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Sobre a proibição da vaquejada pelo STF

É interessante a leitura da discussão. Nela percebemos que ainda albergamos em nós o pensamento evolucionista, que se pauta na ideia de que antes vivíamos num estágio inferior e agora, com as novas práticas subimos um degrau na evolução. Penso que isso é muito pretensioso. Mas é comum. Ensina-nos a história, que as comunidades de um determinado tempo se acham acima das demais e se sentem superiores as que a antecederam.

Se as práticas culturais existem, isso se deve ao fato de que elas servem para cumprir, em determinadas comunidades, papeis simbólicos que permitem a sobrevivência dos grupos sociais a ela vinculadas. Não se trata de primitivismo.

Além disso, falamos com desprendimento dos costumes alheios como se parte dele fizesse, e por isso podemos condena-los e inferiorizá-los. Agiram de modo semelhante os primeiros antropólogos que visitaram uma comunidade no pacífico que mantinha, aos olhos dos expedicionários, uma prática primitiva de confecção de totens. 

Cada agrupamento da ilha mantinha um totem como símbolo de seu grupo. Um era peixe, outro era ave... O tabu imposto pela tradição impedia que homens de um determinado grupo tivessem relação com as mulheres que cultuavam o mesmo totem. Logo, os doutos cientistas sociais, querendo integrar aqueles homens “primitivos”, num novo mundo, onde as superstições haviam sido abolidas, se encarregaram de destruírem os totens. 

Marcel Mauss vai dizer mais tarde que aquela intervenção precipitou o fim da comunidade. Os totens de vários grupos tinham funções de evitar os laços consanguíneos, que numa comunidade pequena era a salvaguarda contras as doenças, porque agia para fortalecia a variação genética que permitia a perpetuação dos vários grupos. 

“Não há”, dizia Claude Levi-Strauss “costumes que sobrevivam sem motivos”. As práticas de uma determinada sociedade, por mais brutais que pareçam, servem a propósitos comunitários e sociais, que nem sempre percebemos a razão. Essas práticas estão quase sempre associadas à ideia de iniciação. Creio que não compete a nós dizer aos outros os que são melhores. 

“Nas sociedades primitivas”, escreveu Joseph Campbell “dentes são arrancados, dolorosas escarificações são feitas, há circuncisões, toda sorte de coisas acontecem, para que você abdique para sempre do seu corpinho infantil e passe a ser algo inteiramente diferente. Quando eu era criança, nós vestíamos calças curtas... calças pelos joelhos. E chegava então o grande momento em que você vestia calças compridas.” 

As mutilações fazem parte de ritos de iniciação que integram as crianças ao mundo dos adultos. As mutilações têm portanto uma função, não são meros atos bárbaros. Em nossa sociedade os ritos de passagem foram abolidos ou edulcorados, não ajudam mais as pessoas a se “relacionar com o mundo, ou a compreendê-lo, para além do meramente visível.”. O resultado é que as crianças, escreveu Campbell, não sabem que já são homens e precisam abandonar as criancices. Crescem como os jogadores de futebol, infantilizados e imaturos. Ou como as madames, presas da propaganda cosmética, que iludem as velhinhas com a promessa da eterna juventude. 

No extraordinário ensaio sobre a arte da tauromaquia, o antropólogo francês Michel Leiris, diz que o espetáculo brutal da luta do homem contra o touro na arena ocupa aquele lugar de revelação de experiências cruciais que esclarecem partes obscuras de nós mesmos.  A luta e a matança do touro opera desse modo uma purgação que aplaca os picos de febre sem que o homem tenha que recorrer, para se exteriorizar, seja a uma via explosiva, seja a um disfarce utilitário ou racional das vias reais. 

“Mas em nossos dias”, escreveu o antropólogo, “não é mais possível encontrar escape confessável para tais impulsos... Daí o tédio, a impressão de vida castrada, a tal ponto que, aos olhos de alguns, as conjunturas mais catastróficas podem parecer desejáveis, uma vez que ao menos teriam o poder de colocar em jogo a totalidade de nossa existência.”. 

Trouxe esses exemplos de "brutalidade" cultural para mostrar que eles existem por que cumprem funções nas sociedades que as criaram. Aboli-las, pareceriam a nos que não fazemos parte dessa realidade, a coisa mais sensata a se fazer. Porém, isso implicaria um dano a elas que ameaçaria a sua sobrevivência. Como aconteceu com as comunidades do pacifico que foram vítimas das melhores intenções ocidentais. 

