TODO AMOR QUE HOUVER NESSA VIDA


UMA certa vez, no 1. ou 2. ano colegial, mencionei a uma colega o nome de Cartola, e lhe perguntei se ela o conhecia, no que ela fora rápida na resposta: "Cartola? Era algum mágico, por acaso?". Evidentemente, a resposta trouxe uma ignorância. Ela não fazia a mínima idéia de quem fosse -- como todo mundo hoje, honrosas exceções.

Eu vivo no pior estado da federação. O artista mais importante para os sergipanos não é sequer um indivíduo e sim uma banda de forró. Trata-se de Calcinha Preta. Roberto Carlos aqui morreria de fome e ninguém que eu conheça pagaria, em são consciência, um café num disco de Tom Jobim. A pergunta que eu faço é a seguinte: como falar de Cartola para mentalidades dessas?

Uma das razões pelas quais eu sinto amor pelas artes é o fato de alguns poucos homens se fazerem importantes, se elevarem, se imortalizarem. É quando o talento de um indivíduo atinge um patamar quase que intocável. É como se ele não fosse humano, não fosse de carne e osso. Cartola, para mim, consta nessa galeria.


Angenor de Oliveira -- é Angenor e não Agenor -- (1908 - 1980), era negro, pobre, foi um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco nem amigos importantes, nascido no morro carioca etc. Dadas as condições que um sociólogo explicaria melhgor, Cartola sairia um deliqüente de primeira ordem. Ele teve pouco, muito pouco. Merecia mais. Chegou a realizar trabalhos incompatíveis com seu enorme talento (há os que o chamem de 'gênio'), como lavador de carros, chegou a ser pedreiro, etc, essas coisas que os menos dotados de espírito fazem. Consta que nem a casa onde morava adquirira com seus proventos, e sim de uma doação.


Angenor, gente de bem, macho, trabalhador, marido de D. Euzébia (popular Zica) e sobretudo poeta. Faria 100 anos neste mês (outubro, quando escrevi o texto). Graças ao Bom Deus, a data não passou despercebida dos tabaréus, que, se não conhecem seu repertório, sabem agora, ao menos, que ele chegou a existir.


Quem prestar bem atenção às suas letras, vai constatar que ele escrevia de maneira simples -- mas comovente. Músicas de um lirismo levado às últimas conseqüências, não isento de súplicas, de queixas, de desânimo. Nem Cazuza, no auge de sua porra-louquice, resistiu a ele e gravou a terna "O mundo é um moinho", de 1974, sua obra mais bela. É mais ou menos um conselho de um homem maduro, já experimentado, a uma mocinha inexperiente e amorosamente iludida por outrem ("Mal começastes a conhecer a vida (...) Embora eu saiba que estás resolvida (...), preste atenção, querida...", deixandoo eu-poético a ver navios ("já anuncias a hora de partida"). Um conselho, um sermão tranqüilo, e não desesperado, aquele velho rogar de praga, levado às raias do sublime.


Sua vastíssima produção vem sendo descoberta por Alcione, Zeca Pagodinho, Vanessa da Mata, Ney Matogrosso e outros que não me recordo no momento. Ele teve a grata felicidade de, já velho, ver suas belas letras gravadas na sua própria voz, quando foi lançado seu primeiro disco, lá por meados da década de 70.


Outras pérolas suas são "As rosas não falam" (a mais terna declaração de amor que uma mulher já recebeu de um homem), "Tive, Sim", "Acontece", "Chega de Clamares Inocência" (esta a irmã gêmea de "O mundo é um moinho") e "Ensaboa".

Não deixem Cartola morrer. O poeta está vivo.






BIBLIOTECÁRIO

Pintura de Carl Spitzweg

Quando digo às pessoas que sou bibliotecário elas pensam imediatamente que passo os dias a ler. Outras disfarçam sua reprovação, franzindo o cenho, enquanto dizem: “Que legal, deve ser muito bom trabalhar não fazendo nada”. Desde cedo, eu já percebia, que não seria possível exigir das pessoas que soubessem a verdadeira função de um bibliotecário.

“A ditadura da mediocridade” no campus de Caetité

A moralidade, embora caindo em progressivo desuso, ainda encontra quem faz dela uma morada. Num contexto de relativo descrédito, com a política e os políticos, com as religiões, governos, empresar e universidades, manter a integridade torna-se cada vez mais um desafio, ao qual nem todos estão dispostos a enfrentar. Há, no entanto, alguma esperança. Com a devida vênia reproduzo abaixo, na integra, a carta do professor Paulo Henrique, que mesmo, miúdo, não cansa de alargar os sítios da moralidade.



“O sujeito ético só pode existir se preencher as seguintes condições: ser consciente de si e dos outros, ser dotado de vontade, ser responsável e ser livre.” M. Chauí

Durante os dois anos da minha gestão foi travada uma séria luta pela qualidade na educação superior. Uma luta pela maior disponibilidade semanal do docente, pelo acompanhamento da freqüência docente, pela implementação de projetos acadêmicos, pelo cumprimento do regime de dedicação exclusiva e pela qualidade das aulas na graduação. Com o término da minha gestão, rápida e sorrateiramente, o campus retornou ao seu antigo leito. Evidencia-se o avanço de uma estranha noção de professor horista que o desobriga da pesquisa e extensão, cuja prática passa a ser nivelada com as dos docentes das universidades particulares. Uma noção perniciosa e oportunista, defendida avidamente dentre professores do campus: “a mediocridade coroada encena ser uma instituição séria, de ‘ensino superior’” (Kothe). A luta pelo ensino superior como espaço não exclusivo à sala de aula, desconectado da pesquisa e da extensão universitárias, sucumbiu ao pseudo-compromisso reinante.

As últimas deliberações da plenária e do conselho de departamento da nova gestão do campus revelam uma luta inglória. Fato que se agrava porque deliberações são aprovadas sobre pontos não incluídos em pauta e orquestradas pelos que buscam degradar o conhecimento sob o menor enquadramento das horas-aula em dias da semana. Prática estranha às gestões anteriores do campus, em que se primava pela ampla divulgação das pautas de discussão no interesse único de promover a participação democrática e a liberdade no debate de idéias e ações. Cabe perguntar onde reside a democracia tão arrogantemente defendida em discursos pelos oportunistas de plantão? Por certo na infixidez da multicampia na Uneb, cujas moradas provisórias dos docentes fazem dos campi, e particularmente do campus de Caetité, lugares de passagem transitória. Uma ação em que o discurso que se afirma democrático se contradiz. Abandonado o debate intelectual, impera a vulgaridade dos discursos sem ação: “À mediocridade intelectual somou-se a baixaria moral”. (Kothe).

Para que aqui não se configure um discurso sem evidências, reporto-me à plenária departamental que suspendeu o Ato Administrativo 213/2006. Viu-se ali o açodamento ardiloso de ponto não incluído em pauta em que tanto a presidência da mesa quanto a plenária não dispunham dos materiais obrigatórios à instrução do ponto a ser apreciado. Um dos instrumentos para a construção do ensino superior no campus foi suspenso sob o cinismo majoritário do “sei, por ouvir dizer” e pela omissão vacilante: “Nunca as relações de compadrios foram tão escancaradas e perversas”. (Roberto Sá).

Por fim, gostaria de dizer a todos que confiaram na minha gestão - e que pelos seus atributos se identificaram com a minha posição no processo eleitoral - que equívocos fazem parte da vida e a eles estamos todos sujeitos. Apesar dos últimos acontecimentos revelarem uma postura diversa dos propósitos que sempre defendi, espero que continuem firmes na luta pela construção de um projeto sério para o campus.

“Na universidade, recebe mais salário quem foi mais salafrário. Recebe menos quem produz mais em termos acadêmicos”. F. Kothe

Paulo Henrique Duque Santos
Prof. do curso de História da UNEB/Caetité
Caetité, 23/10/2008

RAZÃO LITERÁRIA

Instado a me pronunciar sobre as qualidades que aprecio nas obras literárias, digo de pronto que elas devem provocar algum desconforto. Isso para mim basta. Porque aquelas que tentam me confortar, tenho na conta de nauseantes. Nesse sentido sou totalmente Nietzscheano. Não posso crer que sem algum desafio, esforço ou luta se faça um homem, tanto mais uma obra literária. Por isso gosto mesmo são dos amores fracassados, dos vencidos da vida, dos derrotados, dos silêncios e vazios, dos errantes e dos frustrados sociais, dos marginais e prostitutas, dos traídos, dos náufragos dos ressentidos dos iconoclastas morais e religiosos. De didatismo já temos por conta. É preciso encarar a vida com coragem. Mas antes algum esforço tem de ser distendido. Esses pontos resumem bem as razões pelas quais gostos tanto de literatura porque como disse Cesare Pavese ela é uma defesa contra as ofensas da vida.

A IMPRENSA VIGIADA




A organização Repórteres Sem Fronteiras, com cede na França, divulgou o ranking da liberdade de imprensa no mundo. O Brasil, que já ocupou a 84 colocação em 2007, subiu duas posições esse ano. Mesmo assim ficou atrás de países como o Haiti em 73 lugar, Argentina 68, Equador 75 e tantos outros. A julgar pelo estado de coação e constantes pressões a que são forçados os jornalistas em centro como Rio e São Paulo, o Brasil em vez de continuar a sua “ascensão”, corre sérios riscos de cair posições. Sim, porque a formula encontrada para chegar a brilhante conclusão dos lugares com total ou nenhuma liberdade de imprensa foi, pasmem, inquirindo 10 jornalistas locais sobre suas condições de trabalho.

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE...

DRESDEN, 1945


HIROSHIMA, 1945


VIETNÃ, 1972



NOVA YORK, 11 DE SETEMBRO 2001


IRAQUE, 2004

Valesse alguma coisa, as imagens de horror e pânico que ilustram esse post, não se repetiriam. Passado tantos anos elas continuam insignificantes, tamanha a insensatez e demência da maioria das gentes. Os homens continuam os mesmos, tão burros e gananciosos, que mesmo em face da morte mais atroz, insistem no terror, só para satisfazerem seus caprichos mais urgentes. Agora mesmo em algum lugar uma barbárie sem tamanho se anuncia. Quando eu nasci, (dizia José de Almada Negreiros, velho conhecido desse blog) as frases que hão de salvar a humanidade já estavam escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade. E quem poderá fazer isso. Depois dessas imagens tenho dúvidas de nossa capacidade.

