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A farra com o dinheiro público

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Imaginem que em meio a uma crise sem precedentes no país, os vereadores de Caetité votaram, em sessão pra lá de controversa, um aumento vultoso em seus já nababescos salários. Fazem isso, enquanto estoura demissões de trabalhadores no município feito pipoca na panela quente. E em vez de ajudarem o povo a superarem essas dificuldades, os digníssimos vereadores preferem agirem em causa própria. Dão assim um vergonhoso exemplo de como são insensíveis aos dramas de pais e mães, que têm que conviverem diariamente com o terror do desemprego. Viram as costas àqueles que deveriam defender e mostram-se sem vexame diante da situação financeira do município. Sinceramente senhores, vocês não são dignos do posto que ocupam.

Fiéis


Foto: Rogério Soares. Igreja e seus fiéis. 2016.
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Ultimamente tenho ido à igreja. Não vou lá quando o padre ou os fiéis fazem a genuflexão e estendem as suas preces, em coro aos céus. Estou cansado de tanta gente a minha volta. Por isso, prefiro a igreja quando uns poucos a visitam. Gosto de ver o silencioso murmurinho dos que suplicam aos céus, remédios às suas chagas. Mas não são só estes os que lá vão. Também estão lá, os que buscam sinceramente expor as suas faltas. Esperam com isso ajustar as suas contas. Nessas horas os observo. Tiro foto. Penso comigo o que será que eles fizeram para pedirem remição ou qual foi a graça alcançada para estarem lá agradecendo? Não tenho resposta a estas perguntas. Quando eles se vão, volto a solidão. Agora tiro fotos do que me surge à frente. Em instantes a vida parece sem agravos e aborrecimentos. Sem pecadores ou redimidos sou só eu, as luzes, as formas, os contrastes e mais uma vez o silêncio divino. Mas é por pouco tempo. Logo a igreja volta a ser tomada por alguém disposto a emendar todos os seus vícios. 


Foto: Rogério Soares. Igreja e seus fiéis. 2016.

Factoide

Foto: de John Cohen. Jack Kerouac ouvindo rádio em 1959.
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O país passaria melhor com um décimo das notícias. É inacreditável o que se ouve, vê e lê nos médias. Quem busca informações hoje está sujeito a encontrar de tudo, menos o que se procura. Uma verborragia, entulha os canais e fazem da imprensa um lugar sofrível.  Ninguém, que assista um jornal, leia uma revistas ou ouça o rádio, pode mesmo se julgar informado. Os médias agem, através de uma lógica, que transformam as notícias, em grotescos espetáculos circenses, que só aos acéfalos agradam.

O que menos importa parece ser a noção de que o público vai à impressa, porque deseja ser informado de algum coisa que lhe escapou e lhe interessa saber. São para isso que servem os média, trazer ao público informações. Mas as mídias abdicaram desse papel, e não se prestam mais a investigação dos fatos, não questionam nem contradizem os relatos, e não se preocupam com o contraditório. A impressão que se tem, é que o jornalismo se vulgarizou e se rebaixou a tal nível que hoje, fica difícil distinguir entre um jornalista e um animadora de torcida.

A mídia, faz de um tudo para manter o público entretido, quando o público só queria mesmo, era saber se vai mesmo ser necessário sair de casa carregando o guarda-chuva, ou por que o político patusco, que fingiu não possuir contas no exterior, ainda não encontrou o caminho da prisão e está presidindo um importante órgão da nação?

Tornou-se intolerável acompanhar as notícias. Dia desses, por exemplo, a cidade em que moro, foi mais uma vez vítima de um bárbaro assalto a banco. Não costumo ouvir rádio, porque as vezes em que tentei, acabei mais aborrecido do que informado. Além disso não suporto as músicas que colonizaram esse veículo, soam-me detestáveis. Mas, curioso em saber mais, sobre o que havia acontecido, de fato, no banco, corri ao fone de ouvido do celular e pluguei-me na primeira emissora de rádio que me apareceu. Deve haver umas 3 ou 4 por aqui. Mesmo suspeitando que, não encontraria muita informação, insisti na ideia de me informar, consultando o jornal do meio-dia que, segundo soube, tem audiência cativa dos ouvintes da rádio.

