Esse não chega a ser um filme
injustamente esquecido porque na verdade ele nem chegou a ser lembrado algum
dia. O mais justo então seria alterar a legenda para: um filme desconhecido e
que todos deveriam conhecer. E por que todos deveriam conhecê-lo? O que o faz tão
especial que mereça ser arrancado das sombras e vir à lume. Talvez o fato de
ser uma obra pioneira na crítica à vida burguesa, que faz do trabalho e da
mecanização dos processos de produção, na vida moderna, uma fórmula de alienação e de
automatismo do indivíduo em sociedade. Mais aí vocês me dirão que isso não
chega a ser nada inovador, Chaplin andou a frente desse projeto e saiu na
dianteira, com o genial Tempos Modernos. Ai reside um pequeno engano. Tempos
Moderno, incontestável obra prima do realizador inglês, é na verdade, não um
plágio, mais uma obra que está cheia de coincidências com o filme de René Clair.
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O cinema de estribo, arreio e algo mais.
Quem
se fia num filme, apenas porque esse tem mancebos de cabelos bem cortado, como
manda a última moda, ou conta histórias sacarinas; nunca chegará a compreender
o western, pois esse se mede menos por personagens empertigados e mais por
questionamentos das configurações padrões de pensamento que nos encarcera a
todos. O western é o gênero cinematográfico que transcendeu os limites de sua
habitual perspectiva e se elevou ao patamar filosófico ao nos apresentar
histórias em que os conflitos humanos mais mesquinhos: o suposto furto de gado
do vizinho, a descrença dos amigos e amores na coragem de quem aparenta
fragilidade; a recusa de sair de sua terra por força do dinheiro fácil e outros
encerram o que verdadeiramente importa aprender ou julgamos importante aprender
sobre cultura, conflitos morais, política, coragem, superação, valores sociais
e muito mais. Western é o cinema que encarna todas as dimensões humanas em um
microcosmo para fazer deste uma reflexão profunda das potencialidades inéditas
do homem.
Três olhares sobre o homem, duas conclusões
Foto:
Dorothea Lange, Resettled farm child, New Mexico, 1935.
.
Na década de 30, a serviço da Farm
Security Administration, Dorothea Lange percorreu vinte e dois estados do Sul e
Oeste dos Estados Unidos, registrando as péssimas condições de milhares de
pobres americanos vitimas da Grande Depressão de 29. As imagens capturadas
pelas lentes de Lange atestam, em grau inconteste, a degradante condição de
milhares de camponeses estrangulados pela precariedade social gerada pela queda da Bolsa de Nova Iorque. Um complemento literário a esse registro está em As Vinhas da Ira (1939), do escritor
John Steinbeck. O livro acompanha a saga da família Joad. Tangidos de sua terra, pela chegado do progresso, lançados à própria sorte, nas estradas americanas em
busca de melhores condições de sobrevivência, essa família sintetizara milhares
de outras esfarrapadas que também perderam tudo durante a crise de 29. Tanto
Lange, quanto em Steinbeck, lançam um olhar solidário às vitimas da Grande
Depressão. Seguindo a trilha aberto pela fotógrafa e pelo literário, o cineasta
dinamarquês, Lars van Trier filmou Dogville (2003). O filme tem como cenário uma
vila americana no período mais duro da crise. Ao contrário dos dois artistas
anteriores, Lars van Trier lança um olhar mais fundo na realidade humana, e
desconstrói, as imagens de vitimas dos desgraçados da depressão que em seu filme diante da
possibilidade de aquisição de algum poder tornam-se, sem reservas nenhuma de
humanidade, odiosos algozes, capazes das piores barbaridades, como as de
escravizarem (física e sexualmente) uma jovem refugiada em sua vila. Enfim, um
olhar distópico da natureza humana que mesmo em face da mais triste realidade,
e vitimas das piores condições, ainda assim são capazes de baixar ainda mais a
sua condição de civilizado e desmentir todas as boas impressões que a arte
tenta constituir desse indivíduo.
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