Quadra popular do tempo da Guerra Civil
de Espanha, citada por Alexandre O´Neil. O estro popular é fecundo em
variantes. A poesia anônima vai do lirismo ao profano, passando pelo
humorístico, chegando até o sentencioso onde a sabedoria popular alcança
máximas filosóficas que fazem empalidecer os melhores doutores em filosofia.
Porém chama atenção essa quadra citada por O´Neil. Ela é incomum. Mesmo
preservando as características principais do gênero: a simplicidade do tema e
do esquema métrico, ela destoa das outras por não rimar. É a única do gênero
que vi até hoje. Como todos sabem a literária popular jamais dispensou o
recurso da rima, elemento indispensável para preservação e fixação da memória
literária em comunidades sem escrita.
Se és capaz de pensar --sem que a isso
só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus
senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo
conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois
impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver
mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida,
estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te
reste;
Se és capaz de arriscar numa única
parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer
nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos,
tudo
A dar seja o que for que neles ainda
existe,
E a persistir assim quando, exaustos,
contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena:
"Persiste!";
Se és capaz de, entre a plebe, não te
corromperes
E, entre reis, não perder a
naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te
defenderes,
Se a todos podes ser de alguma
utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por
segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no
mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu
filho!
"If", de Rudyard Kipling;
tradução de Guilherme de Almeida. Em tempos nebulosos, onde palácios de
governos se confundem com lupanários, e onde políticos estão absolutamente
disponíveis para negociatas as abertas, If, de Rudyard Kipling restitui-nos a
grandeza humana apostando naquilo que ela tem de mais honrosa: A persistência
em novas atitudes , mesmo ante tão maus exemplos.
A releitura de João Gomes de Sá vai além das
preocupações com a forma. Aliado à melhor tradição poética da literatura de
cordel, que tem em Leandro Gomes de Barros seu maior expoente, Gomes de Sá,
consegue recriar a atmosfera claustrofóbica e de emparedamento dos homens em
meio às exigências de um mundo insensível e cada vez mais desumano.
Que profissão cansativa
Remuneração ruim!
Eu vou pedir demissão
Senão será o meu fim!
Mas não faço esse pedido,
Pois tenho compreendido:
Todos dependem de mim!
(...)
É o desafio maior
Viver em sociedade,
Pois todos vivem somente
A individualidade,
Sobretudo quando o ter
Se sobrepõe sobre o ser
Assassinando a igualdade.
Digna de nota também é a insubmissão do autor Gomes
de Sá ao texto original. Com a convicção de quem sabe que nenhum texto adaptado
é inteiramente fiel à sua fonte, ele toma a liberdade de intervir na história,
dando a ela uma pitada de Nordeste ao que ela tem de árida e insólita. Vejam
como exemplo a estrofe em que o personagem Gregor Samsa, em um pequeno
vislumbre de liberdade, sai de sua angústia física da única maneira que lhe é
possível: pela imaginação.
Com cuidado especial,
Deixou a imaginação
Viajar por muitos mares,
Cidade e também sertão.
Comentou: — Não há imposto
Para impedir o meu gosto
De voar na ficção.
Essa releitura é obrigatória para todos os amantes
da boa literatura.
Corre a notícia de que ele era
refratário aos transbordamentos dos sentimentos. Creio em parte. Sua forma
poética bem regulada e contida, por vezes sugere essa impressão. Mas ela só
ocorre ao leitor desatento. Ao leitor acostumado. Ao leitor novilho. O leitor
cabralino é de outra ordem. É alguém que se detém a palavra e não escorre por
ela.
Seremos eternamente gratos a João Cabral
por tudo o que ele representou para a nossa poesia.
