
Eu adorava Caymmi.
Uma verta vez, Caetano Veloso deu o seguinte parecer sobre Dorival: "Ele é o maior dos maiores". Pronto. Esse é seu epitáfio.



Nas ruas de Caetité, não obstante o frio que a essa época do ano deixa de ser normal e passa a assustador, em meio aos silvos de ventos gélidos e aos burburinhos dos carros que passam curiosos a bisbilhotar os cantos escuros, a espreita de algum caso; e dos bêbados que cantarolam tristes melodias, ouviu-se por toda parte, nessa última quarta-feira 16, uma outra música, muito mais antiga e alegre. A cidade inteira então correu a ver o que se passava. No átrio da Catedral Nossa Senhora Santana deram, com um improvável caminhão-palco, pronto para o pianista Arthur Moreira Lima, tocar algumas das músicas que se mantêm, alheias às flutuações dos gostos e dos momentos, preservadas perante possíveis contrariedades. A seguir, ameaçou chover. O céu cobriu-se de premonitórias manchas. Contudo, ninguém, que se abrigava ao relento da noite, arredou pé, caso contrário, teriam perdido as estonteantes proezas musicas de um solista virtuoso. Foram, pelo menos, uma hora e meia de absoluta comunhão, ou deveria dizer exorcismo, entre público e musico. Moreira Lima tem um repertório prodigioso, Bach, Beethoven, Chopin, Astro Piazzolla, Ernesto Nazareth, por isso, poderia ter continuado tocando por horas que ninguém cansaria de ouvir, ao menos, essa foi a impressão que ficou da reação vinda da platéia, extasiada com o som que vinha do palco de um caminhão.
“os inimigos da literatura não são as pessoas que não compram os livros; são pessoas que não lêem”
FOTO: WILLIAM HOGART FAMOSO PINTOR INGLÊS QUE SE NOTABILIZOU PELA SÉRIE DE GRAVURAS CHAMADA "ASSUNTOS MORAIS MODERNOS".Quem julgou que o problema era novo, avaliou errado. Há muito que ele vem ocorrendo sem nenhum impedimento. A mais de dois séculos Adam Smith já denunciava nas universidades de sua Escócia a venda de monografias e outros trabalhos acadêmicos por encomenda. A permanente prática dessa atitude vexatória desnuda o baixo grau de moralidade que permeia algumas de nossas universidades. Futuros doutores, professores e mestres, formados na malandragem, corrompem e desacreditam instituições ciosas de seu prestigio. Ninguém se pergunta, no entanto, por que tudo isso persiste. Tenho pra mim que essa prática nefasta se deve ao declínio abrupto da qualidade do corpo docente. Num ciclo vicioso de manutenção e reprodução, professores sem qualificação pedagógica mínima, sem produção cientifica (há uma ou outra honrosa exceção), e pior completamente desatualizados da nova produção literária, ascendem às cadeiras dos cursos das universidades. Esses, formados com a indulgência de alguns não exigirão dos seus, aquilo que não lhes foram exigidos; trabalho. O continuo depauperamento dos currículos e a falta de material bibliográfico, nas bibliotecas, contribui ainda para conservação dessa devassidão. Hoje já não surpreende ninguém cartazes oferecendo “trabalhos acadêmicos” em pleno mural da universidade. Não tarda é isso passa a ser uma constante. A cada dia tem uma degradação moral mais acentuada em todas as camadas da sociedade, observa o tropicalista Tom Zé. Nenhuma instancia se salva.
Meu povo: chega uma hora que a gente precisa ir embora. Pegar o primeiro avião, com destino à felicidade. Ou o primeiro ônibus. Ou a primeira charrete, o que for. Chegou minha hora de sair da roça. Chega de mim, né? Caetité está cada vez pior e, pelo andar da carroagem, tende a piorar cada vez mais. E essa tal de mineradora aí... sei não. (o salário é quanto?) Eu não fico, mas, quer ficar, tudo bem. Assiti agora um depoimento de Maria Bethânia, no dvd "Maricotinha" contando da infância na célebre Santo Amaro da Badalação. Que ela não queria sair, não queria deixar o pai e a mãe sozinhos, que conhecia bem a cidade e não queria largar seus amigos e blá blá blá e blá bla blá. Mas acabou deixando. Isso é besteira. Pai, mãe e amigos ficam e o melhor é tocarmos o barco.
