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Beleza

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Não tenho nenhuma resistência diante da beleza. Sou atraído facilmente pelas formas e gesto incomuns. No lugar de Ulisses teria me lançado ao mar. Alguns vêm um mal, apreciar sem reservas os apelos emanados, pela formosura das formas. Mas a esses, não consigo, sinceramente, entender. Para mim não há desproposito maior no mundo do que hostilizar a beleza. Há qualquer coisa de anormal naqueles que se ofendem com a apreciação do belo. Decorre daí talvez uma divergência de pontos de vista. As pessoas acham belo o que lhe apetece. Cada um está suscetível a apelos diversos. Uns se enamoram facilmente por um físico esbelto, outros não diriam o mesmo. A atração tem suas próprias e inapreensíveis razões. Belo para mim, no entanto, é aquela coisa à qual demoro o olhar. Belo é aquele objeto que me suspende, temporariamente, a razão e paralisa o fôlego. Meu belo não se resume aos encantos da simetria das formas, mas nas mil e uma, inacabadas formas, que destoam do comum e instauram o surpreendente. E há melhor razão para suspender o fôlego do que a apreciação de um corpo nu?

A INDISCRIÇÃO DE UM ARTISTA

A Origem do Mundo - Tela de Gustave Courbet

Há quem se horrorize com esse quadro, já posso até ouvir as suas vozes. Também, não poderia deixar de faltar, há os que façam dessa mesma cena um ato de exploração sensacionalista e maniqueísta, em todos os sentidos, imperdoável. Nunca foi segredo o gosto dos artistas em reproduzirem homens e mulheres assim como vieram ao mundo. A nudez sempre foi muito apreciada na arte, como em alguns lugares inomináveis. Desde os gregos até os séculos mais conservadores essa prática foi aceitável, difundida e reproduzida ad nausea, afinal, era o ideal de beleza e estética que se queria. Mas, um olhar mais profundo sobre essa arte pos-coubertiana, e ela se revelará comedida e muito discreta. Ao figurar as partes pudendas do homem e, da mulher em particular, sempre se teve a preocupação em representar o sexo de forma deturpada, escamoteada e por vezes tristemente fingida. Os homens frequentemente tinham uma discreta folha a cobri-lhe as vergonhas. Enquanto que a genitália feminina não passava da continuidade da pele da barriga, uma representação quase que assexuada. Desse modo, preservava-se a um só tempo, a busca pela perfeição estética, almejada por muitos, e o eterno desejo voyerista que sempre acompanhou o homem, sem ferir as convenções morais, religiosas e sociais, e sem desonrar a sociedade. Gustave Courbet (1819-1877) pintor anarquista francês, dono de um incontido desejo de provocar, dispensou, como se pode ver, qualquer acessório e pintou de forma visceral aquilo que até então era dissimulado nas academias de arte e preservado a custo na intimidade social. Claro está que ele foi acusado de pornográfico, imoral e outros tantos adjetivos desqualificativos que serviram para tornar esse arrogant bastard em mais um pária da sociedade. Sua postura iconoclasta, no entanto, serviu para dessacralizar a falsidade vigente na arte e na sociedade. Além de tudo a tela de Courbet serviu e serve ainda como combustível de um caloroso debate entre os limites entre arte erótica e pornografia. Esse é um debate para próximos post.