As lições de Suassuna

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(...)

e sem escuitar mais acordo,

cravou as espora d´oiro

nos ilhais do belo cavalo branco

de D. Jorge de  Albuquerque

e atirou-se novamente à refrega,

perdendo-se no mar de lanças.



Antero de Figueiredo

As mariposas e os holofotes

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A imagem que ilustra este post é do personagem Terry Malloy, interpretado pelo ator Marlon Brando no filme Sindicado de Ladrões. Realizado em 1954 ele foi dirigido por Elia Kazan. Por essa interpretação Marlon Brando ganhou o seu primeiro Oscar de melhor ator. Em 1972, quase vinte anos depois, ele foi indicado, e ganhou mais uma vez, também como melhor ator, dessa vez pelo papel de Don Corleone no filme, O Poderoso Chefão, do diretor Francis Ford Coppola. 

Na cerimônia de entrega do prêmio, Marlon Brando protagonizou uma cena digna da sétima arte. Ele fez o que na época, e ainda hoje, pode ser considerado por muitos como uma heresia; recusou a honraria da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e não compareceu para receber o prêmio. Quando seu nome foi anunciado, surgiu no meio da platéia, entre os olhares atônitos de Roger Moore e Liv Ullmann, atores escalados para recepcionar o homenageado, uma representante do ator, sua amiga Sacheen Little Feather, que, entre as vaias e os aplausos dos presentes, improvisou um discurso em defesa dos índios americanos. 


Mais tarde Marlon Brando disse que sua intenção, ao declinar do prêmio, era constranger, “uma indústria que tinha sistematicamente deturpado e denegrido a imagem dos índios durante seis décadas”. Cansado das frivolidades de Hollywood enquanto o mundo ardia em chamas na guerra do Vietnam, e os nativos americanos eram caçados como nos tempos do velho West, Brando relutava em aceitar a ideia de que um terço da humanidade estivesse parado assistindo aquela celebração fútil, enquanto tudo isso estava acontecendo sem o menor constrangimento de ninguém. Ele não poderia ter escolhido melhor vitrine para chamar a atenção do mundo sobre essas causas. A audiência da cerimônia do Oscar, na época, foi estimada em mais de 1 bilhão de pessoas. Hoje ultrapassa os três bi. 

Em sua autobiografia ele escreveu que considerava já algum tempo desadequado premiar artistas pelo seu trabalho. Os Oscar da Academia e o alvoroço que se cria à sua volta elevam segundo Brando, o trabalho do ator a um nível imerecido. “Com a quantidade de problemas graves existentes no mundo, torna-se absurdo que um fato tão inconsequente assuma tais proporções... Conheço pessoas que com seis meses de antecedência começam a pensar como irão vestidas à cerimônia e se tiverem alguma hipótese de serem nomeadas começam a memorizar o discurso de aceitação. E, se ganham, fingem então que as suas palavras são espontâneas, mas a verdade é que foram ensaiadas desde há muitos meses”. 

Definitivamente Marlon Brando não era uma pessoa razoável, hesitante ou comedida com as palavras, como exigem a carneirada. A severidade com a qual ele encarou o seu tempo diz muito desse homem que não tolerava facilmente os holofotes, que alguns insistem em manterem sempre apontados pra si. Ao rejeita o prêmio que muitos cobiçam Brando investia contra as farsas que encobrem o mundo das celebridades e também contra uma sociedade que tem como único desejo na vida sair do anonimato direto para o estrelado.  

A cerimônia do Oscar tem origem, escreveu Marlon Brando, na obsessão de Hollywood em autopromover-se; as pessoas do meio sentem uma verdadeira paixão em prestar tributo uns aos outros... isso tranqüiliza-os acerca do seu valor, especialmente depois de terem crescido no seio de uma cultura onde impera a culpa e uma forte pressão pra cada um se evidenciar. Creio que Marlon Brando foi o último de uma casta de grandes atores que não fazia arte esperando apenas os aplausos públicos.

J, Accuse...!

Riquezas pelo caminho




Fotos: Regina
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Enquanto navegam, aqui e acolá, os tripulantes dessa nau encontram uns tesouros que enriquecem a jornada, e em momentos tempestivos, afastam as incertezas desse vasto mundo. Dessa vez, foram uns regalos preciosos, que muito acalentarão a cobiça dos exaustos marinheiros, enquanto aguardam a próxima jornada em busca de mais riquezas, que os conforte e tanjam os riscos da pobreza e outros demônios que assaltam incessantemente esses tempos.

Carros, Governo, Impostos e outras mutretas que fazem desse país uma vergonha


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Aprendi que o princípio básico do capitalismo de mercado é a não interferência do Estado nas ações da economia. O agente regulador do mercado nas disputas, segundo a óptica liberal, deve ser, do próprio mercado. Ao estado compete, segundo Milton Friedman, ideólogo do Neoliberalismo, uma atuação limitada: “Sua principal função (a do Estado) deve ser a de proteger nossa liberdade contra os inimigos externos e contra nossos próprios compatriotas; preservar a lei e a ordem; reforçar os tratos privados” noutro trecho do seu famoso livro Capitalismo e Liberdade, Friedman atribui outra função ao Estado: “promover mercados competitivos” estimulando a concorrência e a livre iniciativa. Como vemos, a participação do Estado na vida econômica, segundo o modelo Liberal, limita-se a umas poucas ações, nenhuma delas ligadas a regulação, fiscalização ou manutenção da economia. Qualquer outro papel do Estado causaria o que os “imperdenidos homens de ideias” chamariam de desordem econômica. 