A poetisa Tania Martins, no Rio de Janeiro: a melhor
Por feitio sou daqueles que acreditam na liberdade e no desejo de liberdade a toda prova. Não há meio termo possível que possa dirimi essa disposição de espírito. Nem meios tons indefinidos me agradam. Não me ânimo mais a discussões ideológicas e apaixonadas que vejo serem inúteis. E cujo prólogo principia a guerra. Por isso não creio que governos que cerceiem a liberdade, se perpetuem no poder, devam ser respeitados ou defendidos. Sou radicalmente contra o encarceramento das vontades dos cidadãos ao desejo de qualquer governante. É ainda não tolero que uma vez que te decretaram que tens pneumonia, se comporte com um pneumático.
Alexandre Frota: pornografia pra ninguém botar defeito. Nelson, não.
Daqui a poucas horas teremos a octogésima edição do Oscar. Essa premiação que chama tanto a atenção do mundo tem razões que muitas vezes nos escapam. Assim, não é de se admirar que obras de qualidade duvidosa abocanhem inúmeras estatuetas. Enquanto outras com largar contribuição ao cinema, e reconhecimento da crítica especializada, saia mal na cerimônia. Podemos evocar muitos exemplos que se prestam a compreensão do que digo. Em quase sessenta anos de cinema Alfred Hitchcock criou um gênero, a saber, o suspense, e inúmeros tipos que ajudaram a impulsionar o cinema no mundo. Sobre suas obras Truffaut em livro memorável, disse: “seus filmes, realizados com um cuidado extraordinário, uma paixão exclusiva, uma emotividade extrema disfarçada por um domínio técnico raro..., desafiam o desgaste do tempo, e confirmam a imagem de Jean Cocteau ao falar de Poust: ´sua obra continuava a viver como os relógios no pulso dos soldados mortos´”. No entanto, todas as inovações e reconhecimento não foram suficientes à academia, que o indicou seis fezes ao prêmio de melhor diretor, mas só lhe deu o prêmio de consolação pelo conjunto da obra em
Juliette Binoche no filme A insustentável leveza do ser.O cinema francês não se cansa de produzir belas e talentosas divas, para deleite do público de todo o mundo. Desde o advento de Brigitte Bardot, que fundou definitivamente o padrão de beleza cinematográfica na França, nenhum outro diretor se arriscou em comprometer sua película, deixando de fora uma deusa. Como uma formula pronta para atrair publico, eles carregaram as telas dessa presença arrebatadora chamado: símbolos sexuais. Assim, também o publico antes reprimido, passou a ver nos filmes o que só se passava em suas cabeças. A aparição de Brigitte Bardot no filme, ...e deus criou a mulher, do diretor Roger Vadim, no auge de seus dezessete aninhos pra lá de erótica, tornou, à partir da ai, o cinema nada inocente. Pelo contrário incendiou as salas escuras de uma beleza plástica incomum e reinventou a sexualidade. De lá para cá, multiplicaram-se as presenças divinas nos filmes. Catherine Deneuve, musa do cinema de Buñuel foi o sensação dos anos 60 ao estrelar a fita A Bela da Tarde. Nela Deneuve interpreta uma burguesa reprimida sexualmente que à tarde foge de sua vida medíocre para se entregar aos prazeres mais luxuriantes num bordel. Isabelle Adjani, Juliette Binoche, Irene Jacob, Emmanuelle Béart, Marion Cotillard, Laetitia Casta, Ludivine Sagnier, Audrey Tatou (por que não?) e mais recentemente Eva Green, fizeram do mero ato de assistir a um filme uma celebração à beleza. Nem mesmo os carrancudos intelectuais da revista Cahier du Cinema, resistiram a bruxuleante magia dessas mulheres. Há artigos e resenhas que mais pareciam cadernos de anatomia do que analises fílmicas, escreveu o crítico Antoine de Baecque. Difícil mesmo é deixa de se encantar por essas sereias.
