Fim de semana

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Passei horas a entreter-me na internet. Vi fotos dos melhores fotógrafos de sempre. Li blogs de escritores admiráveis. Estive em saites de notícias, páginas de editoras e livrarias. Consultei os preços de produtos eletrônicos que estou namorando. Visitei as redes sociais. Mas ai não me demorei. É que estavam lá jovens que nasceram na democracia, pedindo o retorno da ditadura, como se essa não tivesse feito o que fez, e isso causou-me um embrulho no estômago. Para completar o desgosto, vi também por lá a camarilha política. Estavam, como de costume, fingindo que o governo não tem culpa nos malfeitos que, anda metendo os seus mais próximos aliados aos magotes, nas masmorras, que por aqui também atendem pelo nome de cadeias públicas. Cansei. Pulei aos vídeos de música, humor e pitei o sal da terra. De tudo, penso que não tirei o que pudesse me confortar desse mundo. Tomei então assento ao divã e pus-me a ler os suplícios de Tântalo, triste história.


Constatação

Distraio-me fácil. Perco-me sem razão em meus pensamentos. Sem quê, nem porquê, ando quase sempre à deriva, ziguezagueando em minha mente. Nessas horas o pensamento voa. Sem porto ou direção, sou carregado de um lado a outro em completo desgoverno. Mas, de vez em quando, eu também sou capaz de ser tomado por alguma razão. Quando isso me acontece dou basta aos devaneios, e baixo à terra, em pouso forçado, tudo o que estava no ar. Deito tudo ao seu lugar e digo a mim mesmo que, nada mais me ousará escapar ao meu controle. Faço isso, não sem antes, deixar de perceber que, mais me assemelho a uma folha ou a uma nuvem, que são apascentadas pelo vento, do que, um prédio bem assentado em suas sólidas bases de concreto, que não tem temor algum de ser sacudido fora, por qualquer intempérie ousada, trazida pelos maus ventos. Desculpem-me a franqueza é que ando com a máscara frouxa. 

Sobrevive a capacidade de se surpreender


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Tão raro quanto encontrar um político honesto é ver algum jovem dado à leitura no passeio público. Mas por vezes isso sucede. É raro, mas sucede. Aí quando essa imagem lhe surge, fica-se a imaginar, por instantes, que o sol anda a nos pregar peça, e o que julgávamos, como alguém a ler pelas ruas, não passava na verdade de um devaneio, de uma mente sobressaltada pela fornalha que se tornou a cidade, nesses dias de sol inclemente. Essas coisas costumam acontecer também aos incautos que desafiam o deserto. Não seria raro, então, em cidades cujo sol é, tão ou mais, impiedoso, quanto nos terrenos, onde somente os camelos estão livres dos delírios. Mas este não foi o caso. Dei mesmo de encontro com uma jovem a ler no passeio público. Não foi um devaneio, estou certo. Toquei-lhe realmente o livro, elogiei-lhe o título e fiz menção de inveja, por ainda não ter ousado tanto na leitura, e subido os degraus do olimpo literário, como ela estava fazendo, para lê a dramática história do jovem Raskólnikov, escrita pelo genial russo Dostoiévski. De repente, ao ver que uma jovem perambula por aí, levando ao braço, um catatau literário, me dei conta de que não é inteiramente verdade que, os jovens se tornaram reféns de experimentalistas literários grosseiros que se comprazem no aviltamento da linguagem para facilitarem as vendas. Ainda há quem se guie por rotas insuspeitas e não ande a dar bolas aos modismos. Pode-se mesmo querer ver nos modismo algum valor literário, mas é somente nos grandes escritores que, encontraremos respostas àquelas inquietações que enevoam a alma e nos impede de ver mais claro o mundo. 

Afortunado

Pintura: Sacerdotes astecas realizando um sacrifício para os deuses ao queimar incenso e oferecer sangue no Códice Tovar, atribuído ao jesuíta mexicano Juan de Tovar do século XVI.
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Uma casa que, mesmo alugada, não deixas de sentir que é uma morada. Um emprego que, mesmo longe e mal remunerado não deixas de ser um emprego. Um país que mesmo desgraçado por corruptos não deixas de chamar de seu. Ter-se quase chegado a professor universitário e mesmo baldado os maiores esforços, ainda assim sentir-se realizado com o falhanço. Ter sobrevivido a três pneumonia, e não a pôr-se doente, a mais seis meses, apesar de sentir um cansaço em que todo o esforço parece demasia... Que vida afortunada eu levo. Quantos poderiam ser assim tão felizes como eu? Há, de certeza, muitos que me invejam por todas essas conquistas. Viro-me então para os deuses é agradeço-lhes os favores imerecidos.


A moral ensacada e a liberdade frouxa

Foto: Pedro de Moraes: Rio de Janeiro, 1965.
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Questiono-me, o que pode haver de amoral ou de descente, nos trajes que alguém escolhe para vestir? Faço isso, porque, meio sem querer, testemunhei a indignação de uma distinta senhora que, ao ver passar a rua, uma jovem em trajes mínimos, sagrou-a puta, só de ver a roupa que a jovem vestia. 

A visão micro, daquilo que a moral achou dever ser maior, causou-lhe, indignação instantânea. Tanta que, não pode conter a boca, o que o juízo avaliou em um só olhar. Achou tão certo, o que sua cabeça em instantes julgou, que sem receios ou pudor fez de uma jovem, alguém que talvez passe ao largo de ser o que os olhos apresados pensam saber. 

Nossa sociedade, muito zelosa de nossos hábitos e costumes, manda-nos sermos obedientes às práticas que nos fazem imaginar distintos e nobres, por andarmos envergando os símbolos da decência. Quanta ilusão. Fazem isso, estimulando-nos o comedimento nos trajes, a discrição nos volumes e a sensatez nas medidas. 