UMA ATITUDE ACÉFALA

Quadro de Francis Bacon

Uma amiga, jura conseguir viver muito bem desligada cerebralmente das coisas. Diz que, isso a rejuvenesce. Como se o pensamento, despendesse energia de mais, ela finge não querer saber de nada. Isso a faz atingir a dormência e a paz desejada. Pra mim isso é um atentado contra a natureza. Nosso cérebro levou milhões e milhões de anos até evoluir ao estágio atual e, seguramente, não foi ignorando as coisas, que ele despontou no zênite. Pelo contrário sua evolução passou pelo exercício diário de auto-aprendizagem, até hoje não interrompida, a não ser por minha amiga. Definitivamente minha colega está cometendo um desserviço ao tentar refrear o curso normal em que ela mesma (a natureza) se colocou. Também não posso crer que minha colega esteja sozinha nesse pensamento. O que mais vemos hoje em dia são ações e atitudes acéfalas de quem, por ter cabeça, só a usa, para ostentar o último penteado da moda, ou para plugar o seu novo iPod. O resto é acessório. O pensamento a reflexão, a crítica, são a melhor defesa contra o estado geral de bovinidade que assola nossa época.

RAZÕES PELAS QUAIS GOSTO DAS FRANCESAS


Eu não devia, pela obviedade dos fatos, mas aqui vão algumas razões pelas quais me apetecem as francesas. Em especial uma que nunca saiu de cena, a hoje senhora Brigitte Bardot (n. 1934). Primeiro que além de talentosas elas dispensam comentários quanto a sua beleza e formosura. Idealizada, cantada e sonhada por muitos. Ninguém jamais conseguiu ficar indiferente a elas. Inquietantes e tentadoras. Se não bastassem a generosidade com as quais a natureza lhes ornaram, calha ainda, que elas sejam destemidas e estejam sempre avant guard de seu tempo. Definindo e reconstruindo a forma e as imagens de como as mulheres são vistas elas estimulam novos pontos de vistas da figura feminina no mundo e povoam o imaginário fantástico de artistas, cineastas, etc.. Presumivelmente essas qualidades não se encontram em qualquer uma. Em razão disso nada lhes escapam. A propósito, as recentes discussões e debates dos presidenciáveis Americanos mexeram com os brios da musa do cinema francês das décadas de 50 e 60, Brigitte Bardot. BB como é carinhosamente conhecida na França, hoje bem menos atraente, mas não menos francesa, saiu ao ataque da candidata à vice de McCain, Sarah Palin. Presidenta de uma fundação de defesa dos animais que leva seu nome, Bardot disse que Sarah Palin é “uma vergonha para as mulheres”. “A Senhora, ao negar a responsabilidade dos seres humanos no aquecimento global, ao militar a favor do porte de armas e do direito de dispará-las no que quer que seja (Palin tem como hobby caçar), e com falas de uma desconcertante estupidez, é uma vergonha as mulheres e representa uma terrível ameaça a uma verdadeira catástrofe ecológica”. Escreveu a ex-atriz. Palin defende a exploração de petróleo na Reserva Nacional da Vida Selvagem e é contra a proteção de ursos polares, ameaçados pelo aquecimento global, "o que é testemunho da sua total irresponsabilidade, (e) da sua incapacidade de proteger ou de, simplesmente, respeitar a vida animal". Indignada completou: “Em nome do respeito e da preservação da natureza, desejo que você perca essas eleições já que o mundo sairá ganhando”. Definitivamente as francesas são muito mais atraentes.

O BIBLIOTECÁRIO FUNDISTA


Eu já havia ouvido falar em fundista literário. São aqueles autores cuja prolixidade se compara com a resistência de um maratonista que percorre longas distâncias. Honoré de Balzac (1799-1850) foi um deles ao procurar retratar a realidade da vida burguesa da França de sua época, em oitenta e oito obras, conhecidas como A Comédia Humana. Agora vejo com pesar que a Biblioteca Campus VI Caetité, vítima de inúmeros furtos promovido por seus usuários, inaugura uma nova modalidade de fundista. Trata-se do bibliotecário fundista. Sua tarefa é bem menos nobre do que a do literário francês. Cabe a ele ir ao encalço de usuários que tentam molestar o patrimônio e constranger os funcionários, além é claro de prejudicar as atividades de empréstimo. Para isso ele deve estar acostumado a perseguições e vexames típicos dos filmes pastelão. Semana passada, eu mesmo protagonizei uma cena dessas. Duas alunas, cheia de más intenções subtraíram descaradamente dois livros de consulta enquanto eu guardava outros livros nas estantes e minha colega estava ocupada despachando o público para fechar a biblioteca. Aproveitando-se de nossa ocupação elas fingiram estar guardando os livros e saíram em disparada, crentes de serem donas e senhoras da situação. Sua aventura terminou quando a minha começou.

A TRISTEZA


O Flaubert aconselhava a ter cuidado com a tristeza. Cuidado com a tristeza, dizia ele, porque ela pode tornar-se um vício. Eu percebo bem o que ele queria dizer. João Cabral também alertava para os perigos de se tornar triste. E dizia que todos nós, inclusive ele, tinha tendência à sonolência à morbidez e à tristeza. Por isso, era preciso manter-se desperto. A poesia que ele criou, com uma sintaxe paradoxal foi sua forma encontrada para dispersar os vícios da tristeza, que de certa forma persegue todos nós. A tristeza serve para desculpar a inércia e, sobretudo a mediocridade. Obviamente esses senhores das letras tinham toda razão. Menos cuidadoso, no entanto, foi o autor do quadro que ilustra esse post. A gente começa arrancando uma orelha e quando menos esperamos estamos cambaleando pelo campo, varado pela morte.

A VERDADEIRA FACE DA CRISE FINANCEIRA INTERNACIONAL


O furacão que vem varrendo as bolsas em todo o mundo desmoronou não só, a fragilidade do sistema capitalista, sobre a qual estão assentadas as maiores economias do mundo, como também, a moral dos banqueiros de Wall Street. Se bem que eles não prezem tanto assim pela moralidade. Tudo isso, no entanto, serviu para tornar evidente, o que alguns tomavam apenas por aparente (quanta ingenuidade). Que no mundo dos números e das finanças internacionais o paraíso financeiro pode ser uma mera miragem, produzida por alguma agência de risco, ou por balanços maquiados. E quem vai pagar a conta? Os governos do mundo capitalista já anunciaram a alternativa. Para socorrer os caloteiros das grandes financeiras e salvar bancos em dividas, os governos vão socializar o capital podre. É sempre assim, na hora de dividir os lucros ninguém aparece. Já para socializar as dívidas, qualquer alternativa ideológica menos ortodoxa é muito bem vinda. Pra piorar a situação e jogar mais descrédito no sistema que promete salvar a humanidade, os jornais anunciaram que a maioria dos líderes das empresas que entraram ou estão em vias de entrar em colapso financeiro nos Estados Unidos receberam bônus significativos pelos objetivos cumpridos em 2007. O primeiro lugar no pódio das compensações coube a John Thain, CEO da Marril Lynch, que no ano passado arrecadou 10,6 milhões de euros em prêmios de desempenho. Não nos enganemos sobre o que andamos a ver. Trata-se de um verdadeiro estupro anunciado por todas as mídias.

PAUL NEWMAN (1925-2008)

Cena do filme Rebeldia Indomável (1967)
Alguém pode alegar mais sedo ou mais tarde (sem razão), que esse blog só dar conta da passagem de astros do cinema, músicos famosos ou escritores afagados por algum prêmio, omitindo-se de tudo o mais. Corremos o risco realmente de nos tornarmos em pouco num caderno de obituários. Sem, porém, termos a menor intenção disso. Tudo dado à sanha com a qual o ceifeiro anda à solta. Mal temos tempo de nos recuperarmos da perda de alguém já nos vemos prostados, perplexos ante a retirada de outro. Dir-se-a então que o tempo não perdoa. Os sinos não descansam e que a vida exige seu óbolo. O último a acertar contas com o destino foi o ator americano Paul Newman. Vítima de cancro nos pulmões, Newman morreu no último dia 26 de setembro aos 83 anos. Irresistível presença masculina nas telas de cinema. Dono de uma beleza imaculada. Newman parecia moldado para o papel de bom moço. Quis, porém o destino que ele encarnasse com severidade os mais belos rebeldes do cinema. Sem, porém, nunca ter feito um vilão totalmente detestável. Jamais me esquecerei de um dos seus filmes mais empolgantes, Rebeldia Indomável (1967). “Dê para um ator um bom roteiro e ele moverá o mundo”, declarou quando foi perguntado sobre o filme. Queria eu encarniçar-me com tanta violência contra as coisas que me oprimem como Luke faz. Luke, personagem de Newman no filme, encarnava, ou melhor, se negava a encarnar o sentido de domesticação, vassalagem diante da opressão e da injustiça. Lições raras hoje em dia.

NOBEL


A Academia Sueca anunciou o Nobel de Literatura desse ano. O laureado com o prêmio foi o escritor francês Jean-Marie Gustave Le Clézio (Nice, 13 de abril de 1940), o centésimo quinto da história a receber a honraria. O que sei desse escritor e de seus livros não daria um post. Por isso, limito-me a apenas registrar o acontecimento. Há anos venho torcendo pelo peruano Mário Vargas Llosa. Pelo visto terei que aguardar mais algum tempo.

