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O que tenho aprendido com os livros que leio e com os que estão na estante à minha espera

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Não crie expectativas, esse sentimento é corrosivo e acaba com suas melhores pretensões.
Saiba esperar pelos momentos de descoberta.
Não queira chegar ao fim para saber como a história acaba, viva-a.
Você nunca estará velho, para um grande desafio.
O melhor divertimento será sempre o elevado, não acredite que ele as vezes também pode ser cor-de-rosa.
Há sempre bons motivos para conhecer uma nova história.
Melhor uma traça amiga que uma estante vazia
Nem todo livro tem toda vida.
Não deixe que o desalinho da capa e a falta de capricho na edição determine o seu julgamento, você pode se surpreender com o que verdadeiramente importa: a travessia.
Uma vida não basta para os livros que desejo.
Depois da morte, não há tempo para pos scriptium.
A orelha segreda a história que ainda não li.
Os empréstimos tornam viúvas as coleções.
Sei tanto quanto os livros que não li.
Descobri que o que mais desgasta um livro é a falta de uso.



Sobrevive a capacidade de se surpreender


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Tão raro quanto encontrar um político honesto é ver algum jovem dado à leitura no passeio público. Mas por vezes isso sucede. É raro, mas sucede. Aí quando essa imagem lhe surge, fica-se a imaginar, por instantes, que o sol anda a nos pregar peça, e o que julgávamos, como alguém a ler pelas ruas, não passava na verdade de um devaneio, de uma mente sobressaltada pela fornalha que se tornou a cidade, nesses dias de sol inclemente. Essas coisas costumam acontecer também aos incautos que desafiam o deserto. Não seria raro, então, em cidades cujo sol é, tão ou mais, impiedoso, quanto nos terrenos, onde somente os camelos estão livres dos delírios. Mas este não foi o caso. Dei mesmo de encontro com uma jovem a ler no passeio público. Não foi um devaneio, estou certo. Toquei-lhe realmente o livro, elogiei-lhe o título e fiz menção de inveja, por ainda não ter ousado tanto na leitura, e subido os degraus do olimpo literário, como ela estava fazendo, para lê a dramática história do jovem Raskólnikov, escrita pelo genial russo Dostoiévski. De repente, ao ver que uma jovem perambula por aí, levando ao braço, um catatau literário, me dei conta de que não é inteiramente verdade que, os jovens se tornaram reféns de experimentalistas literários grosseiros que se comprazem no aviltamento da linguagem para facilitarem as vendas. Ainda há quem se guie por rotas insuspeitas e não ande a dar bolas aos modismos. Pode-se mesmo querer ver nos modismo algum valor literário, mas é somente nos grandes escritores que, encontraremos respostas àquelas inquietações que enevoam a alma e nos impede de ver mais claro o mundo. 

A Cosac & Naify fecha as portas, uma legião de leitores vê sua fonte secar.