Sabem desses conselhos, os frequentadores das igrejas, os capelistas e os modistas dos hábitos alheios. Quem não frequenta esses sítios, têm dificuldade em aceita-los, preferem outros modos. 

Que medidas de roupas, determinam o caráter de alguém, pensam os que andam ensacados. Mas quando se estar debaixo de um sol fuzilante, e o calor incomoda, creio ser natural que as roupas, assim como a moral e os bons costumes andem meios frouxos ou curtos, além do que gostariam os guardiões dos melhores costumes. É demais querer que andemos todos metidos em panos, quando o sol está a nos convidar a celebrar os corpos livres. 

Com tantos desavergonhados na política, na religião, no comércio, nas casas de famílias, indignar-se com o pouco pano de uma roupa, soa-me a banalização dos fatos que, importam indignar-se. Do que adianta, cobrir-nos a todos o corpo, quando a vergonha maior não está em andar com partes generosas dele à mostra? 

Veneração

Quadro: A adoração do bezerro de ouro: Artista: Andrea di Lione
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A julgar verdadeira a crença burguesa, que prega que cada um é aquilo que exibe, logo se questiona: que estranhos modos, esses de ser, devedor de culto a quinquilharias.  


As fabriquetas da novíssima consciência



Os Budas de Bamiyan,
As Caçadas de Pedrinho,
A Teoria da Evolução,
As figuras paritais de Stone Mountain, na Geórgia,
Os artefatos milenares de Mossul,
O sexismo e o misogenismo de Homero e Eurípedes,
O falocentrismo de Henry Miller,
O antissemitismo de Shakespeare,
As fogueiras do "Ato Nacional contra o Espírito Não-Germânico"
Os horrores velados de Mark Twain e Hergé
As infamantes burcas no Ocidente.
Por todos os lados bafejam-nos,
ventos liberticidas.
Os iconoclastas nos salvarão
da ignorância de sabermos menos do que eles.
Farão isso a golpes de ferro e implosões,
ou em liturgias
em seus institutos de saberes,
que entre nós dão pelo nome de universidades.



Depravações políticas ou o impedimento forjado pelo sem-vergonha mor da nação

Foto: Max Scheler | Bruxelas, 1958
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Os políticos de Brasília nunca trabalharam tanto como nesses dias. Pena que não é em prol do Brasil, mas em causa própria. Acusam, xingam, mentem, falseiam e emprestam-se a todo tipo de sem-vergonhice. Com eles uma legião de capelistas ensinam-nos as razões do que foi, do que é, e do que só poderá acontecer quando A ou B estiver impedido ou devidamente encarcerado. De nós outros, os que não sabemos nem o suficiente para nós mesmos, mas que duvidamos sempre, estamos, pelo sim, pelo não, de costas a esse teatro bufa de triste-cômicos personagens. Podemos não saber muito, mas o que sabemos não nos permite tornarmo-nos cúmplices de modos tão depravados. 

Não gosto de agitações.

Foto: Sergio Larrain.
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Não gosto de agitações. Por isso gosto de cidades tranquilas. Me apraz a pasmaceira das províncias. Não estou nem um pouco preocupado se nada acontece ou deixa de acontecer nas cidades. Quero sossego e quietude. Já vivi em grandes metrópoles. Não posso dizer que foram experiências saudáveis. Ninguém que habite um lugar que, se gaste horas para ir de um ponto a outro, pode realmente estar satisfeito com a morada.


Olhar à volta.



Para melhor perceber as coisas precisamos de algum distanciamento. Além disso a imagem vista de muito perto, não nos dá uma perspectiva do todo. A esse propósito, lembro o José Saramago. No documentário Janela da Alma, ele diz de uma revelação que teve certa vez, em que foi forçado a mudar de lugar no meio de uma apresentação de ópera. Ele era grande apreciador dos espetáculos. Ia sempre à Ópera Real de Lisboa. Tanto que já tinha uma cadeira cativa em frente ao palco. Certo dia, ao chegar ao teatro, encontrou a sua cadeira ocupada. Com alguma resistência ele foi convidado a sentar-se num dos nichos contíguos ao palco. De lá, deslocado do seu ponto de vista habitual, ele viu o que nunca antes havia visto antes. O palco de cima e por trás. Aquele ambiente que respirava ares monárquico, visto de outro ângulo, pareceu-lhe sujo, empoeirado e nada agradável. E de fato o era. A imagem dos espectadores da plateia não lhes permitem ver além dos cenários montados e dos atores interpretando. Da cadeira cativa de onde sempre via os espetáculos tudo era suntuoso e limpo. De seu novo ponto a realidade era outra, bem menos nobre. Aí surgiu-lhe a mente a ideia de que, para conhecer mesmo uma coisa, verdadeiramente, precisamos todos de "dar-lhe a volta". Contornar os objetos para deles tirar melhores conclusões. Assegurar-se de que ela não é apenas uma fachada bonita, feita para impressionar, mas que também, em volta pode esconde coisas menos nobres, que denunciem melhor o seu todo. 

A Cosac & Naify fecha as portas, uma legião de leitores vê sua fonte secar.

