Quando a política se torna um palco para o rancor e a agressão pública, ainda resta muito para uma democracia plena

A propósito do que leio aqui escrevo esse texto.

Quisera eu partilhar do mesmo entusiasmo que você caríssimo amigo. A vitória do Padre Deoclides em Serra do Ramalho bem poderia mesmo significar um ponto final às aflições que vicejam naquela terra. Quisera eu ter testemunhado um momento histórico. À vista dos fatos, no entanto, assistidos nos últimos dias em Serra, atiraram contra minhas ilusões a última pá de cal a alguma ambição de mudança de rota nas ações políticas daquele lugar para os próximos anos. Você sugere a ideia de aliança construída pelo diálogo, que levou a adesão da situação a um projeto encabeçado pelo Padre. Realmente é dificílimo acreditar nisso sem humilhar a razão.  A única adesão aparente - falo aparente, porque com a vida aprendi entre outras coisas o cortejo à cautela - foi a do Padre a um projeto político que em nada, absolutamente nada, pelo menos por enquanto, difere da cantilena daqueles notórios malversadores do patrimônio público, que de tanto tempo no poder, nem se lembram de ter feito outra coisa na vida.  Digo e repito talvez eu esteja exagerando. Talvez minhas palavras estejam sendo duras demais, rápidas demais, desiludidas demais. Talvez as coisas realmente possam ser superadas, contornadas e reerguidas com toda vivacidade, como você, eu e muitos outros desejam. Talvez o Padre não se dobre ao peso dos muitos, “experto ao contrário”, que o lembrarão de quem o levou ao posto de governo, e conduza com mão firme as mudanças tão necessárias e urgentes àquela terra. Talvez!. Meu caro amigo eu poria, juro... eu poria minhas austeras descrenças de lado com um gesto de mudança daquele em quem você já depositou tanta confiança. Mas, como acreditar nisso se o que vemos, são as mesmas atitudes daqueles que traíram a confiança do povo por tanto tempo. O padre bem pode está coberto de boas intenções. Suas atitudes podem mesmo, a despeito de tudo o que vivenciei em Serra nas últimas horas, ser progressista, como você afirma. Talvez eu esteja atrelando apressadamente a imagem do padre àqueles que o seguem, sem lhe dar o beneficio da dúvida. Porém até esta data ele não me mostrou à que veio. É cedo. Você me chamará de louco por tentar julgar as atitudes futuras de um homem pelas ações de poucos instantes. Mas creia-me desconfiado e nada mais. Com pouco mais de um terço da aprovação pública o Padre Deoclides foi rejeitado por mais de dez mil dos poucos mais de 15 mil eleitores serramalhenses. E qual a sua atitude diante disso? Mesmo em minoria, ele não teve a sensibilidade, a hombridade, mesmo possuindo um passado recente de pastor de rebanhos, de serenar os ânimos e aplacar o frenesi daqueles que atentam contra a democracia ao infligirem aos seus discordantes - lembrando que esses constituem a ampla maioria dos serramalhenses - músicas ofensivas não só a dignidade humana, mas também a democracia e o bom senso, que manda respeitar a todos. Se o padre é conivente com os atos dos seus correligionários, e se suas atitudes iniciais apontam para o mesmo caminho dos seus predecessores, o que me faria crer que ele pode fazer diferente. Não, meu amigo, não tenho motivo para acreditar que eles enterrarão “de vez a atitude beócia, maniqueísta de se escolher uma cor como símbolo de gestão”... nem tenho esperança de que eles farão “da adoção de todas as cores um símbolo da igualdade, da não predominância de uma preferência sobre a outra, da diversidade e do respeito às diferenças, pressupostos fundamentais da democracia.” A tão sonhada maturidade política deve começar pelos líderes. Quando eles frustram os gestos necessários para um novo começo, eles apontam para os rumos que darão ao seu governo. Não me sai da cabeça a ideia de que essas atitudes ilustram as ações futuras. 

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