Só há paz possível e
algum alento à modorra cotidiana, na arte. Depois de uma semana sisífica volto
a ler o Henrique M. Bento Fialho. Como sempre ele atira contra mim e as convicções
bovinas um petardo anti-sonolência. Sua poesia é um despertar das ilusões, um
chamamento às consciências. Vai dai que alguns, convictos panglosianos da
normalidade social, não enxergarão grande coisa nesses versos. Tenho, porém
comigo a plena convicção de que muitos daqueles que pressentem algo de tortuoso
e desajustado na política, na sociedade e na cultura contemporânea sentirão neles
uma verdade inconveniente. E são de inconvenientes contra as correntes que nos
arrastam pela “torrente dos dias” que
são feitos os versos desse português arisco ao convencionalismo. Ao contrário
de seus compatriotas, Henrique suspeito de cada gesto da vida moderna. Sem maneirismo
ou figuras obscuras sua poesia dispensa o vocabulário insólito “sobreamores-perfeitos,/ Cidades ardidas, noites melancólicas... para
percorrer os caminhos da vida com a sinceridade que rareia em todas as esferas
sociais. Implacável contra a complacência que reina nas relações humanas,
Henrique, na contramão daqueles que não dispensam uma sinecura, sentencia: Prefiro um emprego honesto à suinicultura/ Dos
salões nobres, das universidades vazias. Até conhecer a poesia do Henrique
Manuel Bento Fialho eu não sabia que era possível escrever poesia com tanta
agudeza e ferocidade de espírito.
Por esses dias temos
falado muito aqui sobre a beleza. Num mundo marcado pela feiura das guerras,
dos atentados à bomba, dos genocídios e das automutilações nas manifestações
pelo mundo, falar do belo passou a ser uma necessidade para se contrapor as
grosserias impostas pela irracionalidade humana. A bestialidade não pode
imperar impunemente. A furiosa sanha desses bastardos, que produzem tanta
feiura, assaltou do mundo não apenas as belas e inestimáveis visões da beleza,
mas roubaram também o seu sentido. Esse, seguramente, foi o atentado mais
perigoso contra a beleza.
A prática da linguagem
exercida sobre o signo do consumismo destituiu o potencial expressivo da
palavra belo, que passou a ser associada apenas a juventude e a harmonia das
formas físicas. Vai daí que não apenas as visões do belo precisam ser
resgatadas, mas também o seu sentido originário, desgastado pelo uso rotineiro,
para vender cosméticas e falsas ideias de conquistas.
Associando a beleza à
realização pessoal, as empresas de cosméticas, os programas de televisão, as
revistas de moda e seus congêneres, criaram um bando de tolos consumistas de
seus produtos, que acreditam que se estiverem devidamente envelopados pelos
cosméticos da moda, darão um gigantesco passo na realização de seus sonhos mais
mesquinhos. Somos muito mais do que aquilo do que nos dizem sermos, ou não?
Essa mutilação do
sentido da palavra - empregada pela economia de mercado - nos impede de ver a
diversidade de sentidos que o belo pode expressar.Tomando de empréstimo as palavras de Alfredo
Bosi no livro O Ser e o Tempo da Poesia, podemos caracterizar o belo como: “Belo é o que nos arranca do tédio e do
cinza contemporâneo e nos reapresenta modos heroicos, sagrados ou ingênuos de
viver e de pensar. Bela é a metáfora ardida, a palavra concreta, o ritmo forte.
Belo é o que deixa entrever, pelo novo da aparência, o originário e o vital da
essência. Por isso, o belo é raro.” p. 131.
É preciso, portanto,
purificar a palavra de seus desgastados usos. E quem melhor pode fazer isso?
Ora, não há outra forma de restituir à palavra a sua eficiência linguística e
sua potencialidade, do que o pensamento poético. A poesia possui as melhores
condições de revigorar as palavras o seu potencial de dizer e restituir as
mutilações que o rotineiro uso lhe impôs. A poesia, limpa a palavra das
escórias do desgaste e mantém viva o seu potencial. Contraria assim a
pestilenta manipulação promovida pelo uso abusivo em apenas uma acepção e
contorna a saturação imposta pelas formas de interesses ideológicos, que não
nos servem.
