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Quadra do tempo da Guerra Civil Espanhola

Na noite em que a mataram
Rosita teve muita sorte
das três balas que apanhou
só uma é que foi mortal


Quadra popular do tempo da Guerra Civil de Espanha, citada por Alexandre O´Neil. O estro popular é fecundo em variantes. A poesia anônima vai do lirismo ao profano, passando pelo humorístico, chegando até o sentencioso onde a sabedoria popular alcança máximas filosóficas que fazem empalidecer os melhores doutores em filosofia. Porém chama atenção essa quadra citada por O´Neil. Ela é incomum. Mesmo preservando as características principais do gênero: a simplicidade do tema e do esquema métrico, ela destoa das outras por não rimar. É a única do gênero que vi até hoje. Como todos sabem a literária popular jamais dispensou o recurso da rima, elemento indispensável para preservação e fixação da memória literária em comunidades sem escrita.

O Mergulhador - Vinícius de Moraes


.

O MERGULHADOR - VINÍCIUS DE MORAES.
Como, dentro do mar, libérrimos, os polvos
No líquido luar tateiam a coisa a vir
Assim, dentro do ar, meus lentos dedos loucos
Passeiam no teu corpo a te buscar-te a ti.

És a princípio doce plasma submarino
Flutuando ao sabor de súbitas correntes
Frias e quentes, substância estranha e íntima
De teor irreal e tato transparente.

Depois teu seio é a infância, duna mansa
Cheia de alísios, marco espectral do istmo
Onde, a nudez vestida só de lua branca
Eu ia mergulhar minha face já triste.

Nele soterro a mão como a cravei criança
Noutro seio de que me lembro, também pleno...
Mas não sei... o ímpeto deste é doído e espanta
O outro me dava vida, este me mete medo.

Toco uma a uma as doces glândulas em feixes
Com a sensação que tinha ao mergulhar os dedos
Na massa cintilante e convulsa de peixes
Retiradas ao mar nas grandes redes pensas.

E ponho-me a cismar… - mulher, como te expandes!
Que imensa és tu! maior que o mar, maior que a infância!
De coordenadas tais e horizontes tão grandes
Que assim imersa em amor és uma Atlântida!

Vem-me a vontade de matar em ti toda a poesia
Tenho-te em garra; olhas-me apenas; e ouço
No tato acelerar-se-me o sangue, na arritmia
Que faz meu corpo vil querer teu corpo moço.

E te amo, e te amo, e te amo, e te amo
Como o bicho feroz ama, a morder, a fêmea
Como o mar ao penhasco onde se atira insano
E onde a bramir se aplaca e a que retorna sempre.

Tenho-te e dou-me a ti válido e indissolúvel
Buscando a cada vez, entre tudo o que enerva
O imo do teu ser, o vórtice absoluto
Onde possa colher a grande flor da treva.

Amo-te os longos pés, ainda infantis e lentos
Na tua criação; amo-te as hastes tenras
Que sobem em suaves espirais adolescentes
E infinitas, de toque exato e frêmito.

Amo-te os braços juvenis que abraçam
Confiantes meu criminoso desvario
E as desveladas mãos, as mãos multiplicantes
Que em cardume acompanham o meu nadar sombrio.

Amo-te o colo pleno, onda de pluma e âmbar
Onda lenta e sozinha onde se exaure o mar
E onde é bom mergulhar até romper-me o sangue
E me afogar de amor e chorar e chorar.

Amo-te os grandes olhos sobre-humanos
Nos quais, mergulhador, sondo a escura voragem
Na ânsia de descobrir, nos mais fundos arcanos
Sob o oceano, oceanos; e além, a minha imagem.

Por isso - isso e ainda mais que a poesia não ousa
Quando depois de muito mar, de muito amor
Emergido de ti, ah, que silêncio pousa


Ah, que tristeza cai sobre o mergulhador!Ah, que tristeza cai sobre o mergulhador!

