A verdadeira política nacional

“Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”.

Luiz Inácio Lula da Silva

Chico Buarque - Jorge Maravilha


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E nada como um tempo após um contratempo
Pro meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
Chorando, resmungando, até quando, não, não, não
E como já dizia Jorge Maravilha
Prenhe de razão
Mais vale uma filha na mão
Do que dois pais voando
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Ela gosta do tango, do dengo, do mengo, domingo e de cócega
Ela pega e me pisca, belisca, petisca, me arrisca e me enrosca
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
E nada como um dia após o outro dia
Pro meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
Chorando, resmungando até quando, não, não, não
E como já dizia Jorge Maravilha
Prenhe de razão

Mais vale uma filha na mão do que dois pais sobrevoando.

A salvação pelo consumo.

A sedução dos discursos consumistas enfeitiça de tal modo a vida, que as pessoas que não se enquadram no “esquema” da felicidade materialista, são vistas como antissociais, fracassadas e pintadas com qualificativos pouco nobres. Hoje em dia é quase um pecado mortal, a recusa aos apelos mercadológicos propagandeados pelos médias. O herético que professe o credo na descrença da salvação pelo consumo, vive as mesmas penitências dos pobres lançados à fogueira por rejeitarem a mentira como verdade. Não se admite, sob qualquer argumento ou peso dos fatos, a possibilidade de se viver de maneira tal, que nenhuma dessas coisas: carro, celular, roupa de grife e outros banlangandas, tenha qualquer valor de dignificação do homem, como querem fazer crer os incautos adoradores dos produtos da moda. 

Ronald Reis

Ronald Reis - Greenwich Village, New York City, 1963

Herberto Helder

Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega.


Herberto Helder

O cinema de estribo, arreio e algo mais.

Quem se fia num filme, apenas porque esse tem mancebos de cabelos bem cortado, como manda a última moda, ou conta histórias sacarinas; nunca chegará a compreender o western, pois esse se mede menos por personagens empertigados e mais por questionamentos das configurações padrões de pensamento que nos encarcera a todos. O western é o gênero cinematográfico que transcendeu os limites de sua habitual perspectiva e se elevou ao patamar filosófico ao nos apresentar histórias em que os conflitos humanos mais mesquinhos: o suposto furto de gado do vizinho, a descrença dos amigos e amores na coragem de quem aparenta fragilidade; a recusa de sair de sua terra por força do dinheiro fácil e outros encerram o que verdadeiramente importa aprender ou julgamos importante aprender sobre cultura, conflitos morais, política, coragem, superação, valores sociais e muito mais. Western é o cinema que encarna todas as dimensões humanas em um microcosmo para fazer deste uma reflexão profunda das potencialidades inéditas do homem.

Inquirição

Todos os dias quando vou para faculdade um Outdoor no telhado de uma empresa química, em meio a fuligem das chaminés me inquire em letras maiúsculas: VOCÊ JÁ PECOU HOJE?

Todos os dias a resposta é a mesma. 

Disfarçado de moralidade as religiões empreendem a conquista de rebanhos mansos aos currais do céu.  

As invasões bárbaras

Na época em que o cinema, ainda não havia sido colonizado por vampiros com espinhas no rosto, aprendizes de bruxaria e outras merdolas, podia-se desgastar os olhos nas salas escuras, sem temor de ter com isso, comprometido também, outras partes do corpo.

Umas botas, somente umas botas de Espanha.

170 milhões infringidos goela a baixo.

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Não foram apenas 170 milhões furtados do erário público, mas toda dignidade de uma nação. Bem não de toda, uma parte dela que mais uma vez se sentiu empalada. Um nada – dirão alguns para justificar a sua leniência - comparado a tantas outras violências históricas a que fomos submetidos. Por que então nos preocuparmos com isso? O melhor mesmo é abrirmos a temporada de troça às artistas globais, para assim neutralizarmos a vergonha das pretensões ideológicas no balaio da irreverência popularesca. O manual de más posturas sociais, aberto a todas as bandeiras ideológicas, uma coisa bem brasileira, ganha assim dia-a-dia capítulos novos. O que não nos falta são colaboradores para essa prodigalíssima empresa.

As regras do jogo

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Percebo que certos jogos tenham regras complicadas de entender, mas não me venham dizer que esta regra é difícil: roubou vai pra cadeia sem direito a embargos infringentes. 

Enquanto isso em Brasília...

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Em alguma esquina nas proximidades do poder em Brasília, mas bem poderia ser aí mesmo ao seu lado.

Os infringentes ou a impunidade coroada no país moralmente mais vergonhoso do mundo


Foto: Elliot Erwitt
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O verborrágico pronunciamento do ministro Celso de Mello com abordagens matizadas, ambíguas e favoráveis aos apelos dos CORRUPTOS ao uso de recursos ad infinitum, quando acossados pela justiça, reforçou a ideia geral do povo que, para alguns abençoados brasileiros, o mundo é um lugar sem culpa e sem repressão. 

