FÉRIAS

ESSE BLOG VAI SAIR DE FÉRIAS HOJE E SÓ VOLTA... AINDA NÃO SABEMOS, MAS ESPERAMOS QUE O RETORNO SEJA BREVE. O NOSSO DESTINO É CRUZAR O ATLÂNTICO E ALCANÇAR O VELHO MUNDO. A TODOS DESSA NAU DOS INSENSATOS UM FELIZ NATAL ANTECIPADO E BOAS FESTAS.

VIANA OUVE VOZES


Téo Júnior*

De vez em quando, nós aqui do “Navegantes” temos a grata satisfação de encontrar por aí esses quase deuses, porque, conforme assinalou Todorov, a literatura confunde-se com a própria vida. “Deus foi o primeiro artista, e o mundo é seu poema”, escreveu ele em A Literatura em Perigo. Partindo-se do pressuposto de que a literatura, se não muda o mundo por si mesma, ajuda o indivíduo a suportá-lo, é sempre muito agradável saber que esses grandes criadores estão por aí, na planície – e não encastelados, como supúnhamos. Os deuses, às vezes, descem do Olimpo para a superfície.  

Nós, desde sempre, temos muito apreço pelos escritores porque todos estamos carecas de saber que escrever é uma arte que poucos possuem. Cansei de ouvir dizer que “escrever é fácil”, “criticar é fácil”; na boca dos incautos, tudo é fácil. Pois não é de jeito nenhum. Escrever é difícil. Requer tempo, paciência, imaginação, talento, persistência, técnica.  

Tive o prazer de conhecer pessoalmente e conversar, embora por pouco tempo, com um grande nome da literatura brasileira que é Viana, em Aracaju, onde ambos moramos. Não se pode dizer que ele seja uma revelação, porque já escreve há 40 anos, mas ficou conhecido do grande público quando (re) publicou seus trabalhos pela editora Companhia das Letras, talvez a maior do Brasil. Mas quem quiser ofender gravemente Antonio Carlos Mangueira Viana diga que ele é “regionalista”, pois esta classificação não se justifica, definitivamente. Ele pode tanto falar do sertão sergipano cujo sol é de cozinhar os miolos, seu personagem pode morar perto da praia no Rio de Janeiro ou ele pode até mesmo narrar as agruras enfrentadas no frio parisiense. Quer em Sergipe, quer na Europa, sejam ricos ou pobres, seus personagens sofrem, vivem experiências dilacerantes, carregam consigo velhos fantasmas – e nós, concomitantemente, os nossos. Nos contos de Viana, são ressaltadas tanto a alta cultura como a miséria. Suas criaturas tanto podem ouvir Monlight Serenade ou Waldik Soriano. 

Alguns contos são extraordinários e eu os recomendo. Em Aberto está o inferno, são imperdíveis “Batalha”, sobre um irresponsável que engravidara uma empregada doméstica “desmiolada”, segunda a própria ou “Doutora Eva”, que faz questão de ser juíza o dia todo, até mesmo no banheiro. “Reverendíssimo Padre Diretor” é um justo, justíssimo acerto de contas ente o oprimido e seu opressor. 

Cine Privê, por sua vez, vale o conto homônimo, sobre um infeliz derrotado pela existência, e o emprego que lhe restou, foi o de limpar cabines de um cinema pornográfico. Vale conferir também “Tia Darcy ouve vozes” e “Eliazar, Eliazar”.  

O Meio do Mundo, sua estréia na Companhia das Letras, traz contos monumentais, e talvez seja dos três o mais aterrador e o meu preferido: “Meu Tio Tão Só”, “Dias de Jó” (ambos destacam a solidão terrível) são indicados. Ao mesmo tempo, recordo-me de “Vá, Deralda!” – o melhor conto que eu já li até hoje – e, por fim, o primoroso “Jardins Suspensos”, incluído na seleção dos “100 Melhores Contos da Literatura Brasileira do Século XX”.  

Leiam Antonio Carlos Viana, comprem seus livros, e preparem-se para sofrer. Penetrar em sua obra é muito angustiante e ao mesmo tempo tão atraente quando subir numa montanha russa. Sabe-se de antemão que será uma aventura incomum, mas compensadora quando se chega ao fim e a máquina para. 

A autêntica literatura tem este poder: fazer com que nós não permaneçamos indiferentes ante as barbaridades do mundo, cuja maldade estamos rodeados as 24 horas do dia. Viana é muito hábil para cumprir a função do escritor. Trata-se alguém que sabe muito bem o que diz – e o diz maravilhosamente. Ele tem força nos pulsos. 



* Téo é crítico de Teatro do Jornal Cinform de Aracaju e colaborador esporádico do Navegantes.

Diretor do espetáculo Baianidade Baiana comenta a crítica de Téo Júnior

Téo Júnior, jovem revelação da crítica de teatro, escreve ocasionalmente no blog "Navegantes ao Mar" e no jornal Cinform, de Aracaju. Suas publicações são quase sempre relacionadas ao teatro e, esporadicamente, de cultura de uma forma geral. O espetáculo Baianidade Baiana, ao passar por Caetité, foi vista por Téo e ele publicou sua análise aqui no blog. O diretor Alberto Damit, ao tomar conhecimento da crítica, escreveu a respeito. Como o objetivo da blog "Navegantes nao Mar" não é o de destacar uma opinião, apenas, como sendo a verdadeira, e sim fomentar as discussões, publicamos na íntegra o texto de Damit.

"Li com satisfação sua crítica a respeito de nosso Baianidade Baiana, acho importante e até nobre a discussão quando ele resulta de estudo ou até mesmo observação de uma obra artística. Acredito que o teatro tem este poder, fazer pensar e com isso melhorar nossas atitudes. Agradeço a atenção.

Porém acho necessário esclarecer algumas colocações sobre suas críticas:

Baianidade Baiana utiliza-se do Stand up e do besteirol para elucidar os devaneios preconceituosos de quem só conhece a Bahia pelo cartão postal. Durante quase dois anos, pesquisamos os motivos que fazem os turistas folclorizar e muitas vezes discriminar o jeito de ser de nos Baianos.

Somos uma Cia. que estuda o comportamento do preconceito, conhecemos bem sua manifestação. Fazemos teatro popular com o objetivo de atender a uma plateia que compreende e consome comédias, porém é comum encontrar resistência de uma pseudoelite que acredita que o teatro necessita ser construído a partir de modelos utrapassados, distanciado e sem a mácula do riso. Não é isso que achamos. A arte é diversa, assim como os gêneros do teatro, não se pode diminuir esta ou aquela manifestação artística que seja sustentada pela concordância do risos ou dos plausos, e não compreender esta tendência é quase um crime.

Me chamou atenção o fato de uma pessoa culta escrever que nosso tiíulo Baianidade Baiana é redundância. A Baianidade é presente em diversos lugares do Brasil, a Baianidade Baiana esta sim somente aqui.

Para lembrar: *Licença poética é uma incorreção de linguagem permitida na arte. Ela é permitida para que o escritor tenha toda a liberdade para manipular as palavras, para que ele possa passar tudo o que pensa ao leitor. Em sentido mais amplo, são opiniões, afirmações, teorias e situações que não seriam aceitáveis fora do campo da literatura.

*"Sistema de consulta interativa - Estadão", p. 171. Editora Klick. São Paulo (1995)

A respeito de sua comparação com A Praça é Nossa, ficamos lisonjeados uma vez que este programa sempre se destacou pela diversificação em seu humor. Nesses 24 anos, foram produzidos mais de mil programas inéditos. Sem contar que já desfilaram pelo banco da praça mais de 120 artistas, entre humoristas e comediantes, que protagonizaram o respeitável número de 250 personagens.

Baianidade Baiana obteve excelentes críticas em Minas e no Espírito Santos, e foi convidado para uma temporada de três meses no Teatro Candido Mendes em Ipanema no Rio de Janeiro em 2012.

Por fim achamos que diversidade nos seus aspectos mais amplos deveria ser exercitada como um todo pela sociedade e não apenas dentro da sala de aula ou num blog. A diversidade é um princípio humanista para conseguirmos construir um mundo onde possamos viver com mais respeito, compreensão e paz.

As pessoas com elevado grau de compreensão sobre a diversidade cultural, em geral têm comportamento mais tolerante e contribuem para menor ocorrência da violência e as manifestações racistas.

Devemos todos ajudar a construir um mundo com mais DIVERSIDADE.

Alberto Damit
Diretor do espetáculo


ESPETÁCULO DIVERTIDÍSSIMO ABORDA INFERNOS PARTICULARES


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De fato, todos nós temos sérios problemas sexuais

Téo Júnior *

Se existe um assunto que o teatro soube explorar à exaustão, com certeza é o sexo. Desde os gregos (“Édipo-Rei”, por exemplo, realçou o incesto, terrível e chocante, porque relacionado a um tabu social), passando pela crise e a monotonia do casamento, onde os cônjuges, já saturados, cogitam sem qualquer disfarce até mesmo o adultério – circunstância que Albee compôs como ninguém – até chegarmos aos instintos mais baixos do ser humano – leia-se devassidão – verificados nos textos de Genet e no universo quase sempre pantanoso de Nelson Rodrigues, com as “bonitinhas, mas ordinárias” da vida.

Desde os tempos inenarráveis de Calígula, até os dias que correm, a humanidade jamais parou de fazer sexo – tanto para fins de procriação ou como um mero passatempo. “Senhor, concedei-me a virtude da castidade – mas não agora!”, escreveu Santo Agostinho.  

Em “Todo Mundo tem Problemas Sexuais”, de Domingos Oliveira e Alberto Gondim, são abordados esses infernos no tocante à intimidade das pessoas. E aí entramos num campo minado – e sombrio, já que a sexualidade sempre acompanhou a vida dos indivíduos considerados saudáveis, e cuja finalidade é proporcional prazer e bem-estar, mas que acaba se convertendo num fardo. A lista é extensa e penosa: surgem o fantasma da impotência, homossexualidade, traição, os encontros na internet que quase sempre culminam em frustração, sexo grupal (sic!) e um repertório enciclopédico de palavrões que faria a alegria de uma Dercy Gonçalves.

A peça resulta interessante porque, dividida em 6 quadros, destaca situações que seriam consideradas dramáticas numa primeira instância, para no palco elas se transformarem em objeto de comicidade. Embora mergulhados em suplícios aterradores, paradoxalmente manifesta-se nesse povo o desejo incontrolável de prosseguir sua atividade (ou tara) sexual.

Em cena, apenas uma cama por onde todos os personagens passam. Há tipos demasiadamente pitorescos, como o baiano safado (Eduardo Albuquerque) da 1º. quadro que se apaixonou pela colega farmacêutica (Mariana Moreno; não se sabe qual deles é o pior) e uma protestante ninfomaníaca (Cida Oliveira) que teve a cara de pau de trair o marido na própria casa, com o patrão dela, gordo e bêbado.  

Não diria que o espetáculo fora maravilhoso, não há a necessidade de exagerar, mas fora bem trabalhado. Os textos ficaram claros e estabelecidos de modo cuidadoso; uma produção caprichada, os atores estavam seguros de seus papéis e as soluções dramatúrgicas para temas tão variados foram inteligentemente desenvolvidas. Em suma, uma peça divertidíssima e muito responsável.

 O PÊNIS QUE FALA

Mas, caminhando para o final, o espetáculo desabou num precipício: eis que surge em cena, inesperadamente, um sujeito trajando roupão e uma touca cor de rosa, de um excepcional mau gosto, dizendo-se o personagem “mais importante” da história e reivindicando o direito de “se manifestar”. Identificou-se como sendo o pênis. (Ah, Meu Deus...). É impressionante o festival de besteira que assola o teatro e que eu sou obrigado a aturar. Onde já se viu isso? Então, o órgão masculino narra sua “via-crúcis” e, ironicamente, fora o quadro que mais agradou ao público, a julgar pelas gargalhadas quase que histéricas que se ouvia. Num determinado momento, ele admite que Fernando Gomes não soube como terminar a apresentação e pediu que ele falasse o que quisesse. O recurso que os sábios de outrora classificaram de “deus ex machina” pôde muito bem ter funcionado nas tragédias gregas, mas em “Todo Mundo” foi sinceramente catastrófico.  

Ora, se o diretor não soube encerrar dignamente a peça, a incompetência é dele. Salvou-se, além dos mencionados, o desempenho de Kadu Veiga e “Todo Mundo”, exibida no feriado do dia 15 atingiu uma audiência que raras conseguem: todas as cadeiras do Teatro Tobias Barreto foram ocupadas. Durou 2 horas.

 *É crítico de teatro. Contato: junior_teo

Publicado no jornal Cinform do dia 21/11/2011, pg. 5 

"A pele que habito": um filme que merece ser visto


Téo Júnior*
Aracaju

O azul da camisa de Banderas dominando a tela, armas que cumprem sua função elementar: disparar, pessoas presas a cadeiras, muito sexo - como não? - e a discussão sobre os limites e a ambição de médicos que se pretendem revolucionários, ainda que atropelando qualquer espécie de ética. Até o mais incauto indivíduo, sem dificuldade, identificaria o criador desse enredo: Chama-se Pedro Almodóvar e o filme em questão é "A Pele que Habito" (La Piel que Habito, Espanha, 2011, R$ 18 o ingresso).

Resumindo: o filme que dura 2 horas possui o magnetismo e o vigor que faltaram ao último trabalho de Pedro, "Abraços Partidos". Porém, lá estão o suspense e o drama tão comuns no universo almodovariano, sobretudo verificadas em suas obras-primas. Não possuo competência pra fazer crítica de cinema, mas arrisco dar uma opinião enquanto fã do cineasta - o único diretor que acompanho a carreira mais detidamente. Diria que "A Pele que Habito" não seja a joia da coroa da filmografia e Pedro, isto é, não chega a ser uma obra genial, mas é um trabalho interessante.

Antonio Banderas, como sempre, surpreendendo numa atuação que assinala sua experiência e sua maturidade como o grande ator que é. Estranhei Marisa Paredes, quase que não a reconheci. Meu Pai Do Céu, como Marisa está velha! Por um momento, pensei se tratar da atriz Clayde Yáconis, já na casa dos 90. O filme , entretanto, decorridos 125 minutos, pareceu que ainda tinha muito a dizer. Há algumas referências ao Brasil, inclusive um dos personagens diz claramente: "Estava com saudade". Lembro que "saudade" é a única palavra que só existe na língua portuguesa.

É uma obra recomendável.


*Téo é o mais ilustre colaborador desse blog. 

Os inconvenientes indispensáveis

Almada Negreiros (O prazer de ler)
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O escritor Mario Quintana, mestre da literatura de miudezas, escreveu: "Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores". Desconfio dos primeiros, por isso, prefiro os segundos. Por temperamento, tendo às leituras que desafiam os leitores. Nessas, seguramente, eu poderei encontrar o que falta naquelas; coragem em dizer algumas verdades incontornáveis. Nenhum livro, que recentemente saltou das listas dos mais vendidos ao colo dos leitores, foi capaz de contrariar as expectativas ou de frustrar os anseios dos seus leitores, que por isso, lhes são muito gratos. Os que esgotam os leitores não têm a mesma sorte, nem por isso estão desconfortáveis. Há desconforto maior, creio eu, em viver a pressentir e segregar os inconveniente e as desilusões do mundo, do que ter a sua certeza.


Pobre Europa

.(revoltas populares na Grécia)