Se de Rudyard Kipling

Se

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu filho!



"If", de Rudyard Kipling; tradução de Guilherme de Almeida. Em tempos nebulosos, onde palácios de governos se confundem com lupanários, e onde políticos estão absolutamente disponíveis para negociatas as abertas, If, de Rudyard Kipling restitui-nos a grandeza humana apostando naquilo que ela tem de mais honrosa: A persistência em novas atitudes , mesmo ante tão maus exemplos.

A vida em círculo

Ao ler a Odisseia,

uma obra que conta

milênios de existência,

têm-se a impressão de que

a vida sempre foi o que é:

uma sucessão de desencontros,

paixões mal resolvidas,

malogros, angustias

e lutas encarniçadas,

movida pela ambição

mais desmedida...


Rogério Soares


Em vão

Hoje, queria estar a salvo do meu país
Mas ele me invade sem ao menos pedir licença.
Bate a minha porta com violência
e estende os braços para pegar-me.

Tende paciência, em vão, lhe peço.
Não quer sabe e se precipita
E me arremessa, para fora de minha morada.
Antes, arranca-me os livros e as roupas
Tomando-me todo o meu abrigo.

Assim, com pressa, atira-me à rua
Sem querer saber se estou
Com isso em desacordo.
Pudesse ouvir-me saberia ele
Que não era esse o país que desejava.


Rogério Soares

Perspectiva

À Lucélia Pardim 
.

Se de asas me vê,
Enxergas-me pela metade.
Olhasse em direto,
Verias, que as sombras
Me acompanham.

A Metamorfose em versão de cordel

A releitura de João Gomes de Sá vai além das preocupações com a forma. Aliado à melhor tradição poética da literatura de cordel, que tem em Leandro Gomes de Barros seu maior expoente, Gomes de Sá, consegue recriar a atmosfera claustrofóbica e de emparedamento dos homens em meio às exigências de um mundo insensível e cada vez mais desumano.

Que profissão cansativa
Remuneração ruim!
Eu vou pedir demissão
Senão será o meu fim!
Mas não faço esse pedido,
Pois tenho compreendido:
Todos dependem de mim!

(...)

É o desafio maior
Viver em sociedade,
Pois todos vivem somente
A individualidade,
Sobretudo quando o ter
Se sobrepõe sobre o ser
Assassinando a igualdade.

Digna de nota também é a insubmissão do autor Gomes de Sá ao texto original. Com a convicção de quem sabe que nenhum texto adaptado é inteiramente fiel à sua fonte, ele toma a liberdade de intervir na história, dando a ela uma pitada de Nordeste ao que ela tem de árida e insólita. Vejam como exemplo a estrofe em que o personagem Gregor Samsa, em um pequeno vislumbre de liberdade, sai de sua angústia física da única maneira que lhe é possível: pela imaginação.

Com cuidado especial,
Deixou a imaginação
Viajar por muitos mares,
Cidade e também sertão.
Comentou: — Não há imposto
Para impedir o meu gosto
De voar na ficção.

Essa releitura é obrigatória para todos os amantes da boa literatura.



O Poeta enjaulado

O Relógio

Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.
(...)

João Cabral de Melo Neto 


Corre a notícia de que ele era refratário aos transbordamentos dos sentimentos. Creio em parte. Sua forma poética bem regulada e contida, por vezes sugere essa impressão. Mas ela só ocorre ao leitor desatento. Ao leitor acostumado. Ao leitor novilho. O leitor cabralino é de outra ordem. É alguém que se detém a palavra e não escorre por ela.


Seremos eternamente gratos a João Cabral por tudo o que ele representou para a nossa poesia.

Herberto Helder

Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega.


