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As humanidades não Humanizam


As humanidades, escreveu o crítico George Stein, não humanizam. Estou cada vez mais convencido disso. Até hoje, não consta que uma obra literária tenha salvado uma única criança da fome, impedido uma guerra ou estancado o sangue que os homens insistem em derramar uns dos outros. Porém, se as artes não salva, nem conforma totalmente o homem, tão pouco sem ela, essas coisas deixariam de existir.



Escrevo isso a propósito do que li aqui.

Os inconvenientes indispensáveis

Almada Negreiros (O prazer de ler)
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O escritor Mario Quintana, mestre da literatura de miudezas, escreveu: "Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores". Desconfio dos primeiros, por isso, prefiro os segundos. Por temperamento, tendo às leituras que desafiam os leitores. Nessas, seguramente, eu poderei encontrar o que falta naquelas; coragem em dizer algumas verdades incontornáveis. Nenhum livro, que recentemente saltou das listas dos mais vendidos ao colo dos leitores, foi capaz de contrariar as expectativas ou de frustrar os anseios dos seus leitores, que por isso, lhes são muito gratos. Os que esgotam os leitores não têm a mesma sorte, nem por isso estão desconfortáveis. Há desconforto maior, creio eu, em viver a pressentir e segregar os inconveniente e as desilusões do mundo, do que ter a sua certeza.


O mundo precisa SIM de poesia


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A cantora Maria Bethânia foi notícia em toda rede esta semana. Tudo por conta da informação de que ela conseguiu autorização do Ministério da Cultura para captação de R$ 1,3 milhões para criar um blog intitulado “O Mundo Precisa de Poesia”. A iniciativa pretende postar diariamente um vídeo da cantora interpretando os grandes mestres da literatura. Imediatamente uma nuvem de poeira se ergueu, daqueles enfurecidos guardiãs do tesouro público protestando contra a ação da cantora.

Ao contrário destes acredito que 1,3 milhões é pouco, muito pouco mesmo para uma iniciativa que a meu ver é de utilidade publica. Toda e qualquer ação em favor do desenvolvimento da cultura, pelo menos daquela que seja digna de ser chamada assim, e são cada vez mais raras as ações nesse sentido, tem o meu apoio.

Maria Bethânia não receberá dinheiro diretamente do governo, mas via renúncia fiscal. Sei... calma lá esperem, essa é uma forma indireta de captar recursos públicos; não me creia mais tolo do que sou, explico meu ponto de vista.

Maria Bethânia quer dinheiro público para promover a poesia na sociedade, BRAVO! Sua ação provoca escândalo e revolta um grupo de intelectuais - nada mais brasileiro do que isso. Agora, ninguém se pergunta, nem questiona, até onde sei, os milhões de reais que saem dos caixas públicos para financiar os carnavais com músicas e atrações no mínimo duvidosas. Quantos milhões o governo da Bahia gasta com os trios elétricos para um número restrito de foliões festejarem, enquanto outros são espremidos pelas vergonhosas cordas, ironicamente seguradas por CORDEIROS. Quantos? Quanto o governo da Bahia renunciou para instalação da Ford por aqui?

Toda essa celeuma, acredito, vem do fato de que no Brasil dinheiro gasto com cultura, arte e poesia, é dinheiro desperdiçado, afinal poesia não serve para nada, não alimenta estômagos, nem abriga ninguém contra o frio ou as intempéries do tempo, não é mesmo? Esta é uma visão histórica que infelizmente ainda não conseguimos romper, por mais que sobrem esforços de alguns nessa frente.

Um país forte e respeitado é medido, dizia o escritor americano Henry Miller, pelo grau de importância que seu povo dar aos seus poetas. Em A Hora dos Assassinos, um ensaio sobre a obra de Arthur Rimbaud, Miller lembrou que o Egito foi grande enquanto respeitou, promoveu e incentivou os seus artistas, o mesmo ocorreu com a Grécia e a Itália. À medida que os artistas passaram a ser perseguido, estes países deixaram de ter a importância que tinham e declinaram, para nunca mais voltarem o serem o que um dia foram. Se ainda nos resta alguma memória desses povos, isso se deve - vocês hão de convir - aos seus artistas (escultores, pintores, arquitetos, e principalmente escritores) que pagaram, muitos deles, com a vida a ousadia de lembrarem aos homens a sua natureza menos nobre, as suas fraquezas, seus vícios e outras coisas imerecidas de um ser criado por um Deus todo poderoso.

