Mexerico, fuxico e outras imposturas



Recolhidas através da observação do povo as coisas à sua volta, as quadras populares exalam sentenças judiciosas sobre o comportamento probo de alguns e questionáveis de outros. Consciencioso, o povo não manda recado. Exalta quem deve ser exaltado. Rir de quem deve-se rir e troça quem deve ser troçado. Alguns dos melhores exemplos dessa atitude poético-filosófica, confunde-se com as melhores doutrinas dos filósofos moralistas. Entenda-se moralista aqui não no sentido dos defensores de uma moral conservadora, mas sim como aqueles que criticam os costumes e são atentos observadores da mentalidade e do espírito social. Corrompendo e adulterando o verniz social, que recobre as faces verdadeiras da sociedade, a poesia popular infringe o decoro que finge não ver o que todos veem. Dão por isso testemunho de um mundo verdadeiramente hipócrita, mesquinho e falso.  

Meu mano, meu camarada,
Tudo no mundo é assim:
Comigo ocê fala de outros,
C´outros`ocê fala de mim.

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Quem tem aza não avôa,
Quem não tem quer avoar;
Quem tem razão não se queixa,
Quem não tem quer se queixar.

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Alfaiate quer tesoura
Sapateiro quer tripeça
Moça bonita quer outro
Moça velha quer conversa

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Há duas cousas no mundo
Que dão confusão na gente
É padre ir para os infernos
E doutor ficar doente

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O padre quando namora
Sempre põe a mão na coroa,
Namora, padre, namora,
Que o senhor tudo perdoa.



Quantos poemas, considerados belos e exemplares, foram produzidas longe de um contexto como este que descreve com tanta penetração as imposturas sociais? 

Cleptocracia

Quadro: Caravaggio-  “Os Jogadores” óleo sobre tela com 99 x 107 cm, 1594.


As investigações da Política Federal que desbaratou um esquema de corrupção nas obras públicas do Governo Federal, especialmente na Petrobrás, começou a sua fase final. Executivos de 6 das maiores empreiteiras do país estão sendo acusados, com vultosas provas, de pagarem propina à dirigentes da Petrobras para ganharem licitações em obras orçadas em bilhões de reais. Dado a sofisticação do esquema de desvio de dinheiro, o Procurador Geral da República classificou o ato de “verdadeira aula do crime”. 

Ao mesmo tempo em que este esquema era desvendado, outro não menos vergonhoso, assolava o Estado de São Paulo. O Ministério Público daquele Estado avaliou que as obras do metrô, entre os anos de 1998 e 2008, foram fraudadas, resultando em prejuízos milionárias para os cofres públicos. 

Na mesma semana em que tudo isso era exposto ao público, outras denúncias de corrupção atingiram as Forças Armadas e a Confederação Brasileira de Vôlei. Uma empresa americana de manutenção de turbinas de avião denunciou à comissão americana antifraude ter subornado funcionários da FAB e do gabinete do governo de Roraima, para conseguir contratos no Brasil, Peru e Argentina. Já a CBV teve o seu patrocínio suspenso com o BB em razão de uma apuração de desvio de mais 30 milhões nas contas da CBV durante a administração do seu ex-presidente.

Todas estas vexatórias notícias sugerem para os mais otimistas o fim da impunidade de atos ilícitos no país. Nunca antes na história desse país ocorreu uma erupção tão grande de denúncias e investigações de atos de delinquência. Confiando que a lama é purificadora, muitos acreditam que agora passaremos o país a limpo. 

Está mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que ver isso acontecer. A perplexidade dos fatos ora expostos com todas as vísceras, envergonha uma pequena parcela da população. Uma diminuta parcela. A grande maioria não só ignora os fatos, mas também colabora, a sua maneira, para que estes crimes graduados tenham nascedouros bem simples e cotidianos, permitindo que eles se perpetuem amanhã e depois de amanhã. 

Não é difícil encontrar quem mesmo se revoltando com as notícias deixe de perpetrar pequenos delitos. Não adianta o padeiro torcer por ver o executivo na cadeira e continuar roubando no peso do pãozinho. Não adianta o professor elogiar a ação da polícia e depois maquiar a sua declaração de Imposto de Renda. De que vale a esperança de dias melhores quando não nos furtamos o pagamento de um cala boca às autoridades de transito, que nos flagraram rodando pelo acostamento da rodovia ou dirigindo sem carteira. 

