A coragem de dizer BASTA!

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Em Desconstruir Duchamp, editado pela Vieira & Lent (2003), o poeta e crítico Affonso Romano de Sant´anna afirma que a arte do século XX desmoralizou o que entendíamos como arte. Em seu lugar - sim, porque por mais que ela se pretenda anárquica e completamente descompromissada, ela continua querendo alguma coisa - a arte contemporânea instituiu a fé como substituto da experiência estética. É preciso ser um crente para acreditar na arte contemporânea. Somente a fé impiedosa na palavra do artista, que sem nenhuma habilidade chafurda a tinta numa tela em branco e depois a expõe como arte, e na desistência completa de nossas capacidades críticas, para acreditar que os objetos grosseiros que muitas galerias, bienais, museus, casas de leilões, agentes publicitários e outros meios de comunicação nos empurra, são realmente fruto do engenho e arte que caracterizam o melhor da criatividade humana. Por isso ele pede uma revisão urgente nos valores que norteiam os sentidos da “arte” que dominam a nossa época. Infalível em suas análises críticas Affonso Romano de Sant´anna, como anuncia no título do livro, desconstrói o mito do artista moderno, criado por Marcel Duchamp (1887-1968), o dadaísta mitômano, que criou a ideia de arte conceitual - concepção que considera a ideia, o conceito por trás de uma obra artística como sendo superior ao próprio resultado final - para justificar todo tipo de escatologia. Radicalizando contra os embustes modernos Sant´anna alerta, no entanto, que nem tudo que se está produzindo hoje em dia seja de má qualidade, nem que ele seja contra a arte abstrata ou a arte contemporânea: “Não se entenda do que eu disse nos artigos anteriores que sou contra a pintura abstrata. Há pinturas abstratas excelentes. Não se entenda do que eu estou dizendo que sou contra instalações. Há algumas excelentes. Não se entenda, simploriamente, que sou contra a arte genericamente chamada de contemporânea. Não me creiam mais incompetente e tolo do que sou. Denuncio os embuste que estão misturados a coisas essenciais. Entenda-se isto sim, que estou radicalizando, correndo riscos e tirando os véus e vendas dos olhos. As vanguardas foram importantes, mas já viraram ‘estilo de época’. Há que passar a limpo o que foi feito, não para voltar à ‘academia’, ao ‘passado’, mas para sair dos desvios e dos equívocos.” Até que enfim um intelectual de calibre, com coragem de endossar o que a muito o senso comum já dizia.  


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