Temos que ter cautela ao nos pronunciamos sobre realidades que nos são “estranhas”. No campo cultural o que nos parece insensato funciona muitas vezes, como uma peça da grande engrenagem que sustenta um todo social. 

A vaquejada, que alguns dizem querer não ter existido, cumpriu um importante papel na consolidação e expansão da interiorização do país. Ajudou a criar e diversificar as manifestações culturais a ela vinculadas e esteve presente nos processos de socialização dos grupos migratórios que foram tangidos de seus lugares para outros. Reunidos entorno de uma prática comum os nordestinos dispersos pelo país encontraram na vaquejada um elemento de socialização que lhes garantiu por muito tempo a resistência cultural. 

Isso posto é preciso dizer também que não se pode ignorar o fato de que novos tempos pedem respondas diferentes às necessidades sociais. Hoje já não se tolera tanto a brutalidade. Além disso, talvez a vaquejada não seja mais tão importante ao conjunto da sociedade que a sustentou por tanto tampo. Cai-se então a resistência e a importância que ela tinha para tantos. Novas necessidades impõem-se. Outras vozes não contempladas pela cultura do couro de boi e do vaqueiro também pressionam pelo fim de uma cultura que representa os padrões de uma sociedade que urge ser alterada as suas fronteiras.  

Religião e cultura

Foto: Rogério Soares, Catedral Nossa Senhora Santana, Caetité, 2016. 
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Em A Civilização do Espetáculo, o escritor peruano Mario Vargas Llosa responsabiliza as religiões, especialmente a Cristã no Ocidente, pelo desenvolvimento das artes (música, pintura, escultura, arquitetura etc.). O alijamento das religiões, provocaria para o escritor, o engessamento das culturas tais como a conhecemos hoje e infertilizaria a vida a níveis inaceitáveis. Seria, portanto, deletério para as culturas, o fim das religiões. Pois em torno delas, seja para exaltá-las ou para criticá-las, viceja um campo muito propício à criação de expressões artísticas, que não são outros senão, formas dos homens externarem os desassossegos de uma mente deslumbrada com os mistérios do mundo.

Na biografia dedicada ao poeta Cruz e Souza, Paulo Leminski, recorda um pormenor de ter lido “no jornal, uma entrevista recente com o maior teatrólogo da Nigéria, um intelectual de esquerda” que nos faz pensar em termos mais claros sobre o papel das religiões na manutenção da vida e das artes: Lembrando as contribuições da Europa aos países da África o teatrólogo diz:  

“Os brancos nos trouxeram coisas de valor. Como o seu pensamento científico e filosófico, incluindo o marxismo. Mas o preço que temos que pagar é alto demais. O ateísmo é a morte dos deuses. Com a morte dos deuses, vem a morte das danças, que são para os deuses. Com a morte da dança, vem a morte da música, que acompanha as danças. Ao adotarmos filosofia ateia, estaremos matando toda a árvore da nossa cultura. Um marxismo, para nós, não pode nem deve negar nossas crenças. Porque estaria negando a nós mesmos.”

Como vemos, não era tolerável, mesmo para um intelectual de esquerda o fim das religiões, sobre pena de que esta precipitasse o fim das culturas. Abandonei a fé nas religiões quando ainda era um adolescente. O ateísmo que pratico desde então não me permite acreditar numa entidade que com força desconhecida governa o desgoverno do mundo. Sei, porém, reconhecer que, são as religiões, criadas a partir da perplexidade do homem sobre a sua condição, as grandes responsáveis por encorajarem e propiciarem, denodados artistas, caminhos para externarem as suas muitas inquietações sobre as faltas de sentido para a existência.  

O riso na fotografia de Elliot Erwitt

Já referi aqui sobre como nada escapa ao interesse da fotografia. Todos os temas lhes são caros. Vemos por aí fotografia de rua, fotojornalismo, fotografia de moda, de natureza, paisagens, viagens, etc... Mas há um tema em particular que, quase nunca vemos, ao menos com a recorrência dos demais. Refiro-me a fotografia de cunho humorístico. Falta humor nas fotografias de nosso tempo.

Não creio que isso ocorra porque os fotógrafos o entenda como uma expressão menor. Esta é uma interpretação dos tolos e dos tirano. Os tolos pela estultícia de suas mentes e os tiranos pelos temores de que suas ambições encontre questionadores, que ousem desmentir as certezas que lhes asseguram as posições.

