Para melhor perceber as coisas
precisamos de algum distanciamento. Além disso a imagem vista de muito perto,
não nos dá uma perspectiva do todo. A esse propósito, lembro o José Saramago.
No documentário Janela da Alma, ele diz de uma revelação que teve certa vez, em
que foi forçado a mudar de lugar no meio de uma apresentação de ópera. Ele era
grande apreciador dos espetáculos. Ia sempre à Ópera Real de Lisboa. Tanto que
já tinha uma cadeira cativa em frente ao palco. Certo dia, ao chegar ao teatro,
encontrou a sua cadeira ocupada. Com alguma resistência ele foi convidado a
sentar-se num dos nichos contíguos ao palco. De lá, deslocado do seu ponto de
vista habitual, ele viu o que nunca antes havia visto antes. O palco de cima e
por trás. Aquele ambiente que respirava ares monárquico, visto de outro ângulo,
pareceu-lhe sujo, empoeirado e nada agradável. E de fato o era. A imagem dos
espectadores da plateia não lhes permitem ver além dos cenários montados e dos
atores interpretando. Da cadeira cativa de onde sempre via os espetáculos tudo
era suntuoso e limpo. De seu novo ponto a realidade era outra, bem menos nobre.
Aí surgiu-lhe a mente a ideia de que, para conhecer mesmo uma coisa,
verdadeiramente, precisamos todos de "dar-lhe a volta". Contornar os
objetos para deles tirar melhores conclusões. Assegurar-se de que ela não é
apenas uma fachada bonita, feita para impressionar, mas que também, em volta
pode esconde coisas menos nobres, que denunciem melhor o seu todo.
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Hércules e Anteu - A realidade suspensa
Vendo a capa do livro de Marco Haurélio que ainda não possuo, Os doze trabalhos de Hércules, ocorreu-me lembrar a história de Anteu. Segundo a mitologia Grega, Anteu é um gigante que obriga a todos os viajantes a lutar contra ele. Em suas lutas, cada vez que seu corpo é atirado à terra ele se levanta ainda mais forte, porque a Terra (deusa Gaia, sua mãe) lhe restitui as forças. Enquanto estiver em contato com o solo Anteu é invulnerável. A sorte dele muda quando encontra Hércules que viajava pela Líbia em busca dos pomos de ouro do Jardim das Hespérides. Hércules luta com o gigante. Na refrega atira Anteu três vezes ao chão. Três vezes o gigante se levanta ainda mais rijo. Astuto (sim, porque o herói, não é apenas um monte de músculos) Hércules percebe que o filho de Gaia (Terra) volta à luta sempre mais forte. Hércules então soergue-o do solo que o tornava invencível e o estrangula. Um sem número de pinturas reproduz esse combate e o sortilégio do herói grego para vencer o gigante ameaçador. Há muitas lições nessa história que os antigos aproveitaram dos contos populares. Uma delas é que para sobrevivermos necessitamos, como Anteu, de estar sempre com os pés bem assentes ao chão. Precisamos do nosso bocadinho diário de realidade. Mas ela ensina também que em excesso a realidade também pode ser alienante e é preciso como o herói grego fez, suspendê-la. Assim como precisamos de realidade, também precisamos de um bocado de irrealidade. São importantes os telejornais diários, os debates eleitorais, a compra de pão na padaria, mas mais do que isso são também indispensáveis as leituras literárias, as apreciações de quadros, as mitologias, as religiões, os mitos, as músicas e voos às regiões da imaginação, para suportarmos o peso e a força que nos prende ao chão.
O real mais que real
.
Algumas pessoas
insistem em afirmarem que a ficção, em oposição a realidade, é o império do
falso, do inverídico e do impalpável. Algo a que não se pode dá crença. Mas
essa afirmação parece não se encaixar bem na personagem (portanto algo falso)
que Rita Hayworth criou em 1946. No auge de sua beleza, Rita, aos 28 anos, deu
vida a Gilda, criação que transbordava sensualidade e ousadia, numa época de
grande repressão sexual. A máquina de fazer realidades através da ficção que é Hollywood
botava em cheque, o discurso dicotômico, real x ficção. Gilda tornou-se,
através do impossível ficcional, o alvo do desejo de dez entre dez jovens
americanos do pós-guerra. Se a realidade é algo que se pode sentir através dos
sentidos (tato, paladar, olfato, audição) nada foi mais real para aqueles
jovens do que aquela presença ilusória criada pela câmara escura dos cinemas e
que traduzia todos os seus desejos de uma forma que a realidade ainda não havia
alcançado. Tanto é verdade isso que o slogan promocional do filme era: “NUNCA
HOUVE UMA MULHER COMO GILDA”. Ruy Castro, admirador do filme lembra que a
presença de Gilda nas telas da época só podem ser medidas em megatons, dada sua presença marcante: “os
filmes americanos não mostravam uma mulher tão sensual e dadivosa. Seu impacto
em 1946 pôde ser medido até em megatons: pouco depois da estreia do filme, a
bomba que os americanos explodiram no atol de Bikini, no Pacífico, na primeira
experiência nuclear em tempo de paz, foi batizada de Gilda, pela equipe que a
construiu. Trazia, inclusive, um desenho de Rita na carapaça numa publicidade
espontânea e sem preço.” A ficção, ao contrário da realidade, nos promove uma experiência
outra das coisas, muito mais intensa e viva. Por isso os gregos acreditavam que
a ficção era mais importante do que a realidade. A ficção por sua natureza inapreensível
nos promove uma descoberta com o essencial das coisas. A realidade, pelo contrário,
é o encontro com a aparência.
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