Ao considerar a letra fria da lei como juízo a ordem, e fazer vista grossa aos apelos, dos que ele chamou de: “excessos da maioria contingente”; o magistrado ignorou como é costume em casos que envolvam grandes figurões em questão no banco dos réus, a emergência de uma sociedade que repudia e repreende os delinquentes, sejam eles membro da mais alta casta existente na sociedade, ou não. 

Mas o pior de tudo em seu pronunciamento foi a insensibilidade e o desprestigiar à ideia do povo nas ruas. As grandes transformações sociais só ocorreram com o povo nas ruas. Não perceber isso é um desplante. A tese de que a lei deve agir sem paixões, invocada pelo ministro, não esconde que há sempre nos argumentos jurídicos, quando em causa a liberdade de raposas, uma maneira de manobrar as necessidades com o tacão da lógica ilusória. É realmente temeroso acolher os sentimentos de ocasião, mas esse não era o caso. O voto de outros ministros dava sustentação jurídica à recusa dos embargos infringentes e a histórica sensação de justiça devida ao povo legitimava a liquidação da fatura dos mensaleiros. 

O ordenamento social histórico, com base no abrandamento entre as normas e a conduta, tão típicos no país, acabou, por fim de duas horas de pronunciamento, realinhados para permitir aos marginais no poder todas as garantias e favores da lei. Ao povo restou o sentimento de fracasso na luta contra os malfeitores de plantão, que em algum gabinete ou secretária ministerial muito bem confortável em sua impunidade e ar-condicionado tramam novos planos de poder. 

Verdade e Pintura - a arte desmaquilada de Lucian Freud


Pinturas do artista Lucian Freud
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Posso até entender a recusa de alguns em aceitarem essas pinturas como belas. De fato há nelas algo suspeitoso dessa ideia. São corpos macilentos, que se tornaram desvitalizados e parecem antes, prever a morte. O sentimento provocado, não é de deleite, mas deceptivo. A beleza que elas anunciam é de outra esfera. Elas habitam outra ordem de valores, a da revelação, poderias até dizer, do desmonte de ideias. Um tipo de beleza cujos critérios comuns de julgamento, não condizem com os esperados modelos estabelecidos: harmonia das formas, rigidez da carne, assepsia da pele e outros. Ao contrário, residem no fato de assumir certa contrariedade a esses modelos, e revelar homens e mulheres em sua natureza distopica. O artista procura certa verdade que insistimos, através de ardis e maquilagens, em negar a existência. A beleza, portanto, está na revelação falhada da natureza humana, e não nas formas esperadas e desejadas, muitas vezes puras enganações.  

Narcisistas ou quando existir é uma angústia

Foto: André Gelpke, Christine au miroir, 1976
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Somos tão violentamente forçados a convivermos com imagens de realidades idealizadas, que não conseguimos nos encarar diariamente sem certos queixumes ao que de natural e incontornável há na natureza humana. Envelhecer virou um pecado. Ostentar rugas que já foi um sinal de respeito, hoje é um inequívoco índice de derrotismo e sinal de decadência. Tudo isso pode ser facilmente, segundo o credo publicitário,  redimido pelo consumo de cremes, dietas, roupas de grife, perfumes caros, carros, celulares, tintura, botox, e tantas outras fantasias encapsuladas. Enredado pelo discurso persuasivo da publicidade enganadora dos médias, traímos nossos mais puros valores e socorremos nossa auto-imagem do escárnio público, recorrendo aos artifícios cosméticos propagandeado como solução mágica de todas as nossas angustias e infelicidade. A publicidade, com seus artifícios de prestidigitador, nos seduzem com uma imagem destorcida de nós mesmos,  para depois nos vender a solução definitiva contra os males de existir. 

A fantasia da beleza

Foto: Alfred Stieglitz
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A mulher que oferta, ao espectador anônimo, o seio em branco e preto, traz também na face um olhar de indisfarçável enfado. A oferenda, portanto parece resignada. Mas não é a antítese que me atrai. E sim sua despreocupação em transmitir uma visão idealizada, glamorizada da figura feminina. Não há uma tentativa aqui de suprimir as imperfeições, tão desejadas no mundo de hoje. Elas, ao contrário, são convocadas e expostas sem pudor. O cabelo desgrenhado, o olhar macilento, que prenuncia antes o sofrimento represado do que a chama vicejante da juventude, os seios murchos, a roupa indefinida, mostram uma despreocupação em maquilar a mulher e redimi-la das inevitáveis agressões do tempo. O ideário aqui é outro. E, no entanto, essa imagem, que não nega os sucos do tempo, nem se preocupa em artificializar a beleza, ainda assim é bela em sua sujidade realista. O caráter da beleza talvez, como sugere a imagem, não esteja numa atitude postiça, mas sim em certa sinceridade realista que não nega da vida as suas impurezas e imperfeições. 

Brassai

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A noite de Paris, seus frequentadores, suas ruas, sua arquitetura noturna, sua textura de cores e sutis gestos de anônimos sãos os temas prediletos de Brassai, que também escreveu livro sobre a relação da fotografia com a literatura.