Na eminência de um colapso na economia da zona do euro, os lideres políticos, até aqui, não conseguiram encontrar alternativa à crise, que não tenha que passar pela socialização dos prejuízos cometidos pelos banqueiros e burocratas de plantão. Mais uma vez a população terá que apertar o seu já asfixiante orçamento para resgatar a máquina econômica do fundo do poço. As medidas de austeridades para Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda e em breve Itália, punem quem não tem nada haver com a delinquência financeira que graça no mundo capitalista. As propostas de austeridade pesam, exclusivamente, sobre os ombros dos trabalhadores e da população em geral. Entre as medidas, apontadas pelo FMI como única solução para crise, estão: aumentos dos impostos, cortes nas despesas do Estado, demissões em massa, aumento da jornada de trabalho e privatizações. Medidas ainda mais estranguladoras foram ventiladas. Um duríssimo golpe naqueles que têm que lidar diariamente com as incertezas da vida e um golpe fatal naqueles que ainda nem começaram a lidar com elas. Em meio a todo esse arrocho não se ouve noticias de que haverá diminuição do número de parlamentares, redução dos salários dos políticos, fim dos privilégios aos dirigentes, punição aos desastrados e gananciosos agentes financeiros que manipulam a economia a seu bel-prazer e segundo os interesses das corporações financeiras, que deram inicio a tudo isso. Os privilegiados continuam intocáveis, a massa, chafurdando na lama. Dessa maneira, as propostas de austeridade não são equilibradas na distribuição dos sacrifícios para salvar a economia do maior bloco político do mundo; nem qualquer outro país que esteja em risco.  A mim essas medidas, da forma que estão sendo conduzidas, parecem mais uma extorsão. Em não sendo a população produtora, os culpados desses maus feitos, que assolam as economias europeias, não tem razão os governantes de mandarem a conta pra eles pagarem. Quem deve pagar pelo delito, são os agentes financeiros, os especuladores, os mercados exploradores e toda essa récua, que dirige sem nenhuma habilitação os interesses do povo. Como tudo que está ruim, pode piorar, fala-se em reformas ainda mais profundas e vampirescas, como se a população trabalhadora já não estivesse sendo severamente molestada em seus direitos. Alguns políticos, aproveitando a ocasião em que estão sendo discutidas (discutida é uma palavra estranha nesse contexto, o que estamos vendo na verdade é um massacre contra os direitos democráticos) medidas para contornar a crise, já pensam em incluírem no pacote de estupro aos trabalhadores, propostas que mexem com o tempo de contribuição para aposentadoria. Uh! Espertos, não? Com as privações a que estão sendo submetidos, os jovens europeus não precisarão se preocupar com a aposentadoria, e sim em sobreviverem a essa tormenta financeira.

Ondjaki: a poesia da aprendizajem

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Anarquizar as palavras. Remodelar a língua entortando-a até o estado poético. Esse é o esforço empregado por Ondjaki (1977), escritor angolano radicado no Brasil, em seu mais novo trabalho, Há Prendisajens com o xão (o segredo Húmido da lesma & outras descoisas) livro que acabo de ler com grande prazer. Nesse percurso de aprendizagens, Ondjaki procura desvendar os segredos guardados pelas palavras e explorar todo o seu potencial poético. Recriando-as anarquicamente, ele apanha as lições de Manoel de Barros  de que a melhor maneira de poetizar as palavras é adoecendo-as ou infringindo os códigos para renovar os sentidos e revigora as palavras, vitimadas pelo engessamento das convenções. Os sinais dessas prendisajens manoelinas estão por todo o livro. As referências a Manoel de Barros vão desde as insistentes imagens que privilegiam as insignificâncias do mundo: apetece-me des-ser-me;/reatribuir-me a átomo.... (CHÃO). Borboleta é um ser irrequieto./para vestes usa pólen/ tem um cheiro colorido.... (PARA VIVENCIAR NADAS). Para acumular dores/o mais das vezes/ bastou um desamor. (QUE SABES TU DO ECO DO SILÊNCIO?);  à linguagem perpassada pela torção que lhes aniquila a alienação imposta pelo uso cotidiano: a despalavreação/ pode acrescer de uma vida... ou ainda apetece-me chãonhe-ser-me.... Nas extraordinárias imagens que surgem desse exercício lúdico com as palavras reside o maior encanto desse livro. 

lágrima
é uma sensação que escorrega.
mundo está seco de coisas e trans-sensações
assim a lágrima presta-se
a desressequir o mundo.
(...)

(LÁGRIMA, GOTA, LÁGRIMA OU: TODAS DESPEDIDAS DO MUNDO)


(...)
Solidão é uma esteira
Onde se evite cochilar.
(...)

(REENCONTRO COM GOTAS)

O inchaço do coração
Facilita o despalavrear.
A liberdade pode advir
De uma veia.
Com sangue também
Se reescreve a vida.
O suicidado foi um apressado
Para desconhecimentos.
(...)

(INSCRIÇÃO)

Ao implodir todo formalismo, Ondjaki cria uma poesia marcada pelo insólito onde a violação das convenções linguísticas, descondicionam o olhar do leitor, abrindo-o à novas e impressionantes visões sobre o mundo. Ondjaki diverte-se com as palavras, e diverte ainda mais o leitor, criando mundos fabulosos onde os limites para fantasia e à criatividade simplesmente se recusam em existir. A obediência às normas e às convenções são coisas incompatíveis com a poesia desse angolano de temperamento brasileiro.

Lição


(via: no queen)

Desajuizado


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À vista, pois, dos maiores argumentos, nenhum político brasileiro cede à verdade e se rende à moralidade. A vaidade, a imoralidade e a tentação pelo dinheiro fácil, são coisas que não se arrancam a força dos argumentos e dos apelos populares. Antes, infiltra-se no mais fundo da alma desses homens onde esquivasse dos golpes da opinião popular, da justiça e dos interesses coletivos, fazendo morada perpetua. Os maus costumes são uma tradição dos homens da política nacional. Tenho, porém, malgrado todas as opiniões em contrário, esperanças de que um dia ainda responderemos aos achaques políticos com a coragem que hoje nos falta. Até lá Tiriricas, Arrudas, Rorizes, Godoys, Caraíbas e outras excelências, continuarão desmentindo minha boa vontade e fazendo de minhas opiniões futuras um desplante.

Autocomiseração

Um passeio pelas redes sociais, esse intrépido passatempo moderno, e logo me deparo pensando em como as pessoas andam modestas. Em todos os lugares das redes elas se confessam a todo instante, politicamente desinteressadas, inteligentemente deficientes, indignas ou incapazes de realizarem qualquer coisa. Ninguém crê ou tem convicção de nada, a não ser de sua própria imperfeição. Elas se vêem sempre como mutiladas. Frases como: “o primeiro desejo da inteligência é desconfiar dela mesma” ou “é preciso coragem para ser imperfeito”, seguido, do clichê socrático, “só sei que nada sei” e “preferia ser um burro para não sofrer tanto”, entulham os perfis ou se somam às mensagens diárias que as pessoas enviam umas às outras. Ninguém quer parecer auto-suficiente. Nos dias atuais isso soa indigno. Vai daí que as coisas andem tão pantanosas como estão. Ninguém tem a mínima convicção de nada. Andam todos em círculos esperando a voz de um líder que os indique o caminho. Com tantas trilhas abertas eu me pergunto o que estão todos ainda esperando para se enfurnarem em uma delas. Sigam as picadas ou desbravem rotas alternativas. Parem de ler manuais de auto-ajuda.

Hora da virada




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Multiplicam-se pelo mundo os sinais de que uma virada está por vir. Será? As recentes insurgências no mundo árabe despertaram também as jovens consciências ocidentais contra os seus tiranos? Os gritos de liberdade empoeirados, ecoaram tão alto e tão longe, ao ponto de aterrissarem às Puerta del Sol em Madri, passando pelo coração da máquina econômica mundial e daí para outros inesperados lugares? A julgar pela disposição dos jovens ocupantes das praças e ruas pelo mundo, não resta dúvida que essa virada não tarda. As manifestações que eclodem contra o sistema, provam que as alternativas políticas e econômicas até aqui ofertadas, não serviram para alterar em nada a rota da exclusão e opressão que por séculos escravizam alguns homens em beneficio de outros.

A moral duvidosa

Te enganei de novo
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Os Estados Unidos anunciaram ontem terça-feira (11) que o serviço secreto (esse mesmo serviço secreto, que não foi capaz de prever o atentado de 11 de setembro, acusou o Irã injustamente de está envolvido com o atentado da Panam em 1988; financiou regimes ditatoriais em toda America latrina; armou e formou  o talibã no Afeganistão, etc...) desmantelou um atentado terrorista que tinha como alvo o embaixador Saudita em Washington Adel al-Jubeir e missões de Riad e Tel Avid em Buenos Aires. O secretário de Justiça dos EUA, Eric Holder e o diretor do FBI, Robert Mueller acusaram o governo de Teerã de tramar os atentados contra um dos maiores aliados dos EUA no Oriente Médio. A se confirmar as acusações o presidente Marmud Armadinejad, que não é nenhum santo, terá muitos problemas.  Porém, nem tudo que vem de Washington é digno de fé. Na luta suja pela hegemonia do mundo os EUA já foram capazes de forjar histórias bem mais cabeludas do que essa que a imprensa do mundo inteiro vem reportando. Casos recentes envolvendo esse mesmo serviço secreto deixam dúvidas sobre a autenticidade da história. Em 2003, logo após os atentados de 11 de setembro, a CIA afirmou que havia armas de destruição em massa no Iraque. Essa informação motivou a invasão do país de Saddam. Porém, até aqui, nada foi encontrado. Talvez elas ainda estejam lá, quem sabe? Com a alta tecnologia que o regime do ditador iraquiano desenvolveu em anos no poder, ele foi bem capaz não só de desenvolver armas nucleares como também de afastá-las do alcance do Tio Sam. Com essa vergonhosa mentira os EUA inauguraram uma página na história em que lideres de grandes nações subvertem a moralidade para satisfazerem os seus interesses. Não seria surpresa nenhuma agora que os americanos usassem mais uma vez a sua arma mais eficaz, a propaganda do medo, para agredir o inimigo que insiste em não se dobrar aos grunhidos do cão feroz.  Quem nos garante que os americanos não estariam mais uma vez forjando informações para justificar mais uma barbárie? A moral duvidosa de Washington nos deixa a todos reticentes com as noticias.

Ainda sobre a memória


“Em nossos livros de leitura havia a parábola de um velho que no momento da morte revela a seus filhos a existência de um tesouro enterrado em seus vinhedos. Os filhos cavam, mas não descobrem qualquer vestígio do tesouro. Com a chegada do outono, as vinhas produzem mais que qualquer outra na região. Só então compreenderam que o pai lhes havia transmitido uma certa experiência: a felicidade não está no ouro, mas no trabalho. Tais experiências nos foram transmitidas, de modo benevolente ou ameaçador, à medida que crescíamos: “Ele é muito jovem, em breve poderá compreender”. Ou: “Um dia ainda compreenderá”. Sabia-se exatamente o significado da experiência: ela sempre fora comunicada aos jovens. De forma concisa, com a autoridade da velhice, em provérbios; de forma prolixa, com a sua loquacidade, em histórias; muitas vezes como narrativas de países longínquos, diante da lareira, contadas a pais e netos. Que foi feito de tudo isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência?”



