TODO AMOR QUE HOUVER NESSA VIDA


UMA certa vez, no 1. ou 2. ano colegial, mencionei a uma colega o nome de Cartola, e lhe perguntei se ela o conhecia, no que ela fora rápida na resposta: "Cartola? Era algum mágico, por acaso?". Evidentemente, a resposta trouxe uma ignorância. Ela não fazia a mínima idéia de quem fosse -- como todo mundo hoje, honrosas exceções.

Eu vivo no pior estado da federação. O artista mais importante para os sergipanos não é sequer um indivíduo e sim uma banda de forró. Trata-se de Calcinha Preta. Roberto Carlos aqui morreria de fome e ninguém que eu conheça pagaria, em são consciência, um café num disco de Tom Jobim. A pergunta que eu faço é a seguinte: como falar de Cartola para mentalidades dessas?

Uma das razões pelas quais eu sinto amor pelas artes é o fato de alguns poucos homens se fazerem importantes, se elevarem, se imortalizarem. É quando o talento de um indivíduo atinge um patamar quase que intocável. É como se ele não fosse humano, não fosse de carne e osso. Cartola, para mim, consta nessa galeria.


Angenor de Oliveira -- é Angenor e não Agenor -- (1908 - 1980), era negro, pobre, foi um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco nem amigos importantes, nascido no morro carioca etc. Dadas as condições que um sociólogo explicaria melhgor, Cartola sairia um deliqüente de primeira ordem. Ele teve pouco, muito pouco. Merecia mais. Chegou a realizar trabalhos incompatíveis com seu enorme talento (há os que o chamem de 'gênio'), como lavador de carros, chegou a ser pedreiro, etc, essas coisas que os menos dotados de espírito fazem. Consta que nem a casa onde morava adquirira com seus proventos, e sim de uma doação.


Angenor, gente de bem, macho, trabalhador, marido de D. Euzébia (popular Zica) e sobretudo poeta. Faria 100 anos neste mês (outubro, quando escrevi o texto). Graças ao Bom Deus, a data não passou despercebida dos tabaréus, que, se não conhecem seu repertório, sabem agora, ao menos, que ele chegou a existir.


Quem prestar bem atenção às suas letras, vai constatar que ele escrevia de maneira simples -- mas comovente. Músicas de um lirismo levado às últimas conseqüências, não isento de súplicas, de queixas, de desânimo. Nem Cazuza, no auge de sua porra-louquice, resistiu a ele e gravou a terna "O mundo é um moinho", de 1974, sua obra mais bela. É mais ou menos um conselho de um homem maduro, já experimentado, a uma mocinha inexperiente e amorosamente iludida por outrem ("Mal começastes a conhecer a vida (...) Embora eu saiba que estás resolvida (...), preste atenção, querida...", deixandoo eu-poético a ver navios ("já anuncias a hora de partida"). Um conselho, um sermão tranqüilo, e não desesperado, aquele velho rogar de praga, levado às raias do sublime.


Sua vastíssima produção vem sendo descoberta por Alcione, Zeca Pagodinho, Vanessa da Mata, Ney Matogrosso e outros que não me recordo no momento. Ele teve a grata felicidade de, já velho, ver suas belas letras gravadas na sua própria voz, quando foi lançado seu primeiro disco, lá por meados da década de 70.


Outras pérolas suas são "As rosas não falam" (a mais terna declaração de amor que uma mulher já recebeu de um homem), "Tive, Sim", "Acontece", "Chega de Clamares Inocência" (esta a irmã gêmea de "O mundo é um moinho") e "Ensaboa".

Não deixem Cartola morrer. O poeta está vivo.






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