Lêdo Ivo


A morte, essa catástrofe pessoal.

A Espanha Cabralina


A Espanha exerceu fascínio em inúmeros artistas. Quem conviveu com a arte, a dança, a música ou mesmo com a arquitetura espanhola de inspiração moura, jamais saiu ileso de sua presença. Em 8 anos de Sevilha, o poeta João Cabral colecionou poemas que transparecem seu encanto pela cidade e pelo país ibérico. Alguns dos seus melhores poemas, ao menos para mim, falam das paisagens sevilhanas, com sua arquitetura monumental, dança e principalmente seus toureiros que metaforizaram a poética cabralina e ilustraram as lições ascéticas desse poeta incontornável. Vejam só esse belo exemplo:

LEMBRANDO MANOLETE

Tourear, ou viver como expor-se;
expor a vida à louca foice

que se faz roçar pela faixa
estreita da vida, ofertada

ou touro; essa estreita cintura
que é onde o matador a sua

expõe ao touro, reduzindo
todo seu corpo ao que é seu cinto,

e nesse cinto toda a vida
que expõe ao touro, oferecida

para que a rompa; com o frio
ar de quem não está sobre um fio.

Agrestes - 1985

Cativo


Existem vários tipos de cativo. Iludem-se aqueles que associam o cativo apenas àquele individuo emparedado nas grades de uma prisão. Essa é uma boa imagem, entre tantas, que podemos usar para ilustrar os muitos e variados modos de se estar privado de suas faculdades mais essenciais; a liberdade. Digo essenciais pensando em meu espírito, que não tolera a ideia de cárcere, de nenhuma espécie, seja ele político, religioso, tributário, social. A outros o cárcere nem é tão importante assim, pois não esboçam nenhuma resistência às amarras, paredões, e outras engenhosas formas de submissão. Mesmo o indivíduo que vive em um estado que lhe permite o gozo de suas liberdades, mesmo esse, pode ilusoriamente imaginar pertencer realmente a uma sociedade de livres, quando na verdade as evidências de sua vida o desmentem.  Há muitas arapucas dispersas por aí prontas para abocanharem os últimos insubmissos na selva das cidades. Não se tolera, mesmo que se diga o contrário, a hipótese de alguém viver livre de qualquer grilhão. De certo modo, temesse esses indivíduos ou invejam-lhes a coragem, não sei, mas acho que a segunda hipótese tem uma dose maio de verdade.  

Oscar Niemeyer 1907-2012


O SUPLÍCIO DE TÂNTALO


O que será melhor? Estar cheio de sede no meio do deserto, ou estar com um copo de água encostado aos lábios mas sem poder bebê-la? Ter sede é ter sede, seja em que circunstância for. Mas a penitência será maior se soubermos que temos a possibilidade de beber a água que não iremos beber. 

Daí ser preferível o estado de inconsciência perante um bem que nos falta, do que viver com a consciência da sua inacessível existência. A chatice está no raio do conjuntivo. Uma vida inteligente sem o modo conjuntivo seria menos inteligente mas muito mais fácil de ser vivida. E tanto me refiro ao presente do conjuntivo como ao pretérito imperfeito do conjuntivo ou ao futuro do conjuntivo. 

O modo indicativo dá-nos a realidade mas o conjuntivo dá-nos a merda da possibilidade. E se é verdade que é por via da possibilidade que nos elevamos a um nível de existência superior, também é por via da possibilidade que nos enterramos no pântano do sofrimento. Tivéssemos apenas o modo indicativo, passado, presente ou futuro e esse mesmo passado, presente ou futuro seriam simples, rasos, tão implacáveis como um nascer ou pôr do Sol. Diríamos "Eu fiz, faço, farei", "Eu fui, vou, irei", "Eu aceitei, aceito, aceitarei" com a mesma inconsciência mecânica com que a ninfa Eco repete os últimos sons de Narciso ou com a mesma determinação com que um animal cumpre as suas obrigações. 

Mas depois vem o conjuntivo e estraga tudo. Olha-se para o passado e pensa-se no que poderia teria sido, olha-se para o futuro e pensa-se no que poderá vir a ser. E, a partir daí, tudo se torna labiríntico, tortuoso, infinitamente complexo. 

Eu gosto do mito adâmico e não me desagrada a ideia de ser filho de Adão. Mas foi com Tântalo que começámos verdadeiramente a ser humanos.

Four more years

Democracia

fotografia da iemenita Bouchra Almutawakel
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Não acho a democracia o melhor dos modelos político. Não é o povo que realmente governa e decide. Grandes corporações e conglomerados empresariais manipulam aqui e alhures a marcha dos acontecimentos. Fazendo valer muito mais as suas vontades do que as necessidades do povo, eles desmentem, sem nenhum decoro, todos os dias, os fundamentos que sustem a ideia de que o regime existe para atender as demandas da maioria. Não precisa ter feito o Mobral para constatar que quem manda no mundo é o deus dinheiro. Os governantes de fato estão bem longe dos gabinetes políticos. Eles transitam por outra esfera social. A democracia é apenas uma festa popular engendrada nas massas para legitimar a farsa que é o governo do povo. Porém, diante da baixa qualidade dos regimes em oferta, não nos resta alternativa a não ser aguentar esse; pelo menos até que irrompa contra seu próprio peso os diques de contenção do inconformismo e faça surgir outro modelo, mais justo, menos fajuto. As notórias imperfeições da democracia, no entanto, são bem melhores, ou toleráveis do que as excrescências dos regimes totalitários, imperiais ou teocráticos que se alastram pelo mundo. 

O capitalismo não poupa ninguém

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Já não vai longe, pois nem tanto tempo se passou assim, em que todas as nações Ocidentais sonharam um dia em ser como a Grécia. Em tudo se invejava o país de Sócrates, Platão e Aristóteles. Da arquitetura monumental, passando pelas artes até chegar aos ideais de beleza. Os gregos construíram um ponto de viragem na civilização, que de tão vigoroso, pavimentou, os caminhos que abriram um novo mundo. Ninguém lhes ousava ultrapassa os feitos. Sabia-se de antemão a tarefa inglória que seria essa empresa. Às nações mais prosperaras comprazia-se com a imitação, deixando bem evidente, é claro, as fontes onde buscaram inspiração para tudo o que iam construindo a sua volta.  Não se temia o decalque. Nesse caso ele era, não só tolerado, como ainda representava um sinal de status. Poder imitar a Grécia era uma glória. Quem reproduzisse os modelos gregos de civilidade já eram bastante civilizados. Hoje, no entanto, a Grécia vive outra situação, bem menos invejável. Afundada numa crise financeira que parece não ter fim, todas as nações evitam comparações temendo o contágio das más notícias que projetam para os próximos anos um panorama trágico para nação que inventou a “tragédia”. O que os bárbaros não foram capazes de destruir em anos de tentativas frustradas contra a Grécia o Capitalismo não poupou. 