A FALÊNCIA DA MORALIDADE



Quem corrompe quem? Os políticos que se aproveitam da situação de vulnerabilidade dos miseráveis e vencem suas resistências morais (palavrinha cada vez mais escassa no vocabulário), ao preço de trocados. Ou a população, que sede as investidas dos corruptos, demonstrando a toda classe que o que vale mesmo em política é saber quem dá mais, porque muitos estão dispostos a se venderem? Num lugar onde quem governa e quem é governado reina a imoralidade e a indecência nas relações políticas, o que podemos esperar do futuro? Com que cara nos indignaremos quando o lixo das ruas não forem recolhidos, apodrecendo pelos cantos, ou quando a iluminação pública não for satisfatória, facilitando a gatunagem e ameaçando o cidadão de bem. Ou ainda quando as estradas se tornarem intransitáveis; ou faltar água nas torneiras para necessidades mais básicas, como para lavar as vergonhas. Ou pior, seu filho, uma caixa de possibilidades, não receber a contento uma educação que lhe impeça do vexame de não saber escrever o próprio nome? Ou quando alguém for escolhido para um cargo público, não por sua capacidade e competência, e sim por interesses eleitoreiros ou afinidade familiar. Esses e muitos outros motivos são os casos de nosso atraso e da nossa ignorância há vários e vários anos. E continuarão sendo se nos tornarmos tão asquerosos quanto os políticos. Quem terá coragem de se revoltar, com a consciência limpa de quem não se vendeu, com a certeza de se estar exigindo apenas o que lhe é de direito. No passado Serra do Ramalho se queixava da violência e da arbitrariedade de seu governo. E fez valer nas urnas sua indignação. A resposta contra essa violência surgiu em forma de esperança, numa virada na situação, reconhecida por todos como inaceitável. Pois bem, a esperança de uma reviravolta não se concretizou (como era esperado). Ante a violência do primeiro, o segundo, respondeu com outra, muito mais cruel e pestilenta, porque ela age covardemente na surdina, infiltrando descrédito, degenerando as relações, desacreditando a moral, viciando as estruturas políticas, para enfim enredar a todos em seu jogo sujo e maquiavélico. O corrupto serramalhense esgueira-se pelos cantos, a procura de alguém em situação de necessidade tal que, não seja capaz de recusar uma cesta básica que aplaque sua fome, para fazer dele um vendido. A suposta incompetência política em gerar empregos, em elevar o nível da educação, em gerir com respeito os bens públicos, sem fazer deles propriedade privada, não é mais que uma estratégia para encabrestar os homens, e torná-los completamente dependentes das benesses dos maus administradores. O que esse tipo de tirania tem haver com a primeira, que violentava a dignidade física e foi retirado para nunca mais voltar? É que ambos são covardes, traiçoeiros, desleal, sebosos. Um utiliza à força bruta e a truculência para acossar todos os seus desafetos e fazer valer como vontade única, a sua própria. A outra, está que estamos vendo hoje, aparentemente nociva, é muito mais destrutível. Porque ela se aproveita da carência e da necessidade, para constranger o homem digno. Porque ela rebaixa o homem a um estado de dependência constante, viola a sua integridade e desrespeita a sua vontade, não lhe dando oportunidade de defesa, que no primeiro era possível. Ela age diariamente, diferente da anterior. O que ocorreu na eleição de Serra pertence a um Brasil de atraso, um Brasil que não deve existir mais, um Brasil dos tampos dos coronéis. O Brasil moderno vive uma nova realidade. Busca respeito internacional. Combate à corrupção com inteligência. Acende milhares de pobres a uma situação muito mais confortável e digna. Evolui em tecnologia. Ambiciona influenciar as relações internacionais. Acredita no potencial de sua gente e investe em educação. Diversifica a agricultora. Descobre novas maneiras de mover carros, que não seja distribuindo notinhas em troca de favores. Respeita a individualidade e a vontade soberana do povo e não se aproveita de sua situação financeira desfavorável para empobrecê-lo ou explora-lo ainda mais. Enquanto isso damos um passo à atrás, nas relações que são bases para o desenvolvimento de qualquer cidade. Não contribuindo com um único percentual na qualidade da educação, que geraria a força do desenvolvimento. Ao cedermos à tentação de nos corrompermos, aceitamos a política do descaramento e perpetuamos a devassidão e a desonestidade. Pois estamos comprometidos com a desordem. Somos tão desprezíveis quanto o corrupto que estende a mão ao bolso e retira R$ 50 para comprar o voto de alguém, sobre a desculpa de que está pagando desse ou daquele uma viajem para votar, nele é claro. Muitos ainda se revoltam quando são chamados de corruptos, feito virgens ofendidas, como os políticos corruptos. Reclamam que não estão sendo comprados. E exigem, bufando, que se comprove o desvio de seu caráter. Outros nem se molestam mais em serem chamados de corruptos. Esses são os piores. O que estamos fazendo da nossa cidade. Ora meus amigos, ponham a cabeça no travesseiro e reflitam. Quantos tanques de carros em Serra não andam engulhando gasolina até não poder mais. Isso não é corrupção? O combustível que alimenta o carro do corrupto é retirado de onde? Muito provavelmente o que sobra para corromper falta para desenvolve. Essa gasolina devia estar nos tratores de homens trabalhadores que pudessem beneficiar a terra, gerar riqueza, prosperidade, promover a independência das famílias e alimentar os buchos de quem tem fome. Nosso atraso vem das escolhas errada que fazemos. A única prosperidade que vemos de verdade em Serra é a dos políticos. Muitos chegaram arrastando uma cachorra, e logo saem desfilando em carros. Corrupção é uma escolha. Por isso diga NÃO.

"DE CAETITÉ PARA O MUNDO"

Waldick Soriano (na foto, em 1971) tinha ambições gigantes quando abandonou a roça, em 1958: "Para o mundo"

Teo Júnior, Aracaju

Ele tinha nome de dramaturgo grego, mas nasceu nas trincheiras da Bahia, pelas bandas de Caetité, em 1933. Eurípedes Waldick Soriano, quando completou 25 anos, em Brejinho das Ametistas, olhou pra cima, olhou para baixo e teve um estalo: "vou-me embora". Era o desejo de ir para uma cidade grande, uma civilização, alguma coisa nesse sentido, tentar a sorte. Afinal, Waldick não tinha nada a perder.
O curioso, nesses casos, é que a ânsia de deixar o grotão natal é tão grande, que a pessoa não pára para pensar nas necessidades futuras, longe de casa. Como vai comer, como vai morar, onde vai trabalhar, se encontrará amigos, essas coisas. O indivíduo quer mesmo é largar tudo, arrumar as malas e entregar para Deus.
Raul Seixas, um dia, depois ter "passado fome por dois anos", devia "agradecer ao Senhor por ter tido sucesso na vida como artista". No caso de Waldick, creio que não chegasse a tanto. Ele acalentava o desejo de ser ator (assitira, na adolescência, a muitos filmes em Caetité, ficou com a idéia na cabeça) ou cantor. Já em São Paulo, exerceu funções menores, como engraxate, ajudante de pedreiro (hoje existe essa categoria profissional? O pedreiro não dá conta do recado sizinho?), garçom, caminhoneiro, engraxate e o caralho a quatro. Durante dois anos, esperou a sorte artística chegar. E ela finalmente chegou. Em 1960, uma boa alma trafegava pela noite, onde Waldick batia ponto, e o levou para uma gravadora, onde assinou um contrato.
Durante muitos anos, Waldick obteve vendagens expressivas, mas ainda discriminado pela mídia --e nesse íterim, aparecia em programas populares (Ivan Lessa chamaria de "vagabundos") de televisão e era personagem constante de matérias de grandes revistas e jornais, como uma célebre entrevista dada, em 1975, ao pessoal do Pasquim. Ele aparecia, nessas reportagens, mais pelo estilo pessoal do que propriamente pelo repertório. Era o povo aplaudindo e a imprensa caindo de pau.
Waldick não era um cantor desprezível. Tinha uma voz bem timbranda e impunha uma presença destacada no palco. Seu repertório era um só: homem sofrendo por mulher. Casos de amor mal-resolvidos foram a grande faculdade de Waldick, que, pelo que me consta, não chegou a estudar. A isso, convencionou-se chamar de dor-de-cotovelo. Eu confesso que não sou fã de seu estilo nem de sua música, mas eu não posso fechar os olhos para ele. Ignorá-lo seria burrice de minha parte. O cara existiu, caramba! Ficou famoso, ganhou dinheiro, batalhou por uma carreira, recentemente gravou um cd e um dvd, direção de Patrícia Pillar. Suas canções mais lembradas são Eu não sou cachorro não, de 1972 (Vendeu mais do que Roberto Carlos, heim, gente?, dá título a um livro de Paulo César de Araújo, sobre o fenômeno da música brega brasileira, nos tempos da ditadura militar), Tortura de Amor e a inigualável A Dama de Vermelho, regravada por Bruno e Marrone.
Waldick era conhecido por sua calma tibetana, era tranquilo, um homem incapaz de uma grosseria. Além disso, era muito engraçado. Algumas tiradas suas são quase filosóficas, como, por exemplo, quando afirmou que "a mulher, quanto mais pobre, mais gostosa". Ele sabia do que estava falando, porque de mulher, de boemia, de serestas, ele entendia. Era um especialista no sentido mais amplo do termo. Nos bons tempos, pôs uma plaqueta no paletó onde se lia: "De Caetité para o mundo". Eu tinha vontade de perguntar a ele aonde ele queria chegar. Waldick Soriano estava para a música brega -- hoje com milhares de adeptos país afora -- como João Gilberto está para a Bossa Nova, porém o caetiteense sempre negou o estilo do qual era o papa. Ele jamais se assumiu como "brega", preferindo se considerar um cantor "romântico". E acabou.
Waldick Soriano teve um vidão. Não pôde reclamar. Estava se tratando há algumas semanas de um câncer de próstata -- que ninguém ficou sabendo -- e faleceu hoje, dia 4, no Rio, onde será enterrado no Cemitério S. Francisco Xavier, popular "Caju".
Como diria Nelsinho Motta, boa noite, Waldick Soriano.