Acho mais provável a alternativa que advoga a ideia de que fazer humor em fotografia é difícil. E por essa razão, os interessados em abordarem o tema, desistam da ideia quando mal aventaram a possibilidade. Fazer humor bobo, patético ou grosseiro tem sido o mais próximo que muitos conseguem chegar do tema. Esse tipo de humor qualquer um é capaz de fazer. Mas um humor que profane o solene, desbote o verniz, que maquila as aparências e infrinja as certezas postiças que, envolvem a nossa sociedade, esse humor é tarefa para destemidos, que não se deixam vencer pelas ideias vazias que vai pelas cabeças dos patetas.   

Humor pateta é fácil. Humor com substância interrogativa e desvendadora da natureza humana são outros quinhentos. Mas há pelo menos um nome na fotografia que tomou para si a tarefa de encarar o tema com o talento e perspicácia que lhe é devida. Foi o francês Elliot Erwitt (Elio Romano Ervitz é o seu nome de batismo). Erwitt nasceu em Paris em 1928. Foi criado na Itália, mas a partir de 1941 adotou os EUA como pátria. Fez isso quando teve que fugir com a família, da tirania nazista que encobria a Europa e ameaçava o mundo com ideias tenebrosas de hegemonia racial.   

Nos EUA Elliot Erwitt construiu uma carreira respeitada e se tornou um dos poucos fotógrafos dedicados ao riso. Sua lente em décadas de atividade esteve apontada para os flagrantes de momentos irônicos e indiscretos que revelam detalhes risíveis do nosso comportamento quando não estamos ocupados demais em fingir decoro. Veja-se a propósito disso a seleção de algumas de suas melhores fotografias sobre o tema abaixo:  

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Versailles, 1975.
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Espanha, Madrid, 1995. Museu do Prado.
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East Hampton, Nova York, EUA, 1983.
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Central Park, Nova York, 1990.

A Cosac & Naify fecha as portas, uma legião de leitores vê sua fonte secar.

.Alguns dos meus livros da Cosac.
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Só os muitos aficionados por livros entenderão. Os muitos satisfeitos com o mundo tal como é, não pressentirão que o anúncio do fechamento de uma editora pode ser sentido por alguns com pesar. E foi justamente com esse sentimento que recebi hoje a fatídica notícia que a editora Cosac & Naify encerou as suas atividades. Para quem não sabe, a Cosac & Naify é uma editora brasileira que a quase 20 anos vem produzindo livros que, primam pela qualidade literária sem nunca descuidar da edição gráfica. As seus edições de livros nos faz supor que, o livro é antes um relicário e não um monte de papel enfeixado para consumo descartável. Sei disso desde que comprei o primeiro livro dessa editora, lá nos idos de 2003. Cada livro dela é uma verdadeira obra de arte, uma joia que pode ser cultuada, tanto quanto os escritores que fazem parte do seu catálogo que reúne clássicos e importantes obras da literatura brasileira e estrangeira, muitos deles ignorados pelo grande público ou ainda desconhecidos no país. Antes do surgimento da Cosac, poucos poderiam imaginar no Brasil uma editora que pudesse ousar tanto na qualidade gráfica de suas produções. Uma nação de quase não leitores não atraia investidores com interesses em produzir livros com o cuidado e zelo que muitos merecem. Diante do fato de não encontrarmos leitores disponíveis, ficava evidente que em primeiro lugar, o mais importante era dá ao público opções de leitura. Só depois de consolidada uma audiência literária, as editoras poderiam pensar em oferecer um produto com riqueza de acabamento, esmero nos textos complementar e nas apresentações, qualidade de edição, singular apuro gráfico e outros luxos que só os leitores experimentados poderiam exigir. Mas antes que este público, exigente e ávido por um material mais cuidadoso, pudesse existir de verdade no país, a Cosac saiu à frente e resolveu encarar o fato, de editar obras para um público restrito de interessados em livros que, mantivessem os leitores em permanente estado de enamoramento pelo trabalho de edição. Hoje esse sonho chegou ao fim. Os muitos leitores de literatura que a editora conquistou, nesses longos anos de aventura e ousadia, souberam pela imprensa que, os sócios fundadores, resolveram pôr termo ao capricho que os levaram a fundar uma editora sem igual no mundo. Sinto que a cada dia uma certa ideia de cultura se torna rarefeita. Lamento mais essa perda para cultura brasileira.  Já não faz muito tempo tivemos o fechamento da única grande revista literária, a Bravo!. Ainda ontem os jornais traziam suplementos literários que hoje não fazem mais parte dos periódicos, o jornal O Globo bateu o último prego no caixão dos suplementos. Esse será o último suspiro de um geração que caiu ante as investidas da cultura de massa com seus apelos ao consumo desmiolado ou ainda teremos fôlego para suspender por mais tempo a respiração antes de sermos vencidos por um mundo seboso. O que fazer, quando o desnorte é a única estrela que nos guia?