Em Elogio da Loucura o escritor Erasmo de Roterdã diz que a grande maioria de nós temos olhos de lince para enxergar os defeitos alheios e de tartaruga para ver os nossos. Seria bom apanhar a lição do escritor Holandês e fazer do caso recente uma auto crítica de nossas condutas diárias. Se queremos mesmo passar o pais a limpo e desinfetar as consciências, temos que primeiro iniciarmos a faxina por nossa casa. Antes de notar o argueiro no olho do outro é preciso ver a trave no nosso. 

A educação pela pedra - Maksim Górki

.Górki
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Estou lendo o escritor Russo Górki. Ganhando meu pão, é o segundo volume da trilogia que inclui ainda Infância e Minha Universidade. Aleksiéi Maksímovitch Piechkóv, mais conhecido pelo pseudônimo de Maksim Górki, isto é, Máximo, o Amargo, nasceu em Níjni-Nóvgorod, em 1868, e morreu em Moscou em 1936. Ele foi romancista, dramaturgo, contista e ativista político. Entre os grandes nomes da literatura russa ele figura no rol daqueles que partiram de suas experiências pessoais para alimentarem a sua literatura. Este fato pode ser comprovado pelos inúmeros títulos que ele dedicou a reconstituir a sua vida de forma ficcional. 

A obra de Górki está ambientada nos dramas das classes despossuídas. Seus personagens são os trabalhadores rurais, os operários, os aventureiros e todas as gentes do povo que como ele sentiram desde sempre as injustiças do mundo de forma indignada. Filho de um estofador, viveu parte de sua primeira infância sob os cuidados da avô materno. Este convívio marcará profundamente a sua personalidade. 

Em Infância e Ganhando meu pão a avó figura com a imagem daquela que estará presenta nos acontecimentos centrais de sua formação e de sua personalidade. Ela definirá o caráter do autor conduzindo-o as primeiras lições sobre a vida. A certa altura lemos uma dessas duras lições. Quando um energúmeno tenta constranger o seu neto com uma capciosa proposta de provar a sua coragem dormindo no cemitério, ela poderia se assustar, reprender as crianças e fazer com que o seu neto desistisse da proposta. Porém, ela não faz nada disso. E ao contrário do que poderiam imaginar todos ela apenas lhe diz: "Vista o casaco e leve um cobertor, senão de manhãzinha vai ficar com frio...". Confiando na avó Aleksiei vai. Ao acordar, depois de vencer os seus medos e derrotar o energúmeno, ele encontra sua avó o esperando na porta do cemitério, para mais uma vez lhe tecer aqueles valiosos conselhos que ele levará por toda a vida: “Deve-se experimentar tudo por si, querido da minha alma, saber sozinho de tudo... Se não aprender por si, ninguém lhe ensinará....”. 

A avó do narrador é uma personagem forte, viva e cheia de espírito. Ela aprendeu desde cedo que na vida só sobrevivem os destemidos. Esquivar o seu neto dos muitos temores existentes não o salvaria deles. Por isso ela preferi que ele se exponha agora, porque sabe que assim ele se preparará para outros ainda piores e ainda mais temerosos. O que será que teremos até o final do livro? 


O olhar de Henri Cartier-Bresson

Foto: Henri Cartier-Bresson, Amarante, Portugal, 1955.
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Se não fosse a sensibilidade do artista como uma imagem como esta imergiria do nada para interferir no nosso olhar cotidiano. Henri Cartier-Bresson elevou a fotografia à condição, incontornável, de arte. Pena que o fetichismo mercadológico do nosso tempo a condicionou ao consumo de bens perecíveis.

Dos sinceros

Com frequência me perguntam sobre os meus livros e autores prediletos. Temo ser injusto com os que já li ou os que ainda lerei, e escapo dizendo, que os meus autores prediletos são os sinceros. Nessa quadra se encaixam algumas leituras que acabei de concluir: Dostoievsky, Charles Bukovsky, Sade e Antônio Carlos Viana. Gostei muito desses autores. A razão? eles não escreveram lá coisas muito abonadoras sobre os homens e a humanidade.


Estilo novo

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Quem acompanha as aparições públicas da Presidenta Dilma percebeu que nos últimos dias, após as eleições, ela trocou o habitual terninho Vermelho No Pasarán! Pelo, Azul Petróleo. A cor lhe caiu bem, afirmaram alguns. Outros discordando, acusaram de cafona e fora de moda a escolha da presidenta, exigindo que ela revisse as cores de seu guarda-roupa. O impasse não parece ter atingido a presidenta, que julga essas discórdias de estilo, uma questão de foro íntimo. Pelo visto ela continuará usando a roupa que bem lhe aprouver, conforme a ocasião pede. Uma lição de moda e de bom gosto nos dá a nossa líder.

