Farmacologia Espiritual

Nos últimos dias preocupei-me cada vez mais com a queda constante de meus pêlos, por isso procurei finalmente um médico, queria saber por que pouco a pouco eu estava desintegrando.

Eu não agüentava mais as pessoas me perguntando se eu fazia a sobrancelha, e se eu tinha errado ao fazê-las. O que dizer a elas? Nem eu sabia o que havia acontecido. Recorri ao médico então.

Ele tinha a palavra final ou a trilha para encontrar minha sobrancelha. Vocês não imaginam o quanto é constrangedor ficar careca não da cabeça, mas da sobrancelha! É mais ou menos como se sentir órfão de uma parte de si mesmo, só que essa parte lhe abandona aos pouquinhos, deixando sinais de sua ausência, e os que ficam já anunciam sua partida, aterrorizando minhas esperanças de cura.

Pra me deixar mais aliviado de todo constrangimento, e de todas as dúvidas, o médico me disse que eu iria morrer. Só não soube precisar o dia nem a hora desse fato. Mas disse que iria acontecer e quando isso ocorresse, garantiu-me que eu estaria de pelugem nova.

Bastando para tanto, que eu não mais me aborrecesse com coisas pequenas e não me desse tanto ao exercício de esforços mentais, que como combustíveis, queimam e consomem uma parte de mim. Que eu me distraísse, e não me entregasse a um eu profundo e descabido, que eu vivesse pra fora e não pra dentro. Que eu batesse e não mais contesse o choro, nem me silenciasse, nem temesse os desafios, ousasse mais, e praticasse haraquiri com a sorte.

Ouvindo-o pronunciar esses conselhos pensei estar diante de um poeta e não de um médico. Mais então foi ai que me dei conta de que um e outro têm a dom da cura. O médico da carne o poeta da alma. No instante estou precisando mais da medicina. E, de agora em diante, procurarei seguir os conselhos do senhor doutor, que parece conhecer tanto do corpo humano como da farmacologia espiritual.

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