.Alguns dos meus livros da Cosac.
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Só os muitos aficionados por livros entenderão. Os muitos satisfeitos com o mundo tal como é, não pressentirão que o anúncio do fechamento de uma editora pode ser sentido por alguns com pesar. E foi justamente com esse sentimento que recebi hoje a fatídica notícia que a editora Cosac & Naify encerou as suas atividades. Para quem não sabe, a Cosac & Naify é uma editora brasileira que a quase 20 anos vem produzindo livros que, primam pela qualidade literária sem nunca descuidar da edição gráfica. As seus edições de livros nos faz supor que, o livro é antes um relicário e não um monte de papel enfeixado para consumo descartável. Sei disso desde que comprei o primeiro livro dessa editora, lá nos idos de 2003. Cada livro dela é uma verdadeira obra de arte, uma joia que pode ser cultuada, tanto quanto os escritores que fazem parte do seu catálogo que reúne clássicos e importantes obras da literatura brasileira e estrangeira, muitos deles ignorados pelo grande público ou ainda desconhecidos no país. Antes do surgimento da Cosac, poucos poderiam imaginar no Brasil uma editora que pudesse ousar tanto na qualidade gráfica de suas produções. Uma nação de quase não leitores não atraia investidores com interesses em produzir livros com o cuidado e zelo que muitos merecem. Diante do fato de não encontrarmos leitores disponíveis, ficava evidente que em primeiro lugar, o mais importante era dá ao público opções de leitura. Só depois de consolidada uma audiência literária, as editoras poderiam pensar em oferecer um produto com riqueza de acabamento, esmero nos textos complementar e nas apresentações, qualidade de edição, singular apuro gráfico e outros luxos que só os leitores experimentados poderiam exigir. Mas antes que este público, exigente e ávido por um material mais cuidadoso, pudesse existir de verdade no país, a Cosac saiu à frente e resolveu encarar o fato, de editar obras para um público restrito de interessados em livros que, mantivessem os leitores em permanente estado de enamoramento pelo trabalho de edição. Hoje esse sonho chegou ao fim. Os muitos leitores de literatura que a editora conquistou, nesses longos anos de aventura e ousadia, souberam pela imprensa que, os sócios fundadores, resolveram pôr termo ao capricho que os levaram a fundar uma editora sem igual no mundo. Sinto que a cada dia uma certa ideia de cultura se torna rarefeita. Lamento mais essa perda para cultura brasileira.  Já não faz muito tempo tivemos o fechamento da única grande revista literária, a Bravo!. Ainda ontem os jornais traziam suplementos literários que hoje não fazem mais parte dos periódicos, o jornal O Globo bateu o último prego no caixão dos suplementos. Esse será o último suspiro de um geração que caiu ante as investidas da cultura de massa com seus apelos ao consumo desmiolado ou ainda teremos fôlego para suspender por mais tempo a respiração antes de sermos vencidos por um mundo seboso. O que fazer, quando o desnorte é a única estrela que nos guia?



Atento aos sinais

Raramente discuto política. Aprendi que essas discussões têm o desagradável efeito de provocarem, em quem nelas se envolve, uma pane instantânea na inteligência que, faz suspender o bom senso nuns, espumar as bocas noutros e provocar espasmos, semelhantes aqueles dos energúmenos tomados pela violência e o desequilíbrio. Desenganei-me de mais essa vaidade. Quando por acaso uma dessas discussões encontra o meu caminho, salto da calçada à rua e vou parar no outro lado, onde o passeio permite livremente que se suba ou desça, sem ter que dá com quem atravanque o caminho, com a boca ameaçadoramente babando certezas.  

Em que desejas falhar?

Encontrei dia desses, um velho amigo, que há muito tempo não via. Dividimos um apartamento, enquanto esperávamos que a vida, não nos derrotasse, antes de sermos devidamente diplomados pela academia. Chegamos lá e depois disso os nossos caminhos se bifurcaram. Ele agora é professor, creio que dos bons. Em meio as alegres lembranças, que nosso reencontro provocou, ele sorriu e me disse que dia desses lembrou-se de mim em uma de suas aulas. Retribui o sorriso e o ouvi, franzindo o cenho, como quem rumina os pensamentos quanto é tomado por uma inquietação. Meu amigo disse-me que falava aos seus alunos que, enquanto vivia os tempos da universidade conviveu com um amigo - batendo no meu ombro - a quem deveriam todos inspirar-se. Antes que pudesse terminar a mesura, emendei a pergunta: “Servir de inspiração? Eu? Talvez. Em que desejas que os seus alunos falhem?”

Perguntas cujas respostas fazem pensar que o mundo é uma laranja podre.

Por que ao invés de bombardearem os alojamentos do ISIS, encravado no coração das cidades Sírias e Iraquianas, povoadas de gente inocente, a coalizão internacional não manda as suas bombas cirúrgicas, sobre os caminhões que, contrabandeiam petróleo e alimentam assim de recursos o exército de lunáticos?  

Teimar em não perder

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Uma menina, que anda na casa dos 15 anos, se recusou a fazer uma apresentação, lá na escola, só porque tinha que usar uma saia. A saia, segundo ela julgava, a deixava velha. Parecia-lhe um disparate usar uma saia abaixo do joelho em cores vivas e esvoaçante. Ninguém foi capaz de lhe fazer pensar o contrário. Ela estava certa do que era moda e do que estava mais adequado a uma jovem de sua idade. As ameaçadoras saias a faziam pensar em ser alguém que, como vemos, não lhe agradava muito pensar em ser.

Esta jovem aluna não está só em seus pensamentos. Ela age assim porque a própria sociedade se converteu a ideia de que ser jovem é um fim que todos devem perseguir. Já agora temos visto adultos que se comportam como adolescentes. Os custos dessa mentalidade juvenil, estamos todos vindo a contabilizar em abandono, daqueles que um dia nos serviram a comida ao prato, nos acalentaram nas noites enfermas e desafiaram o futuro, renunciando o seu presente, a nosso favor.  

