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A cultura da não violência

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“Temos que nos tornar a mudança que queremos ver”.
Gandhi

Quem não pressente, diariamente, que as sociedades desenvolvidas vão se erguendo sobre o desprezo dos valores comunitários, da solidariedade e do respeito ao outro? Num mundo ressecado pela competição e o individualismo, quase não há lugar para os melhores sentimentos humanos. O que impera, são rancores, ódios e sentimentos destrutivos de uns contra os outros, que põem o mundo em continuo pé de guerra. Falo assim, porque vejo, lá pela escola, todos os dias, atos de brutalidade gratuita, que vão se naturalizando, quando não deveriam.

Mas até hoje - e espero que isso nunca me aconteça - nenhuma das ameaças que ouço os alunos trocarem, nenhuma das barbáries ditas com ar de indiferença, nenhum dos destemperos testemunhados, ou dos atos de banalização da violência, foram capazes de me destituir a crença de que os homens são feitos da mesma matéria, e portanto, a aparente separação que os diferem, não passa, de um efeito das formas temporais. “A verdadeira realidade da humanidade”, escreveu Joseph Campbell, “está na unidade com todas as formas de vida”.

Isso significa dizer que, você e eu somos um só. Essa percepção do outro como uma parte de mim, e não como um outro indiferente, está nos faltando. A ganância do sentimento individualista nos cegou para essa nobre verdade. Precisamos urgente reaver essa percepção do mundo que restaura em nós o outro como uma parte infalível de nós mesmos.

Podemos começar aprendendo com os hindus, budistas e javanistas que há milênios, saúdam-se mutuamente com um gesto de contração das mãos sobre o peito; depois se curvam em reverência uns aos outros, enquanto pronunciam a palavra: NAMASTÊ. A palavra vem do sânscrito e significa: “o deus que me habita saúda o deus que te habita”. A dignidade desse simples gesto, expressa a grandeza de reconhecer no outro - pode ser um alguém, que vejo pela primeira vez, ou um ente querido - o reconhecimento de que os indivíduos, não me são indiferente, transparente ou invisível. Ao contrário, são seres superiores e que portanto merecem igual respeito, admiração e zelo. 


Diálogo é a solução.

Foto: René Friede: Prisca, 1999

Notícias como está, estão se tornando perigosamente frequentes. Está evidente que vivemos um clima de guerra nas escolas. O stress, as cobranças, os compromissos, as frustrações e um sem-número de problemas sociais, torna o lugar que deveria ser o mais agradável do mundo, um campo minado, onde não se estar tranquilo para aprender.

Nessa guerra todos perdem. É inadiável, portanto, repensar a escola que estamos construindo. Nela, os jovens precisam entender que há melhores meios de resolverem os seus conflitos. E a escola precisa saber lidar com os dilemas juvenis, mediando os embates e construindo fóruns permanentes de diálogos que mitiguem possíveis choques nas relações entre professores e alunos.

Ninguém está livre do problema, nenhuma escola está imune as deformações sociais que todos os dias alteram os rumos da educação no país. É preciso portanto nos municiamos de coragem e solidariedade que são as únicas armas capazes de contornar os dilemas escolares. Eu acredito, mesmo contra todas as evidências, que a escola ainda é o melhor lugar para construir o futuro.

A Indiferença

Foto: John Filo, 4 de maio de 1970. Jeffrey Miller, 20 anos, estudante, morto pela Guarda Nacional Americana, durante um protesto contra a decisão de Nixon de enviar tropas para o Camboja.

As fotografias têm muitas qualidades. Elas podem ser belas, ternas e guardar a memória de momentos inesquecíveis. Serão sempre felizes os álbuns de famílias, onde as pessoas parecem viver em eternos festins. Noutro extremo, as fotografias, também estão dispostas a recordar à humanidade a brutalidade e a selvageria que esse mesmo homo ludens é capaz de perpetrar, entre um banquete e outro com a família.  

Em Diante da dor dos outros, Susan Sontag argumenta baseando em vastas evidências, que vai desde “Os Desastres da Guerra”, de Goya, até aos documentos fotográficos da Guerra Civil americana, dos linchamentos de negros nos estados americanos do Sul, das Duas Grandes Guerras, da Guerra Civil espanhola, dos campos de extermínio nazi e das imagens contemporâneas da Bósnia, Serra Leoa, Ruanda, Israel e Palestina, bem como do 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque, que as imagens também podem, provocar dissenções, incitar à violência ou criar indiferença ante um público acrítico.

“As imagens, qualquer que seja a sua natureza, são elementos importantíssimos para o acompanhamento do processo histórico, assim como para a construção do discurso histórico. No caso particular das guerras havidas, pinturas, fotografias, imagens televisivas ou fitas resultantes de vídeos amadores, têm sido contributos relevantes para o seu conhecimento, análise, interpretação e reflexão. Mas em torno destas mesmas imagens, sobretudo as televisivas, algumas questões se podem levantar, nomeadamente no que concerne à banalização do sofrimento. À banalização do sofrimento dos outros, que poderá rapidamente transformar-se na banalização do nosso próprio sofrimento.”

Com os médias excretando tanto horror, as fotos das barbáries se potencializaram. Chegam-nos a todo instante imagens e mais imagens de todo o mundo. Sabemos o que acontece todos os dias em todos os lugares. No meio do jantar assistimos apáticos a execução brutal de seres humanos em qualquer bar de alguma periferia no país. E antes que a comida alcance o estômago, novas imagens de horror, rapidamente substituem as chacinas pelas execuções de prisioneiros de guerra. Os modos de aniquilamento são tão diversos quando as guloseimas dispostas na mesa do jantar.

A falta de pudor dos media e, em especial, da televisão, recupera tempos ominosos, que julgávamos ultrapassados. E na busca pela audiência eles não nos poupam da visão de horror e buscam os ângulos mais nauseantes das piores carnificinas.


Tratar a dor alheia assim com tanta indiferença, leva-nos a banalização da mal e como consequência anestesia a nossa sensibilidade às necessidades do outro.