É que Narciso acha feio o que não é espelho.

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Interessa-me a fotografia. Interessa-me como enigma, como código que desvela outros por sugestões. Gosto dela quando indiciam coisas para além do óbvio. Mas em tempos de imagens omnipresentes as fotografias banalizaram-se. Mais do que ver outras coisas, a fotografia atualmente, tornou-se um espaço para ver narcisisticamente. Com isso as imagens não apelam mais à memória ou ao sentido de decifração que a tornava atraente e atemporal. Hoje tudo já está dado. Esvaziadas de algum sentido simbólico, elas agora não passam de suportes que, estampam rostos e corpos, empenhados em simular vidas alheias. Foram assim assenhoradas por aqueles que não entendem por que não foram parar nas capas de revistas do jet set e estão por isso fingindo estar onde não estão, mas se supõem, pela auto ilusão das bruxuleantes imagens que reproduzem o que a realidade não foi capaz de fazer.  

Não somos assim tão ingênuos, ou somos?

As pessoas reclamam que o the voice não tem música brasileira. O que queriam? O programa se chama the voice. Não se procura comida vegetariana em açougue ou se vai à missa por se ter enganado o caminho da casa da luz vermelha. Chega-se a estes lugares por opção. Portanto, se querem mesmo ouvir música brasileira, vão aos sítios aonde elas são prestigiadas e não estejam ingênuos aos programas da tevê brasileira, eles estão todos muito ocupados em os bestializarem e não têm tempo de ouvirem os seus queixumes. 

Um bocadinho limitadora

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São muitos os felizes que vêem a política sem matizes. Mansos, se deixam guiar pelos que lhes seguram as rédeas e estão certos de que ter lugar é estar à esquerda ou à direita do mundo. Fora disso, pensam, só há o muro, ou melhor, o em cima do muro. Isso tudo, é o muito que se podem admitir de lugares. Não lhes ocorrem que, fora dos polos, além dos extremos, ou longe dos muros, possa existir um outro lugar pra pensar.

Tomar posições, fincar bandeira, limitar espaços é o que os fazem felizes e lhes alimentam as convicções mais mesquinhas. Estão certos de seus lugares e de lá querem nos fazer crer que estão com toda razão.  Entendem a política como aquela senhora do conto Olhar à direita, de Oliver Sacks, que via o mundo à volta: em banda.

A história é narrado no livro de contos O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu. Aos sessentas anos a Sra S., sofreu um grave derrame que afetou as porções mais profundas e posteriores de seu hemisfério cerebral direito, fazendo com que perdesse a visão do que lhe estava à esquerda.

“Às vezes”, narra Oliver Sacks, “ela reclama que as enfermeiras não puseram a sobremesa ou o café em sua bandeja. Quando elas replicam: “Mas sra. S., está bem aqui, à esquerda”, ela parece não entender o que estão dizendo e não olha para a esquerda. Se sua cabeça for delicadamente virada de modo que a sobremesa fique à vista, na metade preservada de seu campo visual, ela diz: “Ah, está aqui — não estava antes”. Ela perdeu por completo a ideia de “esquerda”, tanto com relação ao mundo como a seu próprio corpo”.

Um tipo pode, como aconteceu com a Srs S., estar acometido de um derrame ideológico e não dar por isso. As ideologias podem ser um bocadinho limitadoras e no mundo deve haver mais lugares para as ideias do que os compartimentos ideológicos, delimitados pela direita ou pela esquerda nos querem fazer supor. 