A ingenuidade de não haver sido revelado às coisas



Esforçamo-nos a vida toda por sermos bons, justos e honestos. Mas vêm as circunstâncias e nos arranca todas as nossas melhores determinações. Azar, acaso ou injustiça social, chamemos do que quisermos, o certo é que estamos à mercê de forças que, às vezes, não podemos, mesmo querendo, controlar. Alguns de vocês devem estar agora mesmo recriminando-me por julgar essas qualidades circunstanciais. Por certo vocês, se assim me avaliam, as têm como inatas ou indivisíveis de alguns homens, mesmo em situações opressivas. Pensam que os índios, as crianças, os religiosos, os santos e outras qualidades de homem, espelham aqueles dotes que vocês tanto almejam crer indissociável da alma humana. Creem-na, como uma marca divina, a única talvez, que os permitam aliar o homem a um deus todo poderoso criador do céu e da terra, bem como desse ser que insiste, em todas as suas fraquezas e vilanias, em contradizer as qualidades supremas do criador que os moldou. Se sentem assim a bondade, a justiça e honestidade tanto melhor para vocês. Não têm que lidar com questionamentos morais, sociais que desmentem, ao menos naqueles que não creem nos seus pontos de vista, na ideia de que o homem seja uma fonte inesgotável de bondade a toda prova. Teorias religiosas que nos persuadam das qualidades que de certo não temos dão-nos o conforto de não pensarmos além delas. Se seguros estamos de nossas convicções e cremos nelas, mesmo que isso não nos dê prazer, ao menos nos evita grandes preocupações, e afasta-nos a presença da dor de pensarmos em coisas que não deveríamos pensar. Tudo, portanto, resumi-se a entrega de nossas inquietações às respostas mais fácies. 

Mantra

Benditos os que não confiam a vida a ninguém

Barnardo Soares. Livro do Desassossego, p. 95.

Impostura literária


Um amigo recomenda-me a leitura dos poemas de certo Georg Trakl. “Leia os poema, mas evite seguir seu comportamento”. Não que eu acredite que os poetas estejam acima do bem e do mal, ou que suas vidas sejam exemplos para grandes coisas, mas todas às vezes que a recomendação de um autor vem seguida de um lembrete para se distanciar de sua vida, sinto que irei gostar muito desse artista. 

Não conheço esse poeta e não sei o que ele fez de tão cabeludo para merecer a recomendação de não ser seguido. Porém, me encantam, os autores malditos. Para mim há mais verdades naqueles que molestaram as certezas estabelecidas - e sinto que essas sejam as razões de tantas recomendações - do que naqueles que insistem na fossilização da vida. 

Os poetas e artistas em geral tornaram-se suspeitos, por não aceitarem passivos os arreios tirânicos impostos a todos àqueles que sentem de forma insuspeita a sua vida. Miller, De Quincey, Plinio Marcos, Genet, Bukovsky, Baudelaire, Rimbaud, Sade, Maquiavel, Hilst, Pavese, Passolini, e outros tantos, estão no rol desses infratores da moralidade vigente. 

Feito kamikazes eles se atiraram contra as instituições fajutas implodindo seus valores de fachada. Só por pressentirem a vida, da forma que ela lhes apresentava, insuficiente; insubmissa e intolerável, eles foram tachados de rebeldes, desordeiros, malucos, bandidos e outros adjetivos e qualificativos assepticamente moldados para distanciar o público do contágio de suas pragas. 

Para mim, tantas reservas, tentam invisibilisar alguém que por sua postura inconveniente tornou-se pernosa non grata ao status quo, e por imerecida justificativa foram lançadas à margem da sociedade. A melhor maneira de desmoralizar alguém é sempre distorcer a sua imagem. Dar-lhe os predicados que justifiquem a distância das maleitas que carregam aqueles malfeitores, bandidos, escroques e degenerados. Os julgamentos morais quase sempre são feitos com base nas aparências. Infringir os limites estabelecidos pela sociedade pode render àqueles subversivos, transtornos para o resto da vida. 

Tempos de escândalos são muitos


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De tempos em tempos somos sacudidos por escândalos, que os menos desavisados encontram parentesco com outros tantos casos semelhantes, que por momentos avexam a consciência nacional. A malta inteira se agita como um bando de bisões assaltados pelo predador, estourando o rebanho. Mas, logo em seguida, todos voltam a pastar pacientes e sossegados. Vivemos assim, contamos os dias, as horas e os meses mediante as vergonhosas ações de nossos homens públicos. Antes, durante e depois da redemocratização não contamos um único ano em que pudemos nos orgulhar da decência de qualquer um dos nossos líderes. As décadas estão todas cheias de delinquência. Incorrigíveis, insistimos nos erros do passado como se o tempo não trouxesse nenhuma lição, como se a história não existisse, como se a vida fosse um pasto em que as gramíneas suculentas são mais emergentes do que a vigília aos predadores.

É preciso mudar tudo para que nada mude.


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
(...)

Os versos do poema de Camões se aplicam a quase tudo nessa vida, menos a uma esfera da nossa sociedade, que parece imune a todo tipo de mudanças: a política. Os líderes desse país encontraram uma maneira, muito eficaz, de emperrar as engrenagens da mudança e empenham todas as suas ações na manutenção de suas qualidades duvidosas. 

Caçadas que não é de Pedrinho

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Com a devida vênia reproduzo o instigante texto recolhido aqui. Lane Donato é aluna do curso de Letras da UNEB, Campus VI Caetité.

 

Barthes nos diz que a língua é fascista.  Estamos presos às amarras lingüísticas e a todas as ideologias que por elas circulam, já que a língua é por excelência, o veículo das ideologias. Não somos livres! Mas o próprio Barthes nos ensina o caminho da liberdade: ‘trapacear’ com a língua - artifício que só conseguimos através da Literatura. 
 
Ao falar de nós e pra nós, nos fazendo passear por caminhos devolutos, experiências e dramas tão comuns à essência humana, a literatura aproxima o abismo existente entre a vida e o homem. Vida essa que ‘não nos basta’, mas que a literatura preenche, na medida em que saltamos para dentro da história usando o ‘pó de pirlimpimpim’ e nos apropriamos das personagens, de seus medos, anseios, esperanças, alegrias.   
 
