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Com exceção de alguns intelectuais e religiosos portugueses, a notícia da morte do escritor José Saramago (1922-2010), consternou uma legião de fãs no mundo inteiro.

Notável romancista, José Saramago deixou-nos uma obra maiúscula que, em tudo dignifica a tradição literária portuguesa que nos legou autores como o Pe. Antônio Vieira, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz e muitos outros.

Foram mais de dezoito títulos entre romances, contos, teatro, poesia e diário, destacando, quase sempre, a sua indizível insatisfação com a opção do homem contemporâneo em estreitar a sua perspectiva quase ao nível da cegueira absoluta. Entre os seus títulos mais conhecidos estão, Memorial do Convento, Ensaio sobre a Cegueira e o polêmico O Evangelho de Jesus Cristo.

Não faltam nessas obras o traço personalíssimo do gênio, nem as marcas de sua juventude pobre e uma profunda indignação contra a sociedade portuguesa, descrita por ele em correspondência com o amigo José Rodrigues Miguéis, sem piedade nem reserva de qualquer natureza, como tacanha. “Há dias fui ao jantar de entrega do Prêmio Camilo à Isabel da Nóbrega: é de morrer. Tanta impostura, tanta falsidade, tanto esforço para parecer mais inteligente que o vizinho, e sobretudo mais célebre. E tudo isto sob a capa de modéstia jesuítica, uma capa cheia de buracos de orgulho e de inveja. E esta gente é a nata, e esta gente conduz, orienta, dá entrevistas, pontifica, tem opiniões acerca de tudo e de coisa nenhuma”.

Por sua maneira controvertida de contradizer a versão oficial, sublinhada pelo vezo inconformista de quem não nada com a corrente, pelo seu inegável apreço à verdade, que não lhe deixava quieto, quando os outros empregavam eufemismo diante de fatos dolorosos; José Saramago granjeou inúmeros desafetos na sociedade portuguesa.

Tais incomposturas desse autor, diante de uma sociedade cuja elite abdicou há tempos de respeitar e ser respeitada, não foram perdoados, nem mesmo após a sua precoce partida. Sobram, nesses dias em que inúmeros admiradores estão enlutados, incontáveis discursos, seja nos jornais ou na blogosfera, contra sua persona política-literária, contestadíssima.

Periódicos e blogues portugueses reservaram àquele que foi o único autor da língua portuguesa, laureado com a maior distinção da literatura, o Nobel, um diminuto e ridículo espaço, que mal disfarça a indiferença com que Saramago sempre foi tratado em sua terra natal.

Críticas imerecidas preferem destacar, ante a criatividade e a imaginação fértil que celebrizou o autor de Levantado do Chão, a predileção por uma linguagem barroca, bem como a displicência com a pontuação ou a completa indiferença as estruturas convencionais da narrativa, como obstáculo a leitura, esquecendo-se que isso nunca foi empecilho aos números leitores apaixonados, que Saramago conquistou em décadas de ofício literário.

Para o jornal Correio da Manhã, popular jornal de Portugal, a passagem do maior autor contemporâneo da literatura portuguesa não teve a menor importância. Prova disso foi a quase omissão em suas páginas da morte do escritor que, quando apareceu mereceu o mesmo destaque na capa do jornal que um “professor que mostra pênis e dá aulas”. Lamentável. Pior do que isso, somente a recusa do presidente Cