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O novo que a gente principia

.
(...)

—— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
—— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
—— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
—— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.


—— E belo porque o novo
todo o velho contagia.
—— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
—— Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
—— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.
(...)


Morte e Vida Severina - J.C.

O Poeta enjaulado

O Relógio

Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.
(...)

João Cabral de Melo Neto 


Corre a notícia de que ele era refratário aos transbordamentos dos sentimentos. Creio em parte. Sua forma poética bem regulada e contida, por vezes sugere essa impressão. Mas ela só ocorre ao leitor desatento. Ao leitor acostumado. Ao leitor novilho. O leitor cabralino é de outra ordem. É alguém que se detém a palavra e não escorre por ela.


Seremos eternamente gratos a João Cabral por tudo o que ele representou para a nossa poesia.

A Espanha cabralina

O ferrageiro de Carmona


João Cabral de Melo Neto

Um ferrageiro de Carmona,
que me informava de um balcão:
"Aquilo? É de ferro fundido,
foi a forma que fez, não a mão.

Só trabalho em ferro forjado
que é quando se trabalha ferro
então, corpo a corpo com ele,
domo-o, dobro-o, até o onde quero.

O ferro fundido é sem luta
é só derramá-lo na forma.
Não há nele a queda de braço
e o cara a cara de uma forja.

Existe a grande diferença
do ferro forjado ao fundido:
é uma distância tão enorme
que não pode medir-se a gritos.

Conhece a Giralda, em Sevilha?
De certo subiu lá em cima.
Reparou nas flores de ferro
dos quatro jarros das esquinas?

Pois aquilo é ferro forjado.
Flores criadas numa outra língua.
Nada têm das flores de forma,
moldadas pelas das campinas.

Dou-lhe aqui humilde receita,
Ao senhor que dizem ser poeta:
O ferro não deve fundir-se
nem deve a voz ter diarréia.

Forjar: domar o ferro à força,
Não até uma flor já sabida,
Mas ao que pode até ser flor

Se flor parece a quem o diga.

A Espanha Cabralina


A Espanha exerceu fascínio em inúmeros artistas. Quem conviveu com a arte, a dança, a música ou mesmo com a arquitetura espanhola de inspiração moura, jamais saiu ileso de sua presença. Em 8 anos de Sevilha, o poeta João Cabral colecionou poemas que transparecem seu encanto pela cidade e pelo país ibérico. Alguns dos seus melhores poemas, ao menos para mim, falam das paisagens sevilhanas, com sua arquitetura monumental, dança e principalmente seus toureiros que metaforizaram a poética cabralina e ilustraram as lições ascéticas desse poeta incontornável. Vejam só esse belo exemplo:

LEMBRANDO MANOLETE

Tourear, ou viver como expor-se;
expor a vida à louca foice

que se faz roçar pela faixa
estreita da vida, ofertada

ou touro; essa estreita cintura
que é onde o matador a sua

expõe ao touro, reduzindo
todo seu corpo ao que é seu cinto,

e nesse cinto toda a vida
que expõe ao touro, oferecida

para que a rompa; com o frio
ar de quem não está sobre um fio.

Agrestes - 1985

Poesia


A propósito do dia da poesia, Teo Junior resolveu me provocar. Segundo ele Bandeira é superior a Cabral. Ele disse isso porque sabe que tenho muita afeição a poesia cabralina e ao estilo duro e seco que esse poeta empreende em seu versos. Somente Teo Junior é capaz de tentar provocar uma discussão baseado em fatos tão irrelevantes. A poesia, meu amigo, pra ser de verdade, ignora, qualquer gênero, escola, ou linha de pensamento. Ela é maior do que tudo isso. Agora eu me pergunto o que será mais fácil? O que será mais poético o amor, a dor de cotovelo ou uma pedra, uma faca ou bala. Quais dessas palavras estarão em melhores condições de narrar ao homem sentimentos e emoções? Todas. O poeta extrai das palavras sugestões. Agora, durante muito tempo, a única forma aceitável e usual de fazer poesia esteve relacionada a certo transbordamento de emoções, discursos confecionais e quejados.  Quando J.C. escolheu as pedras ele optou pelo caminho mais difícil. Ele inaugurou uma poesia que arrancava dos objetos inusuais e de forma incomum uma mensagem, que não se restringia aos estados espirituais e amorosos do eu lírico. Ele disse: “todas as palavras são poética”. O bom poeta será portanto, aquele que descondiciona as palavras de seu sentido dicionário, e sugerir  à elas sentidos até então jamais empregados. Esse é o verdadeiro ofício do poeta - resgatar as palavras do sentidos convencionais. João Cabral fundou, com isso, uma poesia que ainda não existia. Poucos podem dizer isso. Poucos poetas podem dizer serem criadores de alguma coisa. Quanto aos demais - leia-se ai os líricos - eles não tiveram coragem de encarar o trabalho de fazer poesia com objetos inusuais. Eles optaram pela tradição, pelo caminho já trilhado, pela picadas conhecidas e seguras. Talvez temessem contraria o público ou pior, desmentir aquilo que os legisladores recomentaram como socialmente aceito para aquilo que o homem médio se limita a ver. Ótimo. Nem todos são suficientemente arrojados. Isso não é um problema. O problema estar em querer tornar uma coisa superior a outra. João, sempre buscou o seu próprio caminho. Assim como muitos inovadores ele abriu a sua própria estrada. Nem todo mundo aceita as novas ideias. Haverá sempre aqueles, que preferem as zonas de conforto e, outros, que mesmo despedaçados pela injustiça, desconfiança e incompreensão, nunca desistirão de inovar. Creio que só avançamos na medida em investimos em novos caminhos - não estou dizendo que devemos ignorar os velhos- porém, não devemos viver a vida inteira sem desejar algo mais. Gosto da poesia de João Cabral porque pressinto nela um vigor que não encontro em outros poetas. A poesia cabralina me descortina novas possibilidades não só de compreensão do humano, mas também, e acima de tudo, mantém sempre viva a discussão dos limites da linguagem. Ele força a palavra a dizer sempre mais do que habitualmente estava acostumada a dizer, mantendo controle sobre o discurso.