.Alguns dos meus livros da Cosac.
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Só os muitos aficionados por livros entenderão. Os muitos satisfeitos com o mundo tal como é, não pressentirão que o anúncio do fechamento de uma editora pode ser sentido por alguns com pesar. E foi justamente com esse sentimento que recebi hoje a fatídica notícia que a editora Cosac & Naify encerou as suas atividades. Para quem não sabe, a Cosac & Naify é uma editora brasileira que a quase 20 anos vem produzindo livros que, primam pela qualidade literária sem nunca descuidar da edição gráfica. As seus edições de livros nos faz supor que, o livro é antes um relicário e não um monte de papel enfeixado para consumo descartável. Sei disso desde que comprei o primeiro livro dessa editora, lá nos idos de 2003. Cada livro dela é uma verdadeira obra de arte, uma joia que pode ser cultuada, tanto quanto os escritores que fazem parte do seu catálogo que reúne clássicos e importantes obras da literatura brasileira e estrangeira, muitos deles ignorados pelo grande público ou ainda desconhecidos no país. Antes do surgimento da Cosac, poucos poderiam imaginar no Brasil uma editora que pudesse ousar tanto na qualidade gráfica de suas produções. Uma nação de quase não leitores não atraia investidores com interesses em produzir livros com o cuidado e zelo que muitos merecem. Diante do fato de não encontrarmos leitores disponíveis, ficava evidente que em primeiro lugar, o mais importante era dá ao público opções de leitura. Só depois de consolidada uma audiência literária, as editoras poderiam pensar em oferecer um produto com riqueza de acabamento, esmero nos textos complementar e nas apresentações, qualidade de edição, singular apuro gráfico e outros luxos que só os leitores experimentados poderiam exigir. Mas antes que este público, exigente e ávido por um material mais cuidadoso, pudesse existir de verdade no país, a Cosac saiu à frente e resolveu encarar o fato, de editar obras para um público restrito de interessados em livros que, mantivessem os leitores em permanente estado de enamoramento pelo trabalho de edição. Hoje esse sonho chegou ao fim. Os muitos leitores de literatura que a editora conquistou, nesses longos anos de aventura e ousadia, souberam pela imprensa que, os sócios fundadores, resolveram pôr termo ao capricho que os levaram a fundar uma editora sem igual no mundo. Sinto que a cada dia uma certa ideia de cultura se torna rarefeita. Lamento mais essa perda para cultura brasileira.  Já não faz muito tempo tivemos o fechamento da única grande revista literária, a Bravo!. Ainda ontem os jornais traziam suplementos literários que hoje não fazem mais parte dos periódicos, o jornal O Globo bateu o último prego no caixão dos suplementos. Esse será o último suspiro de um geração que caiu ante as investidas da cultura de massa com seus apelos ao consumo desmiolado ou ainda teremos fôlego para suspender por mais tempo a respiração antes de sermos vencidos por um mundo seboso. O que fazer, quando o desnorte é a única estrela que nos guia?



Vive la France

Foto: Robert Doisneau
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A França é surpreendente. Leio no blog da Maria do Rosário que, em meio a crescente onda de expansão dos saites de venda de livros, que monopolizam o mercado e soterram as pequenas livrarias, a França cria uma série de medidas para defender as livrarias tradicionais. A Câmara de Paris não quer de modo algum o fim do comércio tradicional e por essa razão está atenta aos livreiros que precisam de ajuda para se manterem vivos. Algumas das medidas já adotadas foram: isenção de impostos e subsídio para atividades de promoção de livros nesses pequenos comércios. A população também se moveu. Uma empresa semipública comprou por toda a cidade espaços livres ou abandonados em ruas de comércio e aluga-os por renda baixa, a cerca de metade do preço de mercado, para livreiros se instalarem. Conscientes da importância das livrarias tradicionais os editores se reuniram e criaram um fundo que permite a novos livreiros começarem a atividade sem pagarem nada antes de dois anos. Por sua vez os livreiros criaram um saite coletivo que difundem agenda de ações e sugerem aos leitores livrarias, onde possam encontrar o livro desejado. Não direi nada sobre as políticas de promoção dos pequenos livreiros no nosso país, não tenho informação sobre a existência ou não dessas políticas. Mas posso afirmar que, se existem, não estão funcionando. Quando vivi em São Paulo costumava visitar os sebos na região do Centro da cidade. Por anos vi esses comércios desaparecerem. Assediados pelo mercado imobiliário e fragilizados pela concorrência desleal com as gigantes do comércio on-line os sebos da região central de São Paulo cederam espaços às garagens ou às lojas de xingui lingui chinesas, que se proliferam pelo centro como cancro num corpo furibundo. Penso que ter onde deixar o carro, quando se vai à um lugar é importante. Mas não mais importante do que incentivar a permanência do comercio tradicional de livros, que tanto podem fazer para expandir o conhecimento e criar uma cultura de valorização de espaços sociais, onde se possa viver a vida em comunidade. A virtualidade mata. 

Frustar expectativas

Foto: Alécio de Andrade
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As pessoas, com frequência, pedem-me que sugira algum livro para lerem. Por motivos vários não gosto de indicar leituras. São demasiadamente pessoais as razões que levam alguém aos livros. Alguns vão lá porque buscam um passatempo, uma fuga, umas horas preenchidas enquanto algo mais “útil” não chega. Outros esperam com eles iluminarem as incertezas. Tem ainda os que pensam que a leitura é uma coisa maçante, mas mesmo assim eles insistirão na indicação, pois supõe com isso, estarem construindo uma imagem de gente fina e elegante, só porque finge gostar de ler, o que não é verdade. Nenhuma dessas pessoas tem a ver com as simpatias literárias que nutro por este ou aquele autor, nem de longe comungam com as ideias que tenho de literatura. Como pois serei eu as lhes conduzir os livros necessários? Por isso me recuso a indicar leituras a alguém, os livros são coisas muito íntimas. Estão cá do lado esquerdo e não se mostram para duas pessoas da mesma maneira. Essa é uma razão. Mas existe outra.

