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Tempos sombrios

Pessoas que jamais foram a um museu na vida e que nada conhecem de arte, estão tentando impedir outras que se deleitem com a genialidade de trabalhos espantosos, só porque estes mostram corpos nus. Os trabalhos da exposição Santander que ora sofre com a censura nada tem de obsceno. Há algo de doentio no fato de alguém ver pecado ou imoralidade em tudo. Algo de muito errado se passa na cabeça das pessoas que entendem que o nu artístico é merecedor de censura e reprovação. Penso que quem age assim manifesta os sintomas de uma mente reprimida que jamais foi capaz de superar a sua adolescência ou que não chegou a viver a sua sexualidade plenamente. É estranho que isso esteja acontecendo. Imaginei estar ultrapassado em todo o Ocidente a condenação a nudez. Algo vai muito mal no país quando as pessoas não sabem diferenciar arte de exploração sexual.

SHAKESPEARE VETADO

 
Paulo Autran interpretando "Rei Lear" (1996), obra agora "revista" e "adaptada" nos colégios americanos.
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Chega a notícia - desastrosa, a meu ver - que algumas escolas americanas querem substituir (isto é, censurar) certos trechos do magnífico legado de William Shakespeare, o mais admirado, estudado e enaltecido dramaturgo que já apareceu. Barbara Heliodora, crítica de teatro desde 1958 e atualmente no jornal O Globo dedicou toda sua vida para desbravar a gigantesca criação shakesperiana. Estudou-o mais do que qualquer outro intelectual no país. Fala dele com absoluta paixão e independência, pois sabe que Shakespeare é eterno. "O que não estiver na Bíblia está em Shakespeare", disse ela ao falecido dramaturgo Mauro Rasi.

Qualque espécie de censura soa como sendo uma maneira melindrosa e, pior, errática de impedir que determinadas verdades venham à baila, porque nem todas as verdades - como diz meu pai - podem ser ditas. Entretanto, a literatura é o campo (quiçá o único) que está numa posição privilegiada de se dizer tudo, sem meios-termos. A literatura tenta através do talento de certos homens e mulheres reprodizir, questionar, condenar os próprios indivíduos que pertencem a uma época e a uma sociedade. É como se o livro funcionasse como um "espelho público", onde nos enxergássemos continuamente, como dizia Molière.

Nada nos ensina mais do que os absurdos ocorridos nos períodos ditatoriais que tivemos, com mais violência o de 64, cuja canga fomos obrigados a suportar durante 21 anos. Jornalistas que de uma hora para a outra "suicidavam-se", teatros incendiados, atores boicotados na véspera dos espetáculos, sem aviso prévio da Censura Oficial, escritores presos e suas obras impedidas de circular (caso de Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, de 1975 - tachado de "pornográfico"), para não falarmos da odiosa tortura.

A ditadura, pelo menos no Brasil, passou. A Censura (aparentemente) passou. Permaneceu a obra.

A Censura Oficial, ou seja ela qual for, quer-me parecer, ao vetar uma obra artística de chegar até o povo, julga estar "educando" este mesmo povo, coitado, tão fraco intelectualmente, tão inepto, que necessita de intérpretes que escolham por ele o que lhe é nocivo ou benéfico. Estranha, entretando, que em pleno ano de 2012 com a internet livre e os variados meios que oferecem sexo, violência a qualquer momento, que a sociedade americana - tão avançada e evoluída - tenha esse tipo de postura. É um retrocesso de quem acredita estar auxiliando uma sociedade, focalizada exatamente em sua raiz, ou seja, nos alunos, nos jovens estudantes, suprimindo-lhes obras essencialmente literárias, e o que é ainda pior: obras já consagradas, já canonizadas. Creio que num futuro próximo, esses adultos não gostarão de saber que um dia foram trapaceados pela educação que seus pais sustentaram, mediante pagamento de impostos.

Subliminarmente ou de maneira mais explícita, o sexo sempre esteve presente em tudo. Se se for suprimir uma obra porque ela focaliza o sexo, ou a violência, ou o crime, não fica um disco, um filme, um livro de pé. Num belo dia de 1958, após o espetáculo Os 7 Gatinhos, Nelson Rodrigues pediu a palavra e foi "explicar" sua peça à plateia (adulta) que a detestara e começara a gritar palavras de ordem. Precisava? Houve quem quisesse chamar a polícia. Será que esse público que pagou ingresso, não tinha condições - por si só - de refletir, de analisar as - vá lá - monstruosidades apresentadas? E a respeito da "intenção literária" do autor, será que alguém percebeu?