Hoje, quando são os velhos a nos esperar a renúncia, em retribuição a sua entrega, voltamos as costas e ignoramos a sua presença. Projetamos uma sociedade em modelos juvenis, fingindo que a juventude não uma é fase transitória. Relutamos em acreditar que, um dia nós mesmos seremos velhos. Fazemos isso rejeitando tudo o que nos possa lembrar que, a vida passa por fases e que elas nos leva a estágios que precisam serem superados para nos erguermos dignos, e mais conscientes, ao próximo posso na concretização de nossa existência.


Precisamos de uma sociedade com adultos sérios e não com eles com aparelhos nos dentes e chicletes na boca. A juventude, também, precisa saber que os velhos de hoje foram os mesmos que um dia lhes possibilitaram a existência (só por isso eles já deveriam ser honrados), e que amanhã, eles (os jovens) serão, se não mudarem de comportamento, as vítimas dos monstros que abandonam e recusam os seus melhores exemplos de humanidade.  

Não podemos acolher a ideia de que o centro do mundo está nos 15 anos. Nessa idade pouco sabemos e não será nela que devemos esperar as respostas as inquietações e dúvidas da vida. Então por que seria ela o lugar onde gostaríamos de perpetuar o que teimamos em não perder?

Factoide

Foto: de John Cohen. Jack Kerouac ouvindo rádio em 1959.
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O país passaria melhor com um décimo das notícias. É inacreditável o que se ouve, vê e lê nos médias. Quem busca informações hoje está sujeito a encontrar de tudo, menos o que se procura. Uma verborragia, entulha os canais e fazem da imprensa um lugar sofrível.  Ninguém, que assista um jornal, leia uma revistas ou ouça o rádio, pode mesmo se julgar informado. Os médias agem, através de uma lógica, que transformam as notícias, em grotescos espetáculos circenses, que só aos acéfalos agradam.

O que menos importa parece ser a noção de que o público vai à impressa, porque deseja ser informado de algum coisa que lhe escapou e lhe interessa saber. São para isso que servem os média, trazer ao público informações. Mas as mídias abdicaram desse papel, e não se prestam mais a investigação dos fatos, não questionam nem contradizem os relatos, e não se preocupam com o contraditório. A impressão que se tem, é que o jornalismo se vulgarizou e se rebaixou a tal nível que hoje, fica difícil distinguir entre um jornalista e um animadora de torcida.

A mídia, faz de um tudo para manter o público entretido, quando o público só queria mesmo, era saber se vai mesmo ser necessário sair de casa carregando o guarda-chuva, ou por que o político patusco, que fingiu não possuir contas no exterior, ainda não encontrou o caminho da prisão e está presidindo um importante órgão da nação?

Tornou-se intolerável acompanhar as notícias. Dia desses, por exemplo, a cidade em que moro, foi mais uma vez vítima de um bárbaro assalto a banco. Não costumo ouvir rádio, porque as vezes em que tentei, acabei mais aborrecido do que informado. Além disso não suporto as músicas que colonizaram esse veículo, soam-me detestáveis. Mas, curioso em saber mais, sobre o que havia acontecido, de fato, no banco, corri ao fone de ouvido do celular e pluguei-me na primeira emissora de rádio que me apareceu. Deve haver umas 3 ou 4 por aqui. Mesmo suspeitando que, não encontraria muita informação, insisti na ideia de me informar, consultando o jornal do meio-dia que, segundo soube, tem audiência cativa dos ouvintes da rádio.

Do pouco que pude ouvir, entre os gritos histéricos do radialista e uma sirene bizarra que berrava incessantemente, a todo instante, enquanto ele falava (gritava), não foi mais do que o padeiro havia me dito horas antes, ou fui ouvindo pela rua e no caminho ao trabalho. Tanta parlapatice serve apenas ao propósito de não informar o ouvinte. Em meia hora de rádio, não apurei nada que pudesse acrescer às informações, que a população retransmitia em viva voz por intermédio do troca-troca de conversas que dão um colorido todo especial aos dias das cidades provincianas.

Não foi pelo rádio que soube que os bandidos malograram o assalto, também não foi pelo rádio que, fiquei a saber que esse foi mais um caso em que a polícia não tem a menor ideia de quem possa ser os assaltantes, ou o paradeiro dos delinquentes. Convenhamos, as notícias mais relevantes chegam-nos muito mais detalhadas e bem mais integras pelas comadres que se aprazem em reportar os casos que vão ouvindo nos comboios de ônibus, do que são apuradas nas redações de jornais e nas cabines de rádio. 


Apalpar mais e confiar menos

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Parece-me que a todos é suposto saber, o quanto de perverso, maldoso e fingido, pode ser uma pessoa. Devo essa impressão, muito a Lombroso, famoso médico italiano que julgava o caráter de uma pessoa apenas medindo a regularidade do crânio e a simetria dos traços faciais. Outro médico, dessa vez alemão, também desenvolveu uma teoria similar à de Lombroso. No século XIX, o médico e anatomista Franz Gall, acreditava que podia desvendar a personalidade de uma pessoa através da simples palpação das saliências da cabeça de um indivíduo. De repente, percebo, meio envergonhado, que não ando empregando os sentidos corretos para julgar os que me andam à volta. 


O riso da besta

Aceito a ideia de que o homem é um ser bom. Há tempos optei por acolher essa tese, mas os dias e as ações humanas têm-me feito pensar em jogar a toalha. Experiências nada animadoras atiram-me, cotidianamente, à cara, mil motivos para desistir de aceitar o que já me parece uma alucinação. 

Há 72 anos nascia Manuel António Pina

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Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

[Amor como em casa, in "Todas as Palavras", Assírio & Alvim]

As coisas pelo nome que me escapam

Não sou grande conhecedor de árvores. Definitivamente não sirvo para botânico. 