Na teoria a prática é outra. As recentes medidas que o governo brasileiro adotou para, supostamente, proteger o mercado nacional contra a especulação internacional, taxando em até 30% os produtos importados, beneficiaram diretamente as montadoras de automóveis que fabricam no país e penalizaram as empresas que importam os carros. Em nota, o ministro da economia se apressou em negar que, o reajuste tenha sido feito para impedir o crescimento das novas marcas, como desejam as montadoras nacionais. Difícil acreditar nessa história. O que está por trás disso tudo são interesses econômicos e não a defesa do trabalhador brasileiro como querem nos fazer acreditar o governo e as empresas. 

As intervenções rechaçadas pelo Neoliberalismo são sempre bem vindas para salvar empresas ameaçadas pelo livre comércio. Era agora que as ideias de Estado mínimo preconizadas pelos ideólogos; economia competitiva, livre comércio, concorrência, deveriam vir à tona. Porém, o que vemos? Mais uma vez o Estado intervindo a favor das empresas com a desculpa esfarrapada de estar, assim,“protegendo” o Brasil e o comércio nacional... balela. 

Com a entrada da concorrência chinesa no mercado de automóveis, as montadoras, que há anos monopolizam o setor, viram o mais promissor mercado consumidor de automóveis do mundo, mais uma vez ser alvo de outras raposas, e saíram logo à procura do Estado para refazer o jogo e começar tudo de novo, dessa vez com novas regras. A livre concorrência responsável, segundo os pensadores do Liberalismo, por equilibrar os preços e permitir ao consumidor uma opção viável, está sendo solenemente ignorada, sob a desculpa da ameaça do desemprego. 

Segundo matéria do jornalista Joel Leite (aqui), o carro fabricado no Brasil por essas montadoras que o governo mima, é o mais caro do mundo. Os produtos são os mesmos, mas os preços praticados não. Vejam esses exemplos: O Corolla fabricado em três países, possuem diferenças de preços consideráveis. No Brasil o carro custa, segundo informações do jornalista, US$ 37.636,00, na Argentina US$ 21.658,00 e nos EUA US$ 15.450,00. Outro exemplo de causar revolta: o Jetta é vendido no México por R$ 32,5 mil. No Brasil esse carro custa R$ 65,7 mil. Joel aponta ainda outros exemplos. O Gol I-Motion com airbags e ABS fabricado no Brasil é vendido no Chile por R$ 29 mil. Aqui, custa R$ 46 mil. 

Se o Estado realmente estivesse preocupado com o brasileiro, em vez de penalizar a concorrência, desestimulando como está fazendo, deveria cobrar das montadoras nacionais preços justos e competitivos, que pudessem fazer frente aos produtos chineses e não interferir na competição pelo mercado que empurraria os preços para baixo. Ao acionar essas medidas o governo salva, não os empregos e a indústria nacional, mas o lucro exorbitante das montadoras que não se acanham em venderem o mesmo produto em países diferentes com margem de lucro inexplicável.  

Esse governo tem vários méritos, nenhum deles, porém, está associado às ações econômicas.

Um blog incasto

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Adoro os blogueiros portugueses. Sempre que descubro um novo, saúdo com alegria essa descoberta. Prefiro os lusos aos nacionais. Não me falta ocasião para lê-los.  O porquê dessa predileção, eu  não sei, as razões ainda me escapam. Talvez, julgo eu, sem ter certeza, seja o português castiço, que a maneira própria dos irmãos além-mar me desperte, ocultamente, uma melancolia da língua de Camões. Ou ainda, a maneira incasta, com a qual eles empregam essa mesma língua, contra as manadas a caminho do matadouro.

Visitar blog aqui (aviso, esse blog é devastador)

Esse blog hoje acordou assim...

Os artistas e as touradas


O que há em comum entre Goya, Picasso, Hemingway e João Cabral? À primeira vista nada.  Porém, um detalhe chama a atenção na vida e na obra de cada um desses homens. Ambos pintaram ou escreveram, em algum momento, sobre as touradas e os toureiros. As cenas de virilidade e coragem que vinham das arenas despertaram grande fascínio entre estes mestres, e de alguma forma definiram seus temas artísticos.



Seduzido pelas disputas entre homens e animais dizem que Goya, chegou a tourear na juventude, fato que talvez explique o encanto desse pintor por esse espetáculo ao qual dedicou uma série de gravuras e pinturas que sugerem, com grande comedimento de recursos, as tensões ocorridas nas Plaza de Toros



Picasso, assim como Goya, foi outro reconhecido amante da tauromaquia.  Seus feitos artísticos revelam a paixão por esse esporte tão violento, e ao mesmo tempo, tão fascinante. Como Goya, ele dedicou muitos de seus trabalhos ao registro de homens que com destemor incomum enfrentaram seus medos nas arenas de touros munidos apenas de capa e lança.  




Símbolo da cultura Ibérica, as touradas também inspiraram paixões nos ilustres estrangeiros que viveram na Espanha. Ernest Hemingway que viveu por lá por muitos anos, enquanto cobria a guerra civil, acabou se enamorando pelas touradas. Em alguns de seus livros como, Por quem os sinos dobram e O Sol também se levanta, ele se rendeu aos duelos sangrentos e bestiais do embate entre homens e animais. Mas foi em O Verão Perigoso obra não ficcional, que narra uma viagem do autor pela Europa na companhia de dois grandes toureiros: Antônio Ordoñez e Luis Miguel Dominguín, que vamos encontrar um Hemingway apaixonado pelos duelos das arenas.




João Cabral de Melo Neto foi outro destacado admirador das disputas taurinas. Vários de seus poemas enaltecem a figura dos valentes toureiros, como Manolete “o de nervo de madeira”. 