DORIVAL CAYMMI (1914-2008)


Dorival fez pela música o que seu compadre Jorge Amado fez na literatura. Letras maliciosas, cheias de dengo, de mulher ousada, de balangandãs, enfim, compuseram o assunto de Dorival. Músicas que, lá fora, FIZERAM A CARREIRA DE uma Carmen Miranda, por exemplo. Carmen fora a maior intérprete de O que é que a Baiana Tem? , obra mais importante do mestre. Além de mulher, ele também falou claro, do mar e da vidinha dos pescadores, como na trágica A Jangada Voltou Só. Dorival Caymmi compôs sua primeira música ainda adolescente, que se chamou A Bahia também dá. Dorival também deu. Deu sua parcela de contribuição à música de um modo como poucos dariam. Há homens que passam pela vida e não deixam um cuscuz feito. Dorival deixou um patrimônio inigualável que precisa ser reconhecido agora, no momento em que ele está sendo velado. Tive o prazer de assistir, várias vezes, o show que seus três filhos fizeram para homenageá-lo. Ele estava na platéia, com D. Stella Maris, agradecido e sereno, com a tranquilidade dos bons. De quem já fez o que lhe competia. Acontece que Eu sou Baiano, Maracangalha, Só Louco são sambas imortais. Num ranking elaborado ela revista BRAVO!, que apontou as cem melhores músicas do nosso século, Dorival ficou com a medalha de prata, com João Valentão. Só perdeu para Carinhoso, de Pixinguinha, e Águas de Março, de Tom e Vinicius. Mais uma prova de que não se trata de um qualquer.
Eu adorava Caymmi.
Uma verta vez, Caetano Veloso deu o seguinte parecer sobre Dorival: "Ele é o maior dos maiores". Pronto. Esse é seu epitáfio.
Teotonio Júnior, Aracaju

PAPEL EM BRANCO


Alguém já se referiu ao ato de escrever como um suicídio antecedido de mutilação e de sofrimento atroz, para, por fim, concluir que ele também é um ato de inominável coragem física. De quase nenhum escritor, porém, temos a oportunidade de ouvir o testemunho de seu processo de criação. As razões podem ser as mais diversas. Talvez ele preserve certo sentido intimo que não lhe permite confissões, ao menos não além daquelas já interditas nos livros. Algumas revelações podem conter segredos inomináveis, indignos para um escritor. Outros ainda dispensam ao público suas fraquezas, deslizes, inquietações, e dúvidas comuns durante a confecção de uma obra. Menos tímidos estão os poetas Edgar Allan Poe e João Cabral de Melo Neto. Ambos desnudaram seus esforços poéticos e revelaram seus segredos de composição. Opondo-se àqueles escritores de tendências transcendentais, Allan Poe e João Cabral, em tempo, escreveram trabalhos reveladores. Em abril de 1846 Poe publicou nas páginas do Graham´s Lady´s and Gentleman´s Magazine um artigo intitulado “A filosofia da composição”, nele Poe revela que, ao escrever, parte sempre da consideração de um efeito, ou seja, seu propósito é atingir determinado objetivo previamente estipulado. Por isso, em vez de render-se mudo à força das palavras, caminha firme, com consciências daquilo que deseja e não sede as tentações da inspiração. João Cabral muito tempo depois de Allan Poe defende com a mesma obstinação a autonomia da escrita e revela-nos: Eu não acredito em inspiração e nem sou poeta inspirado. O ato de criação para mim é intelectual. Minha poesia trabalha a criação e a construção. Acredito na expiração. Na composição de um poema, primeiro me ocorre um tema e eu tomo nota. Depois vou estudando-o e desenvolvendo-o. Nunca escrevi um poema inspirado, soprado pelo Espírito Santo. Isso eu não sei o que é... Fazer um poema para esses escritores, não é uma condenação, como se pode ver, muito menos o resultado de uma possessão. O poema surge de uma vontade consciente. João Cabral e Edgar Allan Poe encararam como nenhum outro escritor o desafio de fazer poesia maquinalmente, talvez por isso eles não se envergonhem de falarem de seu exercício corporal com as palavras.

ALEXANDER SOLJENITSINE (1918-2008)


No último dia 03 morreu em Moscou o ganhador do Nobel de Literatura e autor de Arquipélago Gulag Alexander Soljenitsine aos 83 anos.

CITAÇÃO, 02

ALMADA NEGREIROS (1893-1970) AUTO-RETRATO
"Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria. Deve haver certamente outras maneira de se salvar uma pessoa, senão estarei perdido."

DEVAGAR NÃO SE VAI AO LONGE

A única coisa que se acumula parado são gases. Então devem está cheios os burocratas, professores e os políticos. Estes últimos se encontram mais aliviados por essa época. Os muitos compromissos eleitorais confortam suas ventosidades. Dias virão que também os burocratas terão livres de seus intestinos os grandes males causados por sua inércia. Os professores não têm tanta pressa assim, talvez lhes confortem as cadeiras que lhes assentam. Eles não têm que se envergonharem disso, os eflúvios intestinais nos mostram apenas a matéria prima da qual somos feitos e que, por vezes, se soltam e nos enxovalham publicamente. Há coisas que nos fazem corar. Poucas, porém, nos embaraçam mais do que o torpor de algumas classes.


A PROPÓSITO DAS ELEIÇÕES


Todos os anos durante as eleições assistimos a um fenômeno de degeneração política. Enquanto no resto do tempo de nossas vidas comezinhas, a política e os assuntos de política não passam de serem ignorados por quase todos, durante o pleito, essas discussões incendeiam os encontros de amigos; comparecem aos almoços de família, freqüentam os intervalos das orações religiosas e ocupam a maior parte das discussões durante o dia das pessoas, seguindo até cortejos fúnebres. Por instantes tem se a impressão de que finalmente a definição vocabular para política: “a arte de bem governar os povos” ou “conjunto de objetivos que informa determinado programa de ação governamental e condiciona a sua execução”, deixou, de ser um mero adereço retórico e passou a ter algum sentido vivo. No entanto, ao nos depararmos com o primeiro grupo politicamente entusiasmado, vemos que o que eles discutem realmente, responde por outro nome. Aquilo a que por comodidade chamam de política, é na verdade mexerico, intriga, conchavo, politiquice, zona. No fundo ainda reina no nosso país a arraigada convicção de que política é não respeitar o direito à diferença de opinião e receber favores em troca de apoio – pode ser em galões de combustível ou em materiais de construção – com a desculpa de que todos fazem isso, e por fim torcer por algum cargo comissionado. Teoricamente somos todos contra a corrupção. Mas quase todos somos corruptos se da corrupção retirarmos vantagem e, quase nenhum de nós se mobiliza contra a corrupção, exceto se os resultados da corrupção perturbarem de modo sensível a nossa qualidade de vida. A lingüística ensina-nos que o sentido das palavras muda com os usos que fazemos dela. No livro Os Lusíadas, por exemplo, a palavra ministro referia-se ao grumete, ou seja, era usada para definir os homens que faziam as atividades inferiores durante as viagens. Hoje podemos desconsiderar esse sentido. Ministro passou a ser relacionado a homens que ocupam altos cargos nos governos ou em congregações religiosas e que supostamente guardam alguma qualidade que os diferem de criados de navios. O uso define o entendimento. Por isso, a continuar fazendo uso de política no sentido assistencialista, politiqueiro, corremos o risco de desqualificar o seu sentido original e acabar, por fim, por força do uso nesse ou naquele sentido, não tendo nem palavras para qualificar as imoralidades e indecências, pois essas passaram a ocupar os sentidos de política. Vem isso a propósito um discurso do poeta Almada Negreiros sobre as qualidades de um povo. Dizia ele, “o povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades”.

UM OLHAR SOBRE CANUDOS

FOTO: Regina Xavier

Em 2 de dezembro de 1902 o jornalista e escritor, Euclides da Cunha (1866-1908), lançava o livro Os Sertões. A obra, inspirada numa apurada investigação jornalística ocorrida cinco anos antes, sobre o levante de um bando de esfarrapados sertanejos, liderados por Antônio Vicente Mendes de Maciel – O Conselheiro – supostamente contra o estado, transformou o seu autor num nome incontornável. Convertido numa das maiores obras da nossa literatura, ela influenciou grande autores como: Mário Vargas Llosa e Sandor Marai, que escreveram livros baseadas em Euclides da Cunha. Destacado pelo jornal O Estado de São Paulo para cobrir aquilo que os alarmados republicanos da época chamavam de um levante restaurador da monarquia, “a nossa Vendéia”, uma referencia à província francesa que, em 1793, havia se rebelado contra medidas fiscais adotadas pela Revolução de 1789; a obra de Euclides da Cunha se transformou em pouco tempo no quase único relato respeitado e aceito, entre os vários entusiastas e estudiosos de Canudos. O monopólio desse registro só foi quebrado quando entrou em curso outro nome nos estudos da história de Canudos, o do professor José Calasans (1915-2001). A gênese da trajetória desse estudioso, seus trabalhos e sua contribuição para historiografia baiana, são os temas do livro José Calasans: a história reconstruída trabalho de conclusão de curso do também professor e pesquisador Jairo Carvalho do Nascimento (n.1976), recém saído do prelo e dado a público no último dia 23, no auditório da UNEB. Nesse seu mais recente trabalho, Jairo apura o percurso desbravador do professor José Calasans, responsável por uma revisão completa na historiografia de Canudos, bem como por uma contribuição inestimável, até hoje insuperável, para os estudos regionais e locais na Bahia, destacando sua valorização da oralidade como fonte e objeto da história, “postura não compartilhada pela ampla maioria dos historiadores da época”, afirma Jairo. Depurado de acessórios o livro do professor Jairo tem vários méritos. Um dos quais é, não se deixar cair na tentação de emular o seu objeto de pesquisa. Tanto é assim, que Jairo, não obstante a insuspeitável contribuição de Calasans, não esconde que esse, também adotou posturas contraditórias durante o regime ditatorial que governou o Brasil de 64 a 85. E que ainda, em alguns momentos de seu trabalho de pesquisa, “chegou a aceitar a fonte sem fazer as críticas devidas” ou que, esse, destinou “pouca atenção às incursões interpretativas a partir de referências teóricas, uma particularidade verificada, por exemplo, na sua obra: Canudos: origem e desenvolvimento de um arraial messiânico”. Em parte, essas medidas se devem a postura interpretativa adotada por Calasans, que pertenceu a corrente historiográfica dos que pretendiam interpretar o Brasil a partir do Brasil, e não se filiou a esquemas interpretativos importados. Apoiado em trechos criteriosamente citados e comentados, pode-se dizer que nada ficou de fora desse trabalho. Uma extensa bibliografia, bem como uma bibliografia temática das obras de José Calasans, completa o livro, indispensável para quem queira melhor compreender José Calasans e um pouco de Brasil. O trabalho ainda pode ser lido fora dos círculos de especialistas, afinal ele foi construído numa prosa límpida e de fácil absorção, ler-se num fôlego.

