INSENSATOS CORAÇÕES

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Como a arte literária abordou um dos sentimentos
mais primitivos do ser humano: a vingança
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TÉO JÚNIOR
Colaborador

O Brasil vem acompanhando, nesses últimos dias, na novela Insensato Coração (Globo) os desdobramentos da cruel vingança a que Norma (Gloria Pires) está submetendo o personagem de Gabriel Braga Nunes (Léo) e o ponto em que ela chegou. Assiste-se – não sem uma certa dose de prazer sádico – um dos grandes acertos de contas poucas vezes mostrado de maneira tão contundente numa obra de ficção televisiva. E existem, por incrível que pareça, muitas lições a tirar desse enredo fascinante. 

Léo é um vigarista e um crápula, sem dúvida – mas nessas três semanas vem penando nas mãos daquela a quem ele prejudicou tão profundamente. Léo, posto em cárcere privado, está tão desmoralizado, coitado, que é frequentemente hostilizado até pela empregada da casa, a cretina da Jandira (Cristina Galvão) e também por Ismael (Juliano Cazarré), o ajudante-de-ordem de Norma, cujo cérebro não deve ser maior do que um grão de mostarda. Está sendo sistematicamente humilhado por elementos que, em outra circunstância qualquer, ele certamente desprezaria. 

Léo vem sendo tratado de maneira tão boçal porque não lhe há saída. Submete-se aos caprichos daquela que um dia fora sua amante, porque, inteligente, sabe que a prisão seria ainda mais intolerável. Caso não aceite entrar no jogo dessas pessoas, irá para a cadeia, pois tem consciência clara de que é um criminoso. O objetivo de Norma é, portanto, este: rebaixá-lo ao nível do grotesco, encurralá-lo, fazer com que sua masculinidade e seu brio despenquem até a estaca zero. 

A capacidade de determinados indivíduos de abrirem mão de certos códigos elevados de conduta para firmarem-se como gente que sente dor e que se fere; esse desejo natural do ser humano que, uma vez prejudicado em sua dignidade e que recusa, sistematicamente, a ser títere nas mãos de supostos inimigos, chama-se justiça. 

O teatro, arte a que estou mais ligado, já nos deu provas cabais de que a vingança mais saborosa é a melhor arquitetada. Medeia (431 a.C), tragédia grega de Eurípides, é a mais lembrada, porém não é a única. Vejamos: 

Medeia gemendo – Estou vendo Medeia se debatendo no leito, gemendo, clamando pela morte dia e noite. Sua ama não sabe mais o que fazer. Já não diríamos que Medeia viva; ela vegeta, isso sim. Porque era conveniente para Jasão abandoná-la, pelas benesses, pelas vantagens que teria com um segundo casamento com Glauce, a princesa. Medeia, faceira, conseguira, malandramente, pelo simples fato de ser mulher, ludibriar o marido, a ponto de “se desculpar” com ele, pelo seu inconformismo inicial de esposa traída – para, nesta ocasião, presentear Glauce com um lindo diadema. Ao colocá-lo – maldita hora! – Glauce, infeliz, perecera carbonizada (para usarmos um termo mais leve), transformando-se numa tocha humana. Segundo a descrição que se faz da cena, Glauce ficara tão desfigurada que “o próprio pai teria dificuldade em reconhecê-la”. Não satisfeita, Medeia, furiosa, substituída, abandonada, depois de muito pensar, assassinou seus dois filhos pequenos com uma espada – unicamente com o intuito de ferir Jasão, o pai, à potência máxima. Esquecera-se de que Medeia, a “leoa”, segundo ele, conhecia todos os segredos da magia – dos quais ele mesmo necessitara um dia. 

Eurípedes quer nos dizer com essa obra-prima o seguinte: qualquer mulher, inclusive a mais tola, é capaz de dobrar um marido. Como é fácil enganar um homem. Meu Deus do Céu! 

Dizer que Medeia é uma peça que aborda apenas o fantasma da vingança é muito pouco. Assim pensando, reduzimos seu valor substancialmente. Trata-se, na realidade, de um libelo do qual se extrai o ônus que uma mulher, rebaixada em sua dor dilacerante, precisa pagar, para compensar - ainda que em proporções muito desiguais – uma ingratidão sem tamanho. 

- “Estou pagando” – Destaco outro texto muito interessante e de grande valor artístico do teatro moderno que trilhou, na essência, o mesmo caminho de Medeia. Chama-se A Visita da Velha Senhora (1955), de Friedrich Dürrenmatt, suíço. A montagem brasileira mais lembrada dessa peça recebeu a direção de Walmor Chagas, cuja protagonista fora ninguém menos que Cacilda Becker, lenda do nosso palco – onde contracenou com Sergio Cardoso. 

Eis o perfil de Claire Zahanassian, carinhosamente chamada de “Clarinha”: relapsa na infância, displicente, aluna medíocre, para quem tanto fazia subir como descer – engravidara de um namorado, um cidadão chamado Schill. Tudo bem. Este, para se livrar do fardo da paternidade (indesejável, claro), apresentou em juízo duas testemunhas em sua defesa, cujos depoimentos – confirmados posteriormente - eram falsos, alegando que ele não era o pai daquela criança. “Clarinha” teve de suportar a vergonha de, desamparada, só, amesquinhada, 17 anos de idade, arcar com as conseqüências daquela gravidez. Sumiu de sua terra, caiu na vida, literalmente, para, quase meio século depois, regressar ao vilarejo de Güllen deslumbrante – fútil, é bem verdade – mas riquíssima e famosa. Fala-se que ela é a “mulher mais rica do mundo”. “Clarinha”, aquela, chegou falando grosso e dando as cartas. Para se vingar do homem que lhe fizera sofrer tão profundamente, está disposta a dar à sua terra natal, miserável e decadente, uma fábula em dinheiro, em troca da cabeça dele, Schill, inocentemente, um dos mais animados pela sua volta. Não custa nada a ela, que já possui tudo - entregar ao povo parte dessa fortuna, com a condição de que matem aquele homem. “Pessoa decente é somente quem paga – e eu pago. (Com dinheiro), pode-se comprar tudo – até a justiça”, diz ela, taxativa. 

Nelson Rodrigues dizia que dinheiro compra até amor verdadeiro, o que dirá a justiça. 

“Clarinha”, agora no seu auge, troca de marido como quem troca de roupa; é de personalidade manipuladora. Certa de que sua fortuna fala mais alto, está tão segura de que Scilll morrerá, que fez questão de trazer consigo um caixão maravilhoso. Ele, já entrando em anos, com mulher e um casal de filhos, tem de morrer, custe o que custar. “Clarinha” está irredutível em seu desejo de resgatar sua dignidade. 

Em comum, Norma, Medeia e “Clarinha” tem isso: foram abatidas por indivíduos que se julgavam superiores a elas, mais espertos, porém, uma vez conscientes de que foram propositalmente prejudicadas por homens que um dia chegaram a amar de verdade, não hesitaram em usar todas as armas de que dispunham para igualar suas fraquezas e fazer valer seus conceitos. 


Téo Júnior, 26, foi professor universitário
e é pesquisador de teatro.
teo.cam@hotmail.com

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