Mas do que a mera referência ao sexo, ou aos órgãos genitais, era extremamente fácil para a censura classificar uma obra de "pornográfica" e acabou-se. O que precisa ser efetivamente compreendido num texto é sua profundidade literária como um todo, e não atacá-lo por uma palavra, uma frase ou uma referência. É a primeria vez que ouço falar que Shakespeare é pornográfico e alguns termos de suas peças devam ser "alterado" por outras. Assustado, eu digo: NÃO.

A literatura tem poder de alterar diversos rumos num meio. Quando ousa falar a verdade, ela passam a representar um perigo para os "donos do poder" que se veem acossados, emparedados pela força da palavra. Shakespeare não fez nada além de focalizar o íntimo dos homens, como raciocinam os poderosos, os apaixonados, como os indivíduos engendram seus crimes etc. O grande poeta inglês mostrou que os seres humanos sentem inveja um dos outros, trapeceiam, dissimulam, traem etc. Considero uma heresia censurar obras de tão alto valor moral e ético.

Que os EUA são uma nação puritana, todo mundo sabe. Ela já vetou a estudo do evolucionismo num passado não tão remoto, pois ele entra em conflito involuntariamente contra o Criacionismo Bíblico. (Consta que Darwin era religioso). Agora, tenta alterar uma obra desta importância. Nos anos 90, talvez para dar um basta nessa hipocrisia toda, uma mulher já calejada pela vida, escreveu uma peça que - coitados dos americanos - se tornou o maior êxito daquela década e excursionou o mundo. A palavrinha que os americanos odeiam ler de cara já aparecia no título da peça, e Eve Ensler teve o despudor de narrar tim tim por tim tim as funções do órgão genital feminino, repito: nos seus mínimos detalhes, mediante entrevistas com diversas mulheres. O título de sua obra-prima: Os Monólogos da Vagina. Deve ser o livro que encabeça o índex americano nesses últimos anos.


TEO JÚNIOR

De repente Romeu ficou assexuado como os anjinhos das catedrais


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Como forma de ajustar os passos da sociedade ao ritmo do sistema, todos os regimes de exceção, indistintamente, praticaram a censura contra a literatura, o teatro, o cinema e outras expressões. Ditadores, reis, e governantes autoritários, desconfiaram sempre das histórias narradas pelos artistas. Elas poderiam como fez Shakespeare em Hamlet, desmascarar as tiranias dos lideres e constranger os governantes perante os súditos. 

A livre expressão do pensamento, desde sempre, constituiu assim, a esses regimes, uma ameaça devastadora, que devia ser combatido a qualquer custo. Não à toa, todos eles mantiveram formas de interdição, que, se não extinguiram de todo a livre circulação das ideias - como bem pretendiam os déspotas - serviu para mantê-las nos guetos, bem longe do grande público.  

Não faltam exemplos na história de perseguições, ameaças, torturas e degredo àqueles que ousaram desrespeitar as convenções. Em 1938 o poeta russo Óssip Mandelstam foi enviado a um Gulag e lá morreu por ter afrontado o ditador soviético Stalin, com um poema satírico. Stalin, alias, mantinha uma extensa rede de espionagem para assegurar o silêncio dos artistas e esconder assim, as atrocidades promovidas por ele nos campos de concentração. 

Investir contra a literatura não é mais um ato do passado. Nem são mais privilégios de ditadores. A cada dia uma nova e assustadora notícia de interdição assalta a crença de que já evoluímos o bastante para não atacar as artes. Primeiro foi a censura do CNE conta os livros de Monteiro Lobato, supostamente acusado de racismo. Depois veio a notícia de que o mesmo já havia ocorrido nos EUA quando escolas recusaramas obras de Mark Twain pelo mesmo motivo. Na França Hergé, autor de Tintim também não escapou a sanha moralizante, que prefere destituir a liberdade de expressão e artística, a discutir com seriedade as contribuições desses mestres para formação de gerações e mais gerações de leitores. 