O líder da Igreja Católica em sermão aos fiéis no ano passado reafirmou sem meias palavras, que o inferno existe de verdade, não se trata de uma metáfora, mas de uma realidade concreta. Cioso de seu rebanho o papa Bento XVI lembrou a Bíblia, em sua incorruptível e invariável certeza, nas palavras de São Paulo e São Mateus. Em outra época, quando a Igreja guiava a ferro e açoite as vontades humanas, esse discurso ardia literalmente nos servos que por suas heresias e imprudência tinham seus atos corrigidos na fogueira, tal como no inferno que prega hoje o cardeal Ratzinger. Na teologia romana parece não haver outro sermão que não seja fruto do medo. “O medo, que esteriliza os abraços,(...)/ o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas.” O medo por toda parte, como em Congresso internacional do medo de Drummond. Tudo que a igreja católica tem para oferecer aos seus fieis, de ontem e hoje, não passam de conselhos apocalípticos e assombrações medievais. Menos brioso parece ser os discursos contra a própria igreja, que fecha os olhos e encobre os atos de pedófilos dos seus, ou nega-se a aceitar os apelos de muitos padres pelo fim do celibato. Se Deus existe, espero que Ele tenha uma boa desculpa para tudo isso.

O FERRAGEIRO DE CARMONA
Um ferrageiro de Carmona
Que me informava de um balcão;
“Aquilo? É de ferro fundido,
Foi a fôrma que fez, não a mão.
Só trabalho em ferro forjado
Que é quando se trabalha ferro;
Então, corpo a corpo com ele;
Domo-o, dobro-o, até o onde quero,
O ferro fundido é sem luta,
É só derramá-lo na fôrma.
Não há nele a queda-de-braço
E o cara-a-cara de uma forja.
Existe grande diferença
Do ferro forjado ao fundido;
É uma distância tão enorme
Que não pode medir-se a gritos.
(..............................................)
MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. 1994. p. 595
Os poetas portugueses sempre foram afeitos a poesia metafísica, mesmo os realistas, como Antero de Quental (1842 - 1891) que exercitou largamente esse espírito poético. A metafísica portuguesa vem, segundo Massaud Moises, da compressão imposta pela natureza, que oprime uma pequena facha de terra que é Portugal, entre o mar e o resto do continente Europeu. Na impossibilidade de avançarem sobre largas fronteiras de terras, eles exercitam a fantasia. Os habitantes, e os poetas em particular, transcendem essa condição terrena de opressão, para um plano espiritual, realizando suas fantasias, sonhos e desejos, numa outra realidade, paralela aos acontecimentos terrenos. Nessa viagem ao mundo onírico, os poetas pretendem idealizarem um mundo onde eles possam atender aos apelos dos sentidos, dos desejos irrealizáveis na terra, como forma de expurgarem suas angustias e temores mais sombrios. Os poemas versam sobre verdades intimas como no Palácio de Ventura de Antero de Quental que descreve os sonhos de um cavaleiro –ele mesmo – na busca de um destino mais promissor: “Sonho que sou um cavaleiro andante” .... “Paladino do amor, busco anelante”... “O Palácio encantado da Ventura”... A produção poética de Antero de Quental está intimamente ligada a sua vida, esse poema corresponde a última fase de sua produção poética, fase de retorna a Punta Delgada, onde ele é acometido por uma estranha doença que lhe infunde pensamentos pessimistas e um desejo de evasão, de morte e solidão. Os versos seguintes aos de desejo de encontrar a boa sorte, ressaltam esse pessimismo: “Mas já desmaio, exausto e vacilante,”... e segue em tom derrotista: “Quebrada a espada já, rota a armadura”.... até desaguar na última estrofe em uma realidade que nem mesma a metafísica poderia lhe ocultar... “Abrem-se as portas d´ouro, com fragor/ Mas dentro encontro, só, cheio de dor,/ Silêncio e escuridão – e nada mais!”. Esse pequeno soneto metafísico de Antero de Quental expõe a melancolia e o tédio desse cavaleiro que busca, mesmo já rota a armadura, encontrar em meio às guerras no mundo, um porto seguro de suas dores, e uma recompensa por suas aventuras, mas só encontra, depois de longa jornada pela vida: “Silêncio e escuridão – e nada mais!”. Alguma semelhança com a realidade?