O declínio da crítica

Ao pensador de múltiplos saberes e larga tradição cultural, os jornais de hoje, assim como acontece com as tevês, preferem, por razões óbvias, ter como crítico o leitor impressionista e opinativo de primeira hora. A relativização da crítica desqualificou o papel de mediador do crítico entre o público e a obra e teve como principal efeito um rebaixamento do debate qualificado dos bens culturais produzidos nas últimas décadas. "Tipo assim, fantástico" , “adorei”, “desempenho magistral”, "curti muito" são algumas das novas e respeitadas contribuições do espírito renovador do homem público. O sintoma mais evidente desse fenômeno, que não atinge somente o espaço da cultura, mais também se estende por outras áreas como, a política, religião, esporte e tantos outros espaços de debate; foi que com o banimento do crítico, como alguém que desentranhar do texto noções insuspeitas e clareia zonas obscuras das obras, investindo estudo e fidelidade ao ofício, foi à tendência de enfraquecer os debates e aniquilar do espaço público o espírito crítico qualificado. Em razão disso a indústria cultural, quase sempre molestada com as insistentes intervenções críticas, conquistou o cenário perfeito para proliferação de seus ideais de transformar a cultura em entretenimento vazio, mas muito rentável.  

Três olhares sobre o homem, duas conclusões

Foto: Dorothea Lange, Resettled farm child, New Mexico, 1935.
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Na década de 30, a serviço da Farm Security Administration, Dorothea Lange percorreu vinte e dois estados do Sul e Oeste dos Estados Unidos, registrando as péssimas condições de milhares de pobres americanos vitimas da Grande Depressão de 29. As imagens capturadas pelas lentes de Lange atestam, em grau inconteste, a degradante condição de milhares de camponeses estrangulados pela precariedade social gerada pela queda da Bolsa de Nova Iorque. Um complemento literário a esse registro está em As Vinhas da Ira (1939), do escritor John Steinbeck. O livro acompanha a saga da família Joad. Tangidos de sua terra, pela chegado do progresso, lançados à própria sorte, nas estradas americanas em busca de melhores condições de sobrevivência, essa família sintetizara milhares de outras esfarrapadas que também perderam tudo durante a crise de 29. Tanto Lange, quanto em Steinbeck, lançam um olhar solidário às vitimas da Grande Depressão. Seguindo a trilha aberto pela fotógrafa e pelo literário, o cineasta dinamarquês, Lars van Trier filmou Dogville (2003). O filme tem como cenário uma vila americana no período mais duro da crise. Ao contrário dos dois artistas anteriores, Lars van Trier lança um olhar mais fundo na realidade humana, e desconstrói, as imagens de vitimas dos desgraçados da depressão que em seu filme diante da possibilidade de aquisição de algum poder tornam-se, sem reservas nenhuma de humanidade, odiosos algozes, capazes das piores barbaridades, como as de escravizarem (física e sexualmente) uma jovem refugiada em sua vila. Enfim, um olhar distópico da natureza humana que mesmo em face da mais triste realidade, e vitimas das piores condições, ainda assim são capazes de baixar ainda mais a sua condição de civilizado e desmentir todas as boas impressões que a arte tenta constituir desse indivíduo.  

Caetano Veloso- Elegia 1938 (Carlos Drummond de Andrade)

Desalinhado

Foto: Diane Arbus, 1970
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O riso, segundo Bergson tem um papel social. Ele é aplicado em várias situações. Uma delas é contra inadequação de conduta de um indivíduo em relação ao comportamento dos outros. Para suavizar essas tensões é preciso maleabilidade do caráter e adesão à certa “elasticidade que nos dê condições de adaptar-nos ao mundo”.

“Toda rigidez do caráter, do espírito e mesmo do corpo” nos diz Bergson “será então suspeita para a sociedade, por ser possível sinal de uma atividade adormecida e também uma atividade que se isola, e tende a afastar-se do centro comum em torno do qual a sociedade gravita, de uma excentricidade enfim. E, no entanto a sociedade não pode intervir nisso por meio de alguma repressão material, pois ela não está sendo materialmente afetada. Ela está em presença de algo que a preocupa, mas somente como sintoma – apenas uma ameaça, no máximo um gesto. Será portanto, com um simples gesto que ela responderá. O riso deve ser alguma coisa desse tipo, uma espécie de gesto social”. 

Ao cabo de ler esse excerto, do monumental trabalho sobre o Riso de Henri Bergson, sou tomado pela consciência de que, não possuo, seguindo um conceito bergsoniano, elasticidade necessária para integrar-me ao pacto social vigente. E estou, portanto, sentenciando às fileiras dos homens que sofrerão todo tipo de escárnio em represália a não adesão “ao centro comum em torno do qual a sociedade gravita”. 

É preferível o riso dos tolos, a aderência a esse mundo de estupidez. Uma virada nas páginas de jornais, uma mirada na televisão bastam para qualquer espírito sensível recusar alinhar-se o que quer que seja nesse mundo. Ante tantas provas de esterilidade do cotidiano, aderir sem resistência às frivolidades e baixezas de uma vida contingencial, só para não correr o risco de sofrer com o escárnio dos patuscos de sempre, é inaceitável.  Diante das reais vergonhas que se pode sofrer, ao aderir ao mundo, o riso alheio é preço muito pequeno a se pagar.

A Espanha cabralina

O ferrageiro de Carmona


João Cabral de Melo Neto

Um ferrageiro de Carmona,
que me informava de um balcão:
"Aquilo? É de ferro fundido,
foi a forma que fez, não a mão.

Só trabalho em ferro forjado
que é quando se trabalha ferro
então, corpo a corpo com ele,
domo-o, dobro-o, até o onde quero.

O ferro fundido é sem luta
é só derramá-lo na forma.
Não há nele a queda de braço
e o cara a cara de uma forja.

Existe a grande diferença
do ferro forjado ao fundido:
é uma distância tão enorme
que não pode medir-se a gritos.

Conhece a Giralda, em Sevilha?
De certo subiu lá em cima.
Reparou nas flores de ferro
dos quatro jarros das esquinas?

Pois aquilo é ferro forjado.
Flores criadas numa outra língua.
Nada têm das flores de forma,
moldadas pelas das campinas.

Dou-lhe aqui humilde receita,
Ao senhor que dizem ser poeta:
O ferro não deve fundir-se
nem deve a voz ter diarréia.

Forjar: domar o ferro à força,
Não até uma flor já sabida,
Mas ao que pode até ser flor

Se flor parece a quem o diga.

La Giralda

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Diga o que disserem os apologistas da modernidade, mas pra mim a verdadeira engenhosidade humana está na disposição em explorar seus limites e reinventar formas sempre novas de recriar o mundo sem abdicar do espírito artístico. Quando observamos esse lugar e o comparamos com os espigões que se dão ao olho em espetáculo da capacidade humana moderna, vemos que em nada ele fica a dever aos feitos do presente, ao contrário, sugerem, dadas as limitações da época e harmonia dos detalhes, uma inegável impressão de superioridade.
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Alberto Korda - As Imagens de Cuba

Alberto Korda - La Nina de la Muneca de Palo. La Havana, Cuba, 1959.
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Fidel Castro en el ojo de Alberto Korda
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Mitin en la Habana. Alberto Korda
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Há, entre todas as imagens aqui destacadas, uma que destoa das demais. É a última. O garoto com dedo em riste toma o lugar do líder que na imagem assume uma posição nova na ordem história de sua vida: ele ouve e não é mais ouvido. Sua autoridade está temporariamente suspensa, não se impõe mais. A inversão de papéis, sugerida pelo “instante decisivo”, captado com maestria por Alberto Korda, dar-nos outra inquietante ideia do líder, que inspirava as massas movendo apenas - ironia da foto - um único dedo. A paralisação do tempo, no instante em que a cena se dá, corrompe todas as ideias anteriormente construídas sob a figura do homem forte, do guerrilheiro, aqui fragilizado, pelo ato inesperado de uma criança. A julgar pela posição de Korda na Revolução Cubana, essa imagem revela-nos que, ante as intuições artísticas, todo ato ideológico trai a si mesmo. 

A construção de um ícone

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Encontrei essa foto no Google. Ela não está creditada. Porém imagino que seja do cubano Alberto Korda. Ele foi o fotógrafo oficial da Revolução Cubana e autor da icônica Guerrillero Heroico, foto de Che Guevara, que ainda hoje estampa bandeiras em manifestações de revoltas por todo o mundo. Mesmo não tendo pegado em armas durante a Revolução, Korda ajudou a construir a imagem mítica de liderança de Fidel Castro e dos demais guerrilheiros que derrubaram a ditadura de Fulgêncio Batista. O registro de uma câmera sugere o famoso ensaio, Sobre a Fotografia, da americana Susan Sontag, produzem muitos efeitos. Ao tempo em que fornece um testemunho de que as coisas realmente aconteceram, ela também pode: incriminam, distorcer a realidade, idealizar, mitificar ou agir como um instrumento de desagravo. Apesar da presunção de veracidade que confere autoridade de que alguma coisa realmente aconteceu, uma imagem pode ser muito mais do que ela apresenta na superfície. Ao preferir uma cena à outra, ao enquadrar um instante ao em vez de outro, o fotografo induz a maneira de se ver uma realidade e solicita do espectador certa solidariedade àquilo que está sendo retratado. A emblemática imagem que ilustra esse post simboliza, inconscientemente, esse efeito do líder destemido, construída através das imagens produzida por Korda de um Fidel em atos heróicos e que inspira coragem e destemor. Ao mesmo tempo em que diverte as massas, como um comum, o Fidel de Korda, exterioriza sua liderança em gesto que induz a representação do poder em face às adversidades. Uma metáfora de sua condição irrevogável de rebatedor das adversidades cubana, frente aos ataques do inimigo. A presunção de desinteresse sugerida pela cena torna o trabalho fotográfico de Korda um ato de genialidade. Espelhando aqueles ritos sociais que tornam a fotografia um passatempo familiar despretensioso, Korda construiu uma imagem prosaica, mas de fundo inteiramente ideológico, sem parecer, no entanto, panfletário. A sedução dessa foto, seu poder sobre nós, reside no fato de que ela nos oferece uma dramatização, mas induz no subterrâneo do gesto e no enquadramento da cena, de modo sub-repticiamente, a pensarmos que a realidade, enfeixada por uma câmera, dependendo do ângulo de mirada do incauto, esconde intenções indizíveis.  