Passeio


Foto: Rogério Soares Brito, Pinacoteca, 2013

Meus passos são mais trôpegos do que elegantes

Meus passos são mais trôpegos do que elegantes.

Minha voz incomoda mais do que seduz.

Recuso-me a esgrimir por esgrimir, mas, se a causa for justa, acendo o pavio do canhão sem remorso.

Andarilho por índole e poeta por vocação, achei de ser, ainda, garimpeiro.

E não é que, entre tantos pedregulhos, de vez em quando, encontro umas pepitas.

Difícil mesmo foi entender que não era nas pepitas que eu devia buscar a beleza — ela já estava lá —, mas nos pedregulhos.

Esse foi o meu aprendizado pela pedra.

Essa foi a minha educação pelo martelo.


Poema do folclorista, poeta e pesquisador da Cultura, Marco Haurélio. 

Papa Francisco

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Estou longe de ser um religioso. Não endomingo, não faço prece nem peregrino expiando os meus pecados. Os infernos não me assustam. Perdi a fé em algum lugar na caminhada da vida, por razões que a poeira do tempo encobriu. Da Igreja suspeito sempre de seus discursos.

Nada disso, no entanto, tira a minha admiração pelas ações do Papa Francisco. Dia a dia ele dignifica o seu sacerdócio e restitui à Igreja o prestígio perdido por anos de obscurantismo.

As suas recentes ações em prol da reaproximação dos Católicos com o mundo Islâmico, os gestos de tolerância com a orientação sexual dos fiéis e sua mea-culpa pelos anos de negligência da Igreja, que covardemente acobertou denúncias de pedofilia, ocorridos nas barbas da cúpula romana, sinaliza para uma tomada de consciência da Igreja aos seus muitos pecados.

Estes fatos, se não redimem de todo a Igreja de seus pecados históricos, ao menos indicia o arrependimento sincero de quem já tanto mal fez e hoje busca corrigir os seus erros.

Ante um mundo em que os líderes estão indispostos ao diálogo e demonstram anseios de resolvem suas conflitos recorrendo apenas, ao arbitrário de sua força bruta, os gestos do Papa se tornam necessários.

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Foto: Rogério Soares, Pinacoteca, 2013

A cama de Procrustes

Foto: Alfred Eisenstaedt, 1950
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Sempre que leio uma pessoa esclarecida pedir o fim de um jornal ou uma revista, por mero capricho e divergência com sua orientação ideológica, fico a pensar, que ainda estamos longe de conquistarmos a democracia. Impressiona-me como ainda há quem sinta vontade de puxar a pistola quando apanham por aí discursos que não convergem com a sua ideia de mundo, com a sua imagem da política, da cultura, da religião e de muitas outras formas de relações humanas. 

Esses clamores incendiários, contra os que pensam diferentes das vozes que orientam as consciências individuais, são recorrentes nas ditaduras e em outras formas menos civilizadas de relação social. Nas democracias o contraditório, o divergente, o ponto de vista diferente, são, não apenas estimáveis, mas estimulados. Entende-se, nas democracias, que os conflitos tem melhores resultados quando mediados pelo debate de ideias e não pelo tacão das vontades individuais. Nenhuma ideia é subvalorizada, nenhuma ideia é sobreposta a outra, os pontos de vistas são debatidos, questionados, arguidos e se bastam pelo que nutrem de importante, não pela força, pelo grito. 

Pode não ser muito agradável tolerar ideias que você julga intolerante, mas esse exercício, tão salutar quanto necessário, será sempre melhor do que ter em vista, um reizinho regendo as vontades de toda a gente, a maneira de um deus onipotente. Temos que ver o ponto de vista de toda a gente, e não nos limitarmos a projetar os nossos desejos e valores brutalmente sob os que pensam, diametralmente opostos a nós. É estranho pensar um modelo ideal e único de ser humano. Mas é justamente esse modelo, monocromático, de cultura, religião, e opiniões políticas que querem aqueles que insistem em divergirem dos outros, aniquilando a sua existência. 

Na mitologia grega há um personagem que sujeita todas as pessoas, as mais dolorosas mutilações, somente porque elas não se encaixam à sua sádica e perversa medida ideal. Procrustes, também chamado Damastes e Polipémon, é o nome de um bandido que vivia na estrada que ligava Mégara a Atenas. Os viajantes que por ali passavam, ele convidava para comer em sua casa e oferecendo-lhes depois sua cama de ferro para que o incauto descansasse nela, ele aproveitava essa ocasião, em que o desafortunado pegava no sono, para amordaçá-lo a cama. Se o infeliz fosse maior do que a cama ele serravá-lhe o “excesso”. Fosse menor do que a cama Procrustes esticava o desgraçado até que este atingisse idêntica distância entre a cabeça e os pés, à medida da cama. 