Agora chega a notícia de que nos EUA - mais uma vez - algumas escolas estão fazendo ediçõesespeciais de Shakespeare com o intuito de eliminar, qualquer menção em suas obras, a atos libidinosos. Assim, palavras como pênis, vagina e suas congêneres, simplesmente sumiram. 

Ora como isso pode ser tolerado? Em que mundo de merda nós estamos? Excluir essas palavras do texto literário não assegura ao adolescente que ele não será promiscuo, tarado ou coisa pior - presumindo que esse seja o objetivo da censura. O psicanalista infantil Bruno Bettelheim em seu livro       A PSICANÁLISE DOS CONTOS DE FADAS, escreveu que “a cultura dominante deseja fingir, particularmente no que se refere às crianças, que o lado obscuro do homem não existe, e professa a crença num aprimoramento otimista”. 

Muito embora todas as pessoas nasçam através do ato sexual e isso seja muito natural para boa parte da população, alguns, ilustres guardiões da decência preferem fingir que o mundo é outro. Muitos pais, afirma BETTELHEIM, acreditam que só suprimindo realidades desagradáveis e reforçando os aspectos positivos da vida, assegurarão uma vida sem angustias aos filhos. Uma “dieta unilateral nutre apenas unilateralmente o espírito, e a vida real não é só sorriso”, conclui o psicanalista. 

Sobre qualquer pretexto a censura é um ato de violência que não pode ser tolerado pela sociedade. Ela se constitui numa afronta à liberdade e ameaça a pluralidade de ideias que são as bases de sustentação da sociedade moderna. Essas ações são reveladoras. Elas ilustram que não apenas os regimes autoritários, mas também, e infelizmente, a sociedade livre não tem a menor ideia do que seja arte e suas funções. 

A arte, quando recria o mundo em suas narrativas, não faz nada mais do que reproduzir de forma fictícia o que é produzido pelo homem. E o que é produzido pelo homem tem lá o seu quinhão de beleza, mas abunda também, uma asquerosa face que duela com os encantos. Não serão as ações dos censores, que evitarão qualquer desvio moral e restaurarão uma pretensa natureza bondosa do homem. Esqueçam. Então, não dever ser ela (a arte), que revela ao homem a si mesmo e ao mundo, que deva ser censurada. Antes, cabe ao homem, segundo seu arbítrio e individualidade, repudiar qualquer ação nociva e que exponha a sociedade ao perigo.  

INTERDIÇÕES

Os Sonhadores

Quais razões uma instituição, com fins culturais, pode alegar para censurar uma obra artística? A Casa Anísio Teixeira, situada na cidade de Caetité, terra natal do educador, tem uma, que coloca em dúvida a nossa existência no século XXI, e nos faz pensar estarmos noutra época. A Casa vê com reservas algumas obras cinematográficas e lhes impõe severas restrições, baseadas num código moral, rígido, de uma única lei. A pretexto da preservação da moralidade e dos bons costumes, toda e qualquer obra, que exponham cenas de sexo, por mais branda que sejam, por mais indispensáveis à recriação da realidade, sofre uma desmedida censura.

Em que pese o caráter sexual de algumas obras, a saber, Fale com Ela, Meninos não Choram, Má Educação, Navalha na Carne, Os Sonhadores, Anjos Exterminadores, A Última Tentação de Cristo, entre outras, inexistem, nessas, qualquer impedimento moral que desobrigue instituições culturais, com interesses em formar um público de cinema, sem preconceitos, e cidadãos conscientes, que justifique a censura que ora a Casa emprega para selecionar os seus filmes.

O sexo nesses filmes não me parece razão para censurar as obras, muito mais, que eles tratam, com muita seriedade, de outros temas, um tanto quanto delicados, mais indispensáveis. Se eventualmente essas obras têm alguma cena de sexo, são porque essas histórias mostram uma realidade sem máscaras e sem concessões ao fingimento, que reina no mundo de hoje. Se empregam um vocabulário chulo, rejeitados pela decência e pela sensibilidade, é apenas em respeito à severidade de propósitos que a encerram.

