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Um dia triunfal

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Conta Pessoa em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro que no dia 8 de Março de 1914 lhe aconteceu o seguinte:


"acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre."

A poesia de Affonso Romano de Sant´anna

Imagem tirada daqui
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O teórico, jornalista, crítico, cronista, poeta e professor Affonso Romano de Sant´anna resolveu a muito tempo encarar o seu oficio (ou melhor, ofícios) de forma insolente. Ele prefere a vida com riscos. E se tornou um risco, e todos nós sabemos bem disso, recusar a indiferença como modo de vida. À cordialidade do senso comum ele interpôs a autonomia de um espírito crítico e fecundo. Sua crença, fundado na ideia de que a cultura liberta o homem da ignorância, tem raízes em autores como Paul Valery, que como Romano de Sant´anna acredita que “o leão é a soma dos cordeiros assimilados”.  Em seu mais novo livro de poesia, Sísifo desce a montanha, lançado essa semana na Livraria Cultura em São Paulo, pincei um dos poemas que refletem o caráter desse homem-poeta.


"ERGUER A CABEÇA ACIMA DO REBANHO"


Erguer a cabeça acima do rebanho

é um risco

que alguns insolentes correm.



Mais fácil e costumeiro

seria olhar para as gramíneas

como a habitudinária manada.



Mas alguns erguem a cabeça

olham em torno

e percebem de onde vem o lobo.



O rebanho depende de um olhar

Esplendida Alucinação. A perplexidade crítica diante da arte contemporânea


Quando os artistas Impressionistas foram hostilizados no salão de Artes de Paris, e depois se tornaram referência, a crítica de arte viveu os anos seguintes com as barbas de molho, receosa de ser comparada aos antiquados e reacionários críticos franceses, que não souberam, ou não quiseram, apreciar os quadros de Cézanne e seus companheiros. 

Amparados na covardia de muitos intelectuais, a arte contemporânea, principalmente depois de Marcel Duchamp e seus ready made, vêm se apoiando nesse temor para endossar suas experiências escatológicas, e fazer do ridículo, matéria prima para suas experiências estéticas e bizarrices. Já chegou a hora da crítica perder esse temor, e começar a reagir aos engodos que insistem em serem chamados de arte, não acham? 

Essa é a proposta do livro O Enigma Vazio: impasses da arte e da crítica do poeta e crítico mineiro Affonso Romano de Sant´anna. Nesse trabalho o crítico encara o desafio de avaliar a “arte” contemporânea de uma perspectiva questionadora de suas contribuições para renovação estética do gênero artístico, simplismente imperdível.

Affonso Romano de Sant´anna - Poesia



Com a devida vênia do escritor Affonso Romano de Sant´anna publico logo abaixo o poema Apocalipse ou Gênesis Invertida. Esse poema, como explica o  poeta, fará parte do seu próximo livro de poesia, cujo titulo provável é: Exercícios de Finitude, ainda sem data de lançamento. O poema foi recolhi do blog do autor aqui. Desde já agradeço o escritor pela deferência.


APOCALIPSE OU GÊNESIS INVERTIDO(*)

Qualquer semelhança com o noticiário nos jornais e na televisão é mera coincidência



No sétimo dia

          (antes do fim)

as geleiras fendidas

          desabarão

focas, pinguins e ursos

deixarão suas ossadas

no deserto em formação

ilhas imprevistas emergirão

e o que agora é continente

será um conteúdo

na escuridão.



No sexto dia

          ( antes do fim)

desnorteados pássaros

não saberão

de onde vieram e para onde vão

subvertida a ordem dos mares e florestas

seres atônitos seguirão o rumo

do vento e da aflição.



No quinto dia

          (antes do fim)

choverá fogo no inverno

enlouquecidas as estações

as colheitas se perderão

devoradas por bactérias

germinadas

          -do próprio grão.



No quarto dia

          (antes do fim)

peixes envenenados boiarão

entre sargaços e destrocos

e os corais também mortos

não chorarão.



No terceiro dia

            (antes do fim)

no esqueleto das cidades

máquinas desoladas

bactérias desesperadas

do próprio nada comerão.


No segundo dia

          (antes do fim)

o homem e a mulher

cobertos de chaga e solidão

se deitarão no barro

e desaparecerão,


No primeiro ou último

dia antes do fim

          Deus

desolado

          se retirará

para outra galáxia

e contemplando as trevas

dissipando a criação

sentirá

um pesado vazio em suas mãos.