Não passa por minha cabeça que está ou aquela revista, jornal ou outros médias são insuspeitos. Mas dá aí pedi-lhes o fechamento não me parece sensato. Nenhum modelo político, cultural, religioso tornou impossível pensar outras formas de convívio humano, mesmo que alguns de seus membros insistam em pensar o contrário. Os limites serve apenas aos muitos satisfeitos das coisas tais como estão. 

A melhor forma de antagonizar com as ideias opostas às nossas, é apontar-lhes as contradições, indagar-lhes os valores. Como faremos isso com eles amordaçados. Deixar de ler os jornais, as revistas e outros médias pode ser outra boa maneira de demonstrar nosso desagravo. “Se o rádio não toca a música que você quer ouvir”, dizia Raulzito numa lição de tolerância e liberdade às diferenças, “é muito simples, é só mudar a estação, é muito simples é só girar o botão”. Submeter os outros a seguir os passos de um único individuo é andar a arremedar os bufões.   

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Foto: Rogério Soares Brito, Pinacoteca de São Paulo, 2013

Cemitério de livro

Foto: André Kertész. Homem lendo com lupa, Nova Iorque, 1959.

Não compreendo a indignação desse jornalista aqui. Ele deve ser um celerado. Desses que anda cagando regra pra gente que sabe bem o que faz. Certo estão os políticos espanhóis. Eles dão uma lição ao mundo. Enterrem o Quixote, a vida segue. 

Esse é um bom exemplo de uma inovação pedagógica, que pode revolucionar a educação. Como as pessoas não haviam pensado nisso antes? Os livros dão trabalho, custa lê-los. A nova pedagogia exige respostas rápidas aos novos desafios. Não temos tempo para ficar insistindo com quinquilharias velhas e obsoletos como livros antigos. 

Os alunos não entendem os livros? Atire os livros para longe deles. Assim eliminasse o problema. Óbvio. Afinal são apenas livros. Que mal pode haver em apagar do convívio juvenil um livro maçante e soporífero com o D. Quixote. Há muitos mais livros no mundo. Talvez até melhores. Quem vai saber? 

Podemos substituir essa velharia por genuínos e modernos pensamentos, que melhor se adequem as consciências contemporâneas. As contingências modernas exigem-nos que estejamos constantemente adequando-nos sempre à medidas de novas inteligências. 

E há um sem-número dessas novas inteligências solicitando a nossa atenção, e que melhor falam às novas gerações. Mas a inteligência, a erudição, as inovadoras lições de insubmissão, a vida percebida como insuficiente, e as perspicazes maquinações existentes no Quixote? Queixarão sem dúvida alguns. A estes diremos que essa inteligência e erudição, além da ideia de insubmissão à vida cotidiana, já não são mais as nossas. 

Buscamos a literatura que nos satisfaça o cumprimento de nosso destino. A literatura como “alimento dos espíritos indóceis e propagadora da inconformidade” como essa presente no Quixote, ameaça-nos a empregabilidade e a funcionalidade. Dizem que, a leitura do Quixote tem sido boa escola para artistas, conclui-se daí, não serem serias, são portanto, inúteis aos desafios do novo mundo. 

Os best-sellers infantis e juvenis que pipocam nas livrarias, estes sim, têm melhores instruções para lidarmos com as novidades na vida moderna. Milhares de pessoas, que consomem essa literatura, não podem estar enganados das qualidades inequívocas desses livros, que arrebatam multidões pelo mundo. 

Claro, eles têm lá alguma indigência, mas para que exigir um repertório variado de ideias e linguagem quando estão todos tartamudeado. Creio que, os novos produtos literários estejam em melhores condições de substituir as antigas literaturas na função de ensinar às pessoas as riquíssimas possibilidades que a língua encerra. Basta ver um grupo de jovens falando. São inventivos, primorosos no traquejo com as palavras, quase nunca, tipo assim, se repetem. Tira-se daí que as novas literaturas estão, por certo, melhores condicionadas à estimularem a sensibilidade e a fantasia, graças as novíssimas obras que pouco a pouco vão substituindo os bolorentos romances.  

Celebrem a boa nova. 