Minha viagem a Salvador foi assim

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De Salvador trouxe outros tesouros. Lá descobri que a trilogia AS MAIS BELAS HISTÓRIAS DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA, editada pela Paz & Terra, ganhou nova edição. Eu tenho o volume dois da edição anterior. Adquiri agora o volume um. Tem sido nesses dias a minha leitura de cabeceira. Hoje li as aventuras vividas pelo semideus Héracles, mais conhecido por nós pelo nome latino de Hércules.

No passado as aventuras desse herói davam grandes lições às crianças. Por elas os miúdos alcançavam o estimulo necessário para vencer os seus desafios, dotavam-se de saberes tradicionais e desassossegavam a imaginação, que a partir de então não lhes deixava jamais.

Hoje, mesmerizadas pelos médias, elas se ocupam em sonhar com uma viagem a Disney e desconhecem aquilo que podem contribuir para que cresçam saudavelmente. Pais, acordem. Escolas, vamos ler para as crianças livros que emancipem.


Nunca foi tão fácil ser feliz... nunca foi tão difícil ser feliz.

Foto: Alberto Korda, La niña de la muñeca de palo. 1959.
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Acreditando que o dinheiro, redime a meia-vida de frustrações que levaram, os pais de uma nova geração de jovens, dão às crianças de hoje, uma vida desafogada. Proporcionam-lhes mimos, impensáveis, há bem pouco tempo: viagens, carros, celulares caros, roupas de grife, festas e se silenciam quando eles elevam a voz ou se deslumbram feito marionetes pelos artificialismos da indústria cultural. Tanta mordomia, no entanto, parece não ter baldado os sentimentos de incompletude da juventude, que assim como a geração de seus pais sentem um vazio na existência. Parece, portanto, que a felicidade não pode ser reduzida apenas a uma questão econômica. Ela se insere, em outras ordens de valores, bem menos perecível, que os condescendentes regalos paternos supõem.


Fotografia é arte

Fotógrafo: Alberto García-Alix
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A fotografia é uma arte? É. Porém sua expressão se presta a muitas confusões entre o que é meramente banal e o que tem conteúdo artístico. Isso ocorre por dois motivos. O primeiro é que por ser tão banalizada o público tem dificuldade em selecionar o que não é arte e o que é. O outro é que ela está excessivamente vinculada aos objetos reais, isso já explicou Susan Sontag, e muitos só a percebem por isso com o fim de descrever alguma coisa, reproduzindo a realidade tal como os olhos a percebem. Mas a fotografia, ao menos uma parte dela, não é finalística. Ou seja ela não se encerra no objeto dado. Uma imagem bem pode estar ali sugerindo outros conteúdos e iluminando uma outra realidade para além daquilo que se vê à primeira vista. Com vistas à arte, a fotografia exprime uma maneira de ver as coisas além do objeto dado pela representação. Com um sentido artístico, a foto deixa de ser meramente a reprodução do real e passa a ser compreendida como uma emanação da mente do fotógrafo, a sua interpretação das coisas e do mundo. Ela abandona, assim, o status de registro banal e alça seu sentido à outras esferas. Veja-se a propósito do que estou falando, um trabalho do espanhol Alberto García-Alix (n. León, 1956). Quem ver essa fotografia, não pensará que o sentido último dela se encerra na representação de uma jovem retratada pelo fotografo, mas que sua mensagem ultrapassa essa realidade. Os sentidos dados aqui são inúmeros. As sugestões são incontáveis. Vai daí que essa fotografia, diferente das generalidades que se vê no face ou em outras plataformas sociais, não se presta a uma interpretação limitadora, porque ela está carregada de sentidos. 

Asinina condição

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Gostamos do que nos dá estatuto. Tanto pode ser uma roupa de marca, um smartphone no bolso ou um orgulhoso livro de sacanagens que ouvimos dizer que todos estão lendo e por isso achamos que merecemos também lê-lo, apesar de não gostarmos de ler muito. Mas isso não deveria ser assim. Todas essas quinquilharias, todos esses penduricalhos, todos esses imbróglios, não se constituem, realmente, num luxo verdadeiro. São antes a prova provada de nossa asinina condição de bestas, domesticadas pelo consumo irracional. Fossem mesmo importantes, todos esses bibelôs, traríamos a todos à felicidade. Porém, não é isso o que vemos.  

A Indiferença

Foto: John Filo, 4 de maio de 1970. Jeffrey Miller, 20 anos, estudante, morto pela Guarda Nacional Americana, durante um protesto contra a decisão de Nixon de enviar tropas para o Camboja.