Espetáculo controverso, as touradas inspiram hoje duelos em outras arenas. Despida de sua mística poética, que a via como metáfora da existência humana na luta renhida contra os maiores obstáculos ou como queria João Cabral como, “a vitória da inteligência contra a força bruta”;  a alegoria taurina, se dissolveu sob o discurso de que a luta contra os touros não passa de um exercício de crueldade, em que uma massa irracional volta todo o seu ódio contra as bestas ferozes de chifres ameaçadores, pelo simples capricho de infringir ao outro dor e sofrimento atroz. 



Dentro e fora da Espanha as touradas são alvo dos ativistas dos animais. Talvez por isso, hoje em dia elas sejam vistas com reservas pela comunidade artística. A exceção talvez seja o peruano Mario Vargas Llosa, atual ganhador do Nobel de Literatura, que ao contrário de seus pares literários da atualidade, ainda continua a ver nas touradas um espetáculo poético com raízes nas profundas tradições da cultura ibérica. 



 No livro, A vida dos Animais, o escritor sul-africano J.M.Coetzee, também nobelizado,   ver nas touradas, exaltadas pelos artistas:  um indício [de uma estirpe de poetas que celebram o primitivo]. Mate-se a besta, sem dúvida, dizem eles, mas transforme-se isso num concurso, num ritual e honre-se o adversário pela sua força e bravura. Coma-se, também, após se ter vencido, por forma a que a sua força e coragem entrem em quem a dominou. Olhe-se nos olhos antes de a matar, e agradeça-se-lhe depois. Cante-se sobre ela. Pode chamar-se a isto primitivismo. É uma atitude fácil de criticar, de ridicularizar. É profundamente masculina, machista. Deve desconfiar-se das suas ramificações políticas. Mas, no fim de contas, há nisto algo atraente do ponto de vista ético”.  

O tema é polêmico e muito difícil. O que vocês acham... dêem sua opinião, são a favor ou contra as touradas.  

A celebração da estupidez

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Um amigo insistiu comigo que o melhor do entretenimento na tevê brasileira é aquele programa transmitido pela rede Globo, onde pessoas voluntariamente se deixam enjaular numa mansão de luxo, só para provarem o quanto são diferentes dos animais, sem conseguir fazer isso. 

A tevê brasileira não é lá grande coisa. A maioria dos programas, principalmente aqueles veiculados pelas emissoras líderes de audiência, são constrangedores. Eles subestimam a capacidade dos telespectadores, violentam a infância, estimulam o consumismo, incitam e promovem a discórdia e ainda possam de bom-mocismo, para se autopromoverem e promoverem as marcas que financiam a baixaria que diariamente deseducam o brasileiro. Agora nem tudo está perdido. 

Se meu amigo exercitasse o seu controle remoto com alguma freqüência, veria que, além daqueles velhos canais que vivem da castração das consciências, há vida inteligente na tevê, por mais surpreendente e espantoso que isso possa parecer. Um click e meu amigo reconheceriam que o “melhor do entretenimento da tevê brasileira” vive do torpor de sua consciência. 

A ausência de espírito crítico, desestimulada em todos os níveis da sociedade, ilude o olhar, simplifica e reduz a zero a possibilidade de enxergar além das velhas e desgastadas realidades televisivas. Triste nação, a que se pauta pela televisão.  

O politicamente correto e a literatura


Suas dificuldades com Delphine Roux começaram no primeiro semestre em que ele voltou a dar aula, quando uma de suas alunas, que por acaso era uma das prediletas da professora Roux, foi procurá-la, como chefe do departamento, para se queixar das peças de Eurípides incluídas no curso de tragédia grega dado por Coleman. Uma das peças era Hipólito, e a outra era Alceste; a aula, Elena Mitnick, achava que essas obras “depreciavam as mulheres”.

            “Então o que é que eu vou fazer para agradar a senhorita Mitnick? Retirar Eurípides da minha lista de leituras?”

            “Absolutamente. Está claro que tudo depende do modo como você ensina Eurípides.”

            “E qual é”, perguntou ele, “o método recomendado hoje em dia?” pensando, naquele exato momento, que para aquele tipo de discussão ele não tinha nem a paciência nem a civilidade necessárias. “A leitura equivocada que a senhorita Mitnick faz dessas duas peças”, dizia Coleman a Delphine, “está fundada em preocupações ideológicas tão estreitas e provincianas que não dá para ser corrigida.”

            “Então você não nega o que ela fiz - que você não tentou ajudá-la.”

            “Uma aluna que me diz que eu falo com ela numa ´linguagem falocêntrica´ não pode mais ser ajudada por mim.”

            “Então”, disse Delphine, sorrindo, “o problema está aí, não é?”

            Ele riu - espontaneamente, mas também com um objetivo. “É? O inglês que eu falo não é sutil o bastante para uma inteligência tão refinada quando a da senhorita Mitnick?”

            “Coleman, você está a muito tempo fora da sala de aula”.

            “E você até hoje não saiu dela. Minha cara”, disse ele, escolhendo bem as palavras, com um sorriso calculadamente irritante, “passei a vida inteira lendo essas peças e pensando nelas”.

            “Mas nunca da perspectiva feminista da Elena”.

            “Tampouco da perspectiva judaica de Moisés. Tampouco da perspectiva nietzschiana sobre a perspectiva, tão na moda atualmente”.

            “Coleman Silk é a única pessoa na face da Terra que só tem uma perspectiva: uma perspectiva literária pura e desinteressada.”

