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O que tenho aprendido com os livros que leio e com os que estão na estante à minha espera

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Não crie expectativas, esse sentimento é corrosivo e acaba com suas melhores pretensões.
Saiba esperar pelos momentos de descoberta.
Não queira chegar ao fim para saber como a história acaba, viva-a.
Você nunca estará velho, para um grande desafio.
O melhor divertimento será sempre o elevado, não acredite que ele as vezes também pode ser cor-de-rosa.
Há sempre bons motivos para conhecer uma nova história.
Melhor uma traça amiga que uma estante vazia
Nem todo livro tem toda vida.
Não deixe que o desalinho da capa e a falta de capricho na edição determine o seu julgamento, você pode se surpreender com o que verdadeiramente importa: a travessia.
Uma vida não basta para os livros que desejo.
Depois da morte, não há tempo para pos scriptium.
A orelha segreda a história que ainda não li.
Os empréstimos tornam viúvas as coleções.
Sei tanto quanto os livros que não li.
Descobri que o que mais desgasta um livro é a falta de uso.



Embotar os sonhos

Foto: Ferdinando Scianna – Capri, 1984.

Penso, que ainda vive em mim, uma vontade ridícula de ganhar o mundo com uma mochila nas costas. Quem me conhece, também pensaria o mesmo que eu, se soubesse o que vive em mim de sonhos. Ridículos sonhos. Querer bater o pó da estrada, tendo como veículo, os próprios pés, e como bússola, na ausência de um melhor guia, o pau da venta, são coisas que não me cabem mais. Tivesse hoje os meus velhos dezessete anos. Andasse só no mundo, e talvez essa ideia não fosse, assim como parece hoje: ridícula. Mas já se passaram os anos. Os dezessete, tenho-os hoje em dobro. Assim como também não ando mais só. A vida vai embotando os nossos melhores sonhos e se encarregando de tornar, o que parecia outrora lindo, um tormento sem fim, por se saber impossível.

Em que desejas falhar?

Encontrei dia desses, um velho amigo, que há muito tempo não via. Dividimos um apartamento, enquanto esperávamos que a vida, não nos derrotasse, antes de sermos devidamente diplomados pela academia. Chegamos lá e depois disso os nossos caminhos se bifurcaram. Ele agora é professor, creio que dos bons. Em meio as alegres lembranças, que nosso reencontro provocou, ele sorriu e me disse que dia desses lembrou-se de mim em uma de suas aulas. Retribui o sorriso e o ouvi, franzindo o cenho, como quem rumina os pensamentos quanto é tomado por uma inquietação. Meu amigo disse-me que falava aos seus alunos que, enquanto vivia os tempos da universidade conviveu com um amigo - batendo no meu ombro - a quem deveriam todos inspirar-se. Antes que pudesse terminar a mesura, emendei a pergunta: “Servir de inspiração? Eu? Talvez. Em que desejas que os seus alunos falhem?”

Escusa


Estou certo de que uma vida não chega, para realizarmos todos os nossos sonhos. Digo isso, é claro, para negar em mim a fraqueza de não ter chegado às portas das grandes realizações. É simples culpar a vida pelos tropeços. Eximimo-nos assim da culpa pelas derrotas, e seguimos fingindo autocomiseração. Quando não temos feito o que deveria ter sido feito, entregamo-nos à culpa ou às piores imposturas.

Na esperança de resgatarmos alguma dignidade da lama, fingimos que ela também pode ser purificadora, só para não ter que dormir com a realidade. Não restando nada mais, nem nenhuma outra desculpa que nos dispense da franqueza de se saber menos, nos apegamos a última das convicções: a de que a vida não é nunca perdida, enquanto não é terminada.

Vida-circo


Foto: Justin Bartels
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Deve ser bom poder ir à vontade para qualquer lado. Estar sempre a guiar-se pela ponta do nariz e deixar-se ir, sem saber existir alguém ou alguma coisa, que possa interferir em nosso caminho. Querer ir a norte e ir a norte. Querer ir a sul e ir a sul. Percorrer assim caminhos, sem dar noutro lugar a não ser aquele traçado de véspera. Deve ser bom poder ir estrada afora, ter o pó, o sol, a chuva, o vento e um horizonte sem fim a acarinhar nossa autodeterminação. Estar ali entre essas coisas miúdas deve nos dar a certeza do nosso tamanho. Há de ser bom estar por lá onde temos a medida certa. Melhor do que estar a escrevinhar ofícios à junta ou a apanhar migalha ao chão, fingindo que os salamaleques são devidos a quem lhe paga o repasto. 