Walter Benjamin – Experiência e Pobreza – 1933

Memória ameaçada

Vista aérea de Caetité
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A cidade se modifica numa velocidade incrível. Em quase 10 anos morando em Caetité eu não pude deixar de perceber a furiosa transformação urbana dos últimos tempos. Por todos os lados, crescem arranha-céus. Novos bairros e centros comerciais assentam onde antes havia pequenas moradias familiares ou mesmo um descampado. Não bastasse somente alargar-se até onde as vistas não alcançam os imóveis mais bem situados também são alvo da cobiça e da especulação. De olho em espaços sempre novos a sanha imobiliária põe abaixo todos os inconvenientes e se sobrepõe a memória, a história e ao registro de tempos de antanho. Com espaços cada vez mais disputados e valorizados, os velhos casarões, relíquias de outras épocas, sofrem com a cobiça desenfreada por espaços privilegiados na cidade. Com a desculpa de que são dispendiosos e inúteis, economicamente, pouco a pouco eles têm vindo abaixo, seja pelo abandono dos proprietários ou pelo descaso das autoridades públicas que fazem vistas grossas ao desmonte do patrimônio. “Não adianta reclamar contra a transformação grosseira e desnecessária da fisionomia da cidade – da nossa cidade -, os poderes são surdos pensando que são sábios”, escreveu Carlos Drummond de Andrade a propósito das insistentes intervenções urbanísticas no Rio de Janeiro que desapareceram com incontáveis igrejas na década de 40. “Para que passasse a grandiosa Avenida Presidente Vargas, primeiro derrubaram a igreja da Imaculada Conceição e a de São Domingos... depois, pouco adiante, outras duas velhas igrejas desapareceram, vítimas dum vandalismo que poderia ser evitado: a de São Pedro Apóstolo, redondinha, com paredes largas de dois metros, argamassadas a óleo de baleia, e a do Bom Jesus do Calvário, duas vezes secular e que muito aparece nas Memórias de um sargento de milícias.” Não consta que Drummond fosse nenhum crente, mas isso nunca foi empecilho à sua sensibilidade. Nesses tempos de ares tão poluídos valeria a pena subordinar o avanço do cimento à preservação da memória? Alguns destemidos resistem aos constantes e insistentes assédios dos novos empreendimentos, sem abdicar das transformações impostas pelo tempo. “Venham as torres residenciais ou hoteleiras e que sejam belas e altas e coloridas, levantadas com os mais sensacionais e variados materiais que a indústria inventa no seu incansável evoluir. Mas que não lembrem, nem de longe, aquela outra tão citada, a de Babel – para que possamos, continuar a falar a mesma linguagem de entendimento e solidariedade que é o melhor alicerce para a edificação de uma vida comunitária ideal.”

A paleta de Juan Miró

O pintor catalão Juan Miró é classificado como Surrealista. Porém, em comparação com os seus pares, Salvador Dali, René Magritte e Marx Ernest, que nunca deixaram totalmente a arte figurativa, Miró parece marcar uma cissão. Cissão que, se não o distancia dessa corrente vanguardista de todo, distingue suas obras dos demais. Ele radicalizou sua paleta ao construir um universo de seres disformes, retorcidos no tempo e no espaço que destoam da tradição de seus antecessores. 

Os traços inquietantes que molduram os quadros de Juan Miró (1893-1983) estão quase sempre associados aos desenhos infantis, aos sonhos ou mesmo as fantasias mirabolantes de uma mente caprichosa, capaz de fabular mundos cujos limites são indeterminados. Miró é um provocador. Seu pincel produziu em mais de 50 anos de atividade, um universo incomum e extraordinariamente original, inteiramente refratário a lógica convencional das classificações e das definições enclausurantes. As intrincadas formas que dominam o espaço infinito da pintura de Miró se divertem indiferentes aos olhares dos que tentam organizar a pintura, na busca de uma razão de sua existência. 

Diante de quadros tão enigmáticos como, Pintura,  Hombre y mujer ante un montón de excrementos, El Galo ou El carnaval del Alerquín, só para ficar com alguns exemplos, o espectador fica tentado ao exercício de classificação. No entanto, estou convencido de que sua obra dispensa essa operação catalográfica, na medida em que toda e qualquer classificação, atribuída a ele, ao invés de esclarecer os sentidos de sua arte, produz na verdade, um reducionismo patético, que em nada dignifica o trabalho daquele que desde sempre se tornou inclassificável. 

El carnaval de Arlequín - 1924-1925 (aqui)

Miró é o artista por excelência. Seu gênio que não aceita classificação, também renega os princípios da composição consagrada pela tradição Renascentista, que por muitos séculos dominou a arte no Ocidente.  Ao lado de Pablo Picasso, Braque, Marx Ernest e outros, ele aboliu a perspectiva, a proporção e fundou uma linguagem própria, facilmente identificável com suas convicções artísticas, que tinha como única proposição, a livre expressão. Não se confunda aqui livre expressão, com aquela noção dominante nas artes contemporâneas, que abusa do sentido da liberdade conquistada pelo artista moderno, somente para, disfarçar sua canastrice e falta de sensibilidade diante do fenômeno artístico. 

l´or de l´atzur -1967 (aqui)

 
João Cabral de Melo Neto que foi seu amigo e escreveu sobre ele um ensaio, intitulado Juan Miró, num dos períodos mais duros da ditadura de Franco, disse dele: “A obra de Miró é, essencialmente, uma luta para devolver ao pintor uma liberdade de composição há muito tempo perdida. Não uma liberdade absoluta, nem uma angélica liberação de qualquer imposição da realidade ou da necessidade de um sistema para abordar a realidade. É sim, uma luta por libertar o pintor de um sistema determinado, de uma arquitetura que limita os movimentos da pintura.”[1]. Parece ser justamente contra os limites como concluir João Cabral - da composição e por extensão das intenções - que se revoltou o pincel de Juan Miró. 