Faltam-me atributos, para reconhecer uma árvore pelo nome. Pesa-me enormemente a ignorância das coisas simples. Mas se é verdade que, ignoro os nomes das árvores, e que me pesa a culpa de não lhes saber os nomes que o povo lhe dão, escapo a todas as faltas, sabendo que, não me falta sensibilidade, para admirá-las pela beleza. E como são belas as árvores que me surgem. 

Crescem nos caminhos que me levam ao trabalho, em meio a vegetação queimada pela inclemência do sol desses dias, umas árvores que, como já disse, me fogem os nomes. Mas estão tão belas pelas margens e ermos que, não me deixam indiferentes às suas insinuantes cores: vermelho carmim, roxo vivo e amarelo ouro. Já há muito desisti de tentar adivinhar-lhes os nomes. São saberes do povo e a eles pertencem. 

A mim hoje me basta saber que, lá estão, estendidas, heroicamente nos descampados das terras feridas pelas mãos humanas. As brutas mãos humanas. Até quando resistirão, exuberantes e coloridas? Quantos outros, elas ainda farão esquecer-se do labor diário, só por estarem a lhes contemplar as formosuras quando passam por elas?


Utopia

. Foto: Robert Doineau. 
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Todos temos, para bem da nossa saúde mental, a necessidade de idealizar um lugar que por mais improvável, não nos pareça, de todo, irrealizável.


Das coisas que gostaria de ter escrito

Não é para qualquer um assumir-se anti o que quer que seja. Ser-se anti não é apenas assumir-se uma posição contrária a, é ser-se pela negação do objecto que se despreza, é colocar-se numa posição de cegueira e de ódio. A ser anti qualquer coisa, eu seria, desde logo, antianti. Mas sem ponta de cinismo posso afirmar que sou anti-racismo, antimachismo, sou anti-homofobia. Pouco mais. Até a estupidez eu consigo admirar em certas circunstâncias, e frequentemente me rio de certas misérias alheias. São poucas as coisas no mundo, sobretudo as humanas, que me merecem desprezo. Adoptei o espírito do romântico e idealista Novalis. No mundo das ideias, aceito tudo e o seu contrário. Os opostos desafiam-me, não me inspiram ódios. As antinomias, os maniqueísmos, estimulam-me. De que me vale ser anti-nazismo? Não sou. O nazismo existe, tento compreendê-lo, esforço-me por estudá-lo para poder contradizê-lo. Não o aceito, mas não lhe tenho ódio precisamente para que nada de mim se possa rever nessa abjecta ideologia.

Via Antologia do Esquecimento, o blog do Henrique Manuel Bento Fialho. 

É que Narciso acha feio o que não é espelho.

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Interessa-me a fotografia. Interessa-me como enigma, como código que desvela outros por sugestões. Gosto dela quando indiciam coisas para além do óbvio. Mas em tempos de imagens omnipresentes as fotografias banalizaram-se. Mais do que ver outras coisas, a fotografia atualmente, tornou-se um espaço para ver narcisisticamente. Com isso as imagens não apelam mais à memória ou ao sentido de decifração que a tornava atraente e atemporal. Hoje tudo já está dado. Esvaziadas de algum sentido simbólico, elas agora não passam de suportes que, estampam rostos e corpos, empenhados em simular vidas alheias. Foram assim assenhoradas por aqueles que não entendem por que não foram parar nas capas de revistas do jet set e estão por isso fingindo estar onde não estão, mas se supõem, pela auto ilusão das bruxuleantes imagens que reproduzem o que a realidade não foi capaz de fazer.  

Não somos assim tão ingênuos, ou somos?

As pessoas reclamam que o the voice não tem música brasileira. O que queriam? O programa se chama the voice. Não se procura comida vegetariana em açougue ou se vai à missa por se ter enganado o caminho da casa da luz vermelha. Chega-se a estes lugares por opção. Portanto, se querem mesmo ouvir música brasileira, vão aos sítios aonde elas são prestigiadas e não estejam ingênuos aos programas da tevê brasileira, eles estão todos muito ocupados em os bestializarem e não têm tempo de ouvirem os seus queixumes. 

Mansos cordeiros

Mark Twain disse que: "há três espécies de mentiras: as mentiras, as mentiras sagradas e as estatísticas". Fosse ainda vivo e tivesse morada no Brasil ele, seguramente, incluiriam ao rol dessas mentiras, uma outra. A mentira Eduardo Cunha que, se caracteriza, não por ser engenhosa ou mirabolante, mas por se valer da crença de que, todos são parvos e, por essa razão, estão dispostos a aceitarem uma farsa como verdade, apesar de todas as evidências em contrário. Embora sejam os políticos quem nos governe, não é deles que devemos esperar remédio e salvação para os nossos males, está bem visto, mas de nós próprios que, devemos cultivar uma consciência social que se negue a aceitar o escárnio e a delinquência como coisas normais. 

As escuras

Foto: Albert Watson - Charlotte Arizona, 1988.

Minha mulher me censura a nudez que veja nas fotos de blog de fotografia. Sou forçado a cerrar as pálpebras e fingir que não vejo. Dentro da cegueira vejo ainda melhor que, se olhasse em direto as imagens que me vão surgindo ao redor. Mas ela não dá por isso. Tanto melhor. Assim, mesmo as escuras, sou mais livre.