As fotografias têm muitas qualidades. Elas podem ser belas, ternas e guardar a memória de momentos inesquecíveis. Serão sempre felizes os álbuns de famílias, onde as pessoas parecem viver em eternos festins. Noutro extremo, as fotografias, também estão dispostas a recordar à humanidade a brutalidade e a selvageria que esse mesmo homo ludens é capaz de perpetrar, entre um banquete e outro com a família.  

Em Diante da dor dos outros, Susan Sontag argumenta baseando em vastas evidências, que vai desde “Os Desastres da Guerra”, de Goya, até aos documentos fotográficos da Guerra Civil americana, dos linchamentos de negros nos estados americanos do Sul, das Duas Grandes Guerras, da Guerra Civil espanhola, dos campos de extermínio nazi e das imagens contemporâneas da Bósnia, Serra Leoa, Ruanda, Israel e Palestina, bem como do 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque, que as imagens também podem, provocar dissenções, incitar à violência ou criar indiferença ante um público acrítico.

“As imagens, qualquer que seja a sua natureza, são elementos importantíssimos para o acompanhamento do processo histórico, assim como para a construção do discurso histórico. No caso particular das guerras havidas, pinturas, fotografias, imagens televisivas ou fitas resultantes de vídeos amadores, têm sido contributos relevantes para o seu conhecimento, análise, interpretação e reflexão. Mas em torno destas mesmas imagens, sobretudo as televisivas, algumas questões se podem levantar, nomeadamente no que concerne à banalização do sofrimento. À banalização do sofrimento dos outros, que poderá rapidamente transformar-se na banalização do nosso próprio sofrimento.”

Com os médias excretando tanto horror, as fotos das barbáries se potencializaram. Chegam-nos a todo instante imagens e mais imagens de todo o mundo. Sabemos o que acontece todos os dias em todos os lugares. No meio do jantar assistimos apáticos a execução brutal de seres humanos em qualquer bar de alguma periferia no país. E antes que a comida alcance o estômago, novas imagens de horror, rapidamente substituem as chacinas pelas execuções de prisioneiros de guerra. Os modos de aniquilamento são tão diversos quando as guloseimas dispostas na mesa do jantar.

A falta de pudor dos media e, em especial, da televisão, recupera tempos ominosos, que julgávamos ultrapassados. E na busca pela audiência eles não nos poupam da visão de horror e buscam os ângulos mais nauseantes das piores carnificinas.


Tratar a dor alheia assim com tanta indiferença, leva-nos a banalização da mal e como consequência anestesia a nossa sensibilidade às necessidades do outro. 

Juventude: a oitava maravilha.

Foto: William Klein.
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Em Hamlet, Shakespeare escreveu no Ato II cena I “...como é normal que a sensatez falte aos mais moços...”. Isso há cinco séculos. Vivesse hoje, o bardo inglês teria carregado no adjetivo e pintando de tintas mais forte a insensatez dos mais jovens. Eles são facilmente sugestionados por qualquer coisa que, os estimule os instintos mais baixos. Se deslumbram e caem de amores, as vedetas mais estéreis, e estão antes, mais dispostos a virarem as costas aos pais e professores, do que dar ouvidos a quem lhes têm maior consideração. Inflamam-se com insignificâncias e estão sempre animosos contra os que julgam os cerceadores de suas vontades. Quem os ouvem falar pensa que eles jamais frequentaram a escola. Estão, no entanto, seguros que assim mesmo, terão assegurado o melhor dos mundos possíveis para viver no futuro. 

Educação e cultura palavras que não alcançam nunca os políticos.

Foto: Dorothea Lange.
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Educação, cultura.... educação, cultura.... as mensagens estão soprando no ar. O que acontece com os políticos desse país que não entendem palavras tão simples? Haverá qualquer coisa de sobrenatural que os impeçam de alcançarem o valor dessas palavras ou eles são mesmo o que parecem serem: estúpidos incorrigíveis.

Certezas rompidas- Benjamin Clementine - Condolence | A Take Away Show

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De todas as expressões artísticas, a que menos me entusiasma é a música. Posso ficar meses sem ouvir uma única canção e assim mesmo não dar pela falta dela. Não fossem os cacofônicos cantores midiáticos, que lamentavelmente fazem as graças dos carros de sons-publicitários, e nem desconfiaria de que vai música no mundo. Como veem, não sou aficionado pela música. Prefiro antes um livro, um filme ou mesmo as horas de contemplação às obras de arte e aos trabalhos fotográficos que vou descobrindo enquanto cultivo o silêncio.