Poesia, Vida e Morte



João Cabral de Melo Neto é um poeta deslocado da tradição lírica dominante na literatura brasileira. O vigor de sua obra vem do exercício rigoroso da racionalidade imposta na construção dos seus versos. 

Contrafeito a todo transbordamento melancólico e ao psicologismo discursivo, ele segue as lições de Mallarmé de que não se fazem versos com ideias, sentimentos, ou proposições, mas sim com palavras.

Sua literatura se funda na realização concreta dum universo poético onde rigor de construção e riqueza de significação, se interpenetra e se complementam; razão pela qual, sua poesia feita de coisas, se orienta como forma de significar o mundo pelos elementos do mundo. 

Essas características fogem à média de uma tradição poética estabelecida no predomínio do “sentimental-confecional”, e formam um corpo estranho no percurso de nossas letras. Nossos mais destacados poetas, sempre optaram do romantismo até hoje, em explorarem o interior de si mesmos, se perdendo num labirinto de remoço, dores, queixas e muita desilusão. 

Ler a obra de João Cabral e se sentir animado, vivo, é coisa fácil. Dele, a gente sai revigorado, e certo de que ao homem, cabe bem mais do que apenas lamber as suas chagas. Cabe, acima de tudo, encarar os desafios impostos no percurso sinuoso que nos leva, invariavelmente, a “indesejada das gentes”, com destemor. 

A poesia cabralina nos ensina que a vida está sempre por um fio. Ela não se dá, tem que ser tomada. Como a poesia que ele fez e entendeu, ela não vem sem luta. Como os toureiros ameaçados pelo chifre do touro, sob o olhar de uma plateia implacável, a vida é um esquivar-se dos golpes mais violentos até o dia em que a lança do animal vença a lança do homem. 

Segue um poema exemplar de João Cabral sobre sua vida e sua poesia:
ALGUNS TOUREIROS
A Antônio Houaiss

Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.

Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,

sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.


Elizabeth Bishop e João Cabral de Melo Neto - Poesia e confissão

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Ao ler esta tarde o blog do poeta Affonso Romano de Sant´anna, fico sabendo que este ano comemora-se o centenário da poetisa norte-americana Elizabeth Bishop. Nascida em Worcester em 11 de fevereiro de 1911, Elizabeth viveu e produziu parte de sua obra aqui no Brasil. Nesse período traduziu o melhor de nossa literatura para língua inglesa. Entre os seus poetas traduzidos está o pernambucano João Cabral de Melo Neto, que em seu livro Agrestes de 1985 - recém re-editado pela Alfaguara -, dedicou-lhe um poema intitulado SOBRE ELIZABETH BISHOP.



Quem falar como ela falou

levará a lente especial:

não agranda e nem diminui,

essa lente filtra o essencial*

(...)


João Cabral, como todos sabem, era avesso a poesia confessional, preferiu antes falar dos outros poetas e das coisas que habitavam a sua volta do que de si mesmo. Porém, num desses poemas homenagens ele deixou escapar uma dúvida: “Não haverá nesse pudor/ de falar-me uma confissão,/uma indireta confissão,/ pelo avesso, e sempre impudor?”. O artista inconfesso buscou no exemplo de outros poetas, num jogo metalingüístico, falar de sua própria impressão sobre a poesia. Toda via, não vejo nenhuma impudorada confissão nessas “linguagens alheias”. Esses exercícios metalingüísticos restringem-se ao oficio poético, e nem de longe assumem outra forma que deixe entrever outras faces desse poeta, se não a sua forma de ler e escrever poesia marcada pela rigidez e concisão absoluta.


*fonte do poema: Obra Completa de João Cabral de Melo Neto, ed. Nova Aguilar, p. 561.

Novidade à vista


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As incontáveis, e sempre bem vindas, antologias de João Cabral de Melo Neto trazem sempre fôlego novo à sua poesia, na medida em que atualiza às novas gerações a obra desse incontestável gênio das nossas letras.

A mais recente, destinada aos jovens estudantes, tem seleção de Regina Zilberman. João Cabral de Melo Neto Poemas para Ler na Escola, editado pela Objetiva, destaca poemas menos conhecido do repertório poético do autor de Morte e Vida Severina.

Essa é a segunda antologia em pouco menos de três anos que a editora Objetiva fez da poética do escritor Severino. A primeira, um primor de livro, saiu em 2007 pelo selo Alfaguara, e trazia poemas de cunho autobiográfico, recheado de fotografias do escritor na intimidade do lar. Um saboroso petisco para os admiradores da vida e da obra desse grande poeta.

A julgar pela disposição da editora, não será nem um pouco arriscado prevê para daqui a mais dois anos uma terceira ou quarta repaginação das sempre inquietantes vozes que ecoam das páginas dos livros do maior poeta da literatura brasileira. Oxalá se repita esse projeto revitalizador. As próximas gerações de leitores agradecem.