Do pouco que pude ouvir, entre os gritos histéricos do radialista e uma sirene bizarra que berrava incessantemente, a todo instante, enquanto ele falava (gritava), não foi mais do que o padeiro havia me dito horas antes, ou fui ouvindo pela rua e no caminho ao trabalho. Tanta parlapatice serve apenas ao propósito de não informar o ouvinte. Em meia hora de rádio, não apurei nada que pudesse acrescer às informações, que a população retransmitia em viva voz por intermédio do troca-troca de conversas que dão um colorido todo especial aos dias das cidades provincianas.

Não foi pelo rádio que soube que os bandidos malograram o assalto, também não foi pelo rádio que, fiquei a saber que esse foi mais um caso em que a polícia não tem a menor ideia de quem possa ser os assaltantes, ou o paradeiro dos delinquentes. Convenhamos, as notícias mais relevantes chegam-nos muito mais detalhadas e bem mais integras pelas comadres que se aprazem em reportar os casos que vão ouvindo nos comboios de ônibus, do que são apuradas nas redações de jornais e nas cabines de rádio. 


As lições de Ulisses

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O dramático retorno de Ulisses à Ítaca é cheio de reveses. Tendo vencido todos, ele ainda haverá de enfrentar o maior deles, a reconquista de sua casa assediada por forasteiro que cortejam a sua esposa. Disfarçado, pelas razões que todos conhecem, ele terá que provar quem é para retomar o seu posto. E a que expediente ele recorre para fazer isso? Ele invoca o passado. É a sua vida pregressa ao cerco de Troia, às suas memórias de infância, as experiências de vida ao lado de sua mulher que o permitirão penetrar na sua terra e lhe assegurar as últimas vitórias sobre os usurpadores de seu trono. A sua velha ama reconhece-o graças a uma cicatriz que tem desde criança, Penélope reconhece-o devido a um segredo que só eles partilham a respeito da construção da sua cama, o pai reconhece-o quando o filho começa a nomear os nomes das árvores que aquele lhe ensinou quando era criança. E não esqueçamos Argos, o seu fiel cão. As aventuras de Ulisses partilham conosco a ideia de que a construção sólida de um futuro está intimamente ligada a valorização e reconhecimento de nosso passado. Haverá sempre um perigo a nos rondar cada vez que nos esquecermos do nosso passado. A nossa identidade, o nosso sentido de futuro está assegurado pelas memórias que temos de nossa vida. Perder a memória é perder o sentido de quem somos. Sem isso não poderemos jamais imaginar para onde vamos e qual o propósito de nossa vida. Além disso, nossa terra estará sempre assombrada por ameaçadores intrusos sempre dispostos a nos deliberar os caminhos de nossa existência. Só há uma maneira de defendermos a nossa terra, tomar posse de nossas memórias e assegurar a sua perpetuação.

Repasto Político

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Todos devem ter percebido como os candidatos são tratados nessa época do ano em que concorrem às eleições. Salvo raríssimas exceções, a maioria das pessoas os chama de ÍDOLOS. Meu ídolo pra cá, meu ídolo pra lá. Em nenhuma outra época do ano os políticos gozam de tanta estima do povo quanto nas eleições. Agradar um candidato, mesmo um de índole duvidosa, pode render alguns préstimos no futuro. Há sempre, portanto, a possibilidade de alguma púrpura, do manto de homens tão nobres, recaírem sob aqueles que não se furtam a demonstrarem o seu entusiasmo. Se o seus respeitados candidatos progridem, logo eles também estarão em marcha. “Não há poder” escreveu Victor Hugo, “que não tenha a sua corte. Não existe fortuna que não seja lisonjeada”. Outros vão mais longe e não se cansam de incensar o que eles insistem em chamar de qualidades exemplares para governança. Eu cá tenho minhas dúvidas de homens tão capazes. Para mim o que as multidões chamam, aos berros, de qualidades inequívocas para governança, não passa de ser ingenuidade daqueles que creem facilmente nas enganosas e sediciosas manobras perpetradas pelos gênios da propaganda. Nenhum político hoje se priva desse acessório, que de tão eficaz tornou-se, nas últimas eleições, item obrigatório para ter êxito nas campanhas eleitorais. Pode-se sempre contar com os seus truques de prestidigitador para iludir a malta. Assim ficam todos confortáveis fingindo miopia aguda e repastando os bocados de sua sórdida estupidez.  