Tenho sorte na vida... A minha infância foi uma floresta encantada e infinita. Por ela passaram lobos-maus, caçadores, sacis, iaras, príncipes, princesas! Sofri e senti medo da bruxa com o João e a Maria.  Aprendi com a Branca de Neve e os Sete Anões que com verdadeiros amigos é possível vencer as piores maldições- E  mais tarde ,  aprendi com O Pequeno Príncipe o valor de cada respiração , de cada amigo. Chorei agradecida.  Viajei com Gulliver... As histórias de Verne cultivaram em mim o gosto da liberdade. Descobri também que quando se quer voar, é preciso se arriscar a ficar tonta. E mesmo assim o vôo sempre valerá à pena. Já o amor ao vôo e aos passarinhos quem me ensinou foi o Manoel de Barros.  Foi o Manoel que também despertou a criança adormecida em mim. Manoel transformou-se no meu passaporte pra infância. Cresci e estudei com o Harry Potter em Hogwarts. Vi de perto as batalhas de Carlos Magno e seus pares de França. Conheci Lampião e seu bando nas trilhas do Cordel. E em cada linha, reconheci a voz de minha avó, seus causos e exemplos. 
 
Infelizmente nenhuma Sherazade me acalentou o sono com suas histórias fantásticas antes de dormir... Em compensação, tive um gênio e um tapete mágico de companhia por todo o caminho. Quando o Ali Babá disse o ‘abre-te sésamo’, eu estava lá. 
 
Pedrinho me mostrou a força que há na coragem. Emília que a gramática pode ser divertida e também ensinou a não me contentar com o dado e o pronto. E o Visconde, ah! O Visconde ensinou-me a amar a sabedoria. 
 
Ao lado da Florbela Espanca vivi os amar-gos de minha adolescência... Foi nessa mesma época que aprendi a conversar com Machado de Assis, Bentinho, Capitu, Brás Cubas...  Fui à cartomante e descobri com o Alienista, que de médico e louco, todo mundo tem um pouco. Foi também na adolescência que comecei a odiar o José de Alencar. 
 
Com Hamlet sofri as tensões, a crueldade da dúvida, a ânsia da vingança... Foi Hamlet que me contou que a melhor saída é tomar boas doses de coragem e lutar contra o mar de angústias que tantas vezes nos aflige em vez de abaixar a cabeça e sofrer as ferozes flechadas do destino.  Numa de nossas conversas, percebi que não devo me assustar com o mundo... pois ele é por vezes sem graça, sem alma... inútil! 
 
Lamentei a morte e o amor de Romeu e Julieta... No entanto, suspirei com uma das mais lindas declarações do universo..tanto que guardo até hoje alguns versos na memória e no coração..‘Ah, então, minha santa criatura, permita que os lábios façam o que as mãos fazem; tens de concordar comigo, em que elas se unem em prece, para que a fé não se transforme em desespero’ [p.43]. 
 
Com Otelo descobri como o ciúme corrói o mais nobre dos sentimentos... E a Bíblia acresceu-me a fé na vida, na nobreza do amor, em Deus e em mim. Ah! Tantas histórias assaltam-me a memória enquanto escrevo estas linhas! 
 
Tantos romances conseguiram chegar com profundidade em minha alma e mostrar-me, a face hedionda e sórdida do ser humano, as sinuosidades da vida - E a vida, vivida pelas páginas de um bom livro, apesar de todo o mau-agouro, desgosto, ainda nos diz, baixinho ao pé do ouvido: ‘— Sonhe-me, vale a pena. Sonhe-me, que vai gostar. ’
 
Muitos outros personagens ainda convivem comigo. Ficam guardadinhos na caixinha mágica da memória, sempre dispostos a aconselhar-me e a ajudar-me quando me falta a palavra ou a coragem do gesto para expressar o que sinto. 
 
Eles entraram por uma porta que nunca mais se fechará: a porta do Sítio do Pica-pau Amarelo.  Desde o primeiro dia que abri um livro do Monteiro Lobato, nunca mais saí dele.  Mal sabia o Lobato que ao abrir-me as portas do sítio, abria-me as portas do universo. 
 
Cresci com Narizinho e Pedrinho.  Morei no sítio, passei pelo reino das águas-claras.  O sítio ainda hoje respira compassivo nas minhas memórias de infância.  Em nenhuma dessas memórias há lembranças racistas, preconceituosas. Pelo contrário, há apenas a nostalgia do gosto pela aventura, pelas histórias, pela palavra. 
 
Hoje leio mais uma vez a notícia de censura contra a obra de Monteiro Lobato e inevitavelmente pergunto-me: É Lobato o preconceituoso ou é a nossa sociedade hipócrita, que joga o problema para debaixo do tapete e finge que não existe racismo nesse país?    Ele escreveu apenas um discurso racista ou há outras dimensões em sua obra? Como limitar a leitura de uma obra literária?  Como subestimar a imaginação de uma criança? Quem é capaz de adentrar no imaginário de uma criança? 
 
É lamentável ver a violência contra a liberdade, a estupidez em tentar engessar o discurso literário e a tentativa de escamotear um problema de ordem histórica, política e social. Sim, o racismo sustenta as bases históricas de nossa sociedade e é o crime mais perfeito que cometemos.  Não é censurando e promovendo uma ‘ caça as bruxas’ às obras do Monteiro Lobato que resolveremos a situação. 
 
Ademais, duvido muito que uma criança teça um olhar tão limitado a uma obra literária. Porque estúpidos são os adultos, não elas. 

Quando a política se torna um palco para o rancor e a agressão pública, ainda resta muito para uma democracia plena

A propósito do que leio aqui escrevo esse texto.