O absurdo que ronda
tantas vezes o cotidano nos diz Alfredo Bosi, precisa da palavra para dar-lhe
algum sentido ou, no limite, manifestar a estranheza pela sua falta de sentido.
O gesto poético desoprime a palavra de suas obrigações ideológicas e se realiza
plenamente, quando insinua ao leitor os caminhos possíveis de sua
interpretação. Apenas no texto poético, e em quase nenhum outro lugar hoje em
dia, vemos o exercício pleno da nossa liberdade. Seriam esses os motivos de seu
desprestigio na nossa sociedade? Ela incomoda os establishment ao dotar o homem da irresponsabilidade de pensar por
conta própria e escolher o seu caminho? Essas
são perguntas para as quais as respostas serão esboçadas no próximo post.
A propósito do dia da poesia, Teo Junior resolveu me provocar. Segundo ele
Bandeira é superior a Cabral. Ele disse isso porque sabe que tenho muita
afeição a poesia cabralina e ao estilo duro e seco que esse poeta empreende em
seu versos. Somente Teo Junior é capaz de tentar provocar uma discussão baseado
em fatos tão irrelevantes. A poesia, meu amigo, pra ser de verdade, ignora, qualquer gênero, escola, ou linha de pensamento. Ela é maior
do que tudo isso. Agora eu me pergunto o que será mais fácil? O que será mais
poético o amor, a dor de cotovelo ou uma pedra, uma faca ou bala. Quais dessas
palavras estarão em melhores condições de narrar ao homem sentimentos e
emoções? Todas. O poeta extrai das palavras sugestões. Agora, durante muito
tempo, a única forma aceitável e usual de fazer poesia esteve relacionada a certo
transbordamento de emoções, discursos confecionais e quejados. Quando J.C. escolheu as pedras ele optou pelo caminho
mais difícil. Ele inaugurou uma poesia que arrancava dos objetos inusuais e de
forma incomum uma mensagem, que não se restringia aos estados espirituais e
amorosos do eu lírico. Ele disse: “todas as palavras são poética”. O bom poeta
será portanto, aquele que descondiciona as palavras de seu sentido dicionário,
e sugerir à elas sentidos até então
jamais empregados. Esse é o verdadeiro ofício do poeta - resgatar as palavras
do sentidos convencionais. João Cabral fundou, com isso, uma poesia que ainda
não existia. Poucos podem dizer isso. Poucos poetas podem dizer serem criadores
de alguma coisa. Quanto aos demais - leia-se ai os líricos - eles não tiveram
coragem de encarar o trabalho de fazer poesia com objetos inusuais. Eles
optaram pela tradição, pelo caminho já trilhado, pela picadas conhecidas e
seguras. Talvez temessem contraria o público ou pior, desmentir aquilo que os
legisladores recomentaram como socialmente aceito para aquilo que o homem médio
se limita a ver. Ótimo. Nem todos são suficientemente arrojados. Isso não é um
problema. O problema estar em querer tornar uma coisa superior a outra. João,
sempre buscou o seu próprio caminho. Assim como muitos inovadores ele abriu a
sua própria estrada. Nem todo mundo aceita as novas ideias. Haverá sempre
aqueles, que preferem as zonas de conforto e, outros, que mesmo despedaçados
pela injustiça, desconfiança e incompreensão, nunca desistirão de inovar. Creio
que só avançamos na medida em investimos em novos caminhos - não estou dizendo
que devemos ignorar os velhos- porém, não devemos viver a vida inteira sem
desejar algo mais. Gosto da poesia de João Cabral porque pressinto nela um
vigor que não encontro em outros poetas. A poesia cabralina me descortina novas
possibilidades não só de compreensão do humano, mas também, e acima de tudo,
mantém sempre viva a discussão dos limites da linguagem. Ele força a palavra a
dizer sempre mais do que habitualmente estava acostumada a dizer, mantendo controle sobre o discurso.