Os textos a seguir são de dois dos mais notáveis poetas e críticos literários do século XX. A leitura desses serviu-me de parâmetros para compreensão e entendimento do caráter poético. O primeiro dos textos é de Mário de Andrade, que ajudou a definir os rumos de uma geração, quando ao lado de Oswald de Andrade, deflagrou o movimento Modernista em 22, dando novos contornos e dimensões à literatura e aos comportamentos artísticos do Brasil na década de 20. O segundo é de Ezra Pound, que pode ser sem embargo considerado um dos expoentes da poesia do século passado. Um e outro tinham em comum, além da inquietação e o viço artístico, a preocupação com o desenvolvimento da arte da escrita e pretenderam, como se verá, ajudar futuras gerações. Os excertos foram extraídos, respectivamente, dos livros, Aspectos da Literatura Brasileira e A arte da Poesia.
“O ano de 1930 fica certamente assinalado na poesia brasileira pelo aparecimento de quatro livros: Alguma Poesia, de Carlos Drummond de Andrade; Libertinagem, de Manuel Bandeira; Pássaro Cego, de Augusto Frederico Schmidt e Poemas, de Murilo Mendes. Todos são poetas feitos, e embora dois deles só apareçam agora com seus primeiros volumes, desde muito que podiam ser poetas de livro. Mas quiseram escapar dos desastres quase sempre fatais da juventude. Se fizeram e fazem versos não é mais porque sejam moços, mas porque são poetas.
Essa me parece uma das lições literárias do ano. Quatro livros de poetas na força do homem. Acabaram as inconveniências da aurora. A poesia brasileira muito que tem sofrido destas inconveniências, principalmente a contemporânea, em que a licença de não metrificar botou muita gente imaginando que ninguém carece de ter ritmo mais e basta ajuntar frases fantasiosamente enfileiradas pra fazer verso-livre. Os moços se aproveitaram dessa facilidade aparente, que de fato era uma dificuldade a mais, pois, desprovido o poema dos encantos exteriores de metro e rima, ficava apenas... o talento. E já espanta, um bocado dolorosamente, esse monturinho sapeca de livros de moços, coisa inútil, rostos mais ou menos corados, excessiva promessa, resumindo: bambochata que não resiste à primeira varredura do tempo.
Devia ser proibido por lei indivíduo menor de idade, quero dizer, sem pelo menos 25 anos, publicar livro de versos. A poesia é um grande mal humano. Ela só tem direito de existir como fatalidade que é, mas esta fatalidade apenas se prova a si mesma depois de passadas as inconveniências da aurora.(...)”
“Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como dim lands of peace (brumosas terras de paz). Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto.Provém do fato de não compreender o escritor que o objeto natural constitui sempre o símbolo adequado.
Receie as abstrações. Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se obstáculo da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas. O que cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã.
Não imagine que a arte poética seja mais simples que a arte da música, ou que você poderá satisfazer aos entendidos antes de haver consagrado à arte do verso uma soma de esforços pelo menos equivalente aos dedicados à arte da música por um professor comum de piano.
Deixe-se influenciar pelo maior número possível de grandes artistas, mas tenha a honestidade de reconhecer sua dívida, ou de procurar disfarçá-la.
Não permita que a palavra “influência” signifique apenas que você imita um vocabulário decorativo, peculiar a um ou dois poetas que por acaso admire. Um correspondente de guerra turco foi surpreendido há pouco se referindo tolamente em suas mensagens a colinas “cinzentas como pombas”, ou então “lívidas como pérolas”, não consigo lembrar-me. Ou use o bom ornamento, ou não use nenhum”.
POUND,Ezra. Arte da Poesia, Ensaios. Tradução de Heloysa de Lima Dantas e Paulo Paz. São Paulo: ed. Cultrix, 1976, p.11-12.
Ando meio dissoluto.
Em tudo na vida reluto,
E, enquanto mais luto,
Vejo-me tanto corrupto.
Já pedir um salvo conduto.
Quem sabe um indulto
Me faz bem menos bruto
E eu possa até dar fruto.