Não me causa espécie está polêmica. Acho-a saudável. Não posso, porém endossar as opiniões de quem acredita que dinheiro gasto com poesia seja desperdiçável, mesmo que esse dinheiro seja no valor mencionado. Estou consciente das emergências do país, mas também acredito que parte delas poderia ser sim contornada com os esfoços de artistas, intelectuais, educadores bem intencionados. Quem já contribuiu tanto com nossa cultura, pode contribuir ainda mais.

A sede que nunca acaba

Inquirido durante o Jornal da Cultura de hoje (15), sobre a possibilidade dos EUA interferirem ou influenciarem nos protestos que depois do Egito tomam agora as ruas do Teerã, o geógrafo e sociólogo Demétrio Magnoli, descartou categoricamente essa hipótese afirmando que “os Estados Unidos podem no máximo fazer comentários sobre o que acontece no Irã”.

Será mesmo? Só comentar? A história diz o contrário. A política americana desde a presidência de Andrew Jackson, sétimo presidente dos Estados Unidos, foi sempre marcada pelo intervencionismo e desrespeito a autodeterminação dos povos.

Com um discurso pretensiosamente mascarado pela difusão da liberdade entre os povos, os Estados Unidos desenvolveram a doutrina do “Destino Manifesto”, que expressa a crença de que eles seria o povo eleito por Deus para conduzir o mundo.

Tais ideia que inicialmente serviram para justificar a tomada do Texas e posteriormente a Califórnia, Novo México, Arizona, Uthar, parte do Colorado, Oklahoma, Nevada numa guerra contra os Mexicanos no final do século XIX, ampliou-se no inicio do século XX quando eles invadiram o Vietnã, fomentaram as revoltas no Panamá contra a Colômbia, tentaram uma intervenção em Cuba durante a revolução, alimentaram ditaduras no Brasil, Chile e Argentina, sustentaram regimes no mínimo suspeitos na África e no Oriente Médio e culminaram com a invasão no Afeganistão e Iraque.

Em nome da defesa da democracia, do respeito aos direitos humanos o governo de Washington, quer na verdade, garantir acesso aos riquíssimos recursos naturais abrigados em qualquer parte do mundo. E se puder fazer isso sem aparecer tanto melhor. Com esse retrospecto de desrespeito e autoritarismo me espanta a ingenuidade de Magnoli em crer que os EUA não farão nada, para derrubar seu maior obstáculo na consolidação de sua hegemonia na região mais prospera em petróleo do mundo, justamente agora que a oportunidade aparece.

Alguns minutos antes da fala de Demétrio Magnoli no Jornal de Cultura, assisti no Jornal Nacional uma matéria que justificava o questionamento da apresentadora Maria Cristina Poli ao geógrafo, e que é uma sensação de todos, menos do geógrafo. A matéria dizia que: “A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, anunciou a liberação de US$ 25 milhões para projetos que ajudem ativistas a driblar a censura na internet imposta por regimes autoritários. Esse tipo de censura foi usado, por exemplo, no início dos protestos contra Hosni Mubarak.”

Será que o Demétrio ainda acredita nas boas intenções dos EUA?

RAZÃO LITERÁRIA

Instado a me pronunciar sobre as qualidades que aprecio nas obras literárias, digo de pronto que elas devem provocar algum desconforto. Isso para mim basta. Porque aquelas que tentam me confortar, tenho na conta de nauseantes. Nesse sentido sou totalmente Nietzscheano. Não posso crer que sem algum desafio, esforço ou luta se faça um homem, tanto mais uma obra literária. Por isso gosto mesmo são dos amores fracassados, dos vencidos da vida, dos derrotados, dos silêncios e vazios, dos errantes e dos frustrados sociais, dos marginais e prostitutas, dos traídos, dos náufragos dos ressentidos dos iconoclastas morais e religiosos. De didatismo já temos por conta. É preciso encarar a vida com coragem. Mas antes algum esforço tem de ser distendido. Esses pontos resumem bem as razões pelas quais gostos tanto de literatura porque como disse Cesare Pavese ela é uma defesa contra as ofensas da vida.