Amigos

O bom de ter amigos - de verdade - é que eles não precisam de empurrões das efemérides para sentirem que você é importante. Eles podem estar distantes de você, mas ao andarem por aí, talvez em São José do Rio Preto, sintam a sua presença nas coisas que vão vendo e de repente se lembrem, de que aquilo que vão encontrando pelo caminho, talvez pudesse lhe agradar, pois sabem como poucos aquilo que lhe cativa. Foi isso que se deu com a minha amiga Cléo, que em viagem ao interior paulista encontrou-me numa loja de mimos, entre os motivos fotográficos, cinematográficos e literários que estavam dependurados nas estantes. Cléo, obrigado por estares aí, por ligares e perguntares por mim como quem quer realmente saber. 

Peçonhentos

Desejo sempre que os políticos mordam a língua quando falam. Estou com isso querendo que eles inoculem um pouco de seu próprio veneno e sintam o quanto são peçonhentos. 

Alienado do mundo

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Cada vez mais nos transferimos para o mundo das imagens, cada vez mais nos escondemos, dissimulamos, só em aparência, em simulacro, num duplo alienado do mundo nos damos a ver.

Passageiro da agonia

Frame: Filme O Senhor das Moscas
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Todos os anos vou duas ou mais vezes ao Goiás. Minha mulher tem parentes por lá. Gostamos de estar entre eles. São queridos, e muito caros aqui em casa, todos. Por isso, sempre que nos resta uma folga, ou quando se avizinham as férias, corremos à terra de Cora Coralina, só para estar entre aqueles que mais queremos bem. Nessas visitas, aproveitamos a ocasião para passear pela cidade e flertar com as livrarias que, abundam no centro. Mas sair pela cidade, em determinadas horas e locais, tem se tornado um desafio que exige esforço e nervos sobre-humano. Algo, que descobri na última viagem, a duras penas, não possuir.

Num sábado de folga dos deveres domésticos, e já um tanto cansado da rotina de casa, sai com minha mulher, suas duas sobrinhas pequenas, e minha comadre, que vive fora do país e vem todos os anos passar as férias conosco. Fomos ao shopping Flamboyant que fica no centro da capital goiana. Lá encontro sempre alguma promoção na FNAC ou na Saraiva, que são primores de livrarias. Depois de horas percorrendo os livros, resolvemos retornar ao lar, dado o adiantar das horas e a fadiga das crianças. Foi aí que saímos, inimaginavelmente, de uma realidade comezinha dos passeios familiares, para cair numa página de horror que bem poderia ter sido escrita por William Golding ou Anthony Burgess em alguns de seus livros despóticos sobre a raça humana.

Quando saltamos para dentro do ônibus, que nos levaria para casa, não imaginávamos que no ponto seguinte, ainda em frente ao shopping, viveríamos as piores horas de nossas vidas. De repente, quando o ônibus parou para dá lugar algumas pessoas, que deram sinal no ponto, fomos assaltados por uma horda de jovens, rapazes e moças, com idade entre 14 e 16 anos, não mais do que isso, que invadiram o ônibus forçando as portas e intimidando, aos gritos e socos na lataria, a todos que estavam ali dentro. Aterrorizados, passamos de passageiros à reféns, daqueles delinquentes juvenis, durante todo o percurso do Flamboyant até o terminal Praça da Bíblia, ponto de baldeação no transporte público de Goiânia. 

Entre gritos de “Ohhh!!!!! horrrorrr!!!!! É o bonde do terrorrrrrrrr!!!!!!” e outras bestialidades musicais que bem agradam a mentalidade doentia da nova geração, os menores passaram a arrancaram as luminárias do ônibus e com destreza de quem já há muito tempo pratica a mesma ação, abriram com desenvoltura as portas traseiras do ônibus, mexendo no mecanismo hidráulico que fica acima das portas. Com as portas escancaradas eles passaram a surfar, literalmente, sobre as luminárias, fazendo um estrepitoso barulho no asfalto enquanto o ônibus corria à noite Goiana. O motorista, refém como nós dos delinquentes, não esboçou nenhuma reação aos delitos juvenis. De dentro do ônibus os poucos passageiros que, não faziam parte daquele circo de horrores, se entreolhavam atônitos com tamanha estupidez. Acuados ficamos todos estupefatos com a ousadia e desrespeito daqueles jovens.

Entre o trajeto do pânico e a chegada ao Terminal Praça da Bíblia foram minutos, mas pareceram horas. As tenebrosas bestialidades juvenis nos fizeram saltar no terminal e seguir viajem em outro meio de transporte. Antes que a situação pudesse se complicar ainda mais, nos enfiamos no primeiro táxi que avistamos e largamos para trás os circo de horrores que aquelas crianças perpetravam. Depois da experiência macabra de ver tantos jovens se comportando como primatas, não quisemos pagar para ver aonde aqueles delinquentes poderiam no levar.

A perturbadora cena de selvageria que testemunhei naquela noite, me fez perceber que tocamos, definitivamente, o fundo do poço. O inalcançável mostro da desumanidade não é mais uma personagem de ficção cientifica a nos espreitar na tela do cinema ou nos acossar nas páginas de um livro. Ele temerariamente saltou essa barreira, e não podemos nos considerar desavisados, nem desentendidos dos horrores que a juventude de hoje vai maquinando. Há um bom tempo correm noticias de que ela anda desgovernada, assim como a sociedade que a gestou. Tanta bruteza e desdém pelo semelhante são sintomas de uma comunidade falhada que abandonou o seu futuro por não haver encontrado esperança no presente.

Por todos os cantos há sinais de que a vida em sociedade vai mal. 