Conquanto os produtos,
Desse ventre tão fajuto
Serão por demais inculto
E darão, na certa insulto.
Não agüento esse furto
Assim sendo faculto
A quem queira frustro
Nem precisa consulto.
9 de fevereiro de 2008.
Os noticiários dos últimos dias têm dedicado muito atenção às eleições nos Estados Unidos. A corrida presidencial ao “posto mais importante do mundo”, domina os medias. Jornais, revistas, site e blogues destacam sem parar os episódios que podem decidir o futuro do próximo ocupante da Casa Branca. A nós, que proveito temos, em tanto interessa das mídias no futuro presidente norte-americano? A caminho do posto mais cobiçado do mundo, uma serie de questões, que interessam tanto a eles quanto a nós, estariam no centro de todo esse empenho jornalístico. A julgar pelo que vemos todos os dias e, se é certo que queremos fazer um melhor exame dos presidenciáveis, acreditando que temos interesses em comum, como crê a professora Maria de Aquino, eminência parda dos debates televisivos, estaríamos ai, na verdade, penso, nos enganando redondamente. O projeto americano de nação hegemônica independe do candidato que assuma em quatro de novembro. Uns mais ou menos conservadores não impor, todos asseguram, como bons norte-americanos, seu papel continuista de potência imperialista. Hillary Clinton, John McCain e Mitt Romney, que ainda resiste à disputa, diferem pouco entre si. Barak Obama, o estreante, conquanto pese sua inexperiência, profundamente explorado por seus opositores, usa o discurso reformista e engajado para atrair os eleitores. É inegável que o apelo por mudança nos rumos da política, conduzida até aqui com notável infelicidade por Bush pai, atraia tantos eleitores. Obama é um perfeito self-made man, que subiu na vida a despeito de todas as adversidades e revés. Filho de pai queniano e mãe americana foi criado na Indonésia e fez faculdade em Haverd. Seus discurso carismáticos seguem a tonica de outro líder, também muito popular, Martin Luther King. Porém, mesmo assim, não acredito em mudanças significativas na política de lá para o resto do mundo. O que poderá haver, caso Obama vença, é uma vitória simbólica de ideais. Agora dai até uma mudança significativa em posicionamentos como avanço industrial que mexe com questões ecológicas, equilíbrio na disputa entre judeus e palestinos, imigração latina, e principalmente, tolerância diplomática com o mundo árabes é vê pra crê. O embaraço americano, com as políticas de Bush, manchou a imagem dos lideres dos Estados Unidos e provocou a descrença em prováveis mudanças.
A história desse livro se confunde com a trajetória de seu autor. James Joyce (1882-1941) contava vinte e dois anos em 1904, quando escreveu um ensaio autobiográfico, para recém fundada revista Dana. O ensaio foi recusado pelos editores, que alegaram não poder publicar aquilo que não entendiam. Na verdade a objeção fio às menções a relações sexuais descrita pelo herói. Seja como for, Joyce resolveu trabalhar na continuidade do ensaio e transformá-lo em livro. Em 1914, dez anos depois, Um Retrato do Artista Quando Jovem chegava às suas páginas finais. Mesmo assim, o livro só veio a ser publicado dois anos depois em Nova York no ano de 1916. No seu primeiro romance, James Joyce descobre que podia se tornar um artista falando sobre o processo de se tornar um artista. No livro seguimos os passos do jovem Stephen Dedalus, alter ego de Joyce. Dos primeiros anos de sua vida à juventude libertária. Divididos em cinco capítulos, seus episódios variam na forma e no estilo para ajustar-se às diferentes idades e fases do seu herói. Diverso de tudo o que havia na ficção Inglesa da época, os romances típicos eram os de H. G. Wells e Arnold Benett, Joyce inaugura uma nova fase da literatura. O que nos faz pensar que a literatura escapa aos conceitos fechados e dogmáticos que muitos tentam impor. Seu caráter é sempre o da provisoriedade. Em Joyce a estrutura narrativa não mais se assenta em ações onde o impacto direto de um personagem sobre o outro tece o drama. O que vemos, ao contrário do que ocorria no romance comum, é uma descrição psicológica do personagem, como numa série de retratos e em estágios sucessivos de seu desenvolvimento. Joyce ainda introduziria largamente o uso do monólogo interior que enfatizava as ocorrências psicológicas no personagem. Com isso ele definiu um estilo, seguido de perto por muitos outros