Autoretrato (Aqui)

Nele, tempo, forma e espaço foram inteiramente distorcidos criando com isso, um universo particular, habitado por seres que compartilham, com os traços primitivos, semelhança inconteste. Miró é todo intuição. Seu trabalho artístico funde imagens insólitas numa articulação que ressalta uma identidade nova aos elementos díspares, que compõem o quadro. Daí sua associação com a atmosfera onírica própria dos Surrealistas. Porém, Miró vai mais longe. O alegre colorido que emana de algumas de suas telas, revelam um mundo em que as limitações das formas, a plasticidade dos objetos, pertencem a um universo extra-artístico, portanto, estranho a pintura desse catalão, que deu ao imponderável a sensibilidade mais comovente.


[1] O ensaio encontra-se publicado nas Obras Completas de João Cabral de Melo Neto, editado pela Nova Aguilar, 1994. p. 719.

A poesia de Affonso Romano de Sant´anna

Imagem tirada daqui
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O teórico, jornalista, crítico, cronista, poeta e professor Affonso Romano de Sant´anna resolveu a muito tempo encarar o seu oficio (ou melhor, ofícios) de forma insolente. Ele prefere a vida com riscos. E se tornou um risco, e todos nós sabemos bem disso, recusar a indiferença como modo de vida. À cordialidade do senso comum ele interpôs a autonomia de um espírito crítico e fecundo. Sua crença, fundado na ideia de que a cultura liberta o homem da ignorância, tem raízes em autores como Paul Valery, que como Romano de Sant´anna acredita que “o leão é a soma dos cordeiros assimilados”.  Em seu mais novo livro de poesia, Sísifo desce a montanha, lançado essa semana na Livraria Cultura em São Paulo, pincei um dos poemas que refletem o caráter desse homem-poeta.


"ERGUER A CABEÇA ACIMA DO REBANHO"


Erguer a cabeça acima do rebanho

é um risco

que alguns insolentes correm.



Mais fácil e costumeiro

seria olhar para as gramíneas

como a habitudinária manada.



Mas alguns erguem a cabeça

olham em torno

e percebem de onde vem o lobo.



O rebanho depende de um olhar

O amor aportou nessa casa

Recado íntimo


Ele é um prisioneiro de si mesmo. Somente pode soltar seu belo canto de cadeia...somente ele pode liberar-se de si mesmo e perder-se num presente eterno, sem tempo. Mas fale para ele não relaxar e lembrar sempre da água de Heráclito, ora num leito calmo, ora descendo uma cascata, ora evaporando-se num espaço infinito... AME O PRESENTE, GRITE AO MUNDO, em silencio! Un abbraccio.

Roberto Bolaño e a nova literatura latino-americana

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Na década de sessenta a literatura latino-americana, em todos os seus quadrantes, viveu um período de grande produção literária e súbito reconhecimento internacional, tanto da crítica especialização como do público. 

Foram importantes para esse reconhecimento nomes com do argentino Julio Cortázar, do colombiano Gabriel Garcia Marques, esse último ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1989; os mexicanos Carlos Fuentes, Juan Rulfo e Octávio Paz também premiado como o Nobel, além do peruano Mario Vargas Llosa - Nobel de 2011 - e de alguns outros. 

Também nessa mesma década, figuras da envergadura do argentino Jorge Luis Borges e do cubano Alejo Carpentier, gênios do realismo fantástico e do realismo mágico, respectivamente, voltam a serem alvos do interesse público e completam e cenário de mestres que emolduraram para sempre, um quadro da literatura latina, que nunca mais saiu de exposição. 

Foi durante esse período ainda que a América Latina tornou-se pela primeira vez em sua história uma exportadora de produtos culturais, em uma inversão radical dos pólos de produção artística que dominava o mundo. O ponto alto dessa reviravolta culminou com a outorga do Prêmio Nobel de Literatura ao guatemalteco Miguel Angel Astúrias em 1967. 

Grosso modo, o que caracterizava a literatura desses autores, escusadas as muitas discussões sobre o assunto, quase nunca resolvido, são: o gosto pela experimentação formal, e um apurado senso crítico de suas origens históricas. Para isso, eles revisaram técnicas provenientes do Surrealismo e da literatura estadunidense do século XX, especialmente a do escritor William Faulkner. Influências que desaguaram no chamado realismo mágico e na literatura fantástica. 

Tão súbito quanto o surgimento daqueles notáveis escritores para literatura latino-americana, foi o desaparecimento precoce, nos anos seguintes, do interesse do público pelos novos autores que sucederam aqueles precursores. 



Todavia, esse hiato de paixões, entre público e autor, que durou uns bons anos, parece ter sido inteiramente interrompido com o surgimento no apagar das luzes do século XX, do escritor chileno Roberto Bolaño. 

Abdicando do projeto revisionista da história latina, Bolaño parte em suas obras (formada basicamente por poemas, contos e romances) pelas trilhas abertas pelo argentino Jorge Luis Borges, para quem a literatura, se confundia com um labirinto, cheia de possibilidades formais e temáticas. Seu universo é povoado por escritores, viajantes e aventureiros urbanos, sempre em busca de alguma coisa. Nessa viagem ele nos leva rumo a histórias em que putas assassinas, detetives selvagens e nazis, além de escritores, professores, baderneiros e outros, se confundem a turba simiesca que povoa a fauna; que alguns insistem em chamarem de vida contemporânea.

Bolaño foi autor de uma obra consagrada dentro e fora do mundo latino. Sozinho ele resgatou o interesse do público pelos novos talentos latino-americanos, revigorando assim uma tradição que ainda tem muita tinta para gastar. Infelizmente ele não poderá mais gastar essas tintas. Sua obra teve um ponto final em 2003 quando ele foi vencido pela pancreatite.