            “Quase sem exceção, minha cara” - outra vez? E por que não? - “nossos alunos são de uma ignorância abissal. A formação deles é de uma ruindade inacreditável. Eles levam uma vida marcada pela esterilidade intelectual. Eles chegam sem saber nada, e a maioria deles vai embora sem saber coisa alguma. E o que eles menos sabem, quando se matriculam no meu curso, é como ler o teatro clássico. Lecionar na Athena, principalmente na década de 90, ensinar para a geração que é de longe a mais burra da história dos Estados Unidos, é a mesma coisa que subir a Broadway lá em Manhattan falando sozinho, só que, em vez das dezoito pessoas que ouvem você na rua falando sozinho, aqui estão todas na mesma sala de aula. O grau de conhecimento desses alunos é, sacou, tipo assim, zero. Depois de quase quarenta anos lidando com esse tipo de aluno - e a senhorita Mitnick é bem típica - posso lhe afirmar que nada poderia ser pior para eles que uma leitura de Eurípides com uma perspectiva feminista. Apresentar aos leitores mais ingênuos uma leitura feminista de Eurípides é uma das melhore maneiras que se podem imaginar de desligar o raciocínio deles antes mesmo de ter oportunidade de começara demolir o primeiro ´tipo assim’ deles. Chego a achar difícil acreditar que uma mulher instruída, com uma formação acadêmica francesa como a sua, seja capaz de acreditar que existe uma leitura feminista de Eurípides que não seja pura bobagem. Será que você realmente se converteu em tão pouco tempo, ou será apenas uma manifestação do tradicional carreirismo ditado pelo medo das suas colegas feministas? Porque se for mesmo carreirismo, por mim tudo bem. É uma coisa humana, eu compreendo. Agora, se for um compromisso intelectual com essa idiotice, então eu estou pasmo, porque você não é nenhuma idiota. Porque você é uma pessoa instruída. Porque na França ninguém na École Normale levaria essa bobajada a sério. Será possível? Ler duas peças como Hipólito e Alceste, depois ouvir uma semana de discussões em sala de aula sobre cada uma delas, e no fim não ter nada a dizer sobre as duas peças além de que são ´degradantes para as mulheres´- isso não é ´perspectiva´ coisa nenhuma, meu Deus - isso é abobrinha. Abobrinha da moda”.

            “A Elena é uma aluna. Ela tem vinte anos de idade. Ela está aprendendo.”

            “Sentimentalizar aluno não fica bem em você, minha cara. Leve seus alunos a sério. A Elena não está aprendendo. Ela está repetindo que nem um papagaio. E se ela foi procurar logo você é porque provavelmente ela está repetindo o que ouviu de você.”


*Excerto  do livro a Marca Humana do escritor americano Philip Roth. Em breve escreverei sobre o livro...
           

11-S ou o dia em que a anemia moral se alimentou da hipocrisia

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Há uma semana, a mídia brasileira -ao menos aquela de costume- não faz outra coisa a não ser bajula os EUA. Como se no restante do mundo não estivesse acontecendo nada de relevante, a imprensa voltou todos os seus holofotes, (não posso deixar de pensar que o que estar acontecendo seja um show de prestidigitação) para cobrir os 10 anos do atentado que botou abaixo um dos símbolos do poder de uma nação que até então se achava invulnerável.

As comoventes homenagens que estão sendo prestadas às vitimas dos atentados de 11 de setembro, não escondem o fato de que, até agora, nada de concreto foi feito para impedir que o ódio provoque cenas ainda mais tenebrosas do que aquelas ocorridas há dez anos. Pelo contrário, os EUA, apoiados no medo promovido pelas imagens que correram o mundo ao vivo -e que agora, mais uma vez voltam às retinas de bilhões de espectadores - recrudesceram sua política expansionista baseados nas falsas premissas de que estavam se defendendo dos invasores bárbaros. 

A legitimidade das invasões ao Iraque e ao Afeganistão, bem como as inumanas prisões de Abu Ghraib  e Guantánamo,  nunca foi questionada pelas nações hegemônicas, que preferiu ignorar a arbitrariedade de sua maior potencia militar ao invés de censurar as ações que ainda hoje estão em curso. O que os americanos pranteiam hoje foi o que eles semearam ontem.

¡Gracias, España!

CRIADOR E CRIATURA
FOTO DIVULGADA POR AGUSTÍN ALMODÓVAR/EL DESEO
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TÉO JÚNIOR
Pedro e Antonio no lançamento de “A Pele que Habito”. Um reencontro de dois astros 20 anos depois

Quando se fala da Europa, imagino que as pessoas tenham uma certa inclinação em primeiro lugar pela França, depois, talvez, pela Inglaterra?, em seguida, quem sabe, pela Itália? Culturalmente todos esses países deram sua contribuição para a humanidade, todavia somos um povo que vivemos de fazer escolhas. Gosto dessa brincadeira de atribuir notas, de eleger. Admiro o glamour e a sofisticação que sempre inspiraram a França, o poder real inglês, esses casamentos de conto-de-fadas que paralisam o mundo – não vi o de Kate – e aprecio também a beleza extraordinária dos italianos, o que me remete de imediato ao Renascimento e aos quadros estupendos de Caravaggio etc. Mas, apesar de ter respeito por todos esses, o país que mais amo é a Espanha. Admirar é uma coisa. Amar é outra. Não sei o verdadeiro motivo. Não tanto por ela ter nos legado um Picasso, um Galdí, um Lorca, um Dom Quixote, o que já seria louvável - mas pelo cinema de um senhor chamado Pedro Almodóvar Caballero. Fiquei instigado em falar sobre a Espanha, depois que Rogério disse preferir, entre todas, a cultura francesa, destacando-se as mulheres, cultas e lindas. 