Herberto Helder

Henrique Manuel Bento Fialho - Petardo anti-sonolência.

fonte da foto aqui
.
Só há paz possível e algum alento à modorra cotidiana, na arte. Depois de uma semana sisífica volto a ler o Henrique M. Bento Fialho. Como sempre ele atira contra mim e as convicções bovinas um petardo anti-sonolência. Sua poesia é um despertar das ilusões, um chamamento às consciências. Vai dai que alguns, convictos panglosianos da normalidade social, não enxergarão grande coisa nesses versos. Tenho, porém comigo a plena convicção de que muitos daqueles que pressentem algo de tortuoso e desajustado na política, na sociedade e na cultura contemporânea sentirão neles uma verdade inconveniente. E são de inconvenientes contra as correntes que nos arrastam pela “torrente dos dias” que são feitos os versos desse português arisco ao convencionalismo. Ao contrário de seus compatriotas, Henrique suspeito de cada gesto da vida moderna. Sem maneirismo ou figuras obscuras sua poesia dispensa o vocabulário insólito “sobre amores-perfeitos,/ Cidades ardidas, noites melancólicas... para percorrer os caminhos da vida com a sinceridade que rareia em todas as esferas sociais. Implacável contra a complacência que reina nas relações humanas, Henrique, na contramão daqueles que não dispensam uma sinecura, sentencia: Prefiro um emprego honesto à suinicultura/ Dos salões nobres, das universidades vazias. Até conhecer a poesia do Henrique Manuel Bento Fialho eu não sabia que era possível escrever poesia com tanta agudeza e ferocidade de espírito.



Não quero ser poeta num país onde os poetas
Estão ao nível dos secretários de estado,
Escrevem com o giz remoído das unhas

Versos de encantar musas imberbes
E olham para o lado, fingindo que não vêem,
Sempre que passam pela própria sombra.

Prefiro um emprego honesto à suinicultura
Dos salões nobres, das universidades vazias,
Dos colóquios a meia-luz nos jardins da fundação.

Um emprego honesto pode ser: plantar
Cornucópias na testa do consumo, regar
Palavras a esmo, lavrar as alcatifas poeirentas

De uma livraria mainstream arrastando os pés
Das mesas carregadas de lixo, como arrastados
Vamos nós na torrente dos dias.

Ou talvez arrumar crises nas prateleiras da austeridade,
Enquanto do outro lado do mostruário
Os poetas do meu país escrevem sobre amores-perfeitos,

Cidades ardidas, noites melancólicas e coisas assim
Fodidas.

Do Belo, Da Feiura e Da Poesia

. Detalhe de Os Jardins das Delícias - Hieronymus Bosch

Por esses dias temos falado muito aqui sobre a beleza. Num mundo marcado pela feiura das guerras, dos atentados à bomba, dos genocídios e das automutilações nas manifestações pelo mundo, falar do belo passou a ser uma necessidade para se contrapor as grosserias impostas pela irracionalidade humana. A bestialidade não pode imperar impunemente. A furiosa sanha desses bastardos, que produzem tanta feiura, assaltou do mundo não apenas as belas e inestimáveis visões da beleza, mas roubaram também o seu sentido. Esse, seguramente, foi o atentado mais perigoso contra a beleza. 

A prática da linguagem exercida sobre o signo do consumismo destituiu o potencial expressivo da palavra belo, que passou a ser associada apenas a juventude e a harmonia das formas físicas. Vai daí que não apenas as visões do belo precisam ser resgatadas, mas também o seu sentido originário, desgastado pelo uso rotineiro, para vender cosméticas e falsas ideias de conquistas. 

Associando a beleza à realização pessoal, as empresas de cosméticas, os programas de televisão, as revistas de moda e seus congêneres, criaram um bando de tolos consumistas de seus produtos, que acreditam que se estiverem devidamente envelopados pelos cosméticos da moda, darão um gigantesco passo na realização de seus sonhos mais mesquinhos. Somos muito mais do que aquilo do que nos dizem sermos, ou não? 

