Para melhor perceber as coisas
precisamos de algum distanciamento. Além disso a imagem vista de muito perto,
não nos dá uma perspectiva do todo. A esse propósito, lembro o José Saramago.
No documentário Janela da Alma, ele diz de uma revelação que teve certa vez, em
que foi forçado a mudar de lugar no meio de uma apresentação de ópera. Ele era
grande apreciador dos espetáculos. Ia sempre à Ópera Real de Lisboa. Tanto que
já tinha uma cadeira cativa em frente ao palco. Certo dia, ao chegar ao teatro,
encontrou a sua cadeira ocupada. Com alguma resistência ele foi convidado a
sentar-se num dos nichos contíguos ao palco. De lá, deslocado do seu ponto de
vista habitual, ele viu o que nunca antes havia visto antes. O palco de cima e
por trás. Aquele ambiente que respirava ares monárquico, visto de outro ângulo,
pareceu-lhe sujo, empoeirado e nada agradável. E de fato o era. A imagem dos
espectadores da plateia não lhes permitem ver além dos cenários montados e dos
atores interpretando. Da cadeira cativa de onde sempre via os espetáculos tudo
era suntuoso e limpo. De seu novo ponto a realidade era outra, bem menos nobre.
Aí surgiu-lhe a mente a ideia de que, para conhecer mesmo uma coisa,
verdadeiramente, precisamos todos de "dar-lhe a volta". Contornar os
objetos para deles tirar melhores conclusões. Assegurar-se de que ela não é
apenas uma fachada bonita, feita para impressionar, mas que também, em volta
pode esconde coisas menos nobres, que denunciem melhor o seu todo.
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O real mais que real
.
Algumas pessoas
insistem em afirmarem que a ficção, em oposição a realidade, é o império do
falso, do inverídico e do impalpável. Algo a que não se pode dá crença. Mas
essa afirmação parece não se encaixar bem na personagem (portanto algo falso)
que Rita Hayworth criou em 1946. No auge de sua beleza, Rita, aos 28 anos, deu
vida a Gilda, criação que transbordava sensualidade e ousadia, numa época de
grande repressão sexual. A máquina de fazer realidades através da ficção que é Hollywood
botava em cheque, o discurso dicotômico, real x ficção. Gilda tornou-se,
através do impossível ficcional, o alvo do desejo de dez entre dez jovens
americanos do pós-guerra. Se a realidade é algo que se pode sentir através dos
sentidos (tato, paladar, olfato, audição) nada foi mais real para aqueles
jovens do que aquela presença ilusória criada pela câmara escura dos cinemas e
que traduzia todos os seus desejos de uma forma que a realidade ainda não havia
alcançado. Tanto é verdade isso que o slogan promocional do filme era: “NUNCA
HOUVE UMA MULHER COMO GILDA”. Ruy Castro, admirador do filme lembra que a
presença de Gilda nas telas da época só podem ser medidas em megatons, dada sua presença marcante: “os
filmes americanos não mostravam uma mulher tão sensual e dadivosa. Seu impacto
em 1946 pôde ser medido até em megatons: pouco depois da estreia do filme, a
bomba que os americanos explodiram no atol de Bikini, no Pacífico, na primeira
experiência nuclear em tempo de paz, foi batizada de Gilda, pela equipe que a
construiu. Trazia, inclusive, um desenho de Rita na carapaça numa publicidade
espontânea e sem preço.” A ficção, ao contrário da realidade, nos promove uma experiência
outra das coisas, muito mais intensa e viva. Por isso os gregos acreditavam que
a ficção era mais importante do que a realidade. A ficção por sua natureza inapreensível
nos promove uma descoberta com o essencial das coisas. A realidade, pelo contrário,
é o encontro com a aparência.
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