Admito, sem um pingo de constrangimento, que meus conhecimentos sobre cinemas são escassos. Evidentemente, sei distinguir um Fellini de um James Cameron, por exemplo (não sou tão estúpido!) mas minha bagagem cinematográfica encerra-se pouco acima da base de uma pirâmide. Mas foi Pedro quem me despertou o interesse por essa extraordinária arte e, atrelado ao estilo “almodovariano”, sua língua, razão pela qual venho estudando sistematicamente o idioma, falsamente identificado com o português, pois as duas línguas têm mais diferenças do que semelhanças. Sou grato ao artista Pedro por me fisgar assim de um modo tão avassalador e tão incrivelmente fascinante. 

Como o conheci? Assistindo a um filme pouco expressivo, mas carregado de tensões. Chama-se Tacones Lejanos, tradução para o português: De Salto Alto (1992). E por que Almodóvar é tão bom? Porque ele é versátil. Não se prende a um estilo único, e paradoxalmente, tem o poder de deixá-los em todos os filmes. É um e ao mesmo tempo, muitos. Não é somente pelo colorido exacerbado, pelas paixões labirínticas e pelo fato de suas criaturas explodirem de desejo que ele é excelente. Há as situações triviais do cotidiano, como uma cena em Volver (2005), onde Raimunda (a melhor personagem que Penélope Cruz ganhou na vida), naturalmente, abaixa a calcinha para fazer xixi. Seu talento criador vai além desses detalhes. Quando quis denunciar, Almodóvar filmou uma Má Educação inesquecível; quando quis fazer um drama familiar, criou uma obra-prima chamada Tudo Sobre Minha Mãe. Quando quis anarquizar, fez um filme neurótico, mas nem por desprezível, Kika. Quando quis falar da sensibilidade humana, dirigiu Fale com Ela, que dispensa apresentações. Nenhum diretor brasileiro – nenhum! – faz concorrência a Pedro. É, certamente, um dos maiores do mundo e um mito para muitos. 

Por fim, quero abordar A Lei do Desejo, de 1987 que, ao lado do arrebatador Carne Trêmula, foi o filme dele que mais me marcou. Lá veremos Antonio Banderas – numa cena curiosa: seu personagem Antonio, sendo penetrado por um diretor de cinema por quem está perdidamente apaixonado, o famoso Pablo Quintero (Eusébio Poncela, feiíssimo, por sinal). Banderas deu uma entrevista, se não me engano em Nova York, dizendo que foi um “homem de sorte”: “Cheguei aos Estados Unidos com 25 filmes no currículo”, sendo A Lei do Desejo um dos últimos antes de ir embora. 1988 foi especialmente extraordinário na carreira de ambos: foi o ano de Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos, que chegou a concorrer ao Oscar e ecoou o nome de autor e intérprete nos quatro cantos. Banderas fez uma belíssima carreira em Hollywood, depois ainda atuaria em Ata-Me! (1990), em sua terra natal, muito bem avaliado por crítica e público. Almodóvar seguiu falando de sua querida Madri, Banderas tocou a vida na América e o reencontro entre criador e criatura aconteceu agora, duas décadas depois, quando está em cartaz A Pele que Habito. Dois verdadeiros astros. Dois talentos que nós, espectadores, ajudamos a consagrar.  Estou curioso para assistir Almodóvar no cinema, pois a última vez que isso aconteceu foi em 2009, em Aracaju, num filme que julguei substancialmente fraco, Abraços Partidos. 

Almodóvar é sempre muito gratificante, e com certeza um mestre em jogar nos olhos dos seus fãs doidas aventuras, muitas reviravoltas, muito suspense, muitas surpresas. Seu cinema é superlativo. 

Gostaria que Rogério visse A Pele Que Habito e escrevesse sobre ele. Também pediria aos leitores do blog que vejam o filme, e comentassem este que será o 18º. longa de Pedro, que, no começo de sua carreira, em 1980, dados os seus enredos,  envergonhava uma Espanha ainda puritana e moralista, e hoje, enche o país de orgulho. “Ele é a pessoa mais inteligente que já conheci na vida!”, disse certa vez a grande Carmen Maura (atriz maravilhosa, que, aliás, esteve magnífica em A Lei, quebrando a mobília do quarto com um machado, para exorcizar seus demônios, ao som de Ne Me Quitte Pas.) Que bom que essa inteligência pôde ser compartilhada com o mundo.  

Minhas férias estão quase acabando – que pena! – e, da Paulicéia Desvairada, sempre que a ocasião requerer, escreverei minhas crônicas aqui. Se o proprietário deixar. 

Infâmias literárias


As pessoas lêem na internet qualquer bobagem atribuída a um grande escritor e saem reproduzindo alegremente aquilo pelas redes sociais, sem certificarem a autenticidade do escrito. A elas basta crer que, aquele autor, que todos dizem ser um exemplo literário, gênio da criação artística, foi capaz, do alto de sua grandeza, de produzir infâmias que estão ao nível delas.