Essa mutilação do sentido da palavra - empregada pela economia de mercado - nos impede de ver a diversidade de sentidos que o belo pode expressar.  Tomando de empréstimo as palavras de Alfredo Bosi no livro O Ser e o Tempo da Poesia, podemos caracterizar o belo como: “Belo é o que nos arranca do tédio e do cinza contemporâneo e nos reapresenta modos heroicos, sagrados ou ingênuos de viver e de pensar. Bela é a metáfora ardida, a palavra concreta, o ritmo forte. Belo é o que deixa entrever, pelo novo da aparência, o originário e o vital da essência. Por isso, o belo é raro.” p. 131. 

É preciso, portanto, purificar a palavra de seus desgastados usos. E quem melhor pode fazer isso? Ora, não há outra forma de restituir à palavra a sua eficiência linguística e sua potencialidade, do que o pensamento poético. A poesia possui as melhores condições de revigorar as palavras o seu potencial de dizer e restituir as mutilações que o rotineiro uso lhe impôs. A poesia, limpa a palavra das escórias do desgaste e mantém viva o seu potencial. Contraria assim a pestilenta manipulação promovida pelo uso abusivo em apenas uma acepção e contorna a saturação imposta pelas formas de interesses ideológicos, que não nos servem. 

O absurdo que ronda tantas vezes o cotidano nos diz Alfredo Bosi, precisa da palavra para dar-lhe algum sentido ou, no limite, manifestar a estranheza pela sua falta de sentido. O gesto poético desoprime a palavra de suas obrigações ideológicas e se realiza plenamente, quando insinua ao leitor os caminhos possíveis de sua interpretação. Apenas no texto poético, e em quase nenhum outro lugar hoje em dia, vemos o exercício pleno da nossa liberdade. Seriam esses os motivos de seu desprestigio na nossa sociedade? Ela incomoda os establishment ao dotar o homem da irresponsabilidade de pensar por conta própria e escolher o seu caminho?  Essas são perguntas para as quais as respostas serão esboçadas no próximo post.

Poesia


A propósito do dia da poesia, Teo Junior resolveu me provocar. Segundo ele Bandeira é superior a Cabral. Ele disse isso porque sabe que tenho muita afeição a poesia cabralina e ao estilo duro e seco que esse poeta empreende em seu versos. Somente Teo Junior é capaz de tentar provocar uma discussão baseado em fatos tão irrelevantes. A poesia, meu amigo, pra ser de verdade, ignora, qualquer gênero, escola, ou linha de pensamento. Ela é maior do que tudo isso. Agora eu me pergunto o que será mais fácil? O que será mais poético o amor, a dor de cotovelo ou uma pedra, uma faca ou bala. Quais dessas palavras estarão em melhores condições de narrar ao homem sentimentos e emoções? Todas. O poeta extrai das palavras sugestões. Agora, durante muito tempo, a única forma aceitável e usual de fazer poesia esteve relacionada a certo transbordamento de emoções, discursos confecionais e quejados.  Quando J.C. escolheu as pedras ele optou pelo caminho mais difícil. Ele inaugurou uma poesia que arrancava dos objetos inusuais e de forma incomum uma mensagem, que não se restringia aos estados espirituais e amorosos do eu lírico. Ele disse: “todas as palavras são poética”. O bom poeta será portanto, aquele que descondiciona as palavras de seu sentido dicionário, e sugerir  à elas sentidos até então jamais empregados. Esse é o verdadeiro ofício do poeta - resgatar as palavras do sentidos convencionais. João Cabral fundou, com isso, uma poesia que ainda não existia. Poucos podem dizer isso. Poucos poetas podem dizer serem criadores de alguma coisa. Quanto aos demais - leia-se ai os líricos - eles não tiveram coragem de encarar o trabalho de fazer poesia com objetos inusuais. Eles optaram pela tradição, pelo caminho já trilhado, pela picadas conhecidas e seguras. Talvez temessem contraria o público ou pior, desmentir aquilo que os legisladores recomentaram como socialmente aceito para aquilo que o homem médio se limita a ver. Ótimo. Nem todos são suficientemente arrojados. Isso não é um problema. O problema estar em querer tornar uma coisa superior a outra. João, sempre buscou o seu próprio caminho. Assim como muitos inovadores ele abriu a sua própria estrada. Nem todo mundo aceita as novas ideias. Haverá sempre aqueles, que preferem as zonas de conforto e, outros, que mesmo despedaçados pela injustiça, desconfiança e incompreensão, nunca desistirão de inovar. Creio que só avançamos na medida em investimos em novos caminhos - não estou dizendo que devemos ignorar os velhos- porém, não devemos viver a vida inteira sem desejar algo mais. Gosto da poesia de João Cabral porque pressinto nela um vigor que não encontro em outros poetas. A poesia cabralina me descortina novas possibilidades não só de compreensão do humano, mas também, e acima de tudo, mantém sempre viva a discussão dos limites da linguagem. Ele força a palavra a dizer sempre mais do que habitualmente estava acostumada a dizer, mantendo controle sobre o discurso.