Quisera eu partilhar do mesmo entusiasmo que você caríssimo amigo. A vitória do Padre Deoclides em Serra do Ramalho bem poderia mesmo significar um ponto final às aflições que vicejam naquela terra. Quisera eu ter testemunhado um momento histórico. À vista dos fatos, no entanto, assistidos nos últimos dias em Serra, atiraram contra minhas ilusões a última pá de cal a alguma ambição de mudança de rota nas ações políticas daquele lugar para os próximos anos. Você sugere a ideia de aliança construída pelo diálogo, que levou a adesão da situação a um projeto encabeçado pelo Padre. Realmente é dificílimo acreditar nisso sem humilhar a razão.  A única adesão aparente - falo aparente, porque com a vida aprendi entre outras coisas o cortejo à cautela - foi a do Padre a um projeto político que em nada, absolutamente nada, pelo menos por enquanto, difere da cantilena daqueles notórios malversadores do patrimônio público, que de tanto tempo no poder, nem se lembram de ter feito outra coisa na vida.  Digo e repito talvez eu esteja exagerando. Talvez minhas palavras estejam sendo duras demais, rápidas demais, desiludidas demais. Talvez as coisas realmente possam ser superadas, contornadas e reerguidas com toda vivacidade, como você, eu e muitos outros desejam. Talvez o Padre não se dobre ao peso dos muitos, “experto ao contrário”, que o lembrarão de quem o levou ao posto de governo, e conduza com mão firme as mudanças tão necessárias e urgentes àquela terra. Talvez!. Meu caro amigo eu poria, juro... eu poria minhas austeras descrenças de lado com um gesto de mudança daquele em quem você já depositou tanta confiança. Mas, como acreditar nisso se o que vemos, são as mesmas atitudes daqueles que traíram a confiança do povo por tanto tempo. O padre bem pode está coberto de boas intenções. Suas atitudes podem mesmo, a despeito de tudo o que vivenciei em Serra nas últimas horas, ser progressista, como você afirma. Talvez eu esteja atrelando apressadamente a imagem do padre àqueles que o seguem, sem lhe dar o beneficio da dúvida. Porém até esta data ele não me mostrou à que veio. É cedo. Você me chamará de louco por tentar julgar as atitudes futuras de um homem pelas ações de poucos instantes. Mas creia-me desconfiado e nada mais. Com pouco mais de um terço da aprovação pública o Padre Deoclides foi rejeitado por mais de dez mil dos poucos mais de 15 mil eleitores serramalhenses. E qual a sua atitude diante disso? Mesmo em minoria, ele não teve a sensibilidade, a hombridade, mesmo possuindo um passado recente de pastor de rebanhos, de serenar os ânimos e aplacar o frenesi daqueles que atentam contra a democracia ao infligirem aos seus discordantes - lembrando que esses constituem a ampla maioria dos serramalhenses - músicas ofensivas não só a dignidade humana, mas também a democracia e o bom senso, que manda respeitar a todos. Se o padre é conivente com os atos dos seus correligionários, e se suas atitudes iniciais apontam para o mesmo caminho dos seus predecessores, o que me faria crer que ele pode fazer diferente. Não, meu amigo, não tenho motivo para acreditar que eles enterrarão “de vez a atitude beócia, maniqueísta de se escolher uma cor como símbolo de gestão”... nem tenho esperança de que eles farão “da adoção de todas as cores um símbolo da igualdade, da não predominância de uma preferência sobre a outra, da diversidade e do respeito às diferenças, pressupostos fundamentais da democracia.” A tão sonhada maturidade política deve começar pelos líderes. Quando eles frustram os gestos necessários para um novo começo, eles apontam para os rumos que darão ao seu governo. Não me sai da cabeça a ideia de que essas atitudes ilustram as ações futuras. 

Repasto Político

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Todos devem ter percebido como os candidatos são tratados nessa época do ano em que concorrem às eleições. Salvo raríssimas exceções, a maioria das pessoas os chama de ÍDOLOS. Meu ídolo pra cá, meu ídolo pra lá. Em nenhuma outra época do ano os políticos gozam de tanta estima do povo quanto nas eleições. Agradar um candidato, mesmo um de índole duvidosa, pode render alguns préstimos no futuro. Há sempre, portanto, a possibilidade de alguma púrpura, do manto de homens tão nobres, recaírem sob aqueles que não se furtam a demonstrarem o seu entusiasmo. Se o seus respeitados candidatos progridem, logo eles também estarão em marcha. “Não há poder” escreveu Victor Hugo, “que não tenha a sua corte. Não existe fortuna que não seja lisonjeada”. Outros vão mais longe e não se cansam de incensar o que eles insistem em chamar de qualidades exemplares para governança. Eu cá tenho minhas dúvidas de homens tão capazes. Para mim o que as multidões chamam, aos berros, de qualidades inequívocas para governança, não passa de ser ingenuidade daqueles que creem facilmente nas enganosas e sediciosas manobras perpetradas pelos gênios da propaganda. Nenhum político hoje se priva desse acessório, que de tão eficaz tornou-se, nas últimas eleições, item obrigatório para ter êxito nas campanhas eleitorais. Pode-se sempre contar com os seus truques de prestidigitador para iludir a malta. Assim ficam todos confortáveis fingindo miopia aguda e repastando os bocados de sua sórdida estupidez.  



Dúvidas apócrifas


Eu cá carrego comigo algumas dúvidas... mas eles aqui e ali vão aos poucos desmentindo-me.

Manoel de Barros



FRASEADOR


Hoje eu completei oitenta e cinco anos. O poeta nasceu de treze.
Naquela ocasião escrevi uma carta aos meus pais, que moravam na
fazenda, contando que eu já decidira o que queria ser no meu futuro.
Que eu queria ser doutor. Nem doutor de curar nem doutor de
fazer casa nem doutor de medir terras. Que eu queria era ser fraseador.
Meu pai ficou meio vago depois de ler a carta. Minha mãe inclinou a
cabeça. Eu queria ser fraseador e não doutor. Então, o meu irmão mais
velho perguntou: Mas esse tal de fraseador bota mantimento em casa?
Eu não queria ser doutor, eu só queria ser fraseador. Meu irmão insistiu:
Mas se fraseador não bota mantimento em casa, nós temos que botar
uma enxada na mão desse menino pra ele deixar de variar. A mãe
baixou a cabeça um pouco mais. O pai continuou meio vago. Mas não
botou enxada.

Manoel de Barros. Memórias Inventadas: As Infâncias de Manoel de Barros. São Paulo: Ed. Planeta do Brasil, 2008.   

Ser-Vil


O homem é um animal assustado. Acuado por demônios, ETs, pés-grandes, fantasmas, escuro e toda sorte de sortilégios, ele não ver outra saída, a não ser a servidão a esses mal-assombros.  Seu fim parece ser o de cultivar o medo em todos os estágios de sua vida. Não lhe ocorre, em nenhuma ocasião, que o medo é uma força alimentada por aqueles, que desistiram de encarar o desconhecido e se curvaram servilmente às sombras. 

A coragem adiada ou sob o abrigo do medo



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Talvez seja por meu ceticismo crônico, ou a simples falta de evidência. Seja lá qual a razão, o certo é que, não dou o menor ouvido às predicas de fim de mundo, que andam assustando as pessoas por aí. Ao se aproximar a apocalíptica data dos crentes do calendário maia, a única coisa que me acossa o juízo, é saber que esses messias, continuarão criando outras formas de dar cabo à existência humana, tão logo esse frenesi seja providencialmente esquecido. 

Estamos mesmo condenados a viver pelo medo, arrastando pelos séculos a firme esperança de prever ora em formatos de plantas ou tripas de animais, ou como agora nas fantasias de uma civilização pretérita, todas as nossas fraquezas de espírito e incertezas da alma. Não houve um único momento na história da humanidade em que os homens não deixaram de prever sinais de mal auguro em tudo. Investidos, como acreditavam, do mais puro sentimento, eles alardearam todo tipo de terror. Transformaram assim o mundo numa morada perpetua do medo. 

A julgar pelos presságios do passado, foi por um milagre, ou mero erro de cálculo - afirmam os empedernidos - que nos permitiu chegar, sãos e salvos ao presente. Porém, outros, abnegados visionários, muito bem dispostos, não perderam ainda, malgrado nossas esperanças, a determinação para consertar “todos os equívocos do passado”, e reinstauram, de tempos em tempos, uma nova previsão de catástrofe, que sucumbirá a humanidade, dessa vez sem sombra de dúvidas, para sempre. 

Enquanto muitos vão contando os fins dos dias eu passo as horas sonhando com as manhãs. Nada me demove a alegria de estar vivo e cultivando a vida. Quem deseja catástrofes vive em catástrofe. A única rota de colisão possível do homem é contra si mesmo e seus demônios. Em tempo, levo a vida desassombrado desses seres. 

Às Avessas

 
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Ando em descompasso com a realidade. Faltam-me os impulsos necessários para seguir aos muitos e afortunados lugares de desejo do mundo contemporâneo. Quedam-me outras paradas.  Detém-me, outros objetos, muito menos queridos pelas gentes. Não os julgo, porém, menos apetecível de cobiça por essa razão. Seria um parvo se assim o fizesse. Sinto apenas um fastio às coisas que a maioria não passaria sem. 
 
O resultado. Aos olhos do mundo moderno vivo uns sem números de tropeços, vexames e outras estultices. Embaraços que em vez de me fazerem corar - como muitos poderiam esperar - dão-me uma sensação de contentamento e alivio; pois não me sinto mesmo na vontade nem na obrigação de seguir pari passu, a vida contingencial que se me apresentam como ideal e segura. Aqueles que a seguem, hoje não as têm tão ideais e seguras assim. Sobram-lhes inquietações e tormentos. Falta-lhes a coragem de admitir.  
 
Imprimo outro ritmo à existência. Muito menos ambicioso como queriam alguns, e sonharam outros, mas, muito mais rico do que poderiam supô-las todos. A vida, contrariando todas as certezas, também se faz às avessas.


Das coisas que adoro fazer


Ocupo-me, de tantas coisas inúteis, que dia desses ainda terei a vida seriamente ameaçada por esse pendor. 

Indolente


Quando já me achava inteiramente recoberto de nomes pela vida, vem você e me rebatiza. 

Rede

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A rede faz parte da vida do Paraíba. Ela atravessa toda a sua existência. Ao nascer ele não pode contar com o luxo de uma cama, então é lançado ao balanço de uma rede, que lhe faz às vezes de berço.  Ao fim da vida esse utensílio doméstico, indispensável nas famílias nordestinas, que o salvaguardou de tantos desassossegos e desalentos da longa jornada da existência, é transformado em sua última companhia na morada final. Uma das cenas mais comoventes da peça Morte e Vida Severina, ocorre quando o viajante encontra pelo caminho um funeral de um lavrador que segue numa rede ao fatal destino.

- Dentro da rede não vinha nada,
Só tua espiga debulhada.
- Dentro da rede vinha tudo,
Só tua espiga no sabugo.
- Dentro da rede coisa vasqueira,
Só a maçaroca banguela.
- Dentro da rede coisa pouca,
Tua vida que deu sem soca
(...)

Depois de tanta parceria, tanto na vida como na morte, o nordestino não pode deixar de lhe render as devidas homenagens. Sobram-lhe motivos para admirar e benquerer o balanço manso de uma rede, seja à sombra de uma árvore ou ao abrigo de uma latada, não importa. Motivos que escapam àqueles que tiveram outras experiências de existência. Para muitos a rede se constitui no único alento ao corpo molestado pela fadiga. Ainda hoje é fácil encontrar na casa de qualquer nordestino uma rede espalhada em algum canto se oferecendo ao corpo. Lá em casa não existe apenas uma, mas várias. Em Rede de Dormir o estudioso da cultura popular Luís da Câmara Cascudo escreveu: "A rede é acolhedora, compreensiva, coleante, acompanhando, tépida e brandamente, todos os caprichos da nossa fadiga e as novidades imprevistas do nosso sossego. Desloca-se, incessantemente renovada, à solicitação física do cansaço. A rede colabora na movimentação dos sonhos". Lembro-me de minha avó. Em menina ela nunca soube o que era o aconchego de uma cama. Viveu boa parte da vida espinhosa de lavradora a meia, esperando o momento sublime de abrandar seu corpo trucidado pela lida, nos braços acolhedores de uma rede. Não me admira, portanto, que hoje aos 83 anos ela prefira uma rede aos largos espraiados de uma cama.

Os limites de minha linguagem denotam os limites de meu mundo

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Em 1904, Kafka escreveu a seu amigo Oskar Pollark: “No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos ao trabalho de lê-lo? Para que nos faça feliz, como diz você? Meu Deus, seríamos felizes da mesma forma se não tivéssemos livros. Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade, poderíamos escrevê-los nós mesmos. Precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, que nos façam sentir como se tivéssemos sido banidos para a floresta, longe de qualquer presença humana, como um suicídio. Um livro tem de ser um machado para o mar gelado de dentro de nós. É nisso que acredito”.

Fonte: Uma história da Leitura de Alberto Manguel, p. 113

Genial e inesquecível - Os 100 anos do homem que inventou o teatro brasileiro

Nelson Rodrigues (1912 – 1980).
Fonte: Antônio Guerreiro/IstoÉ
Téo Junior [*]


Lembro-me da primeira vez em que ouvi falar em Nelson Rodrigues. Eu tinha 17 anos, cursava o 3° ano do ensino médio na Bahia e, estando na casa de uma colega, ela me disse que naquela noite um homem iria decepar o órgão genital dele. Fiquei entre espantado e maravilhado com tamanha coragem. Perguntei-lhe: “Tem certeza, Zélia?”. Ao que ela me respondeu: “Eu já assisti. É hoje! Assista e você vai ver!”. Estávamos em 2002, e a Globo reprisava “Engraçadinha”, em comemoração aos 90 anos do “genial e inesquecível” Nelson Rodrigues – assim era a chamada. A minissérie que revelou Alessandra Negrini havia sido apresentada pela primeira vez em 1995.

Minha amiga referia-se à cena antológica em que Silvio, personagem de Ângelo Antônio, resolve adquirir uma navalha para mutilar-se, assim que descobriu que mantivera relações com sua irmã. Sempre acreditando que Engraçadinha fosse sua prima, não suportou o golpe da triste revelação. O pai deles manteve, num passado remoto, um relacionamento com a cunhada, mas tratou de abafar o caso – afinal, era um deputado. Silvio e Engraçadinha jamais souberam que eram irmãos.

Tive a oportunidade de ler todas as peças de Nelson, ver quase todos os seus filmes e posso asseverar: nenhum outro escritor, nacional ou estrangeiro, me fascinara tanto. Quando terminei a leitura de “A Mulher Sem Pecado”, cheguei à conclusão: é esse. Nunca mais o abandonei.

Nelson é tão fabuloso que a fortuna crítica em torno de sua literatura é quantitativamente superior a tudo o que ele escreveu ao longo de 40 anos de atividade incansável em jornais, no teatro e no cinema. Ao lado de Jorge Amado, foi o autor brasileiro mais adaptado para o cinema, com estrondoso sucesso de público. “A Dama do Lotação”, direção de Neville D’Almeida, é hoje a 3ª bilheteria do nosso cinema. Fica atrás somente de “Dona Flor” e “Tropa de Elite”.

Apesar de grande parcela de seus fãs preferir “Toda Nudez Será Castigada” (direção de Arnaldo Jabor), considerada a melhor adaptação dele para o cinema, nenhum outro filme rodriguiano impactou-me tanto como “Bonitinha, mas Ordinária” (refiro-me à versão de 1981, com Lucélia Santos, direção de Braz Chediak). O ser humano reduzido a um abutre, ao dinheiro que pode comprar tudo, ao apego excessivo às aparências, à humilhação sistemática que alguém pode impor àqueles que lhe são inferiores, ao seu ver, simbolizado na pessoa do milionário Heitor Werneck, mostraram-me um mundo vil, imundo, cuja moral vai se deslocando aos pouquinhos para o estado de putrefação. Resta ao espectador sofrer.

Sim, porque a literatura de Nelson Rodrigues não comporta a alegria nem a felicidade. O sexo, o amor, o casamento, a viuvez, a loucura – tudo está indissociável da felicidade. As personagens vivem mergulhadas em permanente estado de tensão. Acredito que Plínio Marcos, Fausto Woolf e Antonio Carlos Viana beberam da fonte de Nelson, a julgar pelos ótimos livros que publicaram.

Anarquizando geral a “sacrossanta” família brasileira – da mais pobre, como a de Silene em “7 Gatinhos” à mais rica, como a de Herculano em “Toda Nudez”, Nelson defendeu a importância de um lar asséptico. Gritando a infidelidade e exibindo no palco, sem máscaras, a prostituição e o que ela acarreta, Nelson valorizou a virgindade e o amor eterno. Escrevendo a respeito de patologias de foro íntimo, da corrupção moral dos homens, da política que fabrica canalhas, da banalização do sexo, do racismo (leia “Anjo Negro”), Nelson fora de um moralismo violento e feroz.

O homem que grande parte do País dizia ser “neurótico” e “tarado” disse, certa feita, que era contra a educação sexual na escola. “Educação sexual tem de ser dada por um veterinário a cabras, a bodes, a vacas. O ser humano não tem de ser educado para fazer sexo. O ser humano precisa ser educado para amar. Eu sou do amor eterno!”.

Nelson não era uma metamorfose ambulante. Ele tinha aquela velha opinião formada sobre tudo. Jamais será esquecido, inclusive pelos detratores do teatro dele.

Obrigado, Nelson Falcão Rodrigues, pelo bem que sua obra me fez.

* Téo Junior é crítico do Jornal Cinform de Aracaju e colaborador desse blog.

Henrique Manuel Bento Fialho - Petardo anti-sonolência.

fonte da foto aqui
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Só há paz possível e algum alento à modorra cotidiana, na arte. Depois de uma semana sisífica volto a ler o Henrique M. Bento Fialho. Como sempre ele atira contra mim e as convicções bovinas um petardo anti-sonolência. Sua poesia é um despertar das ilusões, um chamamento às consciências. Vai dai que alguns, convictos panglosianos da normalidade social, não enxergarão grande coisa nesses versos. Tenho, porém comigo a plena convicção de que muitos daqueles que pressentem algo de tortuoso e desajustado na política, na sociedade e na cultura contemporânea sentirão neles uma verdade inconveniente. E são de inconvenientes contra as correntes que nos arrastam pela “torrente dos dias” que são feitos os versos desse português arisco ao convencionalismo. Ao contrário de seus compatriotas, Henrique suspeito de cada gesto da vida moderna. Sem maneirismo ou figuras obscuras sua poesia dispensa o vocabulário insólito “sobre amores-perfeitos,/ Cidades ardidas, noites melancólicas... para percorrer os caminhos da vida com a sinceridade que rareia em todas as esferas sociais. Implacável contra a complacência que reina nas relações humanas, Henrique, na contramão daqueles que não dispensam uma sinecura, sentencia: Prefiro um emprego honesto à suinicultura/ Dos salões nobres, das universidades vazias. Até conhecer a poesia do Henrique Manuel Bento Fialho eu não sabia que era possível escrever poesia com tanta agudeza e ferocidade de espírito.



Não quero ser poeta num país onde os poetas
Estão ao nível dos secretários de estado,
Escrevem com o giz remoído das unhas

Versos de encantar musas imberbes
E olham para o lado, fingindo que não vêem,
Sempre que passam pela própria sombra.

Prefiro um emprego honesto à suinicultura
Dos salões nobres, das universidades vazias,
Dos colóquios a meia-luz nos jardins da fundação.

Um emprego honesto pode ser: plantar
Cornucópias na testa do consumo, regar
Palavras a esmo, lavrar as alcatifas poeirentas

De uma livraria mainstream arrastando os pés
Das mesas carregadas de lixo, como arrastados
Vamos nós na torrente dos dias.

Ou talvez arrumar crises nas prateleiras da austeridade,
Enquanto do outro lado do mostruário
Os poetas do meu país escrevem sobre amores-perfeitos,

Cidades ardidas, noites melancólicas e coisas assim
Fodidas.

A utopia necessária

fonte: aqui
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Meus alunos questionam-me sempre sobre o verdadeiro valor da literatura. Eu não deveria, pela obviedade dos fatos, e pela posição em que eles se encontram, voltar a esse assunto. Porém percebo cada vez mais o imperioso da discussão, e julgo inevitável falar mais do mesmo. Então lhes digo: Não sei o verdadeiro valor da literatura, porém suspeito de algumas coisas sobre ela. A literatura aponta caminhos alternativos aos oferecidos pela realidade. Questiona o inelutável da existência e revigora as utopias quando todos insistem em afirmarem que o sonho acabou. Diz-se então assim, que ela intui um futuro diferente daqueles ofertado pelo mundo dos que cansaram de sonhar. Insubmisso, questionador, ela insiste em rotas inexploradas e abre picadas nas consciências insones. Isso já seria o suficiente para torná-la uma ferramenta indispensável ao progresso da sociedade, mas ela ainda nos oferece mais, muito mais. Dá-nos, malgrado nossos esforços em contrário, uma consciência crítica, civil e política, além de uma consciência da própria linguagem ao questionar o seu convencionalismo e apontar para suas potencialidades mais surpreendentes. Estão aí os Barros, Cabrais, Meireles, Leminkins  que não nos deixam mentir. Em um mundo marcado pelo fetichismo mercadológico ela ainda se constitui no único refugio possível de nos livrar da sedução do canto comercialesco, que nos intenta bestializar com sua sordidez. Em um mundo poliédrico ela nos aproxima de outras realidades desmitificando o desconhecido e evitando assim os males da xenofobia. Quereis saber mais sobre isso? Leiam um livro e tirem vocês mesmo as suas próprias conclusões.  

Van Gogh

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Vincent van Gogh teve uma vida desgraçada. Foi autodidata. Em pouco mais de 30 anos de vida conheceu todo tipo de opróbrio. Foi rejeitado pelo pai, incompreendido pelos artistas de sua época, passou fome, peregrinou de um lugar a outro errando em busca de um pouso, sem nunca encontrar sua Shangri-la. Uma vida realmente miserável. “Os próprios cães da rua não quereriam dar em troco desta a sua”. Nada disso foi suficiente para silenciá-lo ou fazê-lo renegar o seu oficio. Seu sonho artístico era inegociável. Seu zelo por embeleza o mundo incorrigível. A despeito da incompreensão paterna, da indiferença social e do escárnio popular ele nunca se divorciou da ideia de se tornar um artista e contribuir, a sua própria maneira, com o mundo bem diferente daquele que ele herdou. As imagens abaixo não parecem de terem sido pintadas por alguém que conheceu o desespero. Mas foram. Nesta era metálica de sonhos egoístas as pinturas de Van Gogh violam aquela máxima que associam uma vida desgostosa a uma obra taciturna e desalentadora, sem brilho e sem sonhos. Os sonhos podem servir de salvaguarda à nossa resistência ante tantas certezas de dias piores. Depois de Van Gogh não temos mais o direito de pensar pequeno ou nos entristecermos. Depois dele todos os nossos problemas parecem menores e insignificantes.

Hesitar


Hesitar: demonstrar dúvida, fraquejar diante de duas ou mais possibilidades, postergar para um futuro incerto as resoluções determinadas pelas emergentes necessidades do agora; faltar; embaraçar-se diante de resoluções que não devem ser ignoradas; esquivar-se ante o pontapé sem reagir; receio; medo; insegurança; refrear as palavras, gestos e ações por pudor ou temor; deixar à sorte ou o vento encaminhar as coisas; assistir ao longe os acontecimentos sem intervir; aguardar que as coisas se solucionem feito um passe de mágica; pesar; recuar ante o adversário; temer ante a adversidade; julgar desfavoravelmente; desculpar-se por falta de convicção; sacrificar-se; renunciar ante a refrega. Por certo encontraríamos muitos outros meio de definir a palavra hesitação. Ela está entranhada em nossa natureza de forma incontornável.

Útil e honesto - Montaigne

"É um erro julgar a beleza e a grandeza de uma ação pela sua utilidade e imaginar que devemos fazer e considerar honesto tudo o que é útil."


Montaigne, Ensaios III: Do útil e do honesto, p. 367.

A Crítica

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A nossa geração se recusa a dá atenção à crítica. Teatro, cinema, literatura e música rejeitam violentamente as observações e julgamentos desses investigadores que a cada dia somem dos jornais, revista e veículos mediáticos, para o limbo das discussões artísticas. Até gente civilizada não entende «para que servem» os críticos.  Tenho cá comigo uma opinião de que tudo isso se deve ao fato de que, uma estúpida e corrosiva ideia de que não há nada mais a se dizer sobre as coisas, associado à preguiça mental que papagueia a imaginação alheia e entronaram a banalidade, o fútil e o opiniático como valores insuperáveis, são algumas das razões do desprestígio da função crítica na nossa sociedade. Eu prefiro antes uma sociedade aberta à crítica, do que aquelas que, marginalizam homens e mulheres por não se darem facilmente por satisfeitas e insistirem em fazerem inconvenientes questionamentos onde a maioria via (ou fingia) um consenso. Muitas das noções que hoje damos por adquiridas foram formuladas pela crítica mais aguda. A crítica sincera é muito mais construtiva do que o elogio imerecido. Mas as pessoas preferem o inebriante perfume dos discursos panegíricos, as ásperas, mas honestas opiniões, que nem sempre estão em conformidade com o esperado, daqueles malditos transgressores do conformismo. 

Amado Nervo (1870-1919) México



EM PAZ

Já bem perto do meu ocaso, eu te bendigo, ó Vida,
porque nunca me deste esperança mentida,
nem trabalhos injustos, ou pena imerecida;

porque vejo, ao fim de tão rude jornada,
que a minha sorte foi por mim mesmo traçada;
que, se extraí os doces méis ou o fel das cousas
foi porque as adocei ou as fiz amargosas:
se roseiras plantei, não colhi senão rosas.

... Decerto, aos meus ardores vai suceder o inverno;
mas tu não me disseste que maio fosse eterno!
Longas achei, confesso, minhas noites de penas;
mas não me prometeste noites boas, apenas,
e em troca tive algumas santamente serenas...

fui amado, afagou-me o Sol. Para quê mais?
Vida, nada me deves! Vida, estamos em paz!

Acaso

Preso a uma cadeia de acontecimentos e infortúnios que, ocasionalmente surgem, nenhum homem pode se dizer inteiramente livre. A liberdade é um alvo a ser alcançando, um desejo de realização, porém, nada garante o seu êxito. O acaso, esse componente indissociável da vida, muitas vezes se interpõe as pretensões mais nobre e alteram a rota de uma vida, que acreditávamos inalterável. Quando isso acontece, e não são raras às vezes em que podem ocorrer esses dissabores, vemos atirados ao pó todas as ilusões de uma vida segura, estável e minimamente equilibrada.

Um país inteiro de ferradura


A qualquer um, que a muito deixou de ter as mãos ao chão, pareceria, no mínimo estranha, para não dizer outra coisa, que um ex-ministro da justiça com reconhecido prestigio político, aceitasse defender um famoso contraventor acusado de um sem números de crimes indizíveis, cuja atuação se estendem por uma grande rede de influências em todo o aparado do Estado. A qualquer um isso pareceria uma ignomínia. Mas estamos no Brasil. Isso torna as coisas bem diferentes.

“O Anjo Safado”: peça interessante e sugestiva


Téo Júnior [*]

Enfim, depois de muita publicidade e expectativa idem, estreou no Teatro Atheneu o espetáculo “O Anjo Safado”, que permaneceu em cartaz no último final de semana. Apresentação bonita, com muita dança, música e bastante sugestiva.
A dualidade entre céu x inferno, pureza da alma x prazeres mundanos, quer dizer: o indivíduo em conflito consigo mesmo, que tanto intrigou (e fascinou) os homens no período medieval, veio à baila na peça - fascínio que teve em Gil Vicente uma dimensão maior.
Ressalte-se que, uma vez no terreno metafísico, os conceitos e aquelas normas de conduta que recebemos ao longo da vida vão sendo subvertidos por uma lógica distinta. Quando algum personagem se insere no universo pós-vida, na ótica cristã, as regras do jogo agora são outras.
O texto de Paulo Lobo é simples e direto. A maior vantagem dele foi estar isento de abordagens filosóficas complexas e que, no fim das contas, não sugere nada ou muito pouco. Teatro bom é assim: diz o que precisa ser dito de maneira econômica e eficaz.  A direção de Jorge Lins compreendeu a ideia do texto.
Guardei a sátira que foi feita em relação aos bispos gananciosos e hipócritas, e acredito que a crítica seja muito pertinente, uma vez que hoje a televisão brasileira está demasiadamente contaminada com uma leva de “pastores” picaretas e aproveitadores, alguns inclusive não resistindo à tentação de exibir horrendas sessões de exorcismo. Lobos disfarçados de cordeiros.
A cena onde a entrevistadora melindrosa Lais Bizarra (Eduardo Vieira) conversa com o chefe do inferno (o excelente Leandro Handel) foi impagável.
Duas vezes, foram exibidas cenas de orgia sexual com 15 participantes. Pura devassidão, que deixaria um pastor horrorizado.
E assim, de gargalhada em gargalhada, as verdades - algumas inconvenientes - vão sendo ditas uma por uma, e o teatro acaba se tornando uma espécie de espelho, onde o público tem a oportunidade de se enxergar e de refletir, como acreditava Molière.
Iluminação adequada, cujo palco ficou grande parte do tempo em penumbra, talvez para realçar o aspecto extraterreno do atormentado personagem José. Som e figurinos bons.
Antônio Leite, o protagonista, sozinho, já é um teatro. Teve um desempenho seguro e feliz. Trata-se de alguém que possui uma grande relação de afeto com o palco. Um ator experimentado e competente. 
Toda essa discussão coube no espaço de 1 hora.
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Crítico de teatro e colaborador do ETC’.


A Civilização do Espetáculo

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No momento em que a cultura (essa ficção) se submete à tirania do entretenimento e as pessoas se dão em espetáculos grosseiros em todos os veículos “merdiáticos”, retrocedemos a uma cultura carnavalesca, onde tudo é embrutecido, banalizado, onde o que é espalhafatoso e estúpido tem muito mais chance de ser recompensado do que o verdadeiramente meritório. Estão aí os artistas fantoches, os programas de auditórios e jornalísticos comprometidos com o lucro, os realities shows da vida, que não nos deixam mentir que o homem moderno não passa de uma besta exibicionista. Qual de nós é capaz de negar diante de tantas evidências de que vivemos naquela época “em que tudo que repugna uma joia encontramos”, como escreveu Charles Baudelaire no seu poema de abertura do livro As Flores do Mal. E são assim que correm os dias. Nem mesmo a literatura escapa do exibicionismo que prostrou os artistas a vulgaridade e entronou o frívolo como o mais novo guia da manada. O que mais se vê por aí são poetas que abdicaram de qualquer postura independente e séria, para seguirem o jogo da moda. “Nos nossos dias” escreve Mario Vargas Llosa em seu mais recente livro La Civilización del Espetáculo (ainda sem tradução para o português) “o que mais se espera dos artistas não é o talento nem a destreza, mas a pose e o escândalo, os seus atrevimentos não são mais do que as máscaras de um novo conformismo”. Oprimido pelo curral das convenções, impulsionado pelos padrões do entretenimento, o artista contemporâneo, numa embaraçosa postura de submissão aos credos vigentes, não emprega o seu oficio em ações comprometedoras do gosto publico ou dos interesses da Indústria Cultural. As efemérides ditam os rumos das coisas e o gosto médio assegura a sua qualidade. Quem será capaz de se levantar e dar uma bofetada no gosto público?

A verdade das mentiras

"Arendt explica que o mentiroso, ao contrário daquele que diz a verdade, é um homem de acção, uma vez que distorce a realidade. Em contrapartida, aquele que diz a verdade precisa de recorrer a uma retórica que impõe não a verdade em si mesma mas a sua coincidência com um interesse específico. Ele (ou ela) faz isso porque a verdade não é evidente, e só convence travestida de interesse. Ao mesmo tempo, sabemos que quem faz coincidir uma verdade com um interesse está apenas a exercitar um truque. E desconfiamos."

Pedro Mexia no blog Lei Seca

In My Life - A moldura de minha vida


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Músicas há que nos tiram o fôlego por traduzirem-nos emoções íntimas e nos revelarem infindáveis maneiras de dizer coisas, que muitas vezes, apenas pressentimos. Quando isso acontece, e não são raros esses momentos, quando se ouve boa música; eles vincam nossas vidas para sempre, moldando um gesto, uma pessoa querida, um amigo eterno, uma passagem de nossa vida, com um colorido todo especial, digno dos melhores quadros. In My Life dos Beatles é uma dessas molduras. Gosto também da versão de Ozzy Osbourne para esse hino ao amor incondicional. 

Não me recordo da primeira vez que a ouvi, mas, desde esse dia - esquecido pela memória - retorno sempre aos seus encantos, para não mais a esquecer. Mesmo que eu quisesse, porém, não seria possível apagar da minha vida essa música primaveril. Ela me toca pela singeleza de acordes e profundidade da mensagem, que possui um grau exato de exaltação romântica. Exaltação que em tudo recusa aquele sentimentalismo piegas e fácil, tantas vezes associados aos discursos líricos.