Minha praia


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Fonte aqui

NOTA DE REPÚDIO AO SITE “IGUANAMBI”

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Lá, a política é a do quem paga mais
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Por TÉO JÚNIOR


 
O site iGuanambi, é, provavelmente, a mídia eletrônica mais visitada da microrregião, porque divulga notícias tanto do âmbito local como nacional (algumas delas reproduções de outras fontes), publica festas fúteis, cerimônia de 15 anos de gente que, desprovida de fama e de talento, paga para aparecer (hello Val Merchiori!), faz cobertura completa do show de Daniel, artista medíocre etc. Há também um espaço, digamos, interativo, onde se leem recados para o dono da farmácia, publica-se os aniversariantes do dia, desabafos, críticas, sugestões etc. Eu sempre suspeitei dessa mídia de interior no sentido em que, recebendo dinheiro de algum patrocinador ou de algum político influente, vete, sistematicamente, aquilo que vai contra seus interesses, ainda que as informações sejam corretas. Onde o dinheiro fala mais alto, não se pode esperar independência nem credibilidade porque, destarte, a verdade morre na praia, quando ela desabona que pode amordaçá-la.

Estando em férias em Caetité – a mídia daqui deve ir pelo mesmo caminho (se o iGuanambi faz, por que as demais não poderiam?) – paguei 20 reais para assistir ao espetáculo Baianidade Baiana, e essa apresentação gerou uma crítica (dessas honestas e sinceras) que, uma vez ou outra, alguém se disponibiliza a fazer: eu. Escrever é um trabalho, não um mero passatempo. O mais surpreendente é que o site vetou o texto, argumentando que o mesmo feriria um acordo feito entre ele e os produtores, que não aceitam críticas justas em relação ao evento. Porém, devo lembrá-los que teatro é prestação de serviço, portanto sujeito a críticas e a elogios, a depender da competência de quem o faz.

Um trecho de minha análise diz exatamente assim: a crítica se faz fundamental, pois entendemos que o papel dela não pode ser o da complacência ou o da subserviência em relação ao elenco, como normalmente acontece nas divulgações feitas pela mídia, sem critério algum. O site vestiu a carapuça e deve ter levado um baque – pois é exatamente isso o que ele faz. Acertei.

Se o iGuanambi recusasse a publicação com uma justificativa razoável, alegando, por exemplo, que o texto estivesse mal escrito, ou despropositado, eu nem ficaria triste. Sinceramente, não. Iria refazer o trabalho, e, auxiliado por alguma pessoa mais capacitada do que eu, analisaria as possíveis falhas. iGuanambi não aceitou o texto porque (a fonte é quente) produtores do espetáculo pagaram ao site, ou seja, um contrato foi assinado no intuito de se divulgar o evento. Havendo esse consórcio, o site então não autorizou a publicação da crítica, porque iGuanambi considerou que ela “fere” sensibilidades, havendo, assim, uma “quebra” de acordo.

Nesse exercício salutar de publicar ensaios e crônicas sobre teatro, a arte que mais admiro, tenho muito orgulho de 1) brigar pelos meus textos; 2) nunca, em hipótese alguma, vender nem comprar espaço para divulgar meu nome, porque não preciso disso. Sei de meu valor; 3) prossigo na batalha incansável de ver o maior número possível de espetáculos, de escrever, mesmo enfrentando portas fechadas, que poderiam, voluntariamente, acolhê-lo.  

O blog Navegantes ao Mar publicou com carinho a crítica – porque ele é livre. Não seria o caso de o iGuanambi ficar orgulhoso porque alguém escreveu a respeito de um evento patrocinado por ele mesmo? As pessoas que eventualmente visitam o site conhecem essa política do toma-lá-dá-cá?

Pode parecer que eu esteja ressentido porque meu texto foi solenemente recusado. Não é verdade. Leiam e esqueçam-se de que foi escrito por mim. Analisem a mensagem, e não o mensageiro. E vá ao site iGuanambi e compare os textos que estão lá. Enquanto essa mídia que está aí exercer esse tipo de papel, ela será de pouquíssima utilidade pública, sem qualquer razão para existir. O material vetado enobreceria o site, tão carente de conteúdo, independentemente de ter sido feito por mim ou por qualquer outro.

Determinadas pessoas detêm o poder: umas, o de pagar pelo que lhe for mais conveniente. Outras, o poder de gerir o dinheiro recebido. Uns, de subornar. Outros, de vender-se. Nós, em nossa humildade, temos também o nosso poder: o de pensar, o de raciocinar por conta própria. O poder de termos nossa consciência e usá-la, para chancelar nossa profissão. Temos o poder da palavra – isso ninguém poderá amordaçar.

O dramaturgo Federico García Lorca, o maior da Espanha, que fora assassinado pela ditadura Franco em 1936, ainda teve de ouvir um ultimato que se revelou profético: seu carrasco, ao disparar um tiro em sua nuca, teria dito: “Uma caneta na mão deste homem é mais poderosa que uma arma!”

Nunca me esqueço da maneira como Odorico Paraguaçu, o prefeito malandro de Sucupira, tratou a mídia que lhe fazia acusações: classificou-a de “marronzista”. Acontece que ele também criou um jornal, a Folha de Sucupira. Essa, sim, era a “imparcial”. Essa retórica humorística e maravilhosa se encontra no livro Odorico na Cabeça (edit. Círculo do Livro, 1983) do excepcional Dias Gomes. Até quando iremos inverter os valores? 

Parece insignificante, a recusa de um texto comum. Não é. Atrás dela, existe uma política, um mercado, um establishment; daí verifica-se, sem dificuldade, como as coisas caminham. Se algo na sua aparência desprovido de valor (uma apreciação crítica) fora recusado, é de se supor que textos ainda mais complexos, mais profundos, de uma envergadura ainda maior terão o mesmo destino. “Até hoje não germinou instituição mais nociva do que o dinheiro” – nos diz Creonte, o tirano de Antígona. É triste.

"FOLHA DE SUCUPIRA"

O prefeito Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), em "O Bem-Amado", que criou um jornal para elogiar a si mesmo. Quando um poder faz as pazes com a mídia, alguma coisa está errada.