Nasci, a julga pelos hábitos modernos de andar com fones de ouvidos metido à orelha por todos os cantos, com o ouvido torto aos sons que escapam as rádios, tevês e aparelhos eletrônicos que seduzem a todos. Vai daí que para o mundo contemporâneo meu ouvido é inútil. Prefiro assim. Antes o silêncio. O mundo é-me uma coisa escandalosamente ruidosa, onde estar impenetrável aos vestígios de sons, parece impossível. Por isso aprecio o lar.

Depois do trabalho, o que mais me apetece é encontrar as paredes, que me isolam do burburinho mundano e me mantêm imunes aos ruídos que fazem do mundo uma caixa de som ensurdecedora. No lar sinto-me com a sensação de estar em um mosteiro em que gostaria de estar, cultivando o que minha fantasia monástica vai delirando. Nele posso conter o tumulto e isolar os sons que não me agradam e dedicar-me ao exercício da quietude ante um mundo cheio de estultícia.

Mas de repente também sei sentir a necessidade de ouvir música. Aí saio de minha hibernação para dar-me a chance de ver se endireito o ouvido. Nessas horas raras, troco a quietude das coisas pelo seu oposto. Em vez do silêncio, o alarido dos anjos caídos soa-me inebriantes. Vou-me embora no som e perco-me nas horas. De repente, dissipam-se minhas ilusões de silêncio e os ruídos do mundo rompem meu isolamento, trazendo consigo outros sons e não aqueles habituais que os médias vão espalhando como ratoeiras pelos caminhos das pessoas.  Tais horas são especialmente empolgantes quando acompanhadas de Benjamin Clementine empunhando seu piano em meio a um biblioteca enquanto inflama o ar com sua voz inigualável.

Ateísmo das coisas vãs



"A MORTE DOS DEUSES

A primeira das quatro biografias reunidas na Vida de Paulo Leminski é dedicada ao poeta negro Cruz e Sousa (1861-1898), filho de escravos adoptado pelo proprietário de seu pai, um mestre-pedreiro, que contra todas as probabilidades aprendeu a ler e a escrever. É no entretanto da análise poética levada a cabo por Leminski, sempre atenta ao detalhe e minuciosa nos aspectos que julgaríamos menos relevantes, que encontro este argumento fortíssimo contra o meu ateísmo. Fala-se, refira-se a título de introdução, na capacidade que a cultura negra teve para resistir a um violento processo de aculturação que, por exemplo, praticamente exterminou a cultura do índio. Estamos no campo da citação da citação:

«No jornal, uma entrevista recente com o maior teatrólogo da Nigéria, um intelectual de esquerda:

— Os brancos nos trouxeram coisas de valor. Como o seu pensamento científico e filosófico, incluindo o marxismo. Mas o preço que temos que pagar é alto demais. O ateísmo é a morte dos deuses. Com a morte dos deuses, vem a morte das danças, que são para os deuses. Com a morte da dança, vem a morte da música, que acompanha as danças. Ao adotarmos filosofia ateia, estaremos matando toda a árvore da nossa cultura. Um marxismo, para nós, não pode nem deve negar nossas crenças. Porque estaria negando a nós mesmos».

Imagine-se, por arrasto, o que seria da poesia com a morte da música. Esta inquestionável ligação da produção artística ao culto do sagrado tem uma enorme força, sendo indesmentível em termos arqueológicos e ressuscitando o velho problema do ovo e da galinha: primeiro os deuses ou a arte? Eu tendo a acreditar que foi a arte que gerou os deuses, mas mesmo nesse domínio reconheço não poder escapar ao pântano da fé.

Produtos da fantasia, por certo, mas vinculados a uma necessidade física, uma necessidade até de sobrevivência, os deuses, enquanto personagens fictícias do reinado metafísico, expressam (a palavra é mesmo esta) um modo de olhar para o mundo, uma perspectiva, um modo de sentir o lugar do homem na vasta geografia natural, expressam um modo de estar com a Natureza que, nas suas múltiplas variantes, se resumiu a tentar dominá-la (monoteísmos) ou simplesmente aceitá-la, venerá-la, procurar com ela um estado de fusão integrador (paganismos).