A literatura promove
encontros estranhos. Um deles ocorreu entre Chico Buarque e João Cabral de Melo
Neto. Chico Buarque de Holanda é o maior compositor lírico desse país. E
justamente ele, que sempre carregou a sua poesia de um transbordamento de
emoções e sentimentos, foi se juntou ao maior poeta anti-lírico do país para
criar uma parceria improvável. Em 1965 Chico, então com pouco mais de vinte anos,
foi convidado pelo diretor do TUCA, Roberto Freire, para musicar o poema que a companhia
estava adaptando para o teatro. Daí nasceu o musical MORTE E VIDA SEVERINA. Um
dos raros poemas de João Cabral que suporta música. Cabral, como todos sabem,
era um poeta avesso a musicalidade, e se esforçou a vida inteira, para impedir
que sua poesia expressasse alguma melodia involuntária. Ele acreditava que a
musicalidade e o ritmo melódico de um poema, dispersava a atenção do leitor e o
distanciava dos conteúdos poéticos necessários para compreensão da narrativa. Através
da rima toante, frequentemente empregado pelo poeta em sua poesia para suprimir
a música, a sua linguagem tornou-se uma marca de expressão individual que o
distinguia de todos os poetas nacionais. Todos que ouvem um poema cabralino
identificam de pronto a sua dicção. Ela é áspera, árida e seca, como as
paisagens descritas em seus poemas. Em seu mundo particular, quase não se ouve
nada, mas se ver muito. João Cabral optou pelo visual ao excluir os sons de
seus poemas. A façanha dessa poesia foi a de se afastar daquilo que os legisladores
literários sempre recomendaram: uma poesia direcionada aos sentimentos. Mas a
poesia de João Cabral tomou o seu próprio rumo. Rebelou-se contra o poeta e
revelou a sua face musical graças a genialidade de Chico Buarque que
desentranhou das pedras cabralina, sons e emoções que o poeta jamais imaginou
que elas contivessem.
Anarquizar as palavras.
Remodelar a língua entortando-a até o estado poético. Esse é o esforço
empregado por Ondjaki (1977), escritor angolano radicado no Brasil, em seu mais
novo trabalho, Há Prendisajens com o xão (o segredo Húmido da lesma & outras descoisas) livro que acabo de ler
com grande prazer. Nesse percurso de aprendizagens, Ondjaki procura desvendar
os segredos guardados pelas palavras e explorar todo o seu potencial poético. Recriando-as
anarquicamente, ele apanha as lições de Manoel de Barros de que a melhor maneira de poetizar as
palavras é adoecendo-as ou infringindo os códigos para renovar os sentidos e
revigora as palavras, vitimadas pelo engessamento das convenções. Os sinais dessas
prendisajens manoelinas estão por
todo o livro. As referências a Manoel de Barros vão desde as insistentes
imagens que privilegiam as insignificâncias do mundo: apetece-me des-ser-me;/reatribuir-me a átomo.... (CHÃO). Borboleta é um ser irrequieto./para vestes
usa pólen/ tem um cheiro colorido.... (PARA VIVENCIAR NADAS). Para acumular dores/o mais das vezes/
bastou um desamor. (QUE SABES TU DO ECO DO SILÊNCIO?); à linguagem perpassada
pela torção que lhes aniquila a alienação imposta pelo uso cotidiano: a despalavreação/ pode acrescer de uma vida...
ou ainda apetece-me chãonhe-ser-me....
Nas extraordinárias imagens que surgem desse exercício lúdico com as palavras
reside o maior encanto desse livro.
lágrima
é
uma sensação que escorrega.
mundo
está seco de coisas e trans-sensações
assim
a lágrima presta-se
a
desressequir o mundo.
(...)
(LÁGRIMA, GOTA, LÁGRIMA
OU: TODAS DESPEDIDAS DO MUNDO)
(...)
Solidão
é uma esteira
Onde
se evite cochilar.