MESTRE AUTRAN

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Por TÉO JÚNIOR

Esse espaço homenageia de forma singela a decisão da Presidente da República Dilma Rousseff por ter oficializado o grande Paulo Autran como “Patrono do Teatro Brasileiro”. A publicação está no Diário Oficial do mês de agosto. 

Pode parecer insignificante um reconhecimento tão simples, que não representa nenhuma gratificação em dinheiro para herdeiros do grande ator, morto há 4 anos, mas o respeito e agradecimento que essa decisão traz. É preciso que se faça justiça a um grande brasileiro, e ainda mais quando se trata do maior ator do país.

Qualquer decisão que venha do poder deve ser recebida com cautela, já que se montou em Brasília um legítimo picadeiro onde noções de valores morais, de ética, de idoneidade etc. estão amiúde se nivelando para baixo. Um reconhecimento que chega, ainda que postumamente, de forma justa em relação à memória de um artista. 

Felizmente, Paulo Autran não precisou morrer de velho para ser lembrado. Em vida, foi saudado como o principal nome do nosso palco e rivalizava apenas com Fernanda Montenegro na primazia de ser o maior ator do Brasil. Recebera diversas homenagens em vida, em gratidão às 90 peças que montou, sendo Shakespeare o autor mais constante de seu currículo. 

Não se pode, todavia, descansar sobre os louros, pois existe o risco de se ficar acomodado. É o que chamam comumente de “zona de conforto”. Paulo trabalhou a vida inteira e não se iludiu com o sucesso. Identificava-se com o teatro, apenas. Esnobou a televisão e o cinema, embora às vezes estivesse lá também. No entanto, sua mais visceral paixão foi, reiterando, o palco. 

Em 1996 decidiu montar Rei Lear. Recebeu patrocínio de mais de 1 milhão de reais, pois não se pode trabalhar com um artista deste quilate com mixaria. 1 milhão de reais para ser investido numa peça parece caro – e é. Mas é preciso levar em conta também a relevância do espetáculo. Paulo arranjou o dinheiro sem dificuldade. Lembro-me bem quando escrevi um texto em Aracaju cobrando do governador Déda dinheiro para o teatro, argumentando para ele que “teatro é verba”. Estão vendo aí?

Além de ator, Autran viveu nos turbulentos anos da ditadura militar, onde a liberdade de expressão e as artes eram cerceadas e boicotadas pelos poderosos da hora, sob a alegação falsa de que estas últimas eram obras “subversivas”, portanto “prejudiciais” ao público. Quem tinha o que dizer, teve de se calar, sob risco de punições maiores. Paulo foi um defensor intransigente da liberdade e do respeito pela categoria da qual fazia parte: a dos atores. Chamou para si a responsabilidade, ao invés de delegá-la a terceiros. Em 1965, com o espetáculo Liberdade, Liberdade, de Millor Fernandes e Rangel, percorreu o país para falar de algo que já não existia totalmente no Brasil. Não adianta ter liberdade “mais ou menos”, um “pouco” de liberdade. A liberdade deve ser total, irrestrita. Em Alagoas, representou o espetáculo, contrariando a decisão do então governador Simeão Filho. Pressionado por manifestações estudantis, com o apoio da Universidade Federal daquele estado, ele liberou a peça, e os alagoanos, assim, puderam assistir ao extraordinário ator no Teatro Marechal Deodoro, como atesta a foto abaixo. Quem viu, viu. Uma experiência única, irrepetível. Venceu o teatro. 

Salve Paulo Autran. Maravilhoso como ator e como ser humano consciente de seu ofício.

Os alunos de Maceió, que batalharam para ver Paulo Autran no palco, fizeram uma placa homenageando o ator que se apresentou no Teatro Marechal Deodoro, o principal da cidade, com a peça Liberdade, Liberdade, contrariando a decisão do governo.   

A Estação da Liberdade?

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Ninguém sabe ainda ao certo, o que esperar dos levantes no mundo árabe. Haverá ali um dia algo parecido com uma democracia? Deposto o ditador; Líbia, Egito e outros países, correm o risco de repetirem o mesmo script do passado, e do meio do levante ver surgir ao invés de um governo, surja um déspota.  

Ninguém ousa palpitar sobre o futuro da região. Porém, de tudo isso, podemos tirar uma grande lição. A tirania e o despotismo, como tudo na vida, um dia expira. É lamentável que um homem tenha que suportar os desmandos e a violência continua desses sádicos chamados, ditadores. Gerações e mais gerações, em todo mundo árabe cresceram amordaçados por esses regimes sufocantes. Patrocinados muitas vezes pela covardia e ganância do mundo Ocidental.

Alegra-me ver as cenas de perseguição do povo Líbio ao seu antigo governante. Kadafi deve está sentindo agora a agonia que ele empreendeu a muitos de seus opositores. Caçado como um rato sujo, ele deve está em algum buraco, (como Saddan Hussein quando foi encontrado) assaltado pela culpa e o remorso.  

Poesia, Vida e Morte



João Cabral de Melo Neto é um poeta deslocado da tradição lírica dominante na literatura brasileira. O vigor de sua obra vem do exercício rigoroso da racionalidade imposta na construção dos seus versos. 

Contrafeito a todo transbordamento melancólico e ao psicologismo discursivo, ele segue as lições de Mallarmé de que não se fazem versos com ideias, sentimentos, ou proposições, mas sim com palavras.

Sua literatura se funda na realização concreta dum universo poético onde rigor de construção e riqueza de significação, se interpenetra e se complementam; razão pela qual, sua poesia feita de coisas, se orienta como forma de significar o mundo pelos elementos do mundo. 