1000 frames de Hitchcock


























Um ambicioso projeto disponível (aqui) distribui ao público interessado 1000 frames de 52 filmes (originais e refilmagens) do mestre do suspense Alfred Hitchcock. É possível acompanhar quadro a quadro as melhores cenas desse vibrante cineasta, que transformou as salas de cinema num palco onde desfilavam um universo de sensações. Escolhi, para ilustrar esse post, a famosa perseguição sofrida pelo personagem de Cary Grant no filme Intriga Internacional, 1959. Estão faltando alguns frames que intensificariam o pânico do personagem, como aquele em que o avião bafeja bem pertinho do cangote do personagem enquanto ele se esquiva pelo milharal. Mesmo assim vale a pena bisbilhotar o site. Outra informação digna de nota é que essa cena foi reproduzida pelo diretor Anthony Minghella  no filme O Paciente Inglês, 1996.

Vamos tirar a ferrugem da cultura

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Enquanto a maioria dos intelectuais (essa ficção) esquiva-se do desafio de pensar a cultura numa perspectiva que não seja puramente relativista, o poeta popular, de ontem, hoje e sempre, marcha na direção contrária. Com irreverência incomum ele desmantela as estruturas que sustêm a baixaria, e funda, numa visão crítica - falecida a muito nas consciências - uma imagem poética do mundo contemporâneo. Que frescor; que alegria, não produz esses fabulosos artistas nos nossos corações. Das sombras eles anunciam que há vida inteligente e que nem tudo está perdido.

As lições de Suassuna

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(...)

e sem escuitar mais acordo,

cravou as espora d´oiro

nos ilhais do belo cavalo branco

de D. Jorge de  Albuquerque

e atirou-se novamente à refrega,

perdendo-se no mar de lanças.



Antero de Figueiredo

As mariposas e os holofotes

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A imagem que ilustra este post é do personagem Terry Malloy, interpretado pelo ator Marlon Brando no filme Sindicado de Ladrões. Realizado em 1954 ele foi dirigido por Elia Kazan. Por essa interpretação Marlon Brando ganhou o seu primeiro Oscar de melhor ator. Em 1972, quase vinte anos depois, ele foi indicado, e ganhou mais uma vez, também como melhor ator, dessa vez pelo papel de Don Corleone no filme, O Poderoso Chefão, do diretor Francis Ford Coppola. 

Na cerimônia de entrega do prêmio, Marlon Brando protagonizou uma cena digna da sétima arte. Ele fez o que na época, e ainda hoje, pode ser considerado por muitos como uma heresia; recusou a honraria da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e não compareceu para receber o prêmio. Quando seu nome foi anunciado, surgiu no meio da platéia, entre os olhares atônitos de Roger Moore e Liv Ullmann, atores escalados para recepcionar o homenageado, uma representante do ator, sua amiga Sacheen Little Feather, que, entre as vaias e os aplausos dos presentes, improvisou um discurso em defesa dos índios americanos. 


Mais tarde Marlon Brando disse que sua intenção, ao declinar do prêmio, era constranger, “uma indústria que tinha sistematicamente deturpado e denegrido a imagem dos índios durante seis décadas”. Cansado das frivolidades de Hollywood enquanto o mundo ardia em chamas na guerra do Vietnam, e os nativos americanos eram caçados como nos tempos do velho West, Brando relutava em aceitar a ideia de que um terço da humanidade estivesse parado assistindo aquela celebração fútil, enquanto tudo isso estava acontecendo sem o menor constrangimento de ninguém. Ele não poderia ter escolhido melhor vitrine para chamar a atenção do mundo sobre essas causas. A audiência da cerimônia do Oscar, na época, foi estimada em mais de 1 bilhão de pessoas. Hoje ultrapassa os três bi. 

Em sua autobiografia ele escreveu que considerava já algum tempo desadequado premiar artistas pelo seu trabalho. Os Oscar da Academia e o alvoroço que se cria à sua volta elevam segundo Brando, o trabalho do ator a um nível imerecido. “Com a quantidade de problemas graves existentes no mundo, torna-se absurdo que um fato tão inconsequente assuma tais proporções... Conheço pessoas que com seis meses de antecedência começam a pensar como irão vestidas à cerimônia e se tiverem alguma hipótese de serem nomeadas começam a memorizar o discurso de aceitação. E, se ganham, fingem então que as suas palavras são espontâneas, mas a verdade é que foram ensaiadas desde há muitos meses”. 

Definitivamente Marlon Brando não era uma pessoa razoável, hesitante ou comedida com as palavras, como exigem a carneirada. A severidade com a qual ele encarou o seu tempo diz muito desse homem que não tolerava facilmente os holofotes, que alguns insistem em manterem sempre apontados pra si. Ao rejeita o prêmio que muitos cobiçam Brando investia contra as farsas que encobrem o mundo das celebridades e também contra uma sociedade que tem como único desejo na vida sair do anonimato direto para o estrelado.  

A cerimônia do Oscar tem origem, escreveu Marlon Brando, na obsessão de Hollywood em autopromover-se; as pessoas do meio sentem uma verdadeira paixão em prestar tributo uns aos outros... isso tranqüiliza-os acerca do seu valor, especialmente depois de terem crescido no seio de uma cultura onde impera a culpa e uma forte pressão pra cada um se evidenciar. Creio que Marlon Brando foi o último de uma casta de grandes atores que não fazia arte esperando apenas os aplausos públicos.