Desmaquilar a realidade

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O mundo de hoje em que uma enxurrada de imagens solicita a nossa atenção o que vemos são os gestos repetidos, coreografados e milimetricamente estudados para transmitirem uma imagem que está longe de ser natural. Os gestos repetidos não nos deixam ver o que pode a realidade. As muitas imagens que correm na internet especialmente as das redes sociais atestam a nossa permanência na caverna de Platão, se regozijando com meras imagens da verdade. As fotografias de Garry Winogrand convocam-nos a observarmos o mundo fora dos esquemas previsíveis flertando com instantes desmaquilado. 

As ilusões perdidas

Foto: Lewis Hine


Não sou mais dado a ilusões e fantasias. Talvez por isso esteja confortável com a ideia de que o homem é uma causa perdida. Não há nisso qualquer pessimismo, fatalismo ou entreguismo como daqueles que pressentindo essas coisas adoece da alma. Prefiro antes pensar que seja apenas uma constatação - uma obviedade incontornável- que como tal faz parte da ordem contraditória da vida que não nos cabe questionar. A putativa natureza humana é coisa que não se extingue sem extinguir o homem. Não serei eu, portanto o responsável por azeitar as engrenagens que faz correr macia e sem sobressaltos as correias da existência. Haverá sempre modos de infringir a ordem, e não será esse, modo irresponsável, o verdadeiro motor da vida? Chega de metafísica. Basta-me agora andar por cá; fazer alguns amigos, estender a vista ao mais largo que puder, viver algumas aventuras, ler uns bons livros, semear uma família e o mais, prolongar essas horas antes que o ponteiro pare de bater. Se calhar, ainda bem sou capaz de voltar a ter ilusões, afinal todo produto da natureza é imperfeito.

Lewis Hine

Foto: Lewis Hine

The me, me, me generation

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O tédio da existência, a melancolia de dias não vividos, o sentido de nulidade, os queixumes clichês, os lamurios insistentes são frequentes mensagens transmitidas pelos adolescentes do facebook. Essa é uma geração decadente, fútil e desfibrada. As insistentes imagens de festas, passeios, viagens e sorrisos moldados de forma teatral, não escondem, apenas disfarça sua impotência anêmica de reagirem com coragem contra forças desertoras da vida.

Triunfalismo mercadológico



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Somente ontem à noite pude assistir na integra a entrevista do escritor Peruano Mario Vargas Llosa ao Roda Viva. Adoro a literatura do Llosa, tenho-a como uma de minhas favoritas. Para mim ele é um intelectual completo, daqueles que não fogem as discussões mais espinhosas de seu tempo e cuja disposição para questionamentos parece ser sempre incansável. No mundo de pouco ou nenhuma criticidade, sua presença no cenário social, agitando e insuflando debates garante a permanência de uma ambiente menos bucéfalo. Uma coisa, no entanto, me inquieta nele, a sua reverência ao Capitalismo e ao Neoliberalismo como modelos econômicos e sociais capazes de resgatar ao homem alguma dignidade. Essa postura panfletária soa ainda mais contrastante quando sabemos de sua disposição para combater o rebaixamento da arte contemporânea e sua espetacularização. Seu mais recente trabalho, La Civilizacion Del Espectaculo atestam essa militância contra a banalização das artes e o triunfalismo mercadológico. A ele não parece supor que uma e outra coisa sejam indissociáveis. Seguindo apenas a sua implacável rejeição à ordem socialista, Vargas Llosa parece ter esquecido que a civilização na qual as mercadorias assumiram o comando das coisas, dos preços, dos valores, aviltando todas as relações, também se apoderou das artes e a está rebaixando a níveis desfibrados. 

Peça fraca e sem emoção



São muitos os equívocos do monólogo Solo Almodóvar

por Téo Júnior
Salvador 


Pedro Almodóvar, um dos mais extraordinários diretores de cinema do mundo e o principal de seu país, Espanha, que se notabilizou nesses últimos trinta anos como sendo dono de um estilo personalíssimo e imediatamente reconhecível, que Adriana Calcanhotto citou na bela música Esquadros, mereceu a homenagem da atriz Simone Brault no espetáculo Solo Almodóvar, em cartaz no Teatro Martim Gonçalves (Canela) neste último fim de semana. O início da peça, para começo de conversa, é uma cópia ipsis litteris de uma cena de Tudo Sobre Minha Mãe, aquela em que Agrado (Antonia San Juan) entretém os espectadores com a “história de sua vida” porque as principais atrizes faltaram. Daí, nossa Dolores se entrega a discussões estéreis sobre as dificuldades que os travestis enfrentam, suas experiências com os homens – quase sempre frustradas –, e o tempo custa a passar.

Colabora para o descalabro da montagem, a protagonista dedicar todo o espetáculo pronunciando um portunhol sofrível, quando ela poderia perfeitamente optar pelo português. No palco, uma enorme sandália remete ao filme De Salto Alto; as músicas e certas cenas que Simone interpreta e alude estão, claro, na filmografia do diretor, com destaque para A Lei do Desejo, onde Antonio Banderas contracenou, no longínquo 1987, com o hoje obscuro Eusébio Poncela (há uma inesquecível cena de sexo). A interpretação de Simone para Lo Dudo (Duvido), do Trio Los Panchos, não é à toa. Os figurinos estavam caprichados.