Improbabilidade poética - a poesia deixa de pertencer ao poeta quando ganha as páginas dos livros


A literatura promove encontros estranhos. Um deles ocorreu entre Chico Buarque e João Cabral de Melo Neto. Chico Buarque de Holanda é o maior compositor lírico desse país. E justamente ele, que sempre carregou a sua poesia de um transbordamento de emoções e sentimentos, foi se juntou ao maior poeta anti-lírico do país para criar uma parceria improvável. Em 1965 Chico, então com pouco mais de vinte anos, foi convidado pelo diretor do TUCA, Roberto Freire, para musicar o poema que a companhia estava adaptando para o teatro. Daí nasceu o musical MORTE E VIDA SEVERINA. Um dos raros poemas de João Cabral que suporta música. Cabral, como todos sabem, era um poeta avesso a musicalidade, e se esforçou a vida inteira, para impedir que sua poesia expressasse alguma melodia involuntária. Ele acreditava que a musicalidade e o ritmo melódico de um poema, dispersava a atenção do leitor e o distanciava dos conteúdos poéticos necessários para compreensão da narrativa. Através da rima toante, frequentemente empregado pelo poeta em sua poesia para suprimir a música, a sua linguagem tornou-se uma marca de expressão individual que o distinguia de todos os poetas nacionais. Todos que ouvem um poema cabralino identificam de pronto a sua dicção. Ela é áspera, árida e seca, como as paisagens descritas em seus poemas. Em seu mundo particular, quase não se ouve nada, mas se ver muito. João Cabral optou pelo visual ao excluir os sons de seus poemas. A façanha dessa poesia foi a de se afastar daquilo que os legisladores literários sempre recomendaram: uma poesia direcionada aos sentimentos. Mas a poesia de João Cabral tomou o seu próprio rumo. Rebelou-se contra o poeta e revelou a sua face musical graças a genialidade de Chico Buarque que desentranhou das pedras cabralina, sons e emoções que o poeta jamais imaginou que elas contivessem.  

O profissional da memória - Poema de João Cabral


.

O PROFISSIONAL DA MEMÓRIA

Passeando presente dela
pelas ruas de Sevilha,
imaginou injetar-se
lembranças, como vacina,

para quando fosse dali
poder voltar a habitá-las,
uma e outras, e duplamente,
a mulher, ruas e praças.

Assim, foi entretecendo
entre ela, e Sevilha fios
de memória, para tê-las
num só e ambíguo tecido;

foi-se injetando a presença
a seu lado numa casa,
seu íntimo numa viela,
sua face numa fachada .

Mas desconvivendo delas,
longe da vida e do corpo,
viu que a tela da lembrança
se foi puindo pouco a pouco;

já não lembrava do que
se injetou em tal esquina,
que fonte o lembrava dela,
que gesto dela, qual rima.

A lembrança foi perdendo
a trama exata tecida
até um sépia diluído
de fotografia antiga.