Quando as pessoas insistem, teimando na indicação de um livro, mesmo eu lhe dando todas as desculpas do mundo para não lhes indicar coisa alguma, surge aí meu lado mais mefistofélico. E sinceramente eu não gosto quando isso acontece. Nesse momento dou a indicação pensando em fazer com que a leitura seja o momento mais desequilibrante que alguém jamais supôs viver na vida. Inverto os polos de interesse que, imagino fazer a cabeça de alguém, e sugiro leituras que vão na contramão do que cuido ser o desejo daquele alguém, que aporrinha a minha paciência, com coisas que sei, não lhes pinicam.

Sendo angelicais e castas, sugiro as leituras mais depravadas e insanas da literatura, Henry Miller e Dalton Trevisan. Sendo carolas, me apraz ver sua santidade posta à prova quando se veem enfronhada aos lençóis da perversão sexual e surdas de tanto ouvirem os gemidos dolorosos saídos da cabeça nervosa do Marquês de Sade ou Guilleragues, suposto autor da história da freirinha portuguesa que tem delírios eróticos com um oficial francês enquanto se encontra no claustro servindo a Cristo. Podem lá apanhar coisas uteis as pudicas, quando não estiverem de joelhos no regaço do Senhor, é claro. Se forem moralistas e se escandalizarem fácil com os adeptos de alucinógenos, aí falo sem parar das qualidades literárias inequívocas de um Thomas de Quincey ou de um Hunter S. Thompson. Sendo politicamente corretas indico sem pestanejar o americano Philip Roth. Os fúteis e consumistas sugiro o autor de “Ambição no Deserto”, Albert Cossery para quem os personagens que criou não tinha outro interesse senão falhar nos propósitos de se estar bem posicionado na vida, porque acreditava o autor, que o que matava as pessoas era a ambição desmedida que campeia no mundo do consumismo. Como veem a boa literatura não se faz com boas intenções. Então não é buscando conteúdos deliberados que as pessoas encontrarão os sentidos necessários ao entendimento da literatura. Mas as pessoas não estão dispostas a encararem a literatura nessa perspectiva. Vão a ela, cônscia de seus lugares no mundo. E aí esperam sempre encontrarem-se nos livros que não leram. Quando isso não acontece, frustram seu interesse e refugam ao encararem aquilo que se esforçaram tanto em maquilar.

Portanto sabendo que não gosto que me peçam indicações literárias não o façam. Não me peçam que sugiram-lhes leituras. Posso estar, sem querer, lhe dizendo o que penso de você.


De ratoeiras e livros

Foto: André Kertész | Série On Reading
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Não gosto de parvoíces. Detesto ver gente se entregar a estupidez. Mas infelizmente é nisto que se dissolveu uma boa parte do público literário. Antes exigentes eles se tornaram, manipulados pelos médias, consumidores que respondem apenas às listas dos mais vendidos para determinar os seus próximos “melhores livros”. Um exemplo dessas patuscadas abunda nas prateleiras das livrarias, insinuando às donzelas os ritos de sadomasoquistas engravatados, coadjuvantes de Don Juan.

Minha aversão a todos esses destroços, intitulados de literários, se deve ao respeito que sinto dever a uma arte que é mais forte do que a própria realidade, porque é capaz, quando não está subordinada aos managers culturais, que reduzem a cultura a uma dimensão esvaziada de conteúdo, de impor-se nas consciências dos homens bem melhor do que qualquer panfleto político ou discurso filosófico.