Memória ameaçada

Vista aérea de Caetité
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A cidade se modifica numa velocidade incrível. Em quase 10 anos morando em Caetité eu não pude deixar de perceber a furiosa transformação urbana dos últimos tempos. Por todos os lados, crescem arranha-céus. Novos bairros e centros comerciais assentam onde antes havia pequenas moradias familiares ou mesmo um descampado. Não bastasse somente alargar-se até onde as vistas não alcançam os imóveis mais bem situados também são alvo da cobiça e da especulação. De olho em espaços sempre novos a sanha imobiliária põe abaixo todos os inconvenientes e se sobrepõe a memória, a história e ao registro de tempos de antanho. Com espaços cada vez mais disputados e valorizados, os velhos casarões, relíquias de outras épocas, sofrem com a cobiça desenfreada por espaços privilegiados na cidade. Com a desculpa de que são dispendiosos e inúteis, economicamente, pouco a pouco eles têm vindo abaixo, seja pelo abandono dos proprietários ou pelo descaso das autoridades públicas que fazem vistas grossas ao desmonte do patrimônio. “Não adianta reclamar contra a transformação grosseira e desnecessária da fisionomia da cidade – da nossa cidade -, os poderes são surdos pensando que são sábios”, escreveu Carlos Drummond de Andrade a propósito das insistentes intervenções urbanísticas no Rio de Janeiro que desapareceram com incontáveis igrejas na década de 40. “Para que passasse a grandiosa Avenida Presidente Vargas, primeiro derrubaram a igreja da Imaculada Conceição e a de São Domingos... depois, pouco adiante, outras duas velhas igrejas desapareceram, vítimas dum vandalismo que poderia ser evitado: a de São Pedro Apóstolo, redondinha, com paredes largas de dois metros, argamassadas a óleo de baleia, e a do Bom Jesus do Calvário, duas vezes secular e que muito aparece nas Memórias de um sargento de milícias.” Não consta que Drummond fosse nenhum crente, mas isso nunca foi empecilho à sua sensibilidade. Nesses tempos de ares tão poluídos valeria a pena subordinar o avanço do cimento à preservação da memória? Alguns destemidos resistem aos constantes e insistentes assédios dos novos empreendimentos, sem abdicar das transformações impostas pelo tempo. “Venham as torres residenciais ou hoteleiras e que sejam belas e altas e coloridas, levantadas com os mais sensacionais e variados materiais que a indústria inventa no seu incansável evoluir. Mas que não lembrem, nem de longe, aquela outra tão citada, a de Babel – para que possamos, continuar a falar a mesma linguagem de entendimento e solidariedade que é o melhor alicerce para a edificação de uma vida comunitária ideal.”

ACARAJÉ, AXÉ E MUITA PREGUIÇA

Foto: Divulgação
“Baianidade Baiana”: mais um espetáculo
calcado nos estereótipos fáceis
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Téo Júnior*
teo.camp@hotmail.com

Numa cidade como Caetité, cuja tradição teatral é paupérrima, é um alento saber que um espetáculo foi exibido em três sessões, ainda que montado num espaço pequeno, como é o caso do Cine Teatro Anísio Teixeira (Pç. da Catedral, Centro). Nessas raríssimas ocasiões, a crítica se faz fundamental, pois entendemos que o papel dela não pode ser o da complacência ou o da subserviência em relação ao elenco, como normalmente acontece nas divulgações feitas pela mídia, sem critério algum; tampouco a crítica deva destruir um espetáculo, pura e simplesmente. Ela não existe para esses fins. No entanto, sua obrigação é a de analisar – sempre – com justiça aquilo que é oferecido ao público.

Não raro, as comédias apresentadas (muitas a preços populares, inclusive) estão calcadas sobre estereótipos, e os artistas perseguem o nobre objetivo de, sorrindo, refutá-los, já que esses estereótipos – e ninguém há de discordar – são gerados sobre ideias preconcebidas e alimentados pela ignorância. Assim sendo, faz-se necessário rechaçá-los a qualquer custo. Algumas dessas idéias, todos nós já conhecemos: baianos preguiçosos, nordestinos atabalhoados em cidades grandes, gays afetados excessivamente, loiras estúpidas etc. A regra não se aplica aqui, porém. Dir-se-ia que eles (Marcos Lima e Marcos Magno) se incomodam muito pouco com críticas em relação à sua cultura, e ambos a proclamam até com certo orgulho. Não é sempre assim.