Almodóvar, mestre no colorido exacerbado e que soube retratar como ninguém o universo feminino (Volver), os travestis e suas obsessões (Má Educação) e a sexualidade mostrada de forma bonita até (Carne Trêmula) merecia um roteiro original e satisfatório – o que, infelizmente, o autor Vinnicius Morais, em mais de uma hora de encenação, não pôde oferecer. Quem sabe na próxima vez.


Não há limites para quem tem coragem

Fitzcarraldo - filme de 1982 do realizador Werner Herzog
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Alguns diretores são-nos mais queridos do que outros. As razões são que, uns nos dizem pouco, enquanto outros nos emudecem os sentidos ao transmitirem aquele "frisson nouveau", como bem expressou Victor Hugo ao ler pela primeira vez as Flores do Mal. Os filmes do alemão Werner Herzog estão para mim nessa segunda categoria. Longe de ser uma unanimidade do grande público os seus filmes distinguem-se dos blockbuster hollywoodianos pela capacidade incomum de narrarem histórias de homens em enfrentamento com o mundo selvagem e desafiador sem cederem aos perigos ou questionarem seus propósitos; um mundo maior do que suas forças podem vencer. Nessa luta, seus personagens nem sempre se dão bem. Nada mais ante-comercial do que histórias de “derrotados”. Porém, se enganam aqueles que pensam que os filmes Herzog fala sobre derrotistas e fracassados. Os resultados podem não serem o esperado. O que contam em seus filmes são as atitudes.  Num mundo de culta a celebridade o arrivista social é o modelo de homem ideal. As qualidades e os valores do homem moderno se medem pelo sucesso e as conquista. Os personagens de Herzog representam muito bem esses sentimentos de conquista, nos fazendo refletir acima de tudo sobre as suas conseqüências. Movidos pela ambição desmedida muitos entram num espiral febril de sonhos de vitória a qualquer custo. Pelo caminho encontram forças superiores, que os farão provar os limites de sua coragem ante os desafios impostos pela busca de realizações utópicas. A pretensa superioridade humana é posta à prova no embate contra as forças da natureza. Nessa luta os desfibrados e os desertores são os primeiros a caírem. Tombam contra o seu próprio peso e são arrastados pelas torrentes, vales, abismos e toda sorte de perigos os põem em marcha ré. No cinema Herzogiano a única celebração possível é àqueles destemidos aventureiros que se impõem desafios capazes de questionar os limites do homem. Com Herzog aprendemos que não há limites para quem tem coragem. 

Dia de, dia da, dia dos...

As efemérides, só nos faz lembrar que somos todos um rebanho. 

Antologia Falhada

Encontrei hoje numa livraria da USP uma antologia da poesia portuguesa contemporânea. Corri avidamente para o exemplar. Antes de desembolsar o valor cobrado pelo livro, tomei o cuidado de buscar no sumário os autores elencados para composição do panorama. Como não encontrei qualquer menção ao Henrique Fialho devolvi o livro a estante. Uma antologia que se preze sobre a poesia lusa, não pode ignorar a presença desse autor. Em qualquer recolha que se faça sobre a contemporaneidade poética o Henrique Fialho é presença indispensável, ou isso, ou a condenação do livro ao encarceramento das estantes.  

Sim reluz, mas não está a venda


Hoje,
entre tantos e tão sábios
saberes, nenhum foi capaz
de vencer, ou ao menos
constranger,
as vaidades e imorais
imposturas, dos que,
valem-se do dinheiro
para com ele tudo corromper.

Não há moral que,
de tão forte, não se dobre
ao poder do pequeno nobre.
Valores que não se vençam,
beleza que não se compre,
mesa que não cesse
e amores que não se julguem,
Pela cotação do ouro ou  do cobre.

Quando em lugar
das virtudes de caráter,
o homem entrona
as baixezas e vilanias,
mais hediondas de su´alma,
testifica sem pudor,
que embora finja,
nascido de um deus,
uma besta o pariu e te criou.



Esse poema nasceu de uma conversa com o Marco Haurélio, sobre o julgamento das pessoas sobre aqueles que se negam a se enquadrarem na dependência do dinheiro para viverem suas vidas. 


À Deriva


Dai-me, senhor!
Nenhum juízo,
Para não ter que
Ler aviso, nas
Estradas por onde
Andar.

Percorrer,
Sem temer perigo
Estradas, desertos, abismos
E quanto mais
Me aprouver
Alcançar.

De resto,
Deixai por conta
Do acaso e da lembrança
Os muitos pontos
que meus pés
irão desbravar.

Serei
Feliz e contente
apenas, com o pó
Que levo rente,
Ao chão
Do meu caminhar.