Todavia, há quem pense que isto tudo é irrelevante. Basta, para muitos, um título figurar nas listas dos mais vendidas ou ser enfeixado por Hollywood em uma película, para aplacar as consciências de qualquer questionamento quanto as prováveis dúvidas sobre a qualidade estética de uma obra. O divertimento, o entretenimento, a linguagem simplificada, os discursos evasivos e superficiais, sobrepujou os critérios de criatividade, expressão e rigor literário nas qualificações de um livro. Em nome desses novos valores os leitores viram soterrados também qualquer possibilidade de uma arte questionadora e atenta ao mundo. A submissão do leitor as imposições dos gostos midiáticos é total.

Felizes os pequenos que leem livros

Ilustração: Gustave Doré 
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Para quem chega agora à vida e pouco ainda sabe das coisas, não existe melhor guia para descoberta do mundo do que um bom livro. Hoje, 2 de abril, celebra-se o Dia Internacional do Livro Infantil. Não dou a importância que os outros dão as efemérides. Dias disso, dias daquilo, são para mim, armadilhas para apanhar devotos consumidores, cumpridores do que acreditam ser os seus deveres; o de saírem às compras, sempre que o sino do templo anunciar uma oração especial ao santo do dia. Mas se descontarmos a veneração consumista no espírito das efemérides e atentarmos para o fato da celebração a um objeto tão importante como o livro tiraremos daí algum proveito. A leitura aproxima a criança e o jovem à vivências e saberes que expandirão sua visão de mundo para além dos horizontes cotidianos. O texto literário mobiliza a criança, através da descoberta de uma linguagem expressiva e inusitada a um mergulho no imaginário. A leitura abre caminhos, desperta paixões. O bom livro literário oferece ao pequeno leitor a possibilidade de satisfazer a sua criatividade pela experimentação de realidades fantásticas. O ilogismo aparece nos livros para suscitar o questionamento das aparências e só não se deixa conhecer àqueles que não sabem questionar. Enfim o livro infantil é uma ponte sempre aberta entre a criança e o mundo.  

O enfado de pensar em demasia



Pensar em demasia é muito fatigante. Quando? Questiono-me ao ler um post no facebook de alguém que se diz cansado de pensar. Na busca de alento a sua consciência pesada, a tal pessoa, socorreu-se no que acreditava ser o último recurso disponível a um cérebro exaurido por mil inquietações: um livro cheio de sacanagem canhestra em linguagem rasteira, que vem fazendo as cabeças daqueles que desejam sossegar as suas cansadas mentes, com algo menos comprometedor aos seus doridos neurônios. Poucas vezes vi com tanta candura a utilização dessa literatura barata. É para isso mesmo que elas servem, asseguram-me seus leitores, para não ter que pensar. Deixar escapar o cérebro para rotas desconhecidas e percorrer caminhos ainda não desbravados é demais fatigante, ainda mais para quem estar tão desacostumado a essas rotinas de aventureiros. Esvaziar as suas consciências de qualquer tarefa mais pesada do que mergulhar num vazio de sentidos e nulidades, que não terão reverberações após o dobrar da última página, deve ter lá a sua eficiência, porque não canso de ver gente se socorrendo nesse refúgio. O enfado de uma existência vazia, só pode mesmo ser recompensado com uma alegoria de histórias vazias, onde a vida só tem sentido quando apanhada de quatro na cama tomando mil chibatadas antes de voltar ao vazio que a levou às peias.  Amortizar assim a tarefa de pensar, com ações de não ter que pensar, tem sido o exasperado recurso dos que imaginam pensar demais. As pessoas não sabem o que é pensar, porque nunca viveram a consciência de pensar. Estando apenas atulhadas de insignificâncias, imaginam com isso estar a pensar em demasia. Cercados por entulhos de informações inúteis que as impedem de avaliar o pensamento com critérios de qualidade que se distingue da quantidade. Iludem-se com a ideia de que andam pensando além do suportável. Estar com a cabeça cheia não é estar cansado de pensar é estar cansado de não pensar. Pensar para percebermos que não devemos pensar tanto. Pensar para refrear o pensamento. É não pensar. O verdadeiro pensamento não se cansa. A cada passo dado, a cada nova descoberta ele se constitui num renovado interesse sobre si mesmo e sobre o seu alcance.


Dos encantos

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O mundo seria um sítio tristonho se não houve tantos encantos.