Um dia para esquecer

Naturalmente todos podemos viver maus dias. Como o contrário também é verdade não temos porquê nos desesperarmos. Seria tão bom nos convencermos  rápidos de que a vida é assim e assim devemos vivê-la, indiferentes por estarmos, ora por cima, ora por baixo. Mas isso não é tão fácil. Aprendemos a duras penas que, não estamos tão imunes as circunstâncias que as impeça que, de vez em quando, elas se assenhorem de nossos melhores dias, metendo-o de cabeça para baixo. Não se trata aqui de questão de escolha. Por vezes somos joguetes do destino. Quando ele não nos favorece, somos abatidos por algum desânimo e somos forçados a aceitar que nem tudo vai bem. Paciência. Nestas horas o que nos resta é querer que o dia se encerre, logo, ou que uma volta na roda da fortuna nos leve bem rápido para um lugar onde as tristezas, não rocem tão ameaçadores o fundo do poço.  

Um bocadinho limitadora

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São muitos os felizes que vêem a política sem matizes. Mansos, se deixam guiar pelos que lhes seguram as rédeas e estão certos de que ter lugar é estar à esquerda ou à direita do mundo. Fora disso, pensam, só há o muro, ou melhor, o em cima do muro. Isso tudo, é o muito que se podem admitir de lugares. Não lhes ocorrem que, fora dos polos, além dos extremos, ou longe dos muros, possa existir um outro lugar pra pensar.

Tomar posições, fincar bandeira, limitar espaços é o que os fazem felizes e lhes alimentam as convicções mais mesquinhas. Estão certos de seus lugares e de lá querem nos fazer crer que estão com toda razão.  Entendem a política como aquela senhora do conto Olhar à direita, de Oliver Sacks, que via o mundo à volta: em banda.

A história é narrado no livro de contos O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu. Aos sessentas anos a Sra S., sofreu um grave derrame que afetou as porções mais profundas e posteriores de seu hemisfério cerebral direito, fazendo com que perdesse a visão do que lhe estava à esquerda.

Às vezes”, narra Oliver Sacks, “ela reclama que as enfermeiras não puseram a sobremesa ou o café em sua bandeja. Quando elas replicam: “Mas sra. S., está bem aqui, à esquerda”, ela parece não entender o que estão dizendo e não olha para a esquerda. Se sua cabeça for delicadamente virada de modo que a sobremesa fique à vista, na metade preservada de seu campo visual, ela diz: “Ah, está aqui — não estava antes”. Ela perdeu por completo a ideia de “esquerda”, tanto com relação ao mundo como a seu próprio corpo”.

Um tipo pode, como aconteceu com a Srs S., estar acometido de um derrame ideológico e não dar por isso. As ideologias podem ser um bocadinho limitadoras e no mundo deve haver mais lugares para as ideias do que os compartimentos ideológicos, delimitados pela direita ou pela esquerda nos querem fazer supor. 

Bestiário político II

Foto: William Wegman

Tal como um cão que submete as suas vontades a um dono, a política condena pessoas inteligentes ao dever partidário.

Capelistas


Depois do fim das eleições no ano passado, com o seu insuperável festival de baixarias, mentiras e outras imposturas, eu supôs que a guerrilha de quarto, já cansada de tanta sujidade e desmuniciada com o fechamento das urnas, recolheria as suas baterias e faria sossegar os canhões, apontados às mentes e corações dos incautos eleitores.

Agora podemos gozar horas amenas... pensei eu... desfrutar os prazeres de navegar pela internet sem ter que dar de encontro com disfarces ideológicos fajutos, travestidos em torrentes numéricas, que dizem desmentir (ou mentem ainda mais, não se sabe) o que se supõe “calúnias” “difamações” e ingerência midiática sem fim. Infelizmente eu estava equivocado. Mais uma vez a estupidez não deu trégua, e a internet voltou a ser o palco de bufões alegres, entretidos em trocar acusações. 

Entrincheirados em suas posições ideológicas, esses intrépidos agentes circenses, querem nos fazer crer, antes gráficos, tabelas, mapeamentos econômicos, variações cambiais e outras alquimias políticas, sabedores de todas as verdades que precisamos saber, para ir bem nas escolhas dos dirigentes do povo. Embora pareçam esclarecer, não fazem mais do que, monocordicamente, ladrar uma fraseologia, que logo se vê de cara, está subordinada às exigências da tática política à qual prestam vassalagem. 

Passados mais de um ano das eleições presidenciais não há um único momento em que não deixamos de perceber que a política, entre outras coisas, é capaz de desmiolar os seus entusiastas e os fazer padecer de uma certa indigência mental insuperável. Ah! Como seria bom ser surpreendido em política, com ideias e discursos livres de amarras ideológicas. 

Bestiário político

"Se o Lula mandasse eu votar num cachorro eu votava".

A política e o país são o que são pelas razões que ouvimos num bar à mesa com os amigos.

Vive la France

Foto: Robert Doisneau
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A França é surpreendente. Leio no blog da Maria do Rosário que, em meio a crescente onda de expansão dos saites de venda de livros, que monopolizam o mercado e soterram as pequenas livrarias, a França cria uma série de medidas para defender as livrarias tradicionais. A Câmara de Paris não quer de modo algum o fim do comércio tradicional e por essa razão está atenta aos livreiros que precisam de ajuda para se manterem vivos. Algumas das medidas já adotadas foram: isenção de impostos e subsídio para atividades de promoção de livros nesses pequenos comércios. A população também se moveu. Uma empresa semipública comprou por toda a cidade espaços livres ou abandonados em ruas de comércio e aluga-os por renda baixa, a cerca de metade do preço de mercado, para livreiros se instalarem. Conscientes da importância das livrarias tradicionais os editores se reuniram e criaram um fundo que permite a novos livreiros começarem a atividade sem pagarem nada antes de dois anos. Por sua vez os livreiros criaram um saite coletivo que difundem agenda de ações e sugerem aos leitores livrarias, onde possam encontrar o livro desejado. Não direi nada sobre as políticas de promoção dos pequenos livreiros no nosso país, não tenho informação sobre a existência ou não dessas políticas. Mas posso afirmar que, se existem, não estão funcionando. Quando vivi em São Paulo costumava visitar os sebos na região do Centro da cidade. Por anos vi esses comércios desaparecerem. Assediados pelo mercado imobiliário e fragilizados pela concorrência desleal com as gigantes do comércio on-line os sebos da região central de São Paulo cederam espaços às garagens ou às lojas de xingui lingui chinesas, que se proliferam pelo centro como cancro num corpo furibundo. Penso que ter onde deixar o carro, quando se vai à um lugar é importante. Mas não mais importante do que incentivar a permanência do comercio tradicional de livros, que tanto podem fazer para expandir o conhecimento e criar uma cultura de valorização de espaços sociais, onde se possa viver a vida em comunidade. A virtualidade mata. 