tantos autores como, Virginia Woolf e a nossa Clarice Lispector, que não escondia sua predileção pelo estilo psicológico à moda do Irlandês. A história do livro é contada sobre o ponto de vista de uma única personagem, Stephen Dedalus, que se move à deriva no mundo e parece fadado a um destino ordinário e macilento em Dublin, até fazer valer o vaticínio de seu nome e ganhar asas rumo a um novo destino, onde: “Estava destinado a aprender sua própria sabedoria independentemente dos outros ou a aprender ele próprio a sabedoria dos outros vagando entre as ciladas do mundo”. Além dos êxitos literários logrados com o livro, Joyce ainda livrou a literatura de heróis sensíveis. Finalmente, pudemos contar alguma história de emancipação moral e espiritual sem cair naquela pasmaceira romântica. Os cansativos personagens que povoavam as histórias de antanho, onde mocinhos trilhavam rudemente suas vidas e paixões até, que, eram por elas atropeladas, cedeu lugar a uma personalidade autodeterminante. Stephen Dedalus se reinventa. Lança-se em busca de sua aventura de escritor longe de casa da religião e de seu país. Rebela-se contra seu destino e tece sua própria trama. Uma lição e tanto para esses tempos, onde a vida passou a ser conduzida arbitrariamente, a revelia de seus entes, aos ditames da moda.
Críticas positivas, relançamento de seus livros, campeão de apresentações no Brasil e encenações inovadoras no mundo inteiro, enfim, o prestígio atual de Nelson Rodrigues confirma o que eu sempre tive certeza: de que ele é um extraordinário criador.
Especialmente para
Nelson Vinicius Rodrigues
Fui duramente criticado, atacado, menosprezado por determinadas pessoas que estranharam em mim o gosto por alguém do “perfil” de Nelson. (“Aquele chato”, “aquele tarado”). Espero que agora, elas abandonem esse mar de ignorância e pulem para meu barco. O sucesso do “maldito” Nelson não existe porque eu quero, não foi uma coisa que eu inventei para justificar meu pensamento. Ele existe porque existe – independente de minha vontade. Eu só faço reconhecer. É o que Nelson mesmo chamaria de “óbvio ululante”. O óbvio que nem todo mundo que se diz pensar pela própria cabeça, enxerga.
Possuo três materiais recentes que garantem a importância e a perenidade do dramaturgo e jornalista. O primeiro, a edição especial da revista EntreLivros – Teatro Essencial. Dos gregos, passando por Shakespeare, por Molière até nossos autores modernos, como Mauro Rasi e Miguel Falabella, Nelson mereceu um capítulo especial, assinado por Marici Salomão. “De reacionário e obsceno a unanimidade nacional”. Aclamado desde os anos 40 ao escrever o hoje clássico Vestido de Noiva, diz ela, N.R. viveria nas décadas seguintes dias de glória, censura e fracasso. Após o período de ostracismo, é agora o autor mais encenado nos palcos do país e considerado o mais importante dramaturgo nacional. Além do texto primoroso, Denise Mota, em “A grande transgressão” explica aos iniciados por que Vestido de Noiva foi um marco, e, dessa forma, modernizando nosso palco. O texto de Marici é enorme, não tenho como reproduzir aqui. Ontem, tive outra surpresa. VEJA, em sua seção VEJA Recomenda, publicou uma única resenha de livro. Trata-se de A Cabra Vadia, supostas entrevistas que ele fazia com gente que tinha determinadas posturas, na década de
Vamos agora ao texto que mais me impressionou. A dramaturgia de Nelson no mundo. Uma reportagem de 4 páginas da conceituada Bravo! (mês de janeiro). “Subúrbio Globalizado”, por Carolina Braga (de Barcelona, Espanha). O texto traz peças de Nelson que serão representadas (ou foram, recentemente) de maneira altamente inventiva, com atores estrangeiros e diretores idem. Senhora dos Afogados, por exemplo, foi representada ano passado em Londres. (Our Lady of the Drowned). O resultado da encenação foi sucesso de crítica, apesar de o público ter se dividido entre amor e ódio. Sabemos que o diretor faz da peça o que bem entende. E Kwong Loke pôs uma parede de plástico no centro do palco, para dar ênfase ao plano alucinatório do texto mítico. Em 2004, em Luxemburgo, franceses, portugueses e ucranianos apresentaram O Beijo no Asfalto (Le Baiser L ‘Asphalt). Em 2005, Valsa n. 6 foi encenada na Inglaterra, por Franko Figueiredo. “É algo que pode ser apresentado em qualquer lugar do mundo”, diz ele. Além da Inglaterra, essa peça teve uma montagem na Bélgica e duas na França.