MÚSICA AO AR LIVRE

FOTO: REGINA XAVIER

Nas ruas de Caetité, não obstante o frio que a essa época do ano deixa de ser normal e passa a assustador, em meio aos silvos de ventos gélidos e aos burburinhos dos carros que passam curiosos a bisbilhotar os cantos escuros, a espreita de algum caso; e dos bêbados que cantarolam tristes melodias, ouviu-se por toda parte, nessa última quarta-feira 16, uma outra música, muito mais antiga e alegre. A cidade inteira então correu a ver o que se passava. No átrio da Catedral Nossa Senhora Santana deram, com um improvável caminhão-palco, pronto para o pianista Arthur Moreira Lima, tocar algumas das músicas que se mantêm, alheias às flutuações dos gostos e dos momentos, preservadas perante possíveis contrariedades. A seguir, ameaçou chover. O céu cobriu-se de premonitórias manchas. Contudo, ninguém, que se abrigava ao relento da noite, arredou pé, caso contrário, teriam perdido as estonteantes proezas musicas de um solista virtuoso. Foram, pelo menos, uma hora e meia de absoluta comunhão, ou deveria dizer exorcismo, entre público e musico. Moreira Lima tem um repertório prodigioso, Bach, Beethoven, Chopin, Astro Piazzolla, Ernesto Nazareth, por isso, poderia ter continuado tocando por horas que ninguém cansaria de ouvir, ao menos, essa foi a impressão que ficou da reação vinda da platéia, extasiada com o som que vinha do palco de um caminhão.


CITAÇÃO, O1

Neil prova ser um autor versátil e talentoso. Foto: Thomás Levy

“os inimigos da literatura não são as pessoas que não compram os livros; são pessoas que não lêem”

HÁ VENDA DE INDULGÊNCIA NAS UNIVERSIDADES

FOTO: WILLIAM HOGART FAMOSO PINTOR INGLÊS QUE SE NOTABILIZOU PELA SÉRIE DE GRAVURAS CHAMADA "ASSUNTOS MORAIS MODERNOS".

Quem julgou que o problema era novo, avaliou errado. Há muito que ele vem ocorrendo sem nenhum impedimento. A mais de dois séculos Adam Smith já denunciava nas universidades de sua Escócia a venda de monografias e outros trabalhos acadêmicos por encomenda. A permanente prática dessa atitude vexatória desnuda o baixo grau de moralidade que permeia algumas de nossas universidades. Futuros doutores, professores e mestres, formados na malandragem, corrompem e desacreditam instituições ciosas de seu prestigio. Ninguém se pergunta, no entanto, por que tudo isso persiste. Tenho pra mim que essa prática nefasta se deve ao declínio abrupto da qualidade do corpo docente. Num ciclo vicioso de manutenção e reprodução, professores sem qualificação pedagógica mínima, sem produção cientifica (há uma ou outra honrosa exceção), e pior completamente desatualizados da nova produção literária, ascendem às cadeiras dos cursos das universidades. Esses, formados com a indulgência de alguns não exigirão dos seus, aquilo que não lhes foram exigidos; trabalho. O continuo depauperamento dos currículos e a falta de material bibliográfico, nas bibliotecas, contribui ainda para conservação dessa devassidão. Hoje já não surpreende ninguém cartazes oferecendo “trabalhos acadêmicos” em pleno mural da universidade. Não tarda é isso passa a ser uma constante. A cada dia tem uma degradação moral mais acentuada em todas as camadas da sociedade, observa o tropicalista Tom Zé. Nenhuma instancia se salva.


O ESTADO DESSE BLOG

Joseph Frank Keaton Jr. (Piqua, Kansas EUA 4 de outubro, de 1895 - Woodland Hills, Californis EUA, 1 de fevereiro, 1966), mais conhecido como Buster Keaton, foi ator e diretor de comédia que muitos consideraram superiores as de outro grande comediante, Charles Chaplin, o Carlitos. A característica básica de seus personagens era que eles não sorriam, estavam sempre de cara amarrada, num continuo ato de introspecção e larga tristeza.

ADEUS À TERRINHA

Meu povo: chega uma hora que a gente precisa ir embora. Pegar o primeiro avião, com destino à felicidade. Ou o primeiro ônibus. Ou a primeira charrete, o que for. Chegou minha hora de sair da roça. Chega de mim, né? Caetité está cada vez pior e, pelo andar da carroagem, tende a piorar cada vez mais. E essa tal de mineradora aí... sei não. (o salário é quanto?) Eu não fico, mas, quer ficar, tudo bem. Assiti agora um depoimento de Maria Bethânia, no dvd "Maricotinha" contando da infância na célebre Santo Amaro da Badalação. Que ela não queria sair, não queria deixar o pai e a mãe sozinhos, que conhecia bem a cidade e não queria largar seus amigos e blá blá blá e blá bla blá. Mas acabou deixando. Isso é besteira. Pai, mãe e amigos ficam e o melhor é tocarmos o barco.
De lá (Aracaju), continuarei, sempre que me for possível, a escrever no blog. O evento da cidade é um forrozão que está acontecendo e, me disseram, dura 3 meses. Quem agüenta três meses de forró? Dizem que os sergipanos acham pouco.
Um forte abraço. (Uma cobrança: Rogério, cadê a lista dos 5 melhores? Em que ano sairá?2015?) E a Academia Caetititeense de Letras, heim? Mara, cadê sua obra? Estou na espera. Se essa obra vier à luz, quero um exemplar com dedicatória. "A Teo, brilhante escritor, intelectual dos mais coerentes etc. etc."
Teo

FOTO DE ÁLVARO VILELA

TODA NUDEZ FOI APLAUDIDA

Darlene e Paulo Porto. Ele, viúvo; ela, uma puta triste. Agora, é enfrentar a família dele
A “Sessão Brasil” desta segunda 28 vai apresentar "Toda nudez será castigada", a versão mais feliz de uma peça de Nelson para as telas


NELSON RODRIGUES (1912 – 1980), o maior teatrólogo do país, e escritor mais adaptado para o cinema e para a televisão (o segundo é Jorge Amado) indiscutivelmente, escreveu peças magistrais, dentre elas uma pode ser classificada como obra-prima. Trata-se da “obsessão em 3 atos” Toda Nudez será castigada, escrita em 1965 e encenada a duras penas porque as atrizes mais tarimbadas do Rio (dentre elas Fernanda Montenegro) sentiram o peso da personagem Geni e repudiaram a personagem de cara. Ela é a protagonista da história. Nada menos que seis atrizes, por vai-se saber quais razões, leram a peça mas deixaram de assinar o contrato porque Geni passava dos limites. Numa das cenas – atenção: isto não está no filme, estou falando ainda da peça – depois de passar três dias seguidos num quarto com Herculano, bêbado até a medula, viúvo casto que não aceita a morte da mulher de jeito nenhum, Geni implora a ele para que a leve ao médico. “Herculano, meus ovários estão doendo!”. Saldo da brincadeira: doze relações sexuais numa biboca de quinta classe, onde Geni, digamos, “trabalha”. Que atriz, por mais emancipada que fosse, queria fazer isso, mesmo sabendo que se tratava de uma peça magistral (elas, no fundo, sabiam) digna do melhor teatro do mundo? Cleyde Yaconis quis.
O jeito, então, foi trazer de São Paulo a grande atriz, essa sim corajosa, sobretudo – para interpretar essa que julgo ser a prostituta mais famosa da nossa dramaturgia. (Outra seria Neusa Suely, de “Navalha na carne”). Nelson pôde sentir o gostinho da vingança depois, porque a peça fez um tremendo sucesso, foi enaltecida pelos melhores críticos, excursionou pelo país inteiro, até o momento em que teve de ser submetida à censura.
Arnaldo Jabor adaptou o texto em 1973. Infelizmente, a censura cortou algumas coisas do filme, também. Não sei se na exibição dessa segunda, as cenas que foram cortadas da versão original entrem. Pelo menos não entrou nos Dvds que foram comercializados. O filme faz parte da “Coleção Arnaldo Jabor”, tem apresentação do próprio. Impulsionado pelo sucesso de Toda Nudez, consagrando internacionalmente a estrela máxima do filme, Darlene Gloria, hoje crente, como a prostituta. Arnaldo filmaria outro Nelson Rodrigues em 1975, O Casamento, com duzentas mil depravações a mais que a antecessora. O romance, a meu ver, foi um passo atrás na literatura do autor, e, francamente, precisa-se de muito estômago para se chegar até o fim do livro. Esse filme não teve repercussão e até hoje muita gente sequer sabe que existe. Nem eu tive interesse de vê-lo. (Por enquanto)
Mas, do que trata o filme que será exibido nesta segunda-feira, 35 anos depois de feito? Dos “laços de família” de um viúvo milionário e que ainda mora com as três tias, velhas umas, doida outra, impertinente todas, pai de um filho adolescente fresco e irmão de um banana, Patrício (Paulo César Peréio) até o aparecimento de Geni, alterando profundamente as relações entre eles. O caso é que Herculano apaixonou-se por ela, quer casar-se, e, sobretudo, tirá-la dessa vida. “Você é humana, Geni”, ele fala no filme. Antes de conhecê-la, o puritano Herculano, quando soube de sua existência, por alto, disse que “Vagabunda é vagabunda sempre”. Num dado momento, para humilhá-la, ele grita: “Você é publica! Pública!”. Com o tempo, Herculano se apaixona por ela e está disposto a esquecer o passado e a começar uma nova vida de casado, transformando-a numa “dama”, digamos. Agora, é enfrentar o filho e as tias gagás.
Com trilha sonora de Roberto e Erasmo, elenco magistral, onde despontava o jovem Paulo Sacks (Serginho) – cadê ele? – a trama é bem rodriguiana. Nelson escrevia sobre o amor. Não importa de que jeito. Como na música de Milton Nascimento, para Nelson Rodrigues, “qualquer maneira de amor vale a pena e qualquer maneira de amor valerá”. Confira! Na madrugada de segunda para terça, 2 h da manhã, após o “Programa do Jô”.