Mas o que perdeu de exato
de outra forma recupera:
que hoje qualquer coisa de um
traz da outra sua atmosfera.


João Cabral de Melo Neto. Museu de Tudo, p.401-402.

Ondjaki: a poesia da aprendizajem

.
Anarquizar as palavras. Remodelar a língua entortando-a até o estado poético. Esse é o esforço empregado por Ondjaki (1977), escritor angolano radicado no Brasil, em seu mais novo trabalho, Há Prendisajens com o xão (o segredo Húmido da lesma & outras descoisas) livro que acabo de ler com grande prazer. Nesse percurso de aprendizagens, Ondjaki procura desvendar os segredos guardados pelas palavras e explorar todo o seu potencial poético. Recriando-as anarquicamente, ele apanha as lições de Manoel de Barros  de que a melhor maneira de poetizar as palavras é adoecendo-as ou infringindo os códigos para renovar os sentidos e revigora as palavras, vitimadas pelo engessamento das convenções. Os sinais dessas prendisajens manoelinas estão por todo o livro. As referências a Manoel de Barros vão desde as insistentes imagens que privilegiam as insignificâncias do mundo: apetece-me des-ser-me;/reatribuir-me a átomo.... (CHÃO). Borboleta é um ser irrequieto./para vestes usa pólen/ tem um cheiro colorido.... (PARA VIVENCIAR NADAS). Para acumular dores/o mais das vezes/ bastou um desamor. (QUE SABES TU DO ECO DO SILÊNCIO?);  à linguagem perpassada pela torção que lhes aniquila a alienação imposta pelo uso cotidiano: a despalavreação/ pode acrescer de uma vida... ou ainda apetece-me chãonhe-ser-me.... Nas extraordinárias imagens que surgem desse exercício lúdico com as palavras reside o maior encanto desse livro. 

lágrima
é uma sensação que escorrega.
mundo está seco de coisas e trans-sensações
assim a lágrima presta-se
a desressequir o mundo.
(...)

(LÁGRIMA, GOTA, LÁGRIMA OU: TODAS DESPEDIDAS DO MUNDO)


(...)
Solidão é uma esteira
Onde se evite cochilar.
(...)

(REENCONTRO COM GOTAS)

O inchaço do coração
Facilita o despalavrear.
A liberdade pode advir
De uma veia.
Com sangue também
Se reescreve a vida.
O suicidado foi um apressado
Para desconhecimentos.
(...)

(INSCRIÇÃO)

Ao implodir todo formalismo, Ondjaki cria uma poesia marcada pelo insólito onde a violação das convenções linguísticas, descondicionam o olhar do leitor, abrindo-o à novas e impressionantes visões sobre o mundo. Ondjaki diverte-se com as palavras, e diverte ainda mais o leitor, criando mundos fabulosos onde os limites para fantasia e à criatividade simplesmente se recusam em existir. A obediência às normas e às convenções são coisas incompatíveis com a poesia desse angolano de temperamento brasileiro.

Affonso Romano de Sant´anna - Poesia



Com a devida vênia do escritor Affonso Romano de Sant´anna publico logo abaixo o poema Apocalipse ou Gênesis Invertida. Esse poema, como explica o  poeta, fará parte do seu próximo livro de poesia, cujo titulo provável é: Exercícios de Finitude, ainda sem data de lançamento. O poema foi recolhi do blog do autor aqui. Desde já agradeço o escritor pela deferência.


APOCALIPSE OU GÊNESIS INVERTIDO(*)

Qualquer semelhança com o noticiário nos jornais e na televisão é mera coincidência



No sétimo dia

          (antes do fim)

as geleiras fendidas

          desabarão

focas, pinguins e ursos

deixarão suas ossadas

no deserto em formação

ilhas imprevistas emergirão

e o que agora é continente

será um conteúdo

na escuridão.