Para a pesquisadora Ângela Leite Lopes, (que mudou-se para Paris para escrever sua tese de doutorado em cima do teatro rodriguiano), autora de Nelson Rodrigues: trágico, então moderno, “o que atrai o interesse estrangeiro para as peças dele é o domínio que o autor tem da carpintaria teatral”. “Para um diretor, o mundo fantástico e imaginário das peças de N.R. sempre oferece grandes possibilidades no palco”, é o que fala Kwong Loke, que quer levar Toda Nudez será castigada a Londres. Franko Figueiredo foi convidado a levar sua companhia, a “Caramel Box” em 2009, e Valsa n. 6, para o Japão.
Isso tudo é o mínimo. Muita coisa boa está acontecendo com o legado de Nelson Rodrigues e eu ainda não estou a par. Trata-se, em última análise, da importância universal de um grande autor, “pornográfico”simplesmente, para muita gente e gênio para os poucos que entenderam sua alma inquieta e gigantesca.
__________________________________
Como teatro é minha grande paixão, vou indicar cinco das peças que mais me marcou, de cinco gigantes do teatro brasileiro.
1. TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA (1965), Nelson Rodrigues
Depois de ficar viúvo da única mulher que amou na vida, o milionário Herculano passa a viver um grande dilema: a paixão avassaladora pela escachada Geni, provavelmente a prostituta mais célebre da dramaturgia brasileira. Os problemas são o irmão, um parasita que vai chantagear a moça – já sua conhecida – a tirar proveito da situação, um filho adolescente fresco, que vingará o pai porque nunca permitiu que este se relacionasse com mais ninguém e as tias (sempre elas), que no teatro rodriguiano só servem para pôr mais lenha na fogueira. Só na cabeça de um Nelson Rodrigues uma história dessa dimensão poderia ser tão extraordinária. “Toda Nudez” é uma de suas obras-primas. Adaptado para o cinema em 1973, fez com que d. Darlene Glória fosse mundialmente conhecida, no papel de Geni. É o filme mais lembrado de Arnaldo Jabor e segundo a crítica, a melhor versão de Nelson para as telas. José Lino Grunewald escreveu, à época, uma crítica em que era plenamente favorável ao filme, embora lamentasse os cortes impostos pela censura. Memorável.
2. DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA (1967), Plínio Marcos
Imagine aí dois camaradas completamente diferentes, arruinados, lascados, que são obrigados a dividir o mesmo quarto, de quinta classe. O problema é que eles se odeiam e as chantagens, as pirraças, as agressões provocarão as reações mais surpreendentes. E em se tratando de outro maldito, Plínio Marcos, já se sabe que vem encrenca por aí. Escritor do submundo, dos marginais, recebeu maior influência de Nelson Rodrigues, a quem Plínio considerava “um poeta do teatro”. Um par de sapatos, um alicate etc., serão quase que protagonistas dessa peça de apenas 2 atos. O texto, porém, é muito mais vigoroso do que o filme homônimo, que trouxe Débora Falabella e Roberto Bontempo, como os protagonistas, arruinados (e nos Estados Unidos). No texto original, moram numa espécie de periferia e são, repito, dois homens, Paco e Tonho.
