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Desculpas para não ofertar às massas um conteúdo decente



“O problema não está no vulgo, que

pede disparates, mas naqueles que não   

sabem representar outra coisa”.


Cervantes no livro Dom Quixote

Mantra

Benditos os que não confiam a vida a ninguém

Barnardo Soares. Livro do Desassossego, p. 95.

Os limites de minha linguagem denotam os limites de meu mundo

.
Em 1904, Kafka escreveu a seu amigo Oskar Pollark: “No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos ao trabalho de lê-lo? Para que nos faça feliz, como diz você? Meu Deus, seríamos felizes da mesma forma se não tivéssemos livros. Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade, poderíamos escrevê-los nós mesmos. Precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, que nos façam sentir como se tivéssemos sido banidos para a floresta, longe de qualquer presença humana, como um suicídio. Um livro tem de ser um machado para o mar gelado de dentro de nós. É nisso que acredito”.

Fonte: Uma história da Leitura de Alberto Manguel, p. 113

Útil e honesto - Montaigne

"É um erro julgar a beleza e a grandeza de uma ação pela sua utilidade e imaginar que devemos fazer e considerar honesto tudo o que é útil."


Montaigne, Ensaios III: Do útil e do honesto, p. 367.

A verdade das mentiras

"Arendt explica que o mentiroso, ao contrário daquele que diz a verdade, é um homem de acção, uma vez que distorce a realidade. Em contrapartida, aquele que diz a verdade precisa de recorrer a uma retórica que impõe não a verdade em si mesma mas a sua coincidência com um interesse específico. Ele (ou ela) faz isso porque a verdade não é evidente, e só convence travestida de interesse. Ao mesmo tempo, sabemos que quem faz coincidir uma verdade com um interesse está apenas a exercitar um truque. E desconfiamos."

Pedro Mexia no blog Lei Seca

Adeus Columbus - Excerto do livro de estreia de Philip Roth

A primeira vez que vi Brenda ela me pediu para segurar seus óculos. Então foi até a ponta do trampolim e, apertando os olhos, mirou a piscina; se estivesse vazia, Brenda não perceberia o fato, míope que era. Deu um belo mergulho e um instante depois voltava nadando para a beira da piscina, mantendo a cabeça, de cabelos avermelhados cortados curtos, erguida à frente, como se fosse uma rosa de caule longo. Rapidamente chegou à borda e veio ter comigo. “Obrigada”, disse, os olhos cheios d’água, mas não da piscina. Estendeu a mão para pegar os óculos, porém só os pôs nos lugar depois que me deu as costas e se afastou. Fiquei vendo-a ir embora. Suas mãos de repente apareceram atrás dela. Segurou a bainha do maiô com o polegar e o indicador e enfiou no devido lugar o pouco de carne que estava aparecendo. Meu sangue ferveu.

CITAÇÃO 8


"De fato, na história da humanidade aconteceu um fenômeno importante, capital, que é o nascimento do pensamento científico e seu desenvolvimento. Esse fato é um valor intrínseco, em si mesmo, que eu realmente coloco fora do relativismo cultural. Agora, se você olha as coisas um pouco mais do alto, dirá que esse pensamento científico que respeitamos e que nos apaixona em seus progressos passo a passo, que se efetua no decorrer dos séculos, anos ou dias, é na realidade profundamente vão. Já que o que nos ensina é, ao mesmo tempo, a melhor compreender as coisas em seus detalhes e que não podemos jamais compreender na totalidade, no conjunto. 

O pensamento científico, ao mesmo tempo que alimenta nossa reflexão e aumenta nossos conhecimentos, mostra a insignificância última desse conhecimento. Depende do seu ponto de vista e do nível, que é o nosso, o do homem do século XX, do mundo ocidental, o pensamento científico é algo essencial, fundamental, e devemos utilizá–lo. Porém, se nos tornamos metafísicos, diremos que de fato ele é essencial, mas ao mesmo tempo é preciso saber que não serve para nada”.

(LÉVI–STRAUSS, C. Entrevista à Bernardo Carvalho, in FOLHA DE S. PAULO, 22 de outubro de 1989).