(...)
(REENCONTRO COM GOTAS)
O
inchaço do coração
Facilita
o despalavrear.
A
liberdade pode advir
De
uma veia.
Com
sangue também
Se
reescreve a vida.
O
suicidado foi um apressado
Para
desconhecimentos.
(...)
(INSCRIÇÃO)
Ao implodir todo
formalismo, Ondjaki cria uma poesia marcada pelo insólito onde a violação das
convenções linguísticas, descondicionam o olhar do leitor, abrindo-o à novas e
impressionantes visões sobre o mundo. Ondjaki diverte-se com as palavras, e
diverte ainda mais o leitor, criando mundos fabulosos onde os limites para
fantasia e à criatividade simplesmente se recusam em existir. A obediência às normas e às convenções são coisas incompatíveis com a poesia desse angolano de temperamento brasileiro.
Com a devida vênia do escritor Affonso Romano de Sant´anna publico logo abaixo o poema Apocalipse ou Gênesis Invertida. Esse poema, como explica o poeta, fará parte do seu próximo livro de poesia, cujo titulo provável é: Exercícios de Finitude, ainda sem data de lançamento. O poema foi recolhi do blog do autor aqui. Desde já agradeço o escritor pela deferência.
APOCALIPSE OU GÊNESIS INVERTIDO(*)
Qualquer semelhança com o noticiário nos jornais e na televisão é mera coincidência
Toda poesia é uma subversão dos signos. O poeta não se contém diante da possibilidade mágica das palavras que nomeia uma coisa, mas com ela pode estar insinuando outras. Por signo entendemos a palavra ou imagem que implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato. O poeta diz uma palavra (jogo), ou constrói uma imagem, através de uma série de palavras. Nessa imagem podemos ver um cenário e seus personagens, como no poema Idade, de Mário Quintana, por exemplo:
IDADE
Estou nessa idade me que o juiz consulta o relógio e as arquibancadas já vão se esvaziando...
Seu significado imediato, sua aparência objetiva, sua significação cotidiana, fala de uma realidade facilmente apreensível - uma partida de futebol que se aproxima do fim. Desse modo, o poema, não se constitui em nenhum desafio a sua compreensão. Muito menos parece esta subvertendo coisa alguma. Porém, as leituras desses versos sugerem, para aquele dotado de sensibilidade, como algo a mais do que aquilo que ele anuncia.
Este é um modo de ler proposto pela poesia. Negando a realidade dada, construímos outras, associado com os símbolos fundados pelo poeta. Assim, esses simples versos, que nos fala da aproximação do fim de um jogo, pode se revestir numa reflexão sobre a vida e sua brevidade, ou ainda, sobre a transitoriedade, a passagem, a forma com que tudo um dia chega fatidicamente ao fim.
Esse é o artifício construído pelo poeta para alcançar zonar do inconsciente do leitor. Através da subversão dos signos dados, (idade, juiz, relógio, arquibancadas, esvaziando), o poema, transcende essa realidade, para vislumbrar outra, ocultada pela mesmice com que sempre fixamos essas palavras. Ao encararmos essas palavras como signos, elas se elevam a outros sentidos, que vão além daqueles comumente empregados. Dizem mais do que aquilo a aqui estávamos acostumados a ouvir delas, restauram assim sua vitalidade.
Uma leitura dicionaresca daria conta do sentido da mensagem. Mas poesia é algo mais.
A poesia se utiliza dos artifícios das palavras para, desequilibrando nossos sentidos, revelar-nos outros possíveis, que por conta do uso indiscriminado acabaram embotadas, adormecidas, hibernando em alguma parte de nos mesmo esperando apenas o estímulo necessário para despertar.
Ler um poema, apreciar uma obra de arte, assistir um bom filme, é o mesmo que celebrar a descoberta de algo novo. As surpresas que se ocultam por trás de uma obra podem reverter-se naquela compensação desejada pelo leitor.