Adernar na praia - Como a revolução cubana quase naufragou

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Os feitos históricos, as grandes revoluções, remetem-nos sempre às imagens de destemidos e heroicos momentos. Napoleão cruzando os Alpes no passo de Grande São Bernardo, na representação de Jacques-Louis David montado num imponente cavalo apontando para o alto incendiando a marcha do seu exército para vitória. Não se pensa nesses gestos com riso no rosto. Ante a morte iminente, que precede as batalhas, o riso se acanha. Porém, muitos dos atos heroicos mais notáveis têm um cadinho de ridículo, um quê de risível e cena pastelão. Alguns desses momentos prestam homenagem a Quixote.  

Ao recordar os passos dos revolucionários cubanos, liderados por Fidel Castro, na invasão que iniciou o levante contra a ditadura de Fulgêncio Batista, em 1956, o fotógrafo da revolução Alberto Korda, recordando as palavras de Che a propósito da travessia entre o México, onde os revoltosos estavam, até Cuba, conta as peripécias rocambolescas enfrentadas pelos revolucionários, até a tomada do poder, pelos destemidos barbudos.  

Em dado momento, com indisfarçável ironia, Che lembrou a Korda que o navio que transportava as esperanças de um mundo justo para Cuba quase não chegou ao seu destino. A travessia foi marcada por reveses cômicos. No meio do caminho, lembra Che, “os homens com expressão angustiada, apertavam seus estômagos com as mãos, enquanto metiam suas cabeças dentro de baldes”. 

A certa altura da viagem o navio avariou. As bombas hidráulicas que movia o Gramna, um pequeno iate de doze metros, carregado de equipamentos e com 80 homens a bordo, pediu arrego. A água começou a ameaçar adernar o rocinante esperançoso. O jeito foi usar os baldes agora para outra tarefa. 

Por fim, no dia 2 de dezembro de 1956, 7 dias depois de ter saído de seu destino, o barco encalhou num lamaçal nas proximidades de um mangue, na costa de Cuba. “Foi necessário”, lembra Korda, “abandonar quase todo o equipamento e os víveres”. Che com seu humor sarcástico lembrou que “não foi bem um desembarque o que ocorreu, mas sim um naufrágio”. 

Haverá algo mais cômico do que o tropeço do herói no desembarque? Rimos, nos diz Bergson, do que foge à normalidade, à previsibilidade. Rimos daquilo que desvia da ordem natural das coisas. Imaginamos os revolucionários como homens de gestos certeiros, nobres e precisos, mas essa ordem de coisas está apenas na nossa mentalidade idealizada sobre as figura heroica. Os relatos de Korda restitui à nobreza dos infatigáveis combatentes uma coloração cômica que se contrasta com o que esperávamos que acontecesse. Nada na vida nos confirma que os fatos mais notáveis não possam nascer de atos falíveis.

Brasil

Admite-se tudo nesse país, menos a honestidade. 

Da natureza Selvagem

Nem bem iniciaram as investigações da operação Lava Jato, já tem gente dizendo que, depois desse caso de corrupção explicita na maior empresa pública do país, pouca coisa mais merecerá o nome de escândalo nas Terras Papagaios. Por ora a Polícia Federal suspeita em desvios nos valores que andam pela casa dos milhões de reais. A se confirmarem esses valores, o mensalão, que escancarou os modos operandi da governança nacional, estará fadado a se tornar um mero escandalozinho de vão de escada, coisa de amanuense. Exagero à parte, penso que no Brasil há sempre a possibilidade da coisa piorar. Aqui, nada está tão mal, que não possa ser superado por um mal ainda maior. Muito antes do soar das trombetas do juízo final, ainda teremos mais bons motivos para sentir saudades do tempo em que os governantes nos roubavam apenas em quantias inferiores a bilhões. Durma-se com um país desse. 

As coisas, como andam?

Ou andamos todos desacautelados ou andamos todos com os quadro membros no chão. Uma ou outra dessas alternativas há de explicar por que na terra do Saci se comemora o Halloween.

Das pretensões perdidas

Foto: Robert Doisneau
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Costuma-se dizer amiúde, que envelhecer traz consigo não apenas rugas ao rosto. E diz-se isso por se acreditar que envelhecer traz também sabedoria. Acreditamos piamente que, em oposição a uma ingenuidade juvenil, a velhice faz do homem um ser mais dotado para evitar os dessabores da vida.

Mas não é bem assim. Envelhecer não afiança ao homem segurança alguma contra os infortúnios. Talvez o torne mais pretensioso por acreditar imune ao que ficou no passado. Do berço ao túmulo, no entanto, não temos nenhuma garantia de sorte, mesmo velhinhos continuaremos assombrados pela má fortuna e outros males.

