PAPEL EM BRANCO


Alguém já se referiu ao ato de escrever como um suicídio antecedido de mutilação e de sofrimento atroz, para, por fim, concluir que ele também é um ato de inominável coragem física. De quase nenhum escritor, porém, temos a oportunidade de ouvir o testemunho de seu processo de criação. As razões podem ser as mais diversas. Talvez ele preserve certo sentido intimo que não lhe permite confissões, ao menos não além daquelas já interditas nos livros. Algumas revelações podem conter segredos inomináveis, indignos para um escritor. Outros ainda dispensam ao público suas fraquezas, deslizes, inquietações, e dúvidas comuns durante a confecção de uma obra. Menos tímidos estão os poetas Edgar Allan Poe e João Cabral de Melo Neto. Ambos desnudaram seus esforços poéticos e revelaram seus segredos de composição. Opondo-se àqueles escritores de tendências transcendentais, Allan Poe e João Cabral, em tempo, escreveram trabalhos reveladores. Em abril de 1846 Poe publicou nas páginas do Graham´s Lady´s and Gentleman´s Magazine um artigo intitulado “A filosofia da composição”, nele Poe revela que, ao escrever, parte sempre da consideração de um efeito, ou seja, seu propósito é atingir determinado objetivo previamente estipulado. Por isso, em vez de render-se mudo à força das palavras, caminha firme, com consciências daquilo que deseja e não sede as tentações da inspiração. João Cabral muito tempo depois de Allan Poe defende com a mesma obstinação a autonomia da escrita e revela-nos: Eu não acredito em inspiração e nem sou poeta inspirado. O ato de criação para mim é intelectual. Minha poesia trabalha a criação e a construção. Acredito na expiração. Na composição de um poema, primeiro me ocorre um tema e eu tomo nota. Depois vou estudando-o e desenvolvendo-o. Nunca escrevi um poema inspirado, soprado pelo Espírito Santo. Isso eu não sei o que é... Fazer um poema para esses escritores, não é uma condenação, como se pode ver, muito menos o resultado de uma possessão. O poema surge de uma vontade consciente. João Cabral e Edgar Allan Poe encararam como nenhum outro escritor o desafio de fazer poesia maquinalmente, talvez por isso eles não se envergonhem de falarem de seu exercício corporal com as palavras.

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