Ainda sobre a memória


“Em nossos livros de leitura havia a parábola de um velho que no momento da morte revela a seus filhos a existência de um tesouro enterrado em seus vinhedos. Os filhos cavam, mas não descobrem qualquer vestígio do tesouro. Com a chegada do outono, as vinhas produzem mais que qualquer outra na região. Só então compreenderam que o pai lhes havia transmitido uma certa experiência: a felicidade não está no ouro, mas no trabalho. Tais experiências nos foram transmitidas, de modo benevolente ou ameaçador, à medida que crescíamos: “Ele é muito jovem, em breve poderá compreender”. Ou: “Um dia ainda compreenderá”. Sabia-se exatamente o significado da experiência: ela sempre fora comunicada aos jovens. De forma concisa, com a autoridade da velhice, em provérbios; de forma prolixa, com a sua loquacidade, em histórias; muitas vezes como narrativas de países longínquos, diante da lareira, contadas a pais e netos. Que foi feito de tudo isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência?”



Walter Benjamin – Experiência e Pobreza – 1933

CITAÇÃO 7

Quem fez da modéstia uma virtude esperava que todos passassem a falar de si próprios como se fossem idiotas. O que é a modéstia senão uma humildade hipócrita, através da qual um homem pede perdão por ter as qualidades e os méritos que os outros não têm?


Arthur Schopenhauer


CITAÇÃO 6

"Duvido que a relação entre prosperidade econômica e excelência artística seja a de causa e efeito...A pressa por 'desenvolver-se', ademais, faz-me pensar em desenfreada carreira para chegar mais cedo do que os outros ao inferno"

Octavio Paz

CITAÇÃO 4

"Não é possível conhecer a alma, a índole e as ideias de um homem , antes que ele as manifeste no exercício do poder e na elaboração das leis"

"A esperança do lucro leva, muitas vezes, os homens à perdição"


"Entre os homens, nada há como o dinheiro para gerar maus costumes. Ele devasta as cidades e expulsa os homens de seus lares. Corrompe até o coração dos bons e ensina-lhes práticas torpes. O dinheiro induz os homens ao crime e estilo-lhes na alma toda sorte de impiedades"


"Guarda, pois, de te apegares a um só modo de pensar, crendo que o que dizes, e por seres tu que o dizes, exclui qualquer outra possibilidade de ver e sentir as coisas"


"...feias quedas dão os homens, até os mais astutos, quando, movidos por vis interesses, entrajam com belas palavras os seus pérfidos pensamentos"


"Para os cegos não há outro caminho que o do guia"


Excertos do último livro que li, Antígona. Tradução de Domingos Paschoal Cegalla.

CITAÇÃO 3

"Não há temas privilegiados ou condenados para a literatura. Tudo depende do tratamento artístico."
Sábato Magaldi
"O palavrão, por
tanto, tem de ser encarado no palco de maneira diversa do que o é na vida real: se serve a fins artísticos precisos, revelando algum aspecto da personalidade humana, embora escuso, ou lançando luz sobre as condições econômicas e sociais de certas classes, justifica-se humanamente e esteticamente."
Décio de Almeida Prado
"De fato, a evolução da literatura nos últimos cento e cinquenta anos está ligada a uma série de vitórias obtidas contra a repressão social, representada pela Censura ou pelo Poder Judiciário. As Flores do Mal, de Baudelaire, Mme Bovary, de Flaubert, O Amante de Lady Chatterley, de Lawrence, Ulysses, de Joyce, são alguns destes marcos mais representativos, por terem sido objetos de processos e condenações rumorosas, antes de passarem à categoria de tranquilas obras-primas. Cada uma de tais batalhas judiciárias acabou efetivamente por alargar os limites da arte, que os artistas pretendem seja tão amplo quanto o da ciência. Tudo é objeto de arte, mesmo o obsceno, mesmo o repugnante, como tudo é objeto de ciência, já que ambas, cada uma a seu modo, dizem respeito ao conhecimento do homem."
Décio de Almeida Prado
"Foi realmente determinado que não há nada de saudável e proveitoso na arte a não ser que ela esteja vestida?"
Jornal New York World
"Sempre acontece que, entre a proibição justa, fundada em premissas certas, para a salvaguarda da coletividade, a ignorância do fenômeno estético por parte de censores - recrutados mais como policiais do que como críticos adultos - provoca disparates como este que é a proibição de A Navalha na Carne, com fundamento na sua presumível linguagem pornográfica."
João Apolinário

CITAÇÃO, 02

ALMADA NEGREIROS (1893-1970) AUTO-RETRATO
"Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria. Deve haver certamente outras maneira de se salvar uma pessoa, senão estarei perdido."

CITAÇÃO, O1

Neil prova ser um autor versátil e talentoso. Foto: Thomás Levy

“os inimigos da literatura não são as pessoas que não compram os livros; são pessoas que não lêem”