O impedimento apenas reduz essa seriedade de propósito, a um imperativo sexual, que insisto, eles não têm. Má Educação, de Pedro Almodóvar, por exemplo, retrata uma realidade que fingimos não enxergar, a da pedofilia, algo realmente condenável, mas não se ouve um comentário repudiando a imoralidade dos atos religiosos, recrimina-se antes a obra, que a denuncia. Meninos não Choram, fala de uma sociedade intolerante a orientação sexual das pessoas que não andam encabrestados como as demais, mas apenas o sexo mostrado no filme, que não corresponde às formas desejadas pela “normalidade” social, é lembrado. Fale com Ela, uma belíssima ode ao amor, coisa rara nos dias atuais, deixa de ser uma lição de tolerância e amor ao próximo, por quê? Sexo, sexo, sexo, sexo, algo que ninguém faz, aparece em alguma cena. Navalha na Carne, obra do fabuloso Plínio Marcos, retrata o submundo da prostituição e a violência nas relações humanas, nada disso parece importar. Será possível que histórias assim ainda se concebam fora de nossos cinemas?

Enquanto interditam essas obras a Casa é parcimoniosa com outras, muito menos incômodas, e seguramente, menos instrutivas. Xuxa e os duendes, As patricinhas de Beverly Hills, High School music cujo objetivo maior, passa ao largo da instrução social, e reinam impune. A exploração comercialesca desses produtos juvenis, travestidos de cinema, recebe total amparo da Fundação em detrimento das legitimas obras de arte, que com certeza têm muito mais a dizer sobre o homem e a sociedade.

Comprometidos em mostrarem a vida como ela é e não como são vendidas nas propagandas, as obras de significativos valores são estupidamente amordaçadas, num atentado as consciências. O alegado conteúdo sexual desses filmes não passa de uma afronta a nossa inteligência. As histórias mostram realidades duras e cruéis, porque retratam realidades duras e cruéis, porque a realidade, em si mesma, é frequentemente dura e cruel.

O cinema, principalmente o dos melhores realizadores, como é o caso desses filmes, distingue-se da pornografia e não são imorais, muito menos ofende a dignidade humana reduzindo-o a um produto perecível, ao contrário, eles mostram, e talvez aí esteja o legítimo motivo da censura, uma realidade que fingimos não existir.

A propósito das razões da censura contra as obras artísticas a maior referência da crítica teatral no Brasil, Décio de Almeida Prado, escreveu: “A censura baseia-se provavelmente em impulsos repressivos mais fundos, menos conscientes... O primeiro, comum a todos nós, é o desejo muito compreensível de negar o mal (chamemo-lo assim, para simplificar o problema). Sabemos que ele existe. Cruzamos diariamente, nas ruas da cidade, com a prostituição, o proxenetismo, o homossexualismo. Mas fazemos tudo para não ver, para ignorar a realidade desagradável... Não se podendo atingir a própria realidade, atinge-se a sua representação... A severidade, no campo limitado sobre o qual podemos influir, compensa-nos das nossas imensas frustrações em relação ao campo rebelde e infinitamente mais vasto da realidade...”

Sobre qualquer pretexto o cerceamento à expressão artística é um retrocesso aos avanços de nossa sociedade. Esquecidos de que o cinema é um importante bem de divulgação cultural e indispensável ao reconhecimento de uma realidade que urge ser modificada, a Casa infringe, em nome de um pretenso acolhimento da sociedade tradicional, as suas funções primárias, que é a de distribuir e divulgar objetos culturais de qualidade. Para fazer isso faria um grande favor abolindo a censura que deixa de fora de seu catálogo de filmes obras essenciais do cinema.

"Às morais de séculos anteriores temos que antepor a coragem de enfrentar a verdade, seja ela qual for".

A IMPRENSA VIGIADA




A organização Repórteres Sem Fronteiras, com cede na França, divulgou o ranking da liberdade de imprensa no mundo. O Brasil, que já ocupou a 84 colocação em 2007, subiu duas posições esse ano. Mesmo assim ficou atrás de países como o Haiti em 73 lugar, Argentina 68, Equador 75 e tantos outros. A julgar pelo estado de coação e constantes pressões a que são forçados os jornalistas em centro como Rio e São Paulo, o Brasil em vez de continuar a sua “ascensão”, corre sérios riscos de cair posições. Sim, porque a formula encontrada para chegar a brilhante conclusão dos lugares com total ou nenhuma liberdade de imprensa foi, pasmem, inquirindo 10 jornalistas locais sobre suas condições de trabalho.