A certeza disso me veio hoje ao ler nos jornais a notícia de que o matusalém do pop, o canadense Leonard Cohen, ao completou no último mês veneráveis 80 anos, luta contra o alcoolismo, a depressão e um furto de bens promovido por sua ex-agente e amante, que o surrupiou todas as economias, 12 milhões de dólares, que o cantor guardava para sua aposentadoria. Dinheiro, fama, sucesso, prestigio, velhice, nada disso nos distancia dos erros.


A vida recente do cantor canadense é a prova viva de que o homem é, em todas as idades, vulnerável às piores quedas. As adversidades não escolhem tempo para aparecerem. Elas não querem saber se você é pop, rock ou finge fama. Surgem nas horas mais inconvenientes e destroem nossas melhores pretensões, devolvendo-nos ao rosto aquele ar de constrangimento juvenil que durante toda a vida nos esforçamos para arrancar. Acreditar que a verdadeira sabedoria está num acumulo de tempo, não passa de uma ilusão. 

Hércules e Anteu - A realidade suspensa


Vendo a capa do livro de Marco Haurélio que ainda não possuo, Os doze trabalhos de Hércules, ocorreu-me lembrar a história de Anteu. Segundo a mitologia Grega, Anteu é um gigante que obriga a todos os viajantes a lutar contra ele. Em suas lutas, cada vez que seu corpo é atirado à terra ele se levanta ainda mais forte, porque a Terra (deusa Gaia, sua mãe) lhe restitui as forças. Enquanto estiver em contato com o solo Anteu é invulnerável. A sorte dele muda quando encontra Hércules que viajava pela Líbia em busca dos pomos de ouro do Jardim das Hespérides. Hércules luta com o gigante. Na refrega atira Anteu três vezes ao chão. Três vezes o gigante se levanta ainda mais rijo. Astuto (sim, porque o herói, não é apenas um monte de músculos) Hércules percebe que o filho de Gaia (Terra) volta à luta sempre mais forte. Hércules então soergue-o do solo que o tornava invencível e o estrangula. Um sem número de pinturas reproduz esse combate e o sortilégio do herói grego para vencer o gigante ameaçador. Há muitas lições nessa história que os antigos aproveitaram dos contos populares. Uma delas é que para sobrevivermos necessitamos, como Anteu, de estar sempre com os pés bem assentes ao chão. Precisamos do nosso bocadinho diário de realidade. Mas ela ensina também que em excesso a realidade também pode ser alienante e é preciso como o herói grego fez, suspendê-la.  Assim como precisamos de realidade, também precisamos de um bocado de irrealidade. São importantes os telejornais diários, os debates eleitorais, a compra de pão na padaria, mas mais do que isso são também indispensáveis as leituras literárias, as apreciações de quadros, as mitologias, as religiões, os mitos, as músicas e voos às regiões da imaginação, para suportarmos o peso e a força que nos prende ao chão.

Agustina Bessa-Luís

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Agustina Bessa-Luís, um dos maiores nomes da literatura portuguesa, comemora hoje 92 anos de vida. Desde a sua estreia em 1948, entre romances, contos, ensaios, aforismos, livro de crônicas, textos dramáticos, livros de viagens, biografias e escritos avulsos, essa escritora já conta com mais de 70 obras assinada.

Comparada aos seus patrícios, José Saramago e Antônio Lobo Antunes, ela é uma ilustre desconhecida do distinto público brasileira. As razões para isso não poderiam ser outra, preferimos antes os grandes embustes impingidos pelo mercado, a obras de engenharia humana divorciadas do puro interesse comercial.

O professor Alcir Pécora, entusiasta da escrita de Bessa-Luís, a considera muito superior a José Saramago e António Lobo Antunes, dois dos mais prestigiados autores portugueses entre nós. No entanto, a presença de Agustina ainda é inexpressiva nas universidades, centros acadêmicos, livrarias e outros. Pécora aponta algumas das possíveis razões para esse ocultamento de Agustina: "talvez falte mais conhecimento efetivo da literatura portuguesa e menos contato apenas por meio de agentes internacionais, que sempre vendem o mesmo peixe".

Ledo engano

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Ao abrir há pouco, o site da Submarino e pesquisar os livros à venda do poeta João Cabral de Melo Neto fui surpreendido com a inusitada ilustração do poeta na página que vende o livro Museu de Tudo. 

Fiz um Print da página. Se vocês atentarem bem verão que esse aí não é João Cabral, e sim o seu amigo e também poeta Lêdo Ivo. 

Não é a primeira vez que vejo esse equívoco ocorrer. Recentemente o Jornal da Cultura cometeu o mesmo deslize. Nunca os achei parecidos. No entanto é comum ver site que falam do João Cabral com a foto de Lêdo Ivo.