O título da peça por si só já soa estranho, porque redundante: “Baianidade Baiana” (sic!), embora o tema nos interesse, num momento em que se discute até que ponto essa “guetificação” cultural é apropriada ou não. Qual seria a melhor identidade? A mais bonita? A “baianidade”, talvez? A “sergipanidade”?  A “mineiridade”? Assim sendo, analisamos por uma ótica separatista, como se esses locais fossem ilhas e não partes de um todo, de um painel diversificado e rico em múltiplos aspectos, como é o Brasil. Aliás, o próprio conceito de “brasilidade” está há muito batido, desde o surgimento – lá no Modernismo – de Tarsila do Amaral, conforme assinalou Mário de Andrade, que caracterizava seus quadros  como sendo a representação da “realidade nacional”.

Rodando a baiana – Abriu-se espaço para imitações de artistas, mencionando-se as diferenças abissais de classes, a negritude, o acarajé com pimenta, a sexualidade sem culpa, o linguajar por vezes tosco, mas autêntico e piadas. Ao final, ambos irmanaram-se com o auditório a fim de que nós, talvez não mergulhados suficientemente nesse universo quanto eles, adivinhássemos as músicas lembradas e por aí vai. É evidente que esse trabalho não é tão simples e eles provaram ser bons comediantes, mas o que a dupla realiza não pode ser considerado teatro, no sentido mais genérico do termo. Às vezes, existiam os diálogos, eles estavam lá, incisivos ao extremo – porque um assunto puxa outro – mas sempre caricaturais, é claro; todavia na maior parte da peça o que tivemos foi o famoso stand-up. Em suma, trata-se mais de um humorístico no estilo “A Praça é Nossa” do que propriamente de uma peça teatral.

O momento em que a sonoplasta (não foi informado o nome) interrompeu a apresentação a fim de se eximir das falhas incríveis do som que ela operava, foi de uma estupidez sem tamanho, e “Baianidade Baiana” pecou, assim, pelo menos na sexta-feira, pela falta de cuidado. Mas nesses casos, como eles se abrem a todo tipo de improvisação, não se considerou o descuido uma grande falha, pois ele não chegou a atrapalhar em nada.

A responsável pela peça foi a “Companhia Baiana de Risos” e a direção é de Alberto Damit e Marco Antonio Lucas. Ingressos: 20 reais.

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* Graduado em letras pela UNEB, foi professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) atualmente desenvolve Projeto de Mestrado cujo tema é a dramaturgia de Nelson Rodrigues. É pesquisador de teatro. 

INTERDIÇÕES

Os Sonhadores

Quais razões uma instituição, com fins culturais, pode alegar para censurar uma obra artística? A Casa Anísio Teixeira, situada na cidade de Caetité, terra natal do educador, tem uma, que coloca em dúvida a nossa existência no século XXI, e nos faz pensar estarmos noutra época. A Casa vê com reservas algumas obras cinematográficas e lhes impõe severas restrições, baseadas num código moral, rígido, de uma única lei. A pretexto da preservação da moralidade e dos bons costumes, toda e qualquer obra, que exponham cenas de sexo, por mais branda que sejam, por mais indispensáveis à recriação da realidade, sofre uma desmedida censura.

Em que pese o caráter sexual de algumas obras, a saber, Fale com Ela, Meninos não Choram, Má Educação, Navalha na Carne, Os Sonhadores, Anjos Exterminadores, A Última Tentação de Cristo, entre outras, inexistem, nessas, qualquer impedimento moral que desobrigue instituições culturais, com interesses em formar um público de cinema, sem preconceitos, e cidadãos conscientes, que justifique a censura que ora a Casa emprega para selecionar os seus filmes.

O sexo nesses filmes não me parece razão para censurar as obras, muito mais, que eles tratam, com muita seriedade, de outros temas, um tanto quanto delicados, mais indispensáveis. Se eventualmente essas obras têm alguma cena de sexo, são porque essas histórias mostram uma realidade sem máscaras e sem concessões ao fingimento, que reina no mundo de hoje. Se empregam um vocabulário chulo, rejeitados pela decência e pela sensibilidade, é apenas em respeito à severidade de propósitos que a encerram.

