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Toda Nudez Será Castigada, na montagem do “Armazém Companhia de Teatro”, RJ, na apresentada no dia 07/07/2007, no “Teatro Dom Silvério” do Chevrolet Hall, Belo Horizonte.

Por Teo

Como teatro é minha grande paixão, vou indicar cinco das peças que mais me marcou, de cinco gigantes do teatro brasileiro.

1. TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA (1965), Nelson Rodrigues

Depois de ficar viúvo da única mulher que amou na vida, o milionário Herculano passa a viver um grande dilema: a paixão avassaladora pela escachada Geni, provavelmente a prostituta mais célebre da dramaturgia brasileira. Os problemas são o irmão, um parasita que vai chantagear a moça – já sua conhecida – a tirar proveito da situação, um filho adolescente fresco, que vingará o pai porque nunca permitiu que este se relacionasse com mais ninguém e as tias (sempre elas), que no teatro rodriguiano só servem para pôr mais lenha na fogueira. Só na cabeça de um Nelson Rodrigues uma história dessa dimensão poderia ser tão extraordinária. “Toda Nudez” é uma de suas obras-primas. Adaptado para o cinema em 1973, fez com que d. Darlene Glória fosse mundialmente conhecida, no papel de Geni. É o filme mais lembrado de Arnaldo Jabor e segundo a crítica, a melhor versão de Nelson para as telas. José Lino Grunewald escreveu, à época, uma crítica em que era plenamente favorável ao filme, embora lamentasse os cortes impostos pela censura. Memorável.

2. DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA (1967), Plínio Marcos

Imagine aí dois camaradas completamente diferentes, arruinados, lascados, que são obrigados a dividir o mesmo quarto, de quinta classe. O problema é que eles se odeiam e as chantagens, as pirraças, as agressões provocarão as reações mais surpreendentes. E em se tratando de outro maldito, Plínio Marcos, já se sabe que vem encrenca por aí. Escritor do submundo, dos marginais, recebeu maior influência de Nelson Rodrigues, a quem Plínio considerava “um poeta do teatro”. Um par de sapatos, um alicate etc., serão quase que protagonistas dessa peça de apenas 2 atos. O texto, porém, é muito mais vigoroso do que o filme homônimo, que trouxe Débora Falabella e Roberto Bontempo, como os protagonistas, arruinados (e nos Estados Unidos). No texto original, moram numa espécie de periferia e são, repito, dois homens, Paco e Tonho.

3. O BEM-AMADO (1968), Dias Gomes

O maior dramaturgo baiano consagrou-se com a excepcional “O Pagador de Promessas”, grande sucesso do Teatro Brasileiro de Comédia, em 1960. Mas as histórias da lendária Sucupira e do inescrupuloso Odorico são de rolar de rir, o que me obriga a incluí-la nessa lista e é, na minha opinião, o melhor texto do teatrólogo, morto em 1999. Ferreira Gullar assina um prefácio magistral na edição publicada pela Ediouro. Além desse texto, uma introdução do próprio Dias, explicando que imaginou essa “farsa-patológica” em 9 quadros, depois que leu no jornal uma reportagem na qual um político qualquer prometeu que inauguraria um cemitério de andar. Em Sucupira, o prefeito está doidinho para inaugurar um, mas o problema é que não morre ninguém. Quando se descobre que nas redondezas há um sujeito nas últimas, todo o esforço é válido para que a obra finalmente saia. Ninguém deve morrer sem ler “O Bem Amado”. Virou novela e seriado, na Globo. Quando a direção achou que a história já havia cansado (de 1980 a 1985 no ar) e que teria de acabar, Jorge Amado enviou um telegrama diretamente a Roberto Marinho, para que ele reconsiderasse. Não teve jeito.

4. AUTO DA COMPADECIDA (1956), Ariano Suassuna

Ariano Suassuna se ressentia da “Compadecida” ser conhecida do grande público somente depois de virar filme, em 1999. Ela existia há 40 anos. A malandragem, a esperteza, a ingenuidade dos sertanejos estão retratadas nas figuras de Chicó e João Grilo. Protestante convertido ao catolicismo, Ariano via uma beleza magnífica na fé católica, mas não poupou a Igreja de seus abusos, como na disputa do padre contra o bispo, por dinheiro. João Grilo passará pelo julgamento e topará com Jesus de um lado e o Diabo, do outro. O personagem entre a cruz e a espada. Uma sátira à usura, à hipocrisia e à bajulação aos poderosos, representados na figura do coronel Antonio Moraes. Henrique Oscar, crítico, conta que o mérito do autor nesta peça foi “elevar o regional, o local ao universal”. É baseada na cultura popular, “nas histórias que o povo conta” (cordéis), mas o dramaturgo paraibano recebeu influências de Plauto, Gil Vicente, Lope de Vega etc. Coisa finíssima.

5. O BOI E O BURRO NO CAMINHO DE BELÉM, (1953) Maria Clara Machado

Nossa maior autora teatral infantil. Entre suas grandes peças, eu aponto “A bruxinha que era boa” e “O Rapto das cebolinhas”. Ela dá o encantamento que toda criança necessita. Todos os grandes críticos que li a engrandecem. De seu teatro, o “Tablado” saiu muita gente de peso. Essa historinha deve ser representada no Natal. O boi e o burro, nessa “farsa-mistério” em 1 ato, se apavoram, ao constatarem que no lugar imundo onde estão, descerá o menino Jesus. Os dois, às pressas, vão organizar o ambiente para receberem o Menino com a dignidade que eles podem dar. Napoleão Muniz Freire, nome de alto relevo de nosso teatro, participou como o Pastor. O deslumbramento é intenso apenas lendo. Vista, então, deve ser encantadora. O pano cai com “Noite Feliz”. Emocionante e divertida sem ser superficial.

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