Isso só demonstra que no Brasil os poetas são pouco ou muito mal apreciados, as pessoas não se lembram deles.

Quando era professor levei um dia um conjunto de imagens com figuras do mainstream; bigbrothers, atores de novelas, jogadores de futebol e alguns literários, para desanimo geral constatei que ninguém conhecia Leão Tolstoi, Balzac, João Cabral, Bandeira, mas sabiam muito bem quem eram os globais. 

A cultura televisiva, com grande apelo às imagens, dita para maioria das pessoas a visão de mundo e o alcance de sua percepção da realidade. Para além do tubo televisivo, o universo das letras, que vive da palavra, sofre para atrair o interesse e o gosto das pessoas.

Parecer venturoso

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Em vez de olhos que despem, temos olhos que desejam ser despidos. Pomo-nos antes e sempre a mira do espelho. Mal sabendo que a verdadeira beleza está por trás daquilo que enxergamos.  

Sem culpa

Foto: Martin Schoeller.

Num mundo sem culpabilidade as pessoas fazem coisas que a consciência não acusa nenhuma culpa nem reprova.



A Civilização do espetáculo



Em seu perspicaz ensaio: A Civilização do Espetáculo, o escritor peruano Mario Vargas Llosa se insurge contra o que chama de "banalização das artes e da literatura". Sobram ainda, criticas ao que ele chama de "triunfalismo do jornalismo sensacionalista" e a ascensão da ideia de que a literatura deve se render exclusivamente às esferas do entretenimento.

Llosa afirma que no passado a cultura agia sob as consciências, para impedir que virássemos as costas à realidade. No presente, banalizada pela covardia das universidades e pelo relativismo cultural, a literatura deixa pouco a pouco de ajudar os leitores a entender melhor a complexidade humana, mantê-los lúdicos sobre as deficiências da vida, alerta-los para realidade histórica; para torna-se um passa-tempo despretensioso, na melhor das hipóteses, avalia o ensaísta, “ela é usada para salva-los do tédio das longas horas de viagens de ônibus, metrôs”. Em meio a todo esse novo panorama, a literatura para sobreviver, “tornou-se light - noção que é um erro traduzir por leve, pois, na verdade, quer dizer irresponsável e, frequentemente, idiota."

Atuando como mecanismo de distração da realidade e de entretenimento a literatura, acredita o pensador, perdeu seu poder de animar consciências. Ao invés de indivíduos indóceis a manipulação da verdade por parte dos poderes constituídos, a literatura contemporânea cria consumidores de toda espécie de bugigangas e indivíduos autômatos.

Ao rebaixar-se ao mero entretenimento, a literatura, acredita Mario Vargas Llosa, acorrenta o homem a sordidez cotidiana, ao inferno doméstico e a angústia econômica, e o estimula à uma indolência espiritual relaxada.

As consequências desse torpor, é a criação de indivíduos preguiçosos para tarefa de pensar. "As ilusões plasmadas com a palavra" e não dadas de pronto como no cinema de entretenimento, por exemplo, "exigem ativa participação do leitor, esforço de imaginação e, às vezes, em se tratando de literatura moderna, complicadas operações de memória, associação e criação, algo de que as imagens do cinema e da televisão dispensam os espectadores. E estes, em parte por esse motivo, tornam-se a cada dia mais preguiçosos, mais alérgicos a um entretenimento que exija deles esforço intelectual."

Amputada de seu valor inconformista, a literatura de frivolidade, que domina todos os espaços na vida do leitor, com vampiros, crimes sadomasoquistas, invasões marcianas, romances edulcorados, e outros; divertem e principalmente dispensam os leitores de pensarem, mas, como sugere Llosa: "são incapazes de fazê-los entender o labirinto da psicologia humana, os mecanismos da vida social, os abismos da miséria e os ápices da grandeza que podem coexistir no ser humano".

Não é apenas à literatura de mero entretenimento que se volta a artilharia de críticas do ensaísta. À televisão e aos meios de entretenimento eletrônicos ele dedica um espaço especial de reflexões. A televisão, é dispensável comentar, rebaixou a níveis insuportáveis a programação. Na corrida para atrair mais público e brigar pela audiência os meios de comunicação tornaram-se um vale-tudo. Reduzindo o público a mero espectador passivo. "A fantástica acuidade e versatilidade com que a informação nos transporta hoje para os cenários da ação nos cinco continentes conseguiu transformar o telespectador num mero espectador, e o mundo num vasto teatro, ou melhor, num filme, num reality show com enorme capacidade de entreter". p. 202.

