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A liberdade ou do delírio literário de ontem e de hoje


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Stalin corrigia páginas e páginas de Gorki, metendo nas histórias o que o escritor não era “capaz” de meter. Quando não havia submissão às críticas do generalíssimo, os escritores soviéticos deixavam o mundo da literatura, para habitar o esquecimento siberiano. Alguns de lá trouxeram mensagens sobre os serviços de “reaprendizagem literária”.

Outros com menor sorte de reaver-se com a nova crítica, não chegaram tão longe, e antes mesmo de sentirem as lições transformadoras da estética stalinista, encontraram com o barqueiro Caronte, que na época, trabalhou em regime de serviço extra, para dar conta dos enviados pelo governo do povo, à mais nova morada dos escritores.

Na China o camarada Mao não fez por menos que seu colega. Querendo emendar o que chamava de “desvio burguês” que empestava a literatura chinesa de então, o grande líder, que também sabia tudo de literatura, correu com os escritores para os rincões chineses, onde eles puderam depurar a criatividade, enquanto atolavam as mãos nos arrozais e fertilizam as suas novas consciências com esterco, ao lado dos verdadeiros artistas da pátria, o povo.

O barbudo cubano aprendeu as lições de seus antecessores político-literários. Depois de derrubar o ditador Fulgêncio Batista e instalar um regime de igualdade social, ele se apercebeu que, o seu regime seria, tanto mais vigoroso e duradouro, quanto menos escritores canhestros estivessem a entulhar a literatura de dizeres e fazeres que nada serviam a emancipação do povo. Com ares senhoriais ele construiu as casas de correção, em regime interno, onde os escritores aprendiam que não se podia querer tudo e mesmo assim estar de acordo com o novo pensamento.

De tempos em tempos uma nova onda reconduz os literários ao bom caminho. Não temos mais os líderes da envergadura dos grandes comunistas no leme de nossa precária embarcação. Mas quis a sorte, que em meio a escassez de timoneiros tarimbados, uma outra força viesse ao nosso encontro, e nos reconduzisse às históricas políticas educativas de instrução literária. Essas novas forças atendem por variados nomes. Em comum, elas possuem o ímpeto dos timoneiros do passado de devolverem ao curso certo, as histórias que os literários vão delirando.


Alberto Korda - As Imagens de Cuba

Alberto Korda - La Nina de la Muneca de Palo. La Havana, Cuba, 1959.
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Fidel Castro en el ojo de Alberto Korda
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Mitin en la Habana. Alberto Korda
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Há, entre todas as imagens aqui destacadas, uma que destoa das demais. É a última. O garoto com dedo em riste toma o lugar do líder que na imagem assume uma posição nova na ordem história de sua vida: ele ouve e não é mais ouvido. Sua autoridade está temporariamente suspensa, não se impõe mais. A inversão de papéis, sugerida pelo “instante decisivo”, captado com maestria por Alberto Korda, dar-nos outra inquietante ideia do líder, que inspirava as massas movendo apenas - ironia da foto - um único dedo. A paralisação do tempo, no instante em que a cena se dá, corrompe todas as ideias anteriormente construídas sob a figura do homem forte, do guerrilheiro, aqui fragilizado, pelo ato inesperado de uma criança. A julgar pela posição de Korda na Revolução Cubana, essa imagem revela-nos que, ante as intuições artísticas, todo ato ideológico trai a si mesmo. 