A UNANIMIDADE INTELIGENTE

Chico Buarque, um artista magistral:43 anos de carreira
A MPB não seria o que é não fossem suas obras
O cidadão Chico Buarque de Hollanda, 63, é a certeza de qualquer artista que se preze. Não conheço um cantor digno que não tenha gravado alguma coisa escrita por ele. O restante da humanidade o considera e o respeita. “Perto do Chico Buarque”, de acordo com o fabuloso Otto Lara Resende, “todo homem é potencialmente corno. Se sua mulher está com você agora, é porque ela não teve a competência para ficar com Chico Buarque”. Mas, por que Chico é essa unanimidade toda, a ponto de ser superior a qualquer outro homem?
É simples. Porque ele é perfeito. Bonito, charmoso, rico, inteligente, talentoso... “É o único artista da MPB saído da classe média”, disse certa vez o pesquisador e historiador de música popular José Ramos Tinhorão. Dirão alguns que isso não alteraria sua criação. Talvez. Mas de classe social favorecida, teve contato mais próximo com uma cultura que, como todos nós já estamos carecas de saber, é artigo de luxo. Descende da melhor linhagem de intelectuais do país. Raízes do Brasil, o estupendo livro de seu pai, Sergio, é indispensável para quem deseja conhecer a fundo a história de nossa formação. Chico é a prova – a exceção de uma regra estúpida –, de que nem sempre os privilegiados vivem na mesquinharia, na banalidade, no ócio que aliena, enfim, comportamentos que o dinheiro fácil oferece a quem tem. Ao invés de esticar as pernas e sossegar o facho, Chico Buarque decidiu trabalhar numa notável “construção” (olha aí!) e deu-nos uma obra tão rica, tão profunda, tão bem-acabada, que não há meio de não a admirarmos. Pode-se dizer de Chico o mesmo que o velho Manuel Bandeira disse de Rachel de Queiros: “Nunca o louvaremos bem”. Em suma, ele é um grande criador. Imagine que Chico começou a escrever aos 20 anos. Deu a Nara Leão sua A Banda, para que ela a defendesse num festival desse aí, na década de 60. Sucesso nacional. Meu “pai” Nelson Rodrigues, depois de chamá-lo de “talento das novas gerações”, escreveu uma crônica dizendo que “antes de A Banda, ninguém assoviava mais. O brasileiro voltou a assoviar graças a Chico”.
Mas, como conheci Chico? Conheço-o desde quando eu tinha 15 anos. (Hoje, os meninos de 15 anos sabem o quê, pelo amor de Deus? Nada! Nessa idade não vêem um palmo adiante do nariz). Continuando: Um colega meu, me emprestou, de seu pai, um disco de vinil chamado “Os Sucessos da MPB”. Lembro-me de que quem escreveu o comentário, na contra-capa do disco, foi um senhor chamado Affonso Romano de Santanna. Vim saber, muito tempo depois, que ele é também poeta. Nesta jóia, de Chico Buarque, constavam Partido Alto (interpretação de Caetano Veloso. Caiu como uma luva para ele. Repare: “Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio/ Pele e osso, simplesmente, quase sem recheio...”) e Folhetim. Me apaixonei particularmente por Folhetim, gravação de Gal Costa. Alguns anos depois, um crítico – não me lembro mais quem – afirmou que Gal jogou naquela interpretação, toda a sensualidade e a malícia da prostituta (“dessas que só dizem ‘sim’ ”) da letra. Eu também achei.
Já ouvi muita gente dizer que Chico é melhor compondo do que cantando. Não que ele seja um mau cantor, não é isso, mas Chico é, antes de mais nada, o compositor. Tive a oportunidade de conhecer algumas de suas obras-primas, e cito as que mais me impressionou: Bastidores (Cauby Peixoto), Sob Medida (Fafá de Belém), Atrás da Porta e Tatuagem (Elis Regina), Sem Açúcar (Maria Bethânia), Geni e o Zepelim (ele próprio), Até o Fim (Nety Matogrosso). Não me lembro, no momento, de outras.
Em 1983, Braz Chediak filmaria Perdoa-me por Me Traíres, por sinal um dos filmes mais baratos da história do cinema nacional, baseado na peça homônima de Nelson Rodrigues. Nesse enredo, o homem traído pede perdão à mulher. Pode? De acordo com ele, Judith traiu, mas a culpa é dele. Quer dizer: ela está coberta de razão em traí-lo. E para musicar isso, como é que se faz? Recorreu-se a Chico Buarque e ele não decepcionou. Escreveu a magistral Mil Perdões, que Gal Costa gravou, naquele mesmo ano, em “Baby Gal”. (“Te perdôo porque choras / quando eu choro de rir / te perdôo / por te trair”). Descobri, inclusive, que Chico tem o poder de transcender o banal, o irrelevante, o anormal, o que é doentio para as raias da genialidade. Arrisco dizer que Chico é capaz de poetizar um piolho, uma cárie, uma unha encravada, uma menstruação irregular etc. Ele tem condições de escrever sobre qualquer assunto. Muito poucos conseguem isso.
Eu gostaria de escrever mais sobre Chico Buarque, sobre o Chico & Caetano, (particularmente sobre O Quereres, que ele errou, para delírio de todo mundo. “Não sei porque eu insisto nessa profissão! Estou dando tudo de mim!”), sobre as mulheres de suas músicas, sobre suas peças, seus livros, suas entrevistas, mas nunca o assunto Chico Buarque será dado por encerrado. Creio que já disse o fundamental. Que ele é um artista completo e quase não tem rivais na MPB. Salve Chico Buarque. Não aparecerá outro tão cedo que o supere. Aposto.
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Especialmente para a Profa. Maria de Fátima

A VERBORRAGIA DA ACADEMIA

A poetisa Tania Martins, no Rio de Janeiro: a melhor
FOTO EXTRAÍDA DE SUA PÁG. NA INTERNET


É impressionante como a Prefeitura, o Hospital e a INB patrocinam a Selecta Acadêmica, um material francamente sofrível – e ninguém protesta

ANTES de mais nada, quero esclarecer aqui que não estou fazendo uma análise aprofundada das “obras” publicadas na Selecta Acadêmica, não sou especialista em coisa alguma, pelo menos por enquanto. Limito-me a contribuir para esse blog fazendo o que gosto, que é opinar. Também não é minha intenção rebaixar nenhum dos citados, até porque essa gente já está bem de vida, possui carrões, casas boas, dinheiro etc., e nada perderão com as opiniões desfavoráveis de um pobre-coitado como eu, mas vamos lá.
Eu já conhecia a revista, mas nunca tinha parado para ler atentamente as besteiras que esse pessoal escreve. Confesso que saí do livro horrorizado com o nível dos nossos queridos acadêmicos.
Analiso agora as composições de dois números, 6 e 7, publicados em meados de 2002. Com toda certeza, a Academia não parou de editar novos volumes, que comentarei, com toda honestidade que me é peculiar, posteriormente, assim que devorá-los. (Vou tentar). Mas quero discorrer sobre o que vem a ser propriamente a Academia, quem são seus membros e do que eles falam.
Em primeiro lugar, faltou um certo cuidado da Editora Globo em elaborar as revistas. Ciente de que elas viriam com falhas, logo na introdução, a direção trata de se justificar, citando Dickens, o célebre autor de David Copperfield: “Onde ocorrem mais facilmente erros é na impressão dos livros”. Tudo bem...
Como na tradicional Academia Brasileira de Letras (que negou uma cadeira ao poeta Mario Quintana e a um dos maiores dramaturgo do mundo, Nelson Rodrigues, e a concedeu a Paulo Coelho), em Caetité existem os patronos e seus ocupantes, cadeiras numeradas. Eu quero deixar registrado que sou completamente contra a Academia Brasileira. O fardão já não significa nada mais para mim, depois de disparates dessa natureza terem ocorrido. Em Caetité, somos apresentados aos “Patronos”, gente que, em alguma época, teve um certo prestígio no meio local, em curtas biografias. (Como escreveu corajosamente Paulo Francis, em seu livro de memórias, 1964 – Trinta Anos Esta Noite, “só gente de certa categoria social importa no Brasil”). Aqui acontece o mesmo. Um pobrezinho, lascado, mas que saiba escrever e tenha tino para a coisa, não tem o menor valor em Caetité. Nem adianta! Conheço gente aqui, que mal tirou o primeiro grau, e escreve muito melhor que certos “acadêmicos” que eu vejo aí. Voltando aos acadêmicos: São alguns: Maria da Conceição Pontes, que equivocadamente consta ter falecido em 23/17/1973. (Gente, estamos falando de uma publicação de Letras, Acadêmica, não poderia existir erros tão grosseiros. Dizer que a mulher morreu no mês 17...) , Manoel Teixeira Ladeia (cuja Acadêmica Fundadora vem a ser sua filha, a professora e advogada Jussara Ladeia, de quem antipatizei quando fui seu aluno), Gerson Prisco da Silva, Waldir Cardozo, Emiliana Pita (autora do Hino de Caetité), sra. Idalina Vieira Cardoso, Marion Gomes e por aí vai.
Outra coisa que me chama bastante atenção: Alguns dos “nobres” acadêmicos fazem toda a questão de ostentarem suas formações, seus concursos, como se isso fosse sinônimo de ter talento. Como se isso fosse franquia para escreverem poesia de qualidade. Lamentavelmente, não temos um material de primeira. Um é advogado, o outro é médico, é “Bacharel” pra cá, é “Doutor” pra lá... e a Academia fica a nos dever trabalhos mais apurados e mais bem feitos. Há um “poema” que, dando de barato, é o fim da picada. Trata-se de A Prostituta, de autoria de Dr. Jorge Araújo. O pedantismo está já nas primeiras linhas. Vejamos: “Não cruzarei o Aqueronte nem o Letos / sou um verme”. Ele fala em “balde de lixo em pletora” – sabem o que é pletora? Pesquisem. “Mortos pálidos projetos”. Como se considera um talento múltiplo, Jorge Araújo também publica contos, como O Estrado. Em outra composição ‘poética’, enaltece o idioma de Camões e Pessoa, cita Drummond de Andrade, e diz que “adora as perfeitas flexões / e as mais-que-perfeitas conjugações”. É isso aí. Acabei, curiosamente, de me lembrar de uma música de Caetano Veloso, Língua, talvez a maior exaltação que temos do português. “Da rosa no Rosa / Da pessoa no Pessoa”.
Um pequeno poema – Agora, André Koehne (advogado) botou pra lascar em A pequena Formiga, poema de sua autoria: “Era uma pequena vez (sic!) uma pequena formiga que morava num pequeno buraco, num pequeno beco duma pequena cidade” (...) A pequena formiga legou-nos uma pequena lição: “É uma merda ser pequeno”. É impressionante! Tirem suas próprias conclusões. Eu vou ficar quieto, que é melhor.
Jóias – Agora, há preciosidades. Em minha opinião, a melhor escritora da Academia é uma senhora chamada Tânia Martins. Essa, sim, orgulha a Academia da qual faz parte. Ela escreveu alguns livros, e não é de hoje que os jornais se interessam em publicar sua obra. Que bom ler o que Tânia escreve. Apresento aos visitantes, jóias como Identidade (“Sê estrela do mar se não podes ser luz no infinito / Sê candeia, no recesso de teu ser, se não podes ser sol iluminando mundos”) ou então em Sonhador onde ela indaga: “Que pretendias tu quando brincavas com estrelas se sabias que nunca poderia tê-las? / Por que te consomes no fogo da ansiedade / se tu soubeste que amar (...) é só saudade?”
A vocês que chegaram até aqui, o meu forte abraço e até logo!