"A informação audiovisual fugaz, passageira, chamativa, superficial, nos faz ver a história como ficção, distanciando-nos dela por meio do ocultamento de causas, engrenagens, contextos e desenvolvimentos desses acontecimentos que ela nos apresenta de modo tão vívido. Essa é a maneira de nos levarem a sentir-nos tão impotentes para mudar o que desfila diante de nosso olhos na tela como quando vemos um filme." p. 202.

Tenho algumas reservas as opiniões de Mario Vargas Llosa a respeito da política. Sua aversão ao socialismo e sua adesão aos princípios neo-liberais são ao meu ver algo questionável. Simpatizo, porém, com sua luta pessoal em favor da cultura e da defesa da literatura como um valor elevado e indispensável na construção de uma sociedade minimamente saudável e prospera. 

Intelectual engajado, pensador que expresse suas ideias e interfira no fluxo corrente das ações cotidianas, a despeito dos discursos da moda, está escasso, Llosa talvez seja o último dessa espécie rara. Adoro, sem reservas, todas as obras literárias desse escritor e pensador, e comungo com ele da opinião que a cultura na atualidade vive ameaçada pela ideia de que deve ser apenas entretenimento e não outras coisas.

Rir de nós mesmos

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A prova de que a melhor forma de driblar nossas deficiências é rir delas.

Quem de dentro de si não sai.

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"Quem de dentro de si
Não sai!
Vai morrer sem amar
Ninguém!" (...)


A casta a qual pertence o poetinha, é a dos que tecem variações inúmeras sobre um mesmo tema. O amor e seus desenganos, o amor e suas alegrias, o amor e sua perdição, o amor e suas dores, o amor e seus muitos usos e desusos. O lirismo poético de Vinicius de Moraes constitui um dos contributos mais importantes à nossa poesia.

Estado mínimo

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O cartaz acima é uma propaganda Nazi defendendo a eutanásia de deficientes. Diz a mensagem: "Esta pessoa, sofrendo de anomalias hereditárias, custa à comunidade 60 000 marcos. Compatriota, este dinheiro também é seu". O apelo ao bolso dos "compatriotas" parece justificar o ato de extermínio daqueles que ao invés de contribuírem para máquina do Estado, tornam-se desde sempre (lembre-se que a propaganda insinua que pessoa em questão sofre de anomalias hereditárias) um fardo àqueles que supostamente produzem.

Não posso deixar de ver nessa propaganda e nas mensagens daqueles que apostam no Estado Mínimo um paralelo. Esses como aqueles ignoram o fato de que o Estado existe em função da sociedade e que essa tem obrigações humanas e não materiais.


Nas redes sociais temos visto mensagens contrárias ao Bolsa Família, contra a Reforma Agrária, a contratação de médicos para população desassistida do Estado nos lugares mais recônditos do país e a entrega dos presídios públicos à iniciativa privada. Sob a alegação de que essas ações oneram de forma ineficiente o Estado está na verdade a preocupação mesquinha e bestial de defesa de seus interesses econômicos.

Questionar

Artístico é aquilo que nos encoraja a questionar aquilo que tínhamos como inquestionável.
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Regozijar-se com meras sombras de verdades

Foto: Cartier-Bresson

Estive há pouco peregrinando por uma sítio em que jovens escrevem de tudo um pouco, música, cinema, literatura e outros standard culturais. Até aí não há nada demais nisso. Uma massa de veículos democratizou os canais de comunicação e desde então estamos todos externando opiniões como se de repente descobríssemos com incontinência verbal. 

O curioso é que essa pretensa liberdade de expressão, garantida pela massificação dos meios de comunicação, não foi capaz de estimular alguns jovens a enxergar o mundo além das focinheiras da Indústria Cultural. Por todo site o que vi foi a celebração do mundinho bovino das pretensões artísticas de pseudo-estrelas hollywoodianas, cujo único talento é servir de produto descartável a uma indústria. 

Claramente o mundo desses adolescentes lembra aquele dos simiescos homens encarcerados de Platão, cuja visão do mundo era aquela apenas refletiva nas paredes das cavernas que habitavam, regozijando-se com meras sombras de verdades.

Dos encantos

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O mundo seria um sítio tristonho se não houve tantos encantos.

A banalização da morte

Pintura: Paul Delaroche, A execução de Lady Jane Grey
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A indiferença do carrasco contrasta com toda gravidade do ato que a pouco se precipita. Para ele é só mais um dia tedioso de trabalho. Como a morte pode ser assim banalizada?

Um dia triunfal

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Conta Pessoa em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro que no dia 8 de Março de 1914 lhe aconteceu o seguinte:


"acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre."