Ao poeta João Cabral
















João Cabral de Melo Neto nasceu em Recife, Pernambuco, em 1920. Filho e neto de donos de engenho, viveu parte da infância entre o campo e a cidade. Escreveu seu primeiro livro, Pedra do Sono, um topônimo como Brejo das Almas de Carlos Drummond de Andrade, em 1941.

Além de poeta, João Cabral foi embaixador. Serviu o Brasil em muitos países do mundo. Nenhum, no entanto, marcou tão fundo sua poesia como a Espanha.

Ao leitor acostumado com uma poesia de deslumbramento sentimental, e cunho confessional; de tradição romântica, grandiloquente, solene e cheia de pompas, nada mais estranho do que ler esse poeta.

Avesso ao confessionismo, a subjetividade, ao lirismo, que caracterizam as idéias correntes sobre poesia, João Cabral cunhou sua obra de vida palpável e dura, assim como a realidade que lhe arrebentava a retina. Sua poesia é concisa e contida no objeto. Construída sobre o signo do menos, reduz as imagens às suas formas concretas.

Sua obra mais conhecida é Morte e vida Severina (1955), ganhadora do festival de teatro de Nancy em 1966. Ainda teve uma adaptação para o cinema, com música de Chico Buarque, então um iniciante na carreira musical com 21 anos; e mais recentemente, ao completar 50 anos, ganhou uma versão em quadrinhos editada pela Massangana, da Fundação Joaquim Nabuco.

Ao ler sua obra tenho a viva sensação de estar diante de um poeta inquieto e audacioso, que fez do seu ofício uma constante busca de novas possibilidades para expressão poética. A tão falada rudeza de seus versos, talvez venha de seu zelo e temperamento, que não aceitava demagogias e facilidades literárias tão ao gosto de muitos escritores atuais. Ao não se associar a essas facilidades, teve então em curso a velha e tão batida justificativa de que tal poeta é difícil e hermético, por isso marginal.

Os que já leram sua obra sabem do que estou falando, aos que ainda não leram, não percam a oportunidade de descobrirem a inventividade desse poeta. A baixo tenho um pequeno poema que escrevi em homenagem a ele.


Todo poeta brasileiro

Que quer cantar o nordeste

Tem que saber versejar

A dura flor do agreste

Que é a poesia de pedra

De Cabral, homem da peste.


Nesse chão que é de pedra

Duro, seco e de pó.

O homem teve a coragem

De desatar esse nó,

Criando como engenheiro

A arquitetura de um só.


Pra isso, então desdenhou

Do verso, demais sem vigor,

Frouxo, ralo, aguado,

Edulcorado de amargor.

Que os líricos tomaram emprestado

Do gondoleiro do amor.


Sua poesia não é brincadeira

Pra alegrar os descontentes.

Quem tiver as suas magoas

Vá chorar em outras frentes.

Que esses versos que apresento

É de homem cabra valente.


É trabalho labutado

Na fornalha de engenho.

Corta cana, fere, mata

Da pra ver todo essa gente.

Que em cima dessas pedras

Faz brotar nova semente.


A dura flor não arrefece

Nem se deixa transbordar

É precisa, na medida,

Onde o verbo faz falar

O lamento dessa gente

Que esqueceram de calar.


Aos poetas ditos líricos,

João Cabral aconselhou.

São demais os seus lamentos,

Faz-me mau a sua dor,

Vives sempre afogado

Entre sonhos de vapor.


Vê se acorda à realidade

Não se perca em desamor.

De seu sonho de ilusão

Venha ver o meu labor,

De poeta nordestino

Cabra macho de valor.

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