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Herberto Helder

Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega.


Herberto Helder

Henrique Manuel Bento Fialho - Petardo anti-sonolência.

fonte da foto aqui
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Só há paz possível e algum alento à modorra cotidiana, na arte. Depois de uma semana sisífica volto a ler o Henrique M. Bento Fialho. Como sempre ele atira contra mim e as convicções bovinas um petardo anti-sonolência. Sua poesia é um despertar das ilusões, um chamamento às consciências. Vai dai que alguns, convictos panglosianos da normalidade social, não enxergarão grande coisa nesses versos. Tenho, porém comigo a plena convicção de que muitos daqueles que pressentem algo de tortuoso e desajustado na política, na sociedade e na cultura contemporânea sentirão neles uma verdade inconveniente. E são de inconvenientes contra as correntes que nos arrastam pela “torrente dos dias” que são feitos os versos desse português arisco ao convencionalismo. Ao contrário de seus compatriotas, Henrique suspeito de cada gesto da vida moderna. Sem maneirismo ou figuras obscuras sua poesia dispensa o vocabulário insólito “sobre amores-perfeitos,/ Cidades ardidas, noites melancólicas... para percorrer os caminhos da vida com a sinceridade que rareia em todas as esferas sociais. Implacável contra a complacência que reina nas relações humanas, Henrique, na contramão daqueles que não dispensam uma sinecura, sentencia: Prefiro um emprego honesto à suinicultura/ Dos salões nobres, das universidades vazias. Até conhecer a poesia do Henrique Manuel Bento Fialho eu não sabia que era possível escrever poesia com tanta agudeza e ferocidade de espírito.



Não quero ser poeta num país onde os poetas
Estão ao nível dos secretários de estado,
Escrevem com o giz remoído das unhas

Versos de encantar musas imberbes
E olham para o lado, fingindo que não vêem,
Sempre que passam pela própria sombra.

Prefiro um emprego honesto à suinicultura
Dos salões nobres, das universidades vazias,
Dos colóquios a meia-luz nos jardins da fundação.

Um emprego honesto pode ser: plantar
Cornucópias na testa do consumo, regar
Palavras a esmo, lavrar as alcatifas poeirentas

De uma livraria mainstream arrastando os pés
Das mesas carregadas de lixo, como arrastados
Vamos nós na torrente dos dias.

Ou talvez arrumar crises nas prateleiras da austeridade,
Enquanto do outro lado do mostruário
Os poetas do meu país escrevem sobre amores-perfeitos,

Cidades ardidas, noites melancólicas e coisas assim
Fodidas.

Um blog incasto

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Adoro os blogueiros portugueses. Sempre que descubro um novo, saúdo com alegria essa descoberta. Prefiro os lusos aos nacionais. Não me falta ocasião para lê-los.  O porquê dessa predileção, eu  não sei, as razões ainda me escapam. Talvez, julgo eu, sem ter certeza, seja o português castiço, que a maneira própria dos irmãos além-mar me desperte, ocultamente, uma melancolia da língua de Camões. Ou ainda, a maneira incasta, com a qual eles empregam essa mesma língua, contra as manadas a caminho do matadouro.

Visitar blog aqui (aviso, esse blog é devastador)

DISCUTÍVEL POLÊMICA

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A edição de julho da revista Playboy Portuguesa, nem bem saiu e já se tornou o centro de acalentadas discussões, que giram em torno da liberdade de expressão e o respeito à fé alheia; equação de difícil equilíbrio no mundo moderno, quase sempre regido por valores movediços.


O motivo da celeuma se deve ao tema da revista desse mês, que traz na capa um Jesus Cristo sentando numa cama amparando nos braços uma mulher, que como é próprio dessas revistas, aparece seminua. Na cabeceira da cama lê-se o título do livro do escritor português José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

O alegado motivo da capa, segundo o editor da revista, foi prestar uma “última homenagem” ao escritor morto no último mês de junho em razão de complicações em sua frágil saúde.

Mas se a imagem da capa mexeu com os brios de muita gente, as que surgem no interior da revista esquentam ainda mais a polêmica. Nelas podemos ver, entre outras fotos, Jesus observando duas lésbicas trocando carícias.

A homenagem ao escritor não agradou muita gente, nem mesmo a empresa mãe que anunciou, assim que soube da publicação, seu desacordo com o tema da revista.

Alegando não ter tido conhecimento prévio da polêmica imagem, a vice-presidente da Playboy Entertainmente, Theresa Hennessy disse que se trata de "uma violação chocante das normas" e que "devido a esta e a outras questões com os editores portugueses, estamos prestes a rescindir o acordo". Por essas palavras entende-se que a matriz da revista não concorda com o tema e ameaça com rescisão a edição portuguesa da revista, que atua em Portugal a pouco mais de um ano e meio; a primeira edição saiu em março do ano passado.

Esta lançada à polêmica, com ela semeia-se a discórdia e por fim um produto francamente sofrível como são as revistas que exploram a nudez feminina, dão um salto momentâneo, naquilo que mais lhes interessam, as vendas.

As razões da polêmica são discutíveis. Para muitos elas não passam de uma armação, entre a revista portuguesa e a sede americana que ameaçando fechar a sucursal, incendeia a discussão para impor a repercussão do caso, e assim, promover a revista, que segundo informa a imprensa portuguesa vive momentos de grande dificuldade.

Decididamente José Saramago merecia melhor homenagem. Uma por exemplo, que não tivessem que relacionar o seu desentendimento com os dogmas da Igreja, com fins comerciais de uma revista masculina.