A construção de um ícone

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Encontrei essa foto no Google. Ela não está creditada. Porém imagino que seja do cubano Alberto Korda. Ele foi o fotógrafo oficial da Revolução Cubana e autor da icônica Guerrillero Heroico, foto de Che Guevara, que ainda hoje estampa bandeiras em manifestações de revoltas por todo o mundo. Mesmo não tendo pegado em armas durante a Revolução, Korda ajudou a construir a imagem mítica de liderança de Fidel Castro e dos demais guerrilheiros que derrubaram a ditadura de Fulgêncio Batista. O registro de uma câmera sugere o famoso ensaio, Sobre a Fotografia, da americana Susan Sontag, produzem muitos efeitos. Ao tempo em que fornece um testemunho de que as coisas realmente aconteceram, ela também pode: incriminam, distorcer a realidade, idealizar, mitificar ou agir como um instrumento de desagravo. Apesar da presunção de veracidade que confere autoridade de que alguma coisa realmente aconteceu, uma imagem pode ser muito mais do que ela apresenta na superfície. Ao preferir uma cena à outra, ao enquadrar um instante ao em vez de outro, o fotografo induz a maneira de se ver uma realidade e solicita do espectador certa solidariedade àquilo que está sendo retratado. A emblemática imagem que ilustra esse post simboliza, inconscientemente, esse efeito do líder destemido, construída através das imagens produzida por Korda de um Fidel em atos heróicos e que inspira coragem e destemor. Ao mesmo tempo em que diverte as massas, como um comum, o Fidel de Korda, exterioriza sua liderança em gesto que induz a representação do poder em face às adversidades. Uma metáfora de sua condição irrevogável de rebatedor das adversidades cubana, frente aos ataques do inimigo. A presunção de desinteresse sugerida pela cena torna o trabalho fotográfico de Korda um ato de genialidade. Espelhando aqueles ritos sociais que tornam a fotografia um passatempo familiar despretensioso, Korda construiu uma imagem prosaica, mas de fundo inteiramente ideológico, sem parecer, no entanto, panfletário. A sedução dessa foto, seu poder sobre nós, reside no fato de que ela nos oferece uma dramatização, mas induz no subterrâneo do gesto e no enquadramento da cena, de modo sub-repticiamente, a pensarmos que a realidade, enfeixada por uma câmera, dependendo do ângulo de mirada do incauto, esconde intenções indizíveis.  


Memória ameaçada

Vista aérea de Caetité
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A cidade se modifica numa velocidade incrível. Em quase 10 anos morando em Caetité eu não pude deixar de perceber a furiosa transformação urbana dos últimos tempos. Por todos os lados, crescem arranha-céus. Novos bairros e centros comerciais assentam onde antes havia pequenas moradias familiares ou mesmo um descampado. Não bastasse somente alargar-se até onde as vistas não alcançam os imóveis mais bem situados também são alvo da cobiça e da especulação. De olho em espaços sempre novos a sanha imobiliária põe abaixo todos os inconvenientes e se sobrepõe a memória, a história e ao registro de tempos de antanho. Com espaços cada vez mais disputados e valorizados, os velhos casarões, relíquias de outras épocas, sofrem com a cobiça desenfreada por espaços privilegiados na cidade. Com a desculpa de que são dispendiosos e inúteis, economicamente, pouco a pouco eles têm vindo abaixo, seja pelo abandono dos proprietários ou pelo descaso das autoridades públicas que fazem vistas grossas ao desmonte do patrimônio. “Não adianta reclamar contra a transformação grosseira e desnecessária da fisionomia da cidade – da nossa cidade -, os poderes são surdos pensando que são sábios”, escreveu Carlos Drummond de Andrade a propósito das insistentes intervenções urbanísticas no Rio de Janeiro que desapareceram com incontáveis igrejas na década de 40. “Para que passasse a grandiosa Avenida Presidente Vargas, primeiro derrubaram a igreja da Imaculada Conceição e a de São Domingos... depois, pouco adiante, outras duas velhas igrejas desapareceram, vítimas dum vandalismo que poderia ser evitado: a de São Pedro Apóstolo, redondinha, com paredes largas de dois metros, argamassadas a óleo de baleia, e a do Bom Jesus do Calvário, duas vezes secular e que muito aparece nas Memórias de um sargento de milícias.” Não consta que Drummond fosse nenhum crente, mas isso nunca foi empecilho à sua sensibilidade. Nesses tempos de ares tão poluídos valeria a pena subordinar o avanço do cimento à preservação da memória? Alguns destemidos resistem aos constantes e insistentes assédios dos novos empreendimentos, sem abdicar das transformações impostas pelo tempo. “Venham as torres residenciais ou hoteleiras e que sejam belas e altas e coloridas, levantadas com os mais sensacionais e variados materiais que a indústria inventa no seu incansável evoluir. Mas que não lembrem, nem de longe, aquela outra tão citada, a de Babel – para que possamos, continuar a falar a mesma linguagem de entendimento e solidariedade que é o melhor alicerce para a edificação de uma vida comunitária ideal.”