3. O BEM-AMADO (1968), Dias Gomes
O maior dramaturgo baiano consagrou-se com a excepcional “O Pagador de Promessas”, grande sucesso do Teatro Brasileiro de Comédia, em 1960. Mas as histórias da lendária Sucupira e do inescrupuloso Odorico são de rolar de rir, o que me obriga a incluí-la nessa lista e é, na minha opinião, o melhor texto do teatrólogo, morto em 1999. Ferreira Gullar assina um prefácio magistral na edição publicada pela Ediouro. Além desse texto, uma introdução do próprio Dias, explicando que imaginou essa “farsa-patológica” em 9 quadros, depois que leu no jornal uma reportagem na qual um político qualquer prometeu que inauguraria um cemitério de andar. Em Sucupira, o prefeito está doidinho para inaugurar um, mas o problema é que não morre ninguém. Quando se descobre que nas redondezas há um sujeito nas últimas, todo o esforço é válido para que a obra finalmente saia. Ninguém deve morrer sem ler “O Bem Amado”. Virou novela e seriado, na Globo. Quando a direção achou que a história já havia cansado (de
4. AUTO DA COMPADECIDA (1956), Ariano Suassuna
Ariano Suassuna se ressentia da “Compadecida” ser conhecida do grande público somente depois de virar filme, em 1999. Ela existia há 40 anos. A malandragem, a esperteza, a ingenuidade dos sertanejos estão retratadas nas figuras de Chicó e João Grilo. Protestante convertido ao catolicismo, Ariano via uma beleza magnífica na fé católica, mas não poupou a Igreja de seus abusos, como na disputa do padre contra o bispo, por dinheiro. João Grilo passará pelo julgamento e topará com Jesus de um lado e o Diabo, do outro. O personagem entre a cruz e a espada. Uma sátira à usura, à hipocrisia e à bajulação aos poderosos, representados na figura do coronel Antonio Moraes. Henrique Oscar, crítico, conta que o mérito do autor nesta peça foi “elevar o regional, o local ao universal”. É baseada na cultura popular, “nas histórias que o povo conta” (cordéis), mas o dramaturgo paraibano recebeu influências de Plauto, Gil Vicente, Lope de Vega etc. Coisa finíssima.
5. O BOI E O BURRO NO CAMINHO DE BELÉM, (1953) Maria Clara Machado
__________________________________
Navegantes ao Mar convida 3 de seus mais ilustres colaboradores, para elencarem 5 obras que, mudaram sua relação com a literatura e com o mundo. Adiantamos que essa é tarefa para cardíacos. Quem ama literatura, dificilmente restringe, a um rol tão pequeno seu gosto pessoal. Disso todos sabemos. Porém, mesmo difícil essa não é tarefa impossível. Há sempre um lugarzinho especial para esse ou aquele autor em nossa vida. Com isso pretendemos conservar acessar ou botar a prova nossa relação com essas cinco obras. Quem sabe elas não se mostrem efêmeras ou, pelo contrário, mais vivas do que nunca, quando olharmos para essa enquête daqui a alguns anos. Para tanto, elegemos como juiz de nosso teste o melhor e mais sábio dos julgadores, o tempo. Esse senhor que nasce conosco e segue-nos até o fim. O primeiro há escrever suas cinco obras fundamentais é meu amigo e irmão Teo Júnior. Os outros, Teo Poeta e Eudes Marciel julgarão a sua própria hora de contribuírem para o site. Muito obrigado a todos.

Em que pese o seu proverbial apego a razão consciente na hora de fazer poesia - algo profundamente estranhado por quem só conhece os lacrimosos versos de um poeta romântico- a obra de João Cabral de Melo Neto, volta a ser reeditada, dessa vez pela editora Alfaguara. Já não era sem tempo. Desde a partida do nosso maior poeta, em 1999, apenas algumas edições de Morte e vida Severina e outro poemas para vozes, haviam sido editados, pela detentora dos direitos de publicação, a editora Nova Fronteira.
Agora, desse segundo semestre até o ano que vem as livrarias de todo Brasil terá novamente em suas prateleiras os versos pungentes e corrosivos do autor de Uma faca Só Lâmina. O primeiro dos títulos, que abre a série, já está nas livrarias, e se intitula O Artista Inconfessável. Um decalque do título de um de seus poemas do livro Museu de Tudo, obra de 1974.