RESSENTIDOS


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Com exceção de alguns intelectuais e religiosos portugueses, a notícia da morte do escritor José Saramago (1922-2010), consternou uma legião de fãs no mundo inteiro.

Notável romancista, José Saramago deixou-nos uma obra maiúscula que, em tudo dignifica a tradição literária portuguesa que nos legou autores como o Pe. Antônio Vieira, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz e muitos outros.

Foram mais de dezoito títulos entre romances, contos, teatro, poesia e diário, destacando, quase sempre, a sua indizível insatisfação com a opção do homem contemporâneo em estreitar a sua perspectiva quase ao nível da cegueira absoluta. Entre os seus títulos mais conhecidos estão, Memorial do Convento, Ensaio sobre a Cegueira e o polêmico O Evangelho de Jesus Cristo.

Não faltam nessas obras o traço personalíssimo do gênio, nem as marcas de sua juventude pobre e uma profunda indignação contra a sociedade portuguesa, descrita por ele em correspondência com o amigo José Rodrigues Miguéis, sem piedade nem reserva de qualquer natureza, como tacanha. “Há dias fui ao jantar de entrega do Prêmio Camilo à Isabel da Nóbrega: é de morrer. Tanta impostura, tanta falsidade, tanto esforço para parecer mais inteligente que o vizinho, e sobretudo mais célebre. E tudo isto sob a capa de modéstia jesuítica, uma capa cheia de buracos de orgulho e de inveja. E esta gente é a nata, e esta gente conduz, orienta, dá entrevistas, pontifica, tem opiniões acerca de tudo e de coisa nenhuma”.

Por sua maneira controvertida de contradizer a versão oficial, sublinhada pelo vezo inconformista de quem não nada com a corrente, pelo seu inegável apreço à verdade, que não lhe deixava quieto, quando os outros empregavam eufemismo diante de fatos dolorosos; José Saramago granjeou inúmeros desafetos na sociedade portuguesa.

Tais incomposturas desse autor, diante de uma sociedade cuja elite abdicou há tempos de respeitar e ser respeitada, não foram perdoados, nem mesmo após a sua precoce partida. Sobram, nesses dias em que inúmeros admiradores estão enlutados, incontáveis discursos, seja nos jornais ou na blogosfera, contra sua persona política-literária, contestadíssima.

Periódicos e blogues portugueses reservaram àquele que foi o único autor da língua portuguesa, laureado com a maior distinção da literatura, o Nobel, um diminuto e ridículo espaço, que mal disfarça a indiferença com que Saramago sempre foi tratado em sua terra natal.

Críticas imerecidas preferem destacar, ante a criatividade e a imaginação fértil que celebrizou o autor de Levantado do Chão, a predileção por uma linguagem barroca, bem como a displicência com a pontuação ou a completa indiferença as estruturas convencionais da narrativa, como obstáculo a leitura, esquecendo-se que isso nunca foi empecilho aos números leitores apaixonados, que Saramago conquistou em décadas de ofício literário.

Para o jornal Correio da Manhã, popular jornal de Portugal, a passagem do maior autor contemporâneo da literatura portuguesa não teve a menor importância. Prova disso foi a quase omissão em suas páginas da morte do escritor que, quando apareceu mereceu o mesmo destaque na capa do jornal que um “professor que mostra pênis e dá aulas”. Lamentável. Pior do que isso, somente a recusa do presidente Cavaco Silva em comparecer a despedida do maior nome da cultura portuguesa no exterior.

Tanta indiferença ao mais destacado gênio da cultura portuguesa, me fez lembrar a nossa imprensa na ocasião da morte do maior artista de nossa época, Paulo Autran. Na semana em que morreu o ator, em que foram anunciados os ganhadores do Nobel, Tropa de Elite foi sucesso antes mesmo de estrear no cinema, e, estreando, arrebentou – o destaque da capa de Época, revista da editora Globo, foi o furto do relógio do apresentador Luciano Hulk. Em matéria de notícias desinteressante, portugueses e brasileiros rivalizam caninamente.

A relação de Saramago com a sociedade portuguesa nunca foi fácil, ele nunca se afinou com as bases da elite e por isso pagou um alto preço. A cobertura da imprensa e a repercussão de sua morte são reveladores dessa relação, pra lá de conflituosa. Sua versão pouco favorável da maledicência dos poderosos, seu questionamento a castidade da sociedade lusa, bem como seu desacordo com os dogmas religiosos, tão arraigados na cultura portuguesa, mais a sua proverbial feição ao comunismo, nunca foi bem digerida pelos conservadores. Ela acabou de azedar de vez, quando na década de 90, depois que Sousa Lara vetou a candidatura de O Evangelho segundo Jesus Cristo a um importante prêmio da literatura européia.

Tanta indiferença acabou por empurrá-lo de vez para o auto-exílio nas ilhas Canárias, onde viveu os últimos anos ao lado de sua mulher Pilar Del Rio. Imperdoável em sua maneira de pensar e agir, Saramago, manteve-se a distância, mas preservou a pena e a consciência crítica ativa.

Não se admira que, em se vendo pintada de forma tão desfavorável, essa sociedade, refletida nos livros de Saramago, deva-lhe render qualquer homenagem. Se, no entanto, não podemos esperar qualquer gesto de reconhecimento desse tempo ao gênio de um artista como Saramago, resta-nos o conforto de saber que as próximas gerações, bem menos ressentidas do que essa, saberão julgar o escritor e o homem com a devida justiça. Assim esperamos.