolvimento. Joyce ainda introduziria largamente o uso do monólogo interior que enfatizava as ocorrências psicológicas no personagem. Com isso ele definiu um estilo, seguido de perto por muitos outros tantos autores como, Virginia Woolf e a nossa Clarice Lispector, que não escondia sua predileção pelo estilo psicológico à moda do Irlandês. A história do livro é contada sobre o ponto de vista de uma única personagem, Stephen Dedalus, que se move à deriva no mundo e parece fadado a um destino ordinário e macilento em Dublin, até fazer valer o vaticínio de seu nome e ganhar asas rumo a um novo destino, onde: “Estava destinado a aprender sua própria sabedoria independentemente dos outros ou a aprender ele próprio a sabedoria dos outros vagando entre as ciladas do mundo”. Além dos êxitos literários logrados com o livro, Joyce ainda livrou a literatura de heróis sensíveis. Finalmente, pudemos contar alguma história de emancipação moral e espiritual sem cair naquela pasmaceira romântica. Os cansativos personagens que povoavam as histórias de antanho, onde mocinhos trilhavam rudemente suas vidas e paixões até, que, eram por elas atropeladas, cedeu lugar a uma personalidade autodeterminante. Stephen Dedalus se reinventa. Lança-se em busca de sua aventura de escritor longe de casa da religião e de seu país. Rebela-se contra seu destino e tece sua própria trama. Uma lição e tanto para esses tempos, onde a vida passou a ser conduzida arbitrariamente, a revelia de seus entes, aos ditames da moda.

Nelson, de volta

Críticas positivas, relançamento de seus livros, campeão de apresentações no Brasil e encenações inovadoras no mundo inteiro, enfim, o prestígio atual de Nelson Rodrigues confirma o que eu sempre tive certeza: de que ele é um extraordinário criador.

Especialmente para

Nelson Vinicius Rodrigues

Desde que eu bati o olho nos quatro volumes do Teatro Completo de Nelson Rodrigues (Edit. Nova Fronteira), e acompanhando as resenhas magistrais do Prof. Sábato Magaldi (da Academia Brasileira de Letras, se é que isso confere alguma importância a alguém), o juízo favorável que fiz de Nelson nunca permitiu que eu o abandonasse, nesse tempo todo. Durante anos, passei pregando no deserto, mas a fortuna crítica desses últimos dois meses atesta o que alguns de meus inimigos debilóides nunca quiseram ver: que Nelson é um monstro sagrado não apenas de nossos palcos, mas de nossa literatura.

Fui duramente criticado, atacado, menosprezado por determinadas pessoas que estranharam em mim o gosto por alguém do “perfil” de Nelson. (“Aquele chato”, “aquele tarado”). Espero que agora, elas abandonem esse mar de ignorância e pulem para meu barco. O sucesso do “maldito” Nelson não existe porque eu quero, não foi uma coisa que eu inventei para justificar meu pensamento. Ele existe porque existe – independente de minha vontade. Eu só faço reconhecer. É o que Nelson mesmo chamaria de “óbvio ululante”. O óbvio que nem todo mundo que se diz pensar pela própria cabeça, enxerga.

Possuo três materiais recentes que garantem a importância e a perenidade do dramaturgo e jornalista. O primeiro, a edição especial da revista EntreLivros – Teatro Essencial. Dos gregos, passando por Shakespeare, por Molière até nossos autores modernos, como Mauro Rasi e Miguel Falabella, Nelson mereceu um capítulo especial, assinado por Marici Salomão. “De reacionário e obsceno a unanimidade nacional”. Aclamado desde os anos 40 ao escrever o hoje clássico Vestido de Noiva, diz ela, N.R. viveria nas décadas seguintes dias de glória, censura e fracasso. Após o período de ostracismo, é agora o autor mais encenado nos palcos do país e considerado o mais importante dramaturgo nacional. Além do texto primoroso, Denise Mota, em “A grande transgressão” explica aos iniciados por que Vestido de Noiva foi um marco, e, dessa forma, modernizando nosso palco. O texto de Marici é enorme, não tenho como reproduzir aqui. Ontem, tive outra surpresa. VEJA, em sua seção VEJA Recomenda, publicou uma única resenha de livro. Trata-se de A Cabra Vadia, supostas entrevistas que ele fazia com gente que tinha determinadas posturas, na década de 60. A Agir está publicando, aos poucos, toda sua obra não-teatral, outrora pertencente a Edit. Cia. das Letras, que não renovou a publicação das obras dele e eu já estou sabendo que ela será a responsável pela publicação de escritores como Jorge Luis Borges e cogita ter em seu catálogo as obras de outro Jorge, Amado. A Agir está pondo nas livrarias edições caprichadas de Nelson. Comprei Elas Gostam de Apanhar e vale quanto pesa. É um prazer ver uma editora nessas condições apostar na inteligência e na contundência feroz de Nelson. Diz VEJA: (trechos) “Celebrado como o dramaturgo que renovou o palco brasileiro com Vestido de Noiva, N.R. foi também um grande cronista, ao mesmo tempo conservador e irreverente. (...) O cronista está em sua melhor forma, debochando dos intelectuais de passeata (...)”. O valor do livro: R$ 54,90. Creio que dentro em breve, esse valor abaixe um pouco. Mas os admiradores de Nelson não questionarão o detalhe do preço, sabem que estão levando para casa algo de importância inestimável.

Vamos agora ao texto que mais me impressionou. A dramaturgia de Nelson no mundo. Uma reportagem de 4 páginas da conceituada Bravo! (mês de janeiro). “Subúrbio Globalizado”, por Carolina Braga (de Barcelona, Espanha). O texto traz peças de Nelson que serão representadas (ou foram, recentemente) de maneira altamente inventiva, com atores estrangeiros e diretores idem. Senhora dos Afogados, por exemplo, foi representada ano passado em Londres. (Our Lady of the Drowned). O resultado da encenação foi sucesso de crítica, apesar de o público ter se dividido entre amor e ódio. Sabemos que o diretor faz da peça o que bem entende. E Kwong Loke pôs uma parede de plástico no centro do palco, para dar ênfase ao plano alucinatório do texto mítico. Em 2004, em Luxemburgo, franceses, portugueses e ucranianos apresentaram O Beijo no Asfalto (Le Baiser L ‘Asphalt). Em 2005, Valsa n. 6 foi encenada na Inglaterra, por Franko Figueiredo. “É algo que pode ser apresentado em qualquer lugar do mundo”, diz ele. Além da Inglaterra, essa peça teve uma montagem na Bélgica e duas na França.

Para a pesquisadora Ângela Leite Lopes, (que mudou-se para Paris para escrever sua tese de doutorado em cima do teatro rodriguiano), autora de Nelson Rodrigues: trágico, então moderno, “o que atrai o interesse estrangeiro para as peças dele é o domínio que o autor tem da carpintaria teatral”. “Para um diretor, o mundo fantástico e imaginário das peças de N.R. sempre oferece grandes possibilidades no palco”, é o que fala Kwong Loke, que quer levar Toda Nudez será castigada a Londres. Franko Figueiredo foi convidado a levar sua companhia, a “Caramel Box” em 2009, e Valsa n. 6, para o Japão.

Isso tudo é o mínimo. Muita coisa boa está acontecendo com o legado de Nelson Rodrigues e eu ainda não estou a par. Trata-se, em última análise, da importância universal de um grande autor, “pornográfico”simplesmente, para muita gente e gênio para os poucos que entenderam sua alma inquieta e gigantesca.