Daí que o grande desafio do ateísmo não seja negar os deuses, como quem se ocupa de negar o que à partida considera inexistente, mas antes empenhar-se em impedir que o deus único das três grandes religiões se imponha pela força a todo e qualquer culto do sagrado que não se reconheça na arquitectura fascista dos preferidos e dos eleitos. No fundo, trata-se de garantir que o motivo para a dança, para a música, para a poesia se mantenha vivo."

Daqui: Antologia do Esquecimento 

O gigante de pés de barro

Foto: William Gedney
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Por alguma razão, que a sociologia pode melhor explicar do que eu, a fotografia Americana do século XX tinha um profundo interesse em dar a ver a vida de jovens e crianças. Quase sempre esses registros, mostram uma América longe dos ideários propagandísticos de terra da oportunidade. São ao contrário flagrante do gigante de pés de barro.

Tempos delirante


Foto: Elliott Erwitt
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Entendo que as pessoas creditem ensinamentos, valores e outros fingimentos aos vídeos que coalham no WhatsApp. É que em nosso tempo é sempre preferível apegar-se a ilusões, do que se sentir sem valor de mercado, por não andar cultivando a última merdola da moda. 

Mais-valia



 Foto: Dani Shitagi
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Uma lógica perversa vem reduzindo todas as coisas ao sagrado critério da funcionalidade. Da arquitetura moderna e seus discursos sobre a praticidade do meio, às escolhas paternas de escolas de músicas para os filhos, porque estas desenvolvem o raciocínio lógico; a arte de nosso tempo sucumbiu ao discurso do utilitarismo e só é consumida se "servir para alguma coisa”. O que conta mesmo nas artes de hoje são apenas os seus aspectos práticos, funcionais e utilitários.

E quem diz funcionalidade na arquitetura e na música diz literatura, cinema. Basta ver nas escolas como o cinema foi apequenado. Hoje assiste-se um filme apenas para que este aluda a um assunto que se quer discutir. Nas universidades, a literatura deixou de ser o elã despretensioso, para rebaixar-se aos discursos panfletários de moralistas.

A ninguém é suposto a ideia de que a escolha de uma leitura ou de um filme se dê pelo mero prazer subjetivo que este provoca. Aos discursos utilitaristas é preciso algum valor aderente ao objeto artístico para que esse adquira legitimidade. Mais não é isso que realmente torna a arte valioso. Todas as vezes que predominar o fim na arte, escreveu Kant, teremos “beleza aderente” a obra. Entenda-se fim aqui como aquilo que têm utilidade prática na vida. Quando não há predominância do fim, temos “beleza livre”, desinteressada.

E é a esse último modo de ver a arte, privada de interesse, que a torna indispensável. Sem estar sujeita a priori a imposições de conteúdo, forma e outros condicionantes, a arte se basta. Nessa concepção ela não serve para nada, e quanto menos servir para alguma coisa mais valiosa será. Não se reduzindo a uma realidade circunstancial a arte livre dos conceitos utilitaristas, contribui para formar uma imagem do mundo, das pessoas e das relações, tão complexas, em sentido universal. 

Se


Foto: Sebastião Salgado: O Berço da Desigualdade.

Se entendêssemos o mundo como um processo e não como um resultado dado evitaríamos frases como: “Isso é cultural, desde que eu era pequeno esse lugar já era violento e as pessoas brutas. Ninguém é capaz de mudar essa gente. Eles não valorizam a educação”.

Se por um minuto nos déssemos a chance de subverter a lógica e imaginássemos, que a tarefa do professor não é a de ensinar, mas antes, a de despertar a criança para a consciência de sentido de existência no mundo, talvez a educação tivesse melhor resultado do que péssimo.

Se nós questionássemos mais, veríamos que a realidade dada tem verdades, que vão além das aparências, e é lá que talvez resida as respostas a muitas das nossas inquietações.

Se frequentássemos a escola da leitura ao invés da escola da tevê, talvez tirássemos melhor proveito das histórias que elas lá nos contam para mediar os nossos conflitos de forma mais inteligente, evitando assim a estupidez das brigas, xingamentos e outros vexames tão comuns a nosso tempo.

Se experimentássemos por algum tempo a mudança de canal e explorássemos as possibilidades além daquelas habituais, talvez descobríssemos que há vida, além da mesmice.  

Se não nos desmemoriássemos com tanta facilidade, talvez fosse mais fácil perceber como evitar os erros. 

Se, se, se, se.....