REDESCOBRIMENTO PELO LIVRO DAS IGNORÃÇAS DO PANTANEIRO MANOEL DE BARROS


Há qualquer coisa de desconcertante na leitura de, O livro das Ignorãças, do poeta matogrossense Manoel de Barros (n. 1916). Qualquer coisa para as quais as palavras usualmente utilizadas não estão prontas para descrevê-las. Por isso, é preciso, como ele mesmo aconselha botar “delírio” no verbo, “adoecer de aflição” as palavras, desequilibrar a razão, provocá-las, reinventar sentidos para elas, para que aí sim, renovado a linguagem com suas expressões inusuais, ler a sua poesia. Diversa de toda produção poética da nossa literatura, sua obra está no ponto em que a escrita salva e redime-nos de todos os desgastes. Sua preferência pela fala do homem comum, das crianças, e da exaltação da natureza; têm como intenções reaproximar o homem, incapacitado e quase inutilizado, para valorização do que é aparentemente inútil. “Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz”, diz em AUTO-RETRATO FALO, único poema titulado de todo o livro. Ocupar-nos de uma poesia, tão intransigente com a linguagem, renova-nos os sentidos e valoriza nossa percepção do sutil. Deixar-se voar fora das asas, como quer o poeta é, experimentar enxergar sem intermediárias retinas o espetáculo da vida pelo constante redescobrimento das palavras.

A PROPÓSITO DA LIBERDADE

Por feitio sou daqueles que acreditam na liberdade e no desejo de liberdade a toda prova. Não há meio termo possível que possa dirimi essa disposição de espírito. Nem meios tons indefinidos me agradam. Não me ânimo mais a discussões ideológicas e apaixonadas que vejo serem inúteis. E cujo prólogo principia a guerra. Por isso não creio que governos que cerceiem a liberdade, se perpetuem no poder, devam ser respeitados ou defendidos. Sou radicalmente contra o encarceramento das vontades dos cidadãos ao desejo de qualquer governante. É ainda não tolero que uma vez que te decretaram que tens pneumonia, se comporte com um pneumático.

Nelson Rodrigues jamais foi um pornógrafo

Alexandre Frota: pornografia pra ninguém botar defeito. Nelson, não.

Não quero posar aqui de advogado do diabo. Não. Mas é que eu não suporto mais tanta injustiça que vem, ao longo de tantos anos, sendo praticada contra o mais visceral escritor do Brasil, o pernambucano Nelson Rodrigues, que, jornalista e já residindo no Rio de Janeiro, conseguiu a duras penas, montar a complexa Vestido de Noiva em 1943. Essa peça, graças ao espetáculo deslumbrante de Ziembinski e ao próprio enredo, inimaginável para a época, consagrou sua carreira de dramaturgo. Isso é o que distingue os gênios. Estarem à frente de seus tempos. Só.
Mas dali para frente, Nelson não viveria momentos de glórias e de louros, como merecia. Cada nova peça, cada entrevista dada, cada livro editado, seriam dores de cabeça tremendas para ele, porque os pseudoconvencionais não quiseram enxergar a vida como ela é, assim sendo, era – ainda é – mais cômodo acusar o dramaturgo de “imoral” e de “pornográfico” do que reconhecer seu enorme talento criador. Muito poucos deram a mão à palmatória. Percebo que coragem não ficou mesmo para todo mundo. A realidade é feia, cruel, amarga, as pessoas são mesquinhas, elas sim taradas sexuais e transtornadas, gente que alimenta os desejos mais abjetos, e o pobre do Nelson é quem tinha de pagar o pato? Exatamente. Seu grande erro: desmascarar a mesquinhez que vivia maravilhosamente encoberta da nossa melhor soçaite.
E outra coisa: quem disse que teatro deve ser passatempo? “Minhas peças são desagradáveis e teatro não pode ser bombom com licor”, dizia Nelson. Estou com ele e não abro. Boa literatura é aquela que choca, que provoca, que agride, que causa desconforto e náusea. (Daí porque sou contra os livros de auto-ajuda).
Dirão alguns que o sensacionalismo é a maneira mais fácil de chocar. De acordo. Mas acontece que Nelson nunca apelou para o sensacionalismo barato, infelizmente um consenso entre a maioria. Suas obras trazem uma história, marcada por tempo e espaço, e o sexo funciona simplesmente como pano de fundo. Sensacionalismo de verdade, em minha opinião, que faz muito bem é Alexandre Frota. Seus últimos filmes, sim, são a mais autêntica pornografia. Nelson, não.
Meu Deus do Céu, será que ninguém entende que essas obras são claramente morais? Nelson Rodrigues jamais se deleitou com a podridão, meu povo! Ele era um conservador ferrenho – talvez até mais do que eu ou você. Por isso acredito que Nelson sofreu (ainda sofre) uma perseguição violenta e incongruente. Escrevo este texto na esperança de que golpes baixos e barbaridades dessa natureza deixem de ser alardeados contra um mestre da nossa literatura dramática.

... END THE OSCAR GOES TO

Daqui a poucas horas teremos a octogésima edição do Oscar. Essa premiação que chama tanto a atenção do mundo tem razões que muitas vezes nos escapam. Assim, não é de se admirar que obras de qualidade duvidosa abocanhem inúmeras estatuetas. Enquanto outras com largar contribuição ao cinema, e reconhecimento da crítica especializada, saia mal na cerimônia. Podemos evocar muitos exemplos que se prestam a compreensão do que digo. Em quase sessenta anos de cinema Alfred Hitchcock criou um gênero, a saber, o suspense, e inúmeros tipos que ajudaram a impulsionar o cinema no mundo. Sobre suas obras Truffaut em livro memorável, disse: “seus filmes, realizados com um cuidado extraordinário, uma paixão exclusiva, uma emotividade extrema disfarçada por um domínio técnico raro..., desafiam o desgaste do tempo, e confirmam a imagem de Jean Cocteau ao falar de Poust: ´sua obra continuava a viver como os relógios no pulso dos soldados mortos´”. No entanto, todas as inovações e reconhecimento não foram suficientes à academia, que o indicou seis fezes ao prêmio de melhor diretor, mas só lhe deu o prêmio de consolação pelo conjunto da obra em 1968. A esse gigante ignorado completam a lista nomes como Stanley Kubrick, Fred Astaire, Orson Welles que dirigiu e atuou em seu primeiro filme Cidadão Kane (1941) apontado por nove de cada dez críticos, como o melhor filme feito até hoje, isso tudo com 24 anos de idade, ainda ficaram de fora da premiação, Federico Fellini que só ganhou o honorário; Charles Chaplin, Greta Garbo... Parece que os holofotes de Hollywood são miopias. Enxergam apenas cifrões.


... COMO DEUS CRIOU A MULHER

Juliette Binoche no filme A insustentável leveza do ser.

O cinema francês não se cansa de produzir belas e talentosas divas, para deleite do público de todo o mundo. Desde o advento de Brigitte Bardot, que fundou definitivamente o padrão de beleza cinematográfica na França, nenhum outro diretor se arriscou em comprometer sua película, deixando de fora uma deusa. Como uma formula pronta para atrair publico, eles carregaram as telas dessa presença arrebatadora chamado: símbolos sexuais. Assim, também o publico antes reprimido, passou a ver nos filmes o que só se passava em suas cabeças. A aparição de Brigitte Bardot no filme, ...e deus criou a mulher, do diretor Roger Vadim, no auge de seus dezessete aninhos pra lá de erótica, tornou, à partir da ai, o cinema nada inocente. Pelo contrário incendiou as salas escuras de uma beleza plástica incomum e reinventou a sexualidade. De lá para cá, multiplicaram-se as presenças divinas nos filmes. Catherine Deneuve, musa do cinema de Buñuel foi o sensação dos anos 60 ao estrelar a fita A Bela da Tarde. Nela Deneuve interpreta uma burguesa reprimida sexualmente que à tarde foge de sua vida medíocre para se entregar aos prazeres mais luxuriantes num bordel. Isabelle Adjani, Juliette Binoche, Irene Jacob, Emmanuelle Béart, Marion Cotillard, Laetitia Casta, Ludivine Sagnier, Audrey Tatou (por que não?) e mais recentemente Eva Green, fizeram do mero ato de assistir a um filme uma celebração à beleza. Nem mesmo os carrancudos intelectuais da revista Cahier du Cinema, resistiram a bruxuleante magia dessas mulheres. Há artigos e resenhas que mais pareciam cadernos de anatomia do que analises fílmicas, escreveu o crítico Antoine de Baecque. Difícil mesmo é deixa de se encantar por essas sereias.