No sexto dia

          ( antes do fim)

desnorteados pássaros

não saberão

de onde vieram e para onde vão

subvertida a ordem dos mares e florestas

seres atônitos seguirão o rumo

do vento e da aflição.



No quinto dia

          (antes do fim)

choverá fogo no inverno

enlouquecidas as estações

as colheitas se perderão

devoradas por bactérias

germinadas

          -do próprio grão.



No quarto dia

          (antes do fim)

peixes envenenados boiarão

entre sargaços e destrocos

e os corais também mortos

não chorarão.



No terceiro dia

            (antes do fim)

no esqueleto das cidades

máquinas desoladas

bactérias desesperadas

do próprio nada comerão.


No segundo dia

          (antes do fim)

o homem e a mulher

cobertos de chaga e solidão

se deitarão no barro

e desaparecerão,


No primeiro ou último

dia antes do fim

          Deus

desolado

          se retirará

para outra galáxia

e contemplando as trevas

dissipando a criação

sentirá

um pesado vazio em suas mãos.

POESIA E SUBVERSÃO

Toda poesia é uma subversão dos signos. O poeta não se contém diante da possibilidade mágica das palavras que nomeia uma coisa, mas com ela pode estar insinuando outras. Por signo entendemos a palavra ou imagem que implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato. O poeta diz uma palavra (jogo), ou constrói uma imagem, através de uma série de palavras. Nessa imagem podemos ver um cenário e seus personagens, como no poema Idade, de Mário Quintana, por exemplo:

IDADE

Estou nessa idade me que o juiz consulta o relógio e as arquibancadas já vão se esvaziando...

Seu significado imediato, sua aparência objetiva, sua significação cotidiana, fala de uma realidade facilmente apreensível - uma partida de futebol que se aproxima do fim. Desse modo, o poema, não se constitui em nenhum desafio a sua compreensão. Muito menos parece esta subvertendo coisa alguma. Porém, as leituras desses versos sugerem, para aquele dotado de sensibilidade, como algo a mais do que aquilo que ele anuncia.

Este é um modo de ler proposto pela poesia. Negando a realidade dada, construímos outras, associado com os símbolos fundados pelo poeta. Assim, esses simples versos, que nos fala da aproximação do fim de um jogo, pode se revestir numa reflexão sobre a vida e sua brevidade, ou ainda, sobre a transitoriedade, a passagem, a forma com que tudo um dia chega fatidicamente ao fim.

Esse é o artifício construído pelo poeta para alcançar zonar do inconsciente do leitor. Através da subversão dos signos dados, (idade, juiz, relógio, arquibancadas, esvaziando), o poema, transcende essa realidade, para vislumbrar outra, ocultada pela mesmice com que sempre fixamos essas palavras. Ao encararmos essas palavras como signos, elas se elevam a outros sentidos, que vão além daqueles comumente empregados. Dizem mais do que aquilo a aqui estávamos acostumados a ouvir delas, restauram assim sua vitalidade.

Uma leitura dicionaresca daria conta do sentido da mensagem. Mas poesia é algo mais. 

A poesia se utiliza dos artifícios das palavras para, desequilibrando nossos sentidos, revelar-nos outros possíveis, que por conta do uso indiscriminado acabaram embotadas, adormecidas, hibernando em alguma parte de nos mesmo esperando apenas o estímulo necessário para despertar.

Ler um poema, apreciar uma obra de arte, assistir um bom filme, é o mesmo que celebrar a descoberta de algo novo. As surpresas que se ocultam por trás de uma obra podem reverter-se naquela compensação desejada pelo leitor.

VIVER É UMA EMPRESA DE RISCO

Ele fez da vida

uma empresa de risco.

Não a entendia

sem o perigo.

Lançou-se à sorte

Como quem mesmo

Despencou do alto

De uma montanha.

Desassombrado

desafiou o medo

Que faz de cada homem

Um ser cativo.

A uma geração, que teme

E empalidece à sombra,

De algum facínora,

Deixou seu testamento,

Onde consta a saga.