O poderio Americano

Henri Miller dizia que a força de uma nação poderia ser muito bem medida pelo grau de importância que esta dava aos seus escritores. Uma civilização intolerante com os escritores estaria, pensava o escritor americano, fada ao fracasso. 

As artes, afirmava o autor de Trópico de Câncer, serve de antídoto contra as moléstias do despotismo e do autoritarismo. 

Tive uma mostra dessa ideia ontem assistia ao documentário sobre a vida do educador Alceu Amoroso Lima. A certa altura do filme, o filho do pensador católico recorda que em visita aos EUA passou pela biblioteca de Nova Iorque e pesquisou a existência de alguma obra de seu pai por lá. Obteve então incríveis 79 entradas para o nome Amoroso Lima. Surpreso, ele confessou que este número supera em muito o número de títulos desse autor em qualquer biblioteca brasileira. 

A superioridade Americana sobre o resto do mundo não pode ser medida apenas pela sanha beligerante. A vitalidade da América vem, em boa medida, de seu apreço e valorização à cultura como um valor potencializador de sua sociedade. 

Ninguém, em sã consciência é capaz de desmentir o filho de Amoroso Lima. Essa é uma dura verdade. O Brasil, ao contrário da América, sofre violentamente com a má distribuição de livros a toda população e com as péssimas condições das nossas bibliotecas os problemas tomam ares de insolúveis. O reflexo disso? Uma população semialfabetizada com sérios problemas sociais e pouca perspectiva de futuro. 

Enquanto a realidade por aqui é essa, na terra do Tio Sam livro é coisa séria. 

Mais uma mostra do gigantismo americano vi ao ler o trabalho do historiador Robert Darnton, O Diabo na Água Benta, livro que relata as ações de libelistas durante os reinados de Luís XV, passando pelo até a Revolução Francesa. Num dos relatos Darnton descreve a figura de um dos maiores envenenadores, mexeriqueiros e caluniadores que França oitocentista viu, Anne-Gédéon Lafitte, marquês de Pelleport. Autor de variados trabalho que expunha ao ridículo as grandes figuras da política francesa Pelleport foi preso e ficou trancafiado na Bastilha por quatro anos. Nesse período, conta-nos o historiador, Pelleport abdicou do relatos de escarnio contra as autoridades e se dedicou a escrever um romance autobiográfico sobre os libelistas franceses. E onde estava os únicos exemplares disponíveis para pesquisa desses livros? Na América, of course. 

A utopia necessária

fonte: aqui
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Meus alunos questionam-me sempre sobre o verdadeiro valor da literatura. Eu não deveria, pela obviedade dos fatos, e pela posição em que eles se encontram, voltar a esse assunto. Porém percebo cada vez mais o imperioso da discussão, e julgo inevitável falar mais do mesmo. Então lhes digo: Não sei o verdadeiro valor da literatura, porém suspeito de algumas coisas sobre ela. A literatura aponta caminhos alternativos aos oferecidos pela realidade. Questiona o inelutável da existência e revigora as utopias quando todos insistem em afirmarem que o sonho acabou. Diz-se então assim, que ela intui um futuro diferente daqueles ofertado pelo mundo dos que cansaram de sonhar. Insubmisso, questionador, ela insiste em rotas inexploradas e abre picadas nas consciências insones. Isso já seria o suficiente para torná-la uma ferramenta indispensável ao progresso da sociedade, mas ela ainda nos oferece mais, muito mais. Dá-nos, malgrado nossos esforços em contrário, uma consciência crítica, civil e política, além de uma consciência da própria linguagem ao questionar o seu convencionalismo e apontar para suas potencialidades mais surpreendentes. Estão aí os Barros, Cabrais, Meireles, Leminkins  que não nos deixam mentir. Em um mundo marcado pelo fetichismo mercadológico ela ainda se constitui no único refugio possível de nos livrar da sedução do canto comercialesco, que nos intenta bestializar com sua sordidez. Em um mundo poliédrico ela nos aproxima de outras realidades desmitificando o desconhecido e evitando assim os males da xenofobia. Quereis saber mais sobre isso? Leiam um livro e tirem vocês mesmo as suas próprias conclusões.  