Doce ilusão

Foto: Vivian Maier, New York, 1954. 
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Chega aquela hora do dia em que você se encontra finalmente em casa. Depois de cumprida a labuta diária, que lhe impedirá os vexames de ter à porta, credores lembrando-o dos compromissos firmados e não horados, está na hora de se entregar alegremente àquele prazer que lhe reconstitui as forças. Antes, uma passada pela cozinha, porque lá em casa ainda não conhecemos máquinas capazes de limpar sozinha as loiças empilhada na pia. Vencido mais essa tarefa, que nos exila dos contentamentos mais chãs, finalmente podemos estar onde mais desejamos. Na cama, a dormir e a sonhar que somos uma criança, a porta da uma delicatessen, esperando a guloseima tão desejada nas mãos.

Num ritmo sereno

Foto: Rogério Soares, 
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Adoro fotografias. Isso aqui todos já sabem. Por mim passava os dias olhando os flagrantes de imagens que os fotógrafos vão colhendo pelo mundo. Não importa o tema. Fotografia de moda, fotografia artística, fotografia de paisagens, fotografia de rua, fotomontagem, lugares distantes ou meros registros cotidianos. Não são os temas o que me cativam, mas o quanto num instante, o fotógrafo consegue deter de transcendente num registro banal. Um bom fotógrafo é capaz de num ensaio de moda atrair para o centro de gravidade do olho, não apenas o fetiche da roupa, mas além dela, fazer o expectador dar uma volta ao entendimento e chegar a lugares impensáveis num primeiro momento, só por estar contemplando uma foto. Naturalmente com a apreciação e a reverência pela arte, vem o desejo de também fazer fotografia. Por isso, desde que comprei uma câmera ando as voltas comigo mesmo tentando apurar o olhar e fazer imagens que também façam quem as aprecie achar algo a mais nelas do que o mero registro banal do real. Livrar-se das velhas formas de ver o mundo é um bom começo para se preparar para a fotografia. Mas não é fácil desacostumar os olhos. Os condicionamentos também atingem a vista como atingem e moldam o andar, o sorrir, o gesticular, etc.. É preciso portanto, desacostumar o olho e imprimir ao ato de mirar as coisas um desvio que desarticule o estabelecido. Um bom exercício para alcançar isso, na ausência de um melhor método, tem sido demorar os olhos sobre os objetos. Contemplar, contemplar, contemplar sem pressa. Pousar a vista sobre uma paisagem, grupos de pessoas, coisas e encará-las por horas, esperando que em algum momento elas revelem ao olho algo que o ritmo apressado não deixou apreender. O resultado tem sido uma insuspeitada expansão do horizonte, que se não tem escancarado as portas da percepção, vem servindo ao menos para divorciar-me da realidade apressada. A melhor imagem, tenho vindo a aprender, é aquela apreendida num ritmo mais compassado e sereno. 


Plágio criativo ou de como dá vida nova à coisas pretéritas.

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NOTAS AVULSAS.

Numa música antiga do Caetano Veloso tem um pedaço assim: “Navegar é preciso. Viver não é preciso”.

Todos adoravam. Era um refrão. E não era dele.

Ele teve várias chances de esclarecer a autoria, mas não se manifestou. Deveria. Era a parte mais bonita da letra, e canto não tem aspas.

Mais tarde um intelectual informou ao País: o verdadeiro autor era Fernando Pessoa.

Intelectual meia-boca: a frase é do general Pompeu, inimigo de Júlio Cézar. Foi dita numa carta, em 70 A.C.

Por muito tempo eu não entendia esse pedaço: “Navegar é preciso. Viver não é preciso”.
Como assim, “Viver não é preciso?"

Só depois dos 30 entendi. Li em algum lugar: o “preciso” tinha o sentido de “exatidão”.

Os navegadores, já naquele tempo, tinham meios de orientação. Sempre sabia onde estavam.

"Navegar é exato. Viver não é exato". É isso aí.


(Carlos Antônio Jordão - 03 - 10 - 2015)

Há dias li estas notas e desde então venho pensando no plágio como uma ferramenta criativa. A culpa dessa inquietação também se deve a uma conversa com Iamara Junqueira. A tomada de empréstimo de ideias alheias Iamara, não pode está reduzida aos sentidos baratos que lhe atribuímos. Estou certo que uma apropriação indevida pode maquiar uma deficiência, daquele que se vale do outro, como uma muleta às suas limitações. Porém, há mais possibilidades nas apropriações, como sugere o texto do Carlos Antonio Jordão. Um bom exemplo dessas apropriações que renovam o estilo e arejam as artes, podemos apanhar em Picasso, que expressou em uma frase o estilo que o notabilizou: "Bons artistas copiam, grandes artistas roubam”.