Refúgio ao fácil

Figurativismo Abstrato (2004)

Frequentemente acusa-se a arte, principalmente a contemporânea, de anódina.  Ninguém poderá culpar o expectador moderno de insensível por julgar tão desclassificado o que se estar sendo ofertado nas bienais, museus e salas de exposições mundo afora. Desde que a arte passou a ser tida, como uma atitude e não como uma expressão de conteúdo estético, uma onda decadente de pseudo-artistas aproveitou a suposta facilidade de criação, para fazer de suas más qualidades estética e falta de talento, objeto de seu ofício. Em visita recente à Pinacoteca de São Paulo, deparei-me com um quadro do multiperformático (deve ser isso que ele é) “artista” brasileiro Nelson Leiner, que se insere nesse contexto de casuísmo e decadentismo artísticos para se fazer respeitado. Intitulado Figurativismo Abstrato, a “obra” é composta da superposição de imagens de personagens animados cujo propósito, aparente, e sempre repetido, é o de transgredir, desmistificar e ridicularizar a importância da arte. Em contraste com a imponência e o garbo do espaço o melífluo artista impõe uma galhofa. Ora eu me pergunto, se se quer ainda por em causa o estatuto de nobreza da arte e torná-la um produto consumível e descartável, é preciso mesmo divorciar-se da criatividade e impor como padrão o exercício de expressão de mundo pessoal do artista como única alternativa à arte contemporânea?


Papéis trocados

Elliot Erwit

Pirilampo

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Há, sem dúvida alguma, muitas vantagens, em ser amigo de Marco Haurélio. A melhor delas é que você nunca estará, por mais que julgue o contrário, inteiramente, formado, informado ou suficientemente satisfeito com as alternativas culturais à sua disposição. Sempre atento às novidades, sem deixar de render tributos às gerações pretéritas, a figura de Marco Haurélio reinaugura, às novas gerações, eternos mestres da Cultura mundial. E que alegria não é o sentimento de descoberta. Senti-me assim, cheio de alegria e vigor de iniciante ao ouvir, recomendado por ele, os poemas e canções de Atahualpa Yupanqui. Creio ser essa, a milésima personalidade cultural que o Marco me semeia. O que seria de mim sem esse pirilampo que tange sem esforço, as trevas que nos rodeiam? Grazie Mille Marco!

A limitação das cores, ou quanto posso ser estúpido.

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O nacionalismo e sua vertente cariada, o bairrismo, é uma idelogia repulsiva. Por séculos suas ideias têm manchado a história de sangue ao despresar o diálogo como forma de relacionamento solidário. A limitada ação de interesses que ele congrega repele e ameaça a estabilidade do mundo. Para Gore Vidal o Nacionalismo é a última trincheira dos estúpidos.

Juventude desfibrada

O tédio da existência , a melancolia de dias não vividos, o sentido de nulidade, os queixumes clichês, os lamúrios insistentes são frequentes mensagens transmitidas pelos adolescentes do facebook. Essa é uma geração decadente, fútil e desfibrada.... as insistentes imagens de festas, passeios, viagens e sorrisos moldados de forma teatral, não escondem, apenas disfarça sua impotência anêmica de reagirem com coragem contra forças desertoras da vida. Coragem! Vocês podem mais...

Escárnio


A arte precisa provocar o espanto, mas só os idiotas espantam-se com o ordinário




Transcrição da matéria do Jornal da Tarde de 13 de abril de 2002 com o artista Antonio Veronese e suas opiniões sobre a arte contemporânea na Bienal de São Paulo:

Essa bienal é um engodo, diz Veronese Artista brasileiro que exigiu o dinheiro de volta na Bienal 2002 do Museu Whitney em Nova York, foi à 25° Bienal de SP a convite do JT e analisou o que vale e o que não vale o ingresso. André Nigri-Jornal da Tarde.
“Há mais emoção e história em uma aquarela de Egon Schiele (1880-1918) do que em todo o pavilhão da Bienal paulistana". A frase de Antonio Veronese pode dar a entender que seu autor, um artista brasileiro que transita entre os Estados Unidos e a Europa, é um outsider ressentido com os colegas que expõem na maior mostra de arte contemporânea da América Latina. No entanto Veronese tem quadros seus pendurados nas Nações Unidas (Painel Save the Children) , na FAO em Roma ( Painel Famine), no UNICEF ( JUST KIDS), no Congresso Nacional ( Painel Tensão no Campo), na Universidade de Genebra, etc… Alem disso, Veronese expõe e vende nos Estados Unidos e na Europa, e é um velho militante de causas sociais no Rio de Janeiro- cidade onde fica quando visita o Brasil.
Ao comparar a obra de Egon Schiele às instalações e performances dos 190 artistas de 70 países abrigados na 25°Bienal de São Paulo, aberta até junho, Veronese coloca em discussão o que se faz e o que se classifica de arte hoje e para que ela serve. “Quase tudo que está aí não vale quase nada... É uma infantilidade preencher esse espaço com obras que são um engodo” disse Veronese na manhã de ontem, depois de visitar o Pavilhão do Ibirapuera a convite do Jornal da Tarde.
Ao contrário do que aconteceu no mês passado no Whitney Museu de Nova York, não foi preciso chamar a polícia para esfriar os ânimos de Veronese desta vez, mas sua reação foi contundente da mesma forma. “A maioria do que vi no Whitney e que vejo aqui é resultado de uma idéia imediatista e simplória. Esses artistas são filhos espúrios de Duchamp” disse.
Consciente de que está comprando uma briga feia, Veronese não poupa nem os curadores de suas críticas: “São eles os maiores responsáveis por esse lixo. Não há mais curadoria decente na Bienal. E digo isso sabendo que muita gente gostaria de dizer o mesmo, mas não o faz”.
Ao ser confrontado com algumas das obras da Bienal paulistana, Veronese foi categórico. Chamou a instalação de José Damasceno de leviana, e ao aproximar-se da obra do gaúcho Daniel Acosta, intitulada “Estação Avançada com Paisagem Portátil” comentou: “Se nós mudarmos o nome disso não faz a menor diferença.. Em relação ao trabalho do carioca Chelpa Ferro , um automóvel que foi destruído em uma performance na abertura de Bienal, disse, “Acho um absurdo que uma bobagem dessas ocupe espaço precioso numa bienal. Deveria estar num ferro velho”.
Qual seria a saída? Para Veronese, as instalações vão se esgotar por si mesmas. "Não se pode confundir decadência com vanguarda. Acreditar que tudo já foi feito e que temos que montar essas bobagens é encenar a nossa própria decadência, diz o autor de Famine e Tensão no Campo.
Entrevista de Antonio Veronese depois das críticas às bienais Whitney e São Paulo.
Pergunta: Você, quando critica as bienais do Whitney e de São Paulo, não está negando aos artistas conceituais o direito de expor seus trabalhos? Isso não é antidemocrático?
Antonio Veronese: Eu não nego a ninguém o direito à exibição. Só acho que essas instalações deveriam estar num parque-de-diversão e não em museus. São objetos para o divertimento e a interação, da mesma forma que um boliche ou stand de tiro-ao-alvo. Mas isso, absolutamente, nao é Arte!, ainda que pareça revolucionario afirmar o contrário.
Pergunta: O que gerou o teu protesto no Whitney?
Veronese: Foi uma reação natural de quem se sentiu ludibriado pagando 10 dollares para ter acesso a um amontoado de “facilidades”. Os “autores” disso são conscientes do farsismo e riem de nós. O que fazem é terrorismo estético, uma tentativa de apagar todo o conhecimento acumulado. Eles sabem que o que fazem não têm nenhum valor, mas contam com a elasticidade moral de curadores simplórios e com a ignorância endêmica da crítica.
Pergunta: Você chama a esses artistas de filhos-espúrios-de-Duchamp. Por quê?
Veronese: Arte é produto de duas experiências: uma histórica e outra pessoal. O artista precisa conhecer a Arte que o antecedeu, senão vai ter que inventar a roda a cada vez. Mas precisa também da segunda experiência, a pessoal, fruto do seu trabalho contínuo, do lento avançar naquilo a que dedica. Cézanne, aos 64 anos, já havia parido o modernismo mas reclamava que ainda não havia conseguido ir até o fim na sua busca. O caminho é longo e exige paciência e dedicação.
Esse pessoal das instalações não é burro não, conhece a História, mas tenta dar uma rasteira na segunda exigência, a da experiência pessoal. Socorre-se para isso de conceitos que serviram em outras situações mas que, no caso deles, não passa de malandragem. O urinol virado por Duchanp é consequência de uma busca pessoal, num contexto particular e específico. Mas defender que o urinol possa ser manipulado indefinitivamente é encenar a nossa própria decadência. Por isso digo que os conceitualistas são filhos espúrios de Duchamp. Propõem mediocridade profanatoria embalada de vanguarda!
Pergunta: Que diferença existe entre essa tua crítica e a que sofreram os impressionistas no século XIX?
Veronese: A Arte é oficio do Homem, interferência do Homem; ela não é espontânea na natureza! É produto da interferência humana, e não pode ser supérflua ou presunçosa. Victor Hugo dizia que a obra de arte é uma variedade do milagre e, para Malraux, os artistas não são copistas de Deus mas seus rivais! A "arte" conceitual pretende socializar o direito de produzir arte, antes restrito, como é natural, aos artistas! Por isso o que produz é facilmente copiável, diferentemente de um retrado de Rembrandt ou das maçãs de Cezanne. Comparar minha crítica com as que sofreram o impressionismo e o modernismo é um exagero. Uma outra vez eu "incorporei” minha bota de couro a uma instalação do Tunga no Whitney do Soho em Nova York. Só fui recuperá-la no dia seguinte. E ela estava ainda lá, no mesmo lugar em que a deixei. Ninguém se dera conta de que, por 24 horas, eu havia me tornado co-autor da instalação conceitual de Tunga. Isso seria impossível com uma tela de Bacon, uma escultura de Maillol, ou mesmo com o Circo de Calder.
A crítica foi, muitas vezes na História, preconceituosa e totalitária. Mas questionar meu direito de exercê-la agora é também uma forma de totalitarismo. Para mim há mais humanidade e humanismo em uma simples aquarela de Egon Shiele do que em toda a Bienal de São Paulo reunida.
A Arte precisa do espanto, mas só os idiotas espantam-se com o ordinário.