O livro não existe


“A partir do momento em que você entrega um livro - essa é a principal angustia de um escritor - ele deixa ser seu. O livro só existe quando cada leitor senta pra ler. Na verdade o livro não existe dentro do livro. O livro existe na cabeça de cada um. Se cada um aqui pegar o meu livro pra ler, cada um vai ler um livro diferente. Esse livro só vai existir para ele”.


José Castello aqui

Os inconvenientes indispensáveis

Almada Negreiros (O prazer de ler)
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O escritor Mario Quintana, mestre da literatura de miudezas, escreveu: "Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores". Desconfio dos primeiros, por isso, prefiro os segundos. Por temperamento, tendo às leituras que desafiam os leitores. Nessas, seguramente, eu poderei encontrar o que falta naquelas; coragem em dizer algumas verdades incontornáveis. Nenhum livro, que recentemente saltou das listas dos mais vendidos ao colo dos leitores, foi capaz de contrariar as expectativas ou de frustrar os anseios dos seus leitores, que por isso, lhes são muito gratos. Os que esgotam os leitores não têm a mesma sorte, nem por isso estão desconfortáveis. Há desconforto maior, creio eu, em viver a pressentir e segregar os inconveniente e as desilusões do mundo, do que ter a sua certeza.


Riquezas pelo caminho




Fotos: Regina
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Enquanto navegam, aqui e acolá, os tripulantes dessa nau encontram uns tesouros que enriquecem a jornada, e em momentos tempestivos, afastam as incertezas desse vasto mundo. Dessa vez, foram uns regalos preciosos, que muito acalentarão a cobiça dos exaustos marinheiros, enquanto aguardam a próxima jornada em busca de mais riquezas, que os conforte e tanjam os riscos da pobreza e outros demônios que assaltam incessantemente esses tempos.

O poder dos Livros


fonte click aqui

A coragem de dizer BASTA!

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Em Desconstruir Duchamp, editado pela Vieira & Lent (2003), o poeta e crítico Affonso Romano de Sant´anna afirma que a arte do século XX desmoralizou o que entendíamos como arte. Em seu lugar - sim, porque por mais que ela se pretenda anárquica e completamente descompromissada, ela continua querendo alguma coisa - a arte contemporânea instituiu a fé como substituto da experiência estética. É preciso ser um crente para acreditar na arte contemporânea. Somente a fé impiedosa na palavra do artista, que sem nenhuma habilidade chafurda a tinta numa tela em branco e depois a expõe como arte, e na desistência completa de nossas capacidades críticas, para acreditar que os objetos grosseiros que muitas galerias, bienais, museus, casas de leilões, agentes publicitários e outros meios de comunicação nos empurra, são realmente fruto do engenho e arte que caracterizam o melhor da criatividade humana. Por isso ele pede uma revisão urgente nos valores que norteiam os sentidos da “arte” que dominam a nossa época. Infalível em suas análises críticas Affonso Romano de Sant´anna, como anuncia no título do livro, desconstrói o mito do artista moderno, criado por Marcel Duchamp (1887-1968), o dadaísta mitômano, que criou a ideia de arte conceitual - concepção que considera a ideia, o conceito por trás de uma obra artística como sendo superior ao próprio resultado final - para justificar todo tipo de escatologia. Radicalizando contra os embustes modernos Sant´anna alerta, no entanto, que nem tudo que se está produzindo hoje em dia seja de má qualidade, nem que ele seja contra a arte abstrata ou a arte contemporânea: “Não se entenda do que eu disse nos artigos anteriores que sou contra a pintura abstrata. Há pinturas abstratas excelentes. Não se entenda do que eu estou dizendo que sou contra instalações. Há algumas excelentes. Não se entenda, simploriamente, que sou contra a arte genericamente chamada de contemporânea. Não me creiam mais incompetente e tolo do que sou. Denuncio os embuste que estão misturados a coisas essenciais. Entenda-se isto sim, que estou radicalizando, correndo riscos e tirando os véus e vendas dos olhos. As vanguardas foram importantes, mas já viraram ‘estilo de época’. Há que passar a limpo o que foi feito, não para voltar à ‘academia’, ao ‘passado’, mas para sair dos desvios e dos equívocos.” Até que enfim um intelectual de calibre, com coragem de endossar o que a muito o senso comum já dizia.