A DÚVIDA

Eu não queria crer, mas havia evidências, muitas, irrefutáveis e desconcertantes. A maior e mais perturbadora era física. Irremediavelmente marcante e por demais constrangedora. Parece até irônico, se referir a isso, como marcante, quando justamente não havia marca alguma que a distinguisse. Ocorria que, onde nas outras pessoas existia um sinal indelével de sua filiação maternal, em mim havia a prolongação da pele, que desde aquele momento até hoje, cresce, flácida e enrugada até não poder mais, denunciando os muitos anos que esse fato me assola. Nenhum sulco, marca ou sinais, que desfizessem as minhas dúvidas cresceram em mim. Assim apurei que estava só, e que minha existência era questionável, ao menos da maneira em que as outras pessoas constituíam a existência. Divorciado da maioria dos homens, a única cicatriz que insistiam em mim, era a da dúvida, parideira de toda sorte de pensamentos, inquietante moléstia, sórdida mazela dos emparedados. Pertencerei eu mesmo a esse mundo? Será certo que essa senhora da foto embotada, que me carrega pela mão, de fato foi a que me deu a vida e me precipitou no mundo, ou serei filho do amor que há entre Deus e o Diabo. Farsa é tudo uma farsa. Era a única coisa que me ocorria. Apartado do mundo e dos homens eu não conseguia repousar tranqüilo sabendo que era diferente.

TODA DEFERÊNCIA

O médico chegou. Não era mesmo um médico legítimo de clínica e hospital. Era na verdade um dentista de boca, prótese, ponte e reparos cariados. Isso, no entanto, não importava. Um passo à diante, um degrau à cima, e toda deferência, salamaleques e ritual de corte começava. O mundo agora era o dos sorrisos fartos da conversa solta. De repente, as línguas perdiam todas as travas. Menino assopra o fogo, corta um pedaço bem magro desse lombo de porco, pode pôr mais carne na churrasqueira, o doutor está com fome. Maria arranca uma cerveja do fundo do congelador e traz mais dois copos. Era a primeira vez que eles sentiam o mundo dos doutores. Gente bacana, que se dispunha a frequentar a sua casa. Outrossim, os vizinhos, todos, iriam ver entrarem pela porta, um moço de boa família, formado na universidade, num curso de verdade, não daqueles de fala difícil, muitas palavras e pouca ou nenhuma ação. Veriam todos, e saberiam todos, que ali, mesmo que, não passasse com regularidade o carro de lixo, mesmo que a rua estivesse um tanto esburacada e empoeirada, ou quando chovia era impossível entrar ou sair - graças a deus não choveu - todos veriam alguém importante se dignar a comer em sua casa. E dava gosto ver o doutor comer.

ASSOMBRO

Às vezes gosto de pensar que existem certas vantagens em ser ignorante. O sujeito não tem que se explicar de nada. Não precisa pensar. Não discute e nem se preocupa. Por certo também, não critica. Deixa as coisas acontecerem, como se estivesse sendo arrastado por uma torrente e dela não quisesse se defender. Vive, como se para isso não fosse preciso, gastar um minuto de seu tempo ocupado com as tediantes tarefas de maquinar o cérebro. Munido dos instintos que a natureza lhe deu, sabe que o pulmão faz muito bem o seu trabalho, sem que se lhe diga o que deve ser feito. E só por isso o homem vive. O mesmo pensa do coração, dos rins, do fígado, e de outras e tão sábias partes do corpo que sem pensarem em, como e por que, seguem. Esses sujeitos também, refugando algumas conquistas do intelecto, não se desassossegam nem se inquietam, com o que para outros assaltam os nervos.

UMA ATITUDE ACÉFALA

Quadro de Francis Bacon

Uma amiga, jura conseguir viver muito bem desligada cerebralmente das coisas. Diz que, isso a rejuvenesce. Como se o pensamento, despendesse energia de mais, ela finge não querer saber de nada. Isso a faz atingir a dormência e a paz desejada. Pra mim isso é um atentado contra a natureza. Nosso cérebro levou milhões e milhões de anos até evoluir ao estágio atual e, seguramente, não foi ignorando as coisas, que ele despontou no zênite. Pelo contrário sua evolução passou pelo exercício diário de auto-aprendizagem, até hoje não interrompida, a não ser por minha amiga. Definitivamente minha colega está cometendo um desserviço ao tentar refrear o curso normal em que ela mesma (a natureza) se colocou. Também não posso crer que minha colega esteja sozinha nesse pensamento. O que mais vemos hoje em dia são ações e atitudes acéfalas de quem, por ter cabeça, só a usa, para ostentar o último penteado da moda, ou para plugar o seu novo iPod. O resto é acessório. O pensamento a reflexão, a crítica, são a melhor defesa contra o estado geral de bovinidade que assola nossa época.