O impedimento apenas reduz essa seriedade de propósito, a um imperativo sexual, que insisto, eles não têm. Má Educação, de Pedro Almodóvar, por exemplo, retrata uma realidade que fingimos não enxergar, a da pedofilia, algo realmente condenável, mas não se ouve um comentário repudiando a imoralidade dos atos religiosos, recrimina-se antes a obra, que a denuncia. Meninos não Choram, fala de uma sociedade intolerante a orientação sexual das pessoas que não andam encabrestados como as demais, mas apenas o sexo mostrado no filme, que não corresponde às formas desejadas pela “normalidade” social, é lembrado. Fale com Ela, uma belíssima ode ao amor, coisa rara nos dias atuais, deixa de ser uma lição de tolerância e amor ao próximo, por quê? Sexo, sexo, sexo, sexo, algo que ninguém faz, aparece em alguma cena. Navalha na Carne, obra do fabuloso Plínio Marcos, retrata o submundo da prostituição e a violência nas relações humanas, nada disso parece importar. Será possível que histórias assim ainda se concebam fora de nossos cinemas?

Enquanto interditam essas obras a Casa é parcimoniosa com outras, muito menos incômodas, e seguramente, menos instrutivas. Xuxa e os duendes, As patricinhas de Beverly Hills, High School music cujo objetivo maior, passa ao largo da instrução social, e reinam impune. A exploração comercialesca desses produtos juvenis, travestidos de cinema, recebe total amparo da Fundação em detrimento das legitimas obras de arte, que com certeza têm muito mais a dizer sobre o homem e a sociedade.

Comprometidos em mostrarem a vida como ela é e não como são vendidas nas propagandas, as obras de significativos valores são estupidamente amordaçadas, num atentado as consciências. O alegado conteúdo sexual desses filmes não passa de uma afronta a nossa inteligência. As histórias mostram realidades duras e cruéis, porque retratam realidades duras e cruéis, porque a realidade, em si mesma, é frequentemente dura e cruel.

O cinema, principalmente o dos melhores realizadores, como é o caso desses filmes, distingue-se da pornografia e não são imorais, muito menos ofende a dignidade humana reduzindo-o a um produto perecível, ao contrário, eles mostram, e talvez aí esteja o legítimo motivo da censura, uma realidade que fingimos não existir.

A propósito das razões da censura contra as obras artísticas a maior referência da crítica teatral no Brasil, Décio de Almeida Prado, escreveu: “A censura baseia-se provavelmente em impulsos repressivos mais fundos, menos conscientes... O primeiro, comum a todos nós, é o desejo muito compreensível de negar o mal (chamemo-lo assim, para simplificar o problema). Sabemos que ele existe. Cruzamos diariamente, nas ruas da cidade, com a prostituição, o proxenetismo, o homossexualismo. Mas fazemos tudo para não ver, para ignorar a realidade desagradável... Não se podendo atingir a própria realidade, atinge-se a sua representação... A severidade, no campo limitado sobre o qual podemos influir, compensa-nos das nossas imensas frustrações em relação ao campo rebelde e infinitamente mais vasto da realidade...”

Sobre qualquer pretexto o cerceamento à expressão artística é um retrocesso aos avanços de nossa sociedade. Esquecidos de que o cinema é um importante bem de divulgação cultural e indispensável ao reconhecimento de uma realidade que urge ser modificada, a Casa infringe, em nome de um pretenso acolhimento da sociedade tradicional, as suas funções primárias, que é a de distribuir e divulgar objetos culturais de qualidade. Para fazer isso faria um grande favor abolindo a censura que deixa de fora de seu catálogo de filmes obras essenciais do cinema.

"Às morais de séculos anteriores temos que antepor a coragem de enfrentar a verdade, seja ela qual for".

EMPALIDECER A SOMBRA


Essa postagem aqui, do meu amigo Teo, provocou, depois de longos dias passados, um delicado leitor, que se sentiu ofendido pelas palavras certeiras de Teo sobre Caetité, sua terra natal. Tanta celeuma se deu por conta de que Teo, com toda razão, se cansou do marasmo, da mesmice e do torpor Caetiteense, e num ato de coragem, tomado por poucos, resolveu encarar a vida sem lenço e sem documento feito um Rimbaud. As pessoas não toleram os tipos que não se ajustam como elas, completamente a domestificação. Escudados por um pretensioso bairrismo, que eles se esforçam em demonstrar, como se isso fosse sinônimo de preocupação com o lugar e com as pessoas, esses zelosos intrépidos dos portões da cidade, quase sempre fazem vistas grossas as maledicências políticas ou receberam alguma sinecura, que não lhes deixam nenhuma dúvida sobre as belezas dessa cidade.