Essas características fogem à média de uma tradição poética estabelecida no predomínio do “sentimental-confecional”, e formam um corpo estranho no percurso de nossas letras. Nossos mais destacados poetas, sempre optaram do romantismo até hoje, em explorarem o interior de si mesmos, se perdendo num labirinto de remoço, dores, queixas e muita desilusão. 

Ler a obra de João Cabral e se sentir animado, vivo, é coisa fácil. Dele, a gente sai revigorado, e certo de que ao homem, cabe bem mais do que apenas lamber as suas chagas. Cabe, acima de tudo, encarar os desafios impostos no percurso sinuoso que nos leva, invariavelmente, a “indesejada das gentes”, com destemor. 

A poesia cabralina nos ensina que a vida está sempre por um fio. Ela não se dá, tem que ser tomada. Como a poesia que ele fez e entendeu, ela não vem sem luta. Como os toureiros ameaçados pelo chifre do touro, sob o olhar de uma plateia implacável, a vida é um esquivar-se dos golpes mais violentos até o dia em que a lança do animal vença a lança do homem. 

Segue um poema exemplar de João Cabral sobre sua vida e sua poesia:
ALGUNS TOUREIROS
A Antônio Houaiss

Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.

Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,

sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.


ACARAJÉ, AXÉ E MUITA PREGUIÇA

Foto: Divulgação
“Baianidade Baiana”: mais um espetáculo
calcado nos estereótipos fáceis
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Téo Júnior*
teo.camp@hotmail.com

Numa cidade como Caetité, cuja tradição teatral é paupérrima, é um alento saber que um espetáculo foi exibido em três sessões, ainda que montado num espaço pequeno, como é o caso do Cine Teatro Anísio Teixeira (Pç. da Catedral, Centro). Nessas raríssimas ocasiões, a crítica se faz fundamental, pois entendemos que o papel dela não pode ser o da complacência ou o da subserviência em relação ao elenco, como normalmente acontece nas divulgações feitas pela mídia, sem critério algum; tampouco a crítica deva destruir um espetáculo, pura e simplesmente. Ela não existe para esses fins. No entanto, sua obrigação é a de analisar – sempre – com justiça aquilo que é oferecido ao público.

Não raro, as comédias apresentadas (muitas a preços populares, inclusive) estão calcadas sobre estereótipos, e os artistas perseguem o nobre objetivo de, sorrindo, refutá-los, já que esses estereótipos – e ninguém há de discordar – são gerados sobre ideias preconcebidas e alimentados pela ignorância. Assim sendo, faz-se necessário rechaçá-los a qualquer custo. Algumas dessas idéias, todos nós já conhecemos: baianos preguiçosos, nordestinos atabalhoados em cidades grandes, gays afetados excessivamente, loiras estúpidas etc. A regra não se aplica aqui, porém. Dir-se-ia que eles (Marcos Lima e Marcos Magno) se incomodam muito pouco com críticas em relação à sua cultura, e ambos a proclamam até com certo orgulho. Não é sempre assim.

O título da peça por si só já soa estranho, porque redundante: “Baianidade Baiana” (sic!), embora o tema nos interesse, num momento em que se discute até que ponto essa “guetificação” cultural é apropriada ou não. Qual seria a melhor identidade? A mais bonita? A “baianidade”, talvez? A “sergipanidade”?  A “mineiridade”? Assim sendo, analisamos por uma ótica separatista, como se esses locais fossem ilhas e não partes de um todo, de um painel diversificado e rico em múltiplos aspectos, como é o Brasil. Aliás, o próprio conceito de “brasilidade” está há muito batido, desde o surgimento – lá no Modernismo – de Tarsila do Amaral, conforme assinalou Mário de Andrade, que caracterizava seus quadros  como sendo a representação da “realidade nacional”.

Rodando a baiana – Abriu-se espaço para imitações de artistas, mencionando-se as diferenças abissais de classes, a negritude, o acarajé com pimenta, a sexualidade sem culpa, o linguajar por vezes tosco, mas autêntico e piadas. Ao final, ambos irmanaram-se com o auditório a fim de que nós, talvez não mergulhados suficientemente nesse universo quanto eles, adivinhássemos as músicas lembradas e por aí vai. É evidente que esse trabalho não é tão simples e eles provaram ser bons comediantes, mas o que a dupla realiza não pode ser considerado teatro, no sentido mais genérico do termo. Às vezes, existiam os diálogos, eles estavam lá, incisivos ao extremo – porque um assunto puxa outro – mas sempre caricaturais, é claro; todavia na maior parte da peça o que tivemos foi o famoso stand-up. Em suma, trata-se mais de um humorístico no estilo “A Praça é Nossa” do que propriamente de uma peça teatral.

O momento em que a sonoplasta (não foi informado o nome) interrompeu a apresentação a fim de se eximir das falhas incríveis do som que ela operava, foi de uma estupidez sem tamanho, e “Baianidade Baiana” pecou, assim, pelo menos na sexta-feira, pela falta de cuidado. Mas nesses casos, como eles se abrem a todo tipo de improvisação, não se considerou o descuido uma grande falha, pois ele não chegou a atrapalhar em nada.

A responsável pela peça foi a “Companhia Baiana de Risos” e a direção é de Alberto Damit e Marco Antonio Lucas. Ingressos: 20 reais.

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* Graduado em letras pela UNEB, foi professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) atualmente desenvolve Projeto de Mestrado cujo tema é a dramaturgia de Nelson Rodrigues. É pesquisador de teatro.