O MEDO DO MAL

capa do livro
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Acabo de adquirir um livro da poetisa mineira Henriqueta Lisboa (1901-1985). Até essa data não conhecia essa senhora, que segundo, nos informa a contracapa do livro, tratar-se de uma respeitada poetisa modernista e eminente professora de Literatura. O livro em questão, não faz parte de sua produção poética e sim de entusiasta da cultura popular. O título é: Literatura Oral para Infância e a Juventude: Lendas, Contos & Fábulas Populares no Brasil, edição 2002, Peirópolis. Como o título sugere, trata-se de uma seleção de contos, lendas e fábulas, colhidas do imaginário popular por autores como Amadeu Amaral, Affonso Arinos, Nina Rodrigues e outros 15 nomes. Henriqueta é responsável apenas pela seleção dessas histórias editadas pela primeira vez na década de 50 e que agora sai em caprichada edição, prefaciada e ilustrada por Ricardo Azevedo. Além do fato do livro ser uma recolha de histórias colhidas por grandes autores e obras há muito esgotadas e/ou na eminência do esquecimento, chamou minha atenção os critérios de seleção dos contos feitos pela autora, que ciosa em "melindrar a saúde mental da infância", deixou de fora contos em que o "mundo da sombra, do medo, da irreverência e do mal seja poupado, na medida do possível, a sensibilidades imaturas". Fiquei curioso em saber quais histórias eram essas que melindravam "a saúde mental da infância". Numa rápida inspeção pelo sumário do livro, constatei que nenhuma história, ao menos nos títulos, fazia qualquer referência à morte, por exemplo. Calha então saber que os autores, mesmo aqueles preocupados em transmitirem importantes valores ou em preservarem o rico patrimônio herdado de nossas tradições populares, revistam quase sempre seu trabalho de um zelo moral que deixa parte da vida - parte significativa - renegada ao esquecimento. Tanto brio e tanto garbo na preservação das consciências "imaturas" bem poderia ser sinônimo de uma genuína preocupação com as consciências, não fosse o particular de que elas revestem a vida de detalhes parciais, nunca inteiriça.

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