A DÚVIDA

Eu não queria crer, mas havia evidências, muitas, irrefutáveis e desconcertantes. A maior e mais perturbadora era física. Irremediavelmente marcante e por demais constrangedora. Parece até irônico, se referir a isso, como marcante, quando justamente não havia marca alguma que a distinguisse. Ocorria que, onde nas outras pessoas existia um sinal indelével de sua filiação maternal, em mim havia a prolongação da pele, que desde aquele momento até hoje, cresce, flácida e enrugada até não poder mais, denunciando os muitos anos que esse fato me assola. Nenhum sulco, marca ou sinais, que desfizessem as minhas dúvidas cresceram em mim. Assim apurei que estava só, e que minha existência era questionável, ao menos da maneira em que as outras pessoas constituíam a existência. Divorciado da maioria dos homens, a única cicatriz que insistiam em mim, era a da dúvida, parideira de toda sorte de pensamentos, inquietante moléstia, sórdida mazela dos emparedados. Pertencerei eu mesmo a esse mundo? Será certo que essa senhora da foto embotada, que me carrega pela mão, de fato foi a que me deu a vida e me precipitou no mundo, ou serei filho do amor que há entre Deus e o Diabo. Farsa é tudo uma farsa. Era a única coisa que me ocorria. Apartado do mundo e dos homens eu não conseguia repousar tranqüilo sabendo que era diferente.

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