O MEDO DO INFERNO

O líder da Igreja Católica em sermão aos fiéis no ano passado reafirmou sem meias palavras, que o inferno existe de verdade, não se trata de uma metáfora, mas de uma realidade concreta. Cioso de seu rebanho o papa Bento XVI lembrou a Bíblia, em sua incorruptível e invariável certeza, nas palavras de São Paulo e São Mateus. Em outra época, quando a Igreja guiava a ferro e açoite as vontades humanas, esse discurso ardia literalmente nos servos que por suas heresias e imprudência tinham seus atos corrigidos na fogueira, tal como no inferno que prega hoje o cardeal Ratzinger. Na teologia romana parece não haver outro sermão que não seja fruto do medo. “O medo, que esteriliza os abraços,(...)/ o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas.” O medo por toda parte, como em Congresso internacional do medo de Drummond. Tudo que a igreja católica tem para oferecer aos seus fieis, de ontem e hoje, não passam de conselhos apocalípticos e assombrações medievais. Menos brioso parece ser os discursos contra a própria igreja, que fecha os olhos e encobre os atos de pedófilos dos seus, ou nega-se a aceitar os apelos de muitos padres pelo fim do celibato. Se Deus existe, espero que Ele tenha uma boa desculpa para tudo isso.

MAIS LIÇÕES DE POESIA - O FERRAGEIRO DE RECIFE


Além dos autores, Mário de Andrade e Ezra Pound, que destaquei no post anterior como exemplos de autoridade literária sobre preceitos constitutivos do oficio poético, forçoso é lembrar outro nome, como o do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, quando o tema é poesia. Nele o rigor da forma e a expressividade do conteúdo exprimem como nenhum outro, até então, um acurado senso critico, traduzido num intransigente apego ao real e a lucidez mais extrema, em oposição ao lirismo e poesia dita inspirada. Acontece que com ele, a poesia deixa de ser etérea, perde seu caráter de oratória e finca pé no chão. Mesmo sendo, eminentemente, um poeta, João Cabral nunca se distanciou das reflexões que envolveram seu trabalho. Como escritor que nunca dissociou a condição e o trabalho de poeta da reflexão estética acerca da essência e função da poesia, Cabral acabou por se tornar, assim como que um, poeta-critico. E foi como poeta-critico que ele nos deixou em versos um sumário de suas idéias fixas. Como Octávio Paz se referindo a Fernando Pessoa alegando, que a biografia desse era sua obra, assim, sucede que com Cabral sua obra fala por si e dita, através de suas normas rígidas a tipologia de sua composição. A seguir um bom exemplo de como o imbricamento crítico de sua visão poética se traduzia em poesia.

O FERRAGEIRO DE CARMONA

Um ferrageiro de Carmona
Que me informava de um balcão;
“Aquilo? É de ferro fundido,
Foi a fôrma que fez, não a mão.

Só trabalho em ferro forjado
Que é quando se trabalha ferro;
Então, corpo a corpo com ele;
Domo-o, dobro-o, até o onde quero,

O ferro fundido é sem luta,
É só derramá-lo na fôrma.
Não há nele a queda-de-braço
E o cara-a-cara de uma forja.

Existe grande diferença
Do ferro forjado ao fundido;
É uma distância tão enorme
Que não pode medir-se a gritos.

(..............................................)

MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. 1994. p. 595

O SECTARISMO METAFÍSICO DE ANTERO DE QUENTAL

Pintura: Antero de Quental, por Columbano Bordalo Pinheiro

Os poetas portugueses sempre foram afeitos a poesia metafísica, mesmo os realistas, como Antero de Quental (1842 - 1891) que exercitou largamente esse espírito poético. A metafísica portuguesa vem, segundo Massaud Moises, da compressão imposta pela natureza, que oprime uma pequena facha de terra que é Portugal, entre o mar e o resto do continente Europeu. Na impossibilidade de avançarem sobre largas fronteiras de terras, eles exercitam a fantasia. Os habitantes, e os poetas em particular, transcendem essa condição terrena de opressão, para um plano espiritual, realizando suas fantasias, sonhos e desejos, numa outra realidade, paralela aos acontecimentos terrenos. Nessa viagem ao mundo onírico, os poetas pretendem idealizarem um mundo onde eles possam atender aos apelos dos sentidos, dos desejos irrealizáveis na terra, como forma de expurgarem suas angustias e temores mais sombrios. Os poemas versam sobre verdades intimas como no Palácio de Ventura de Antero de Quental que descreve os sonhos de um cavaleiro –ele mesmo – na busca de um destino mais promissor: “Sonho que sou um cavaleiro andante” .... “Paladino do amor, busco anelante”... “O Palácio encantado da Ventura”... A produção poética de Antero de Quental está intimamente ligada a sua vida, esse poema corresponde a última fase de sua produção poética, fase de retorna a Punta Delgada, onde ele é acometido por uma estranha doença que lhe infunde pensamentos pessimistas e um desejo de evasão, de morte e solidão. Os versos seguintes aos de desejo de encontrar a boa sorte, ressaltam esse pessimismo: “Mas já desmaio, exausto e vacilante,”... e segue em tom derrotista: “Quebrada a espada já, rota a armadura”.... até desaguar na última estrofe em uma realidade que nem mesma a metafísica poderia lhe ocultar... “Abrem-se as portas d´ouro, com fragor/ Mas dentro encontro, só, cheio de dor,/ Silêncio e escuridão – e nada mais!”. Esse pequeno soneto metafísico de Antero de Quental expõe a melancolia e o tédio desse cavaleiro que busca, mesmo já rota a armadura, encontrar em meio às guerras no mundo, um porto seguro de suas dores, e uma recompensa por suas aventuras, mas só encontra, depois de longa jornada pela vida: “Silêncio e escuridão – e nada mais!”. Alguma semelhança com a realidade?

LIÇÃO DE POESIA



Os textos a seguir são de dois dos mais notáveis poetas e críticos literários do século XX. A leitura desses serviu-me de parâmetros para compreensão e entendimento do caráter poético. O primeiro dos textos é de Mário de Andrade, que ajudou a definir os rumos de uma geração, quando ao lado de Oswald de Andrade, deflagrou o movimento Modernista em 22, dando novos contornos e dimensões à literatura e aos comportamentos artísticos do Brasil na década de 20. O segundo é de Ezra Pound, que pode ser sem embargo considerado um dos expoentes da poesia do século passado. Um e outro tinham em comum, além da inquietação e o viço artístico, a preocupação com o desenvolvimento da arte da escrita e pretenderam, como se verá, ajudar futuras gerações. Os excertos foram extraídos, respectivamente, dos livros, Aspectos da Literatura Brasileira e A arte da Poesia.


“O ano de 1930 fica certamente assinalado na poesia brasileira pelo aparecimento de quatro livros: Alguma Poesia, de Carlos Drummond de Andrade; Libertinagem, de Manuel Bandeira; Pássaro Cego, de Augusto Frederico Schmidt e Poemas, de Murilo Mendes. Todos são poetas feitos, e embora dois deles só apareçam agora com seus primeiros volumes, desde muito que podiam ser poetas de livro. Mas quiseram escapar dos desastres quase sempre fatais da juventude. Se fizeram e fazem versos não é mais porque sejam moços, mas porque são poetas.

Essa me parece uma das lições literárias do ano. Quatro livros de poetas na força do homem. Acabaram as inconveniências da aurora. A poesia brasileira muito que tem sofrido destas inconveniências, principalmente a contemporânea, em que a licença de não metrificar botou muita gente imaginando que ninguém carece de ter ritmo mais e basta ajuntar frases fantasiosamente enfileiradas pra fazer verso-livre. Os moços se aproveitaram dessa facilidade aparente, que de fato era uma dificuldade a mais, pois, desprovido o poema dos encantos exteriores de metro e rima, ficava apenas... o talento. E já espanta, um bocado dolorosamente, esse monturinho sapeca de livros de moços, coisa inútil, rostos mais ou menos corados, excessiva promessa, resumindo: bambochata que não resiste à primeira varredura do tempo.

Devia ser proibido por lei indivíduo menor de idade, quero dizer, sem pelo menos 25 anos, publicar livro de versos. A poesia é um grande mal humano. Ela só tem direito de existir como fatalidade que é, mas esta fatalidade apenas se prova a si mesma depois de passadas as inconveniências da aurora.(...)”

ANDRADE, Mario de. Aspectos da literatura brasileira. São Paulo: Martins, 1967, p. 27-28.


“Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como dim lands of peace (brumosas terras de paz). Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto.Provém do fato de não compreender o escritor que o objeto natural constitui sempre o símbolo adequado.

Receie as abstrações. Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se obstáculo da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas. O que cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã.

Não imagine que a arte poética seja mais simples que a arte da música, ou que você poderá satisfazer aos entendidos antes de haver consagrado à arte do verso uma soma de esforços pelo menos equivalente aos dedicados à arte da música por um professor comum de piano.

Deixe-se influenciar pelo maior número possível de grandes artistas, mas tenha a honestidade de reconhecer sua dívida, ou de procurar disfarçá-la.

Não permita que a palavra “influência” signifique apenas que você imita um vocabulário decorativo, peculiar a um ou dois poetas que por acaso admire. Um correspondente de guerra turco foi surpreendido há pouco se referindo tolamente em suas mensagens a colinas “cinzentas como pombas”, ou então “lívidas como pérolas”, não consigo lembrar-me. Ou use o bom ornamento, ou não use nenhum”.

POUND,Ezra. Arte da Poesia, Ensaios. Tradução de Heloysa de Lima Dantas e Paulo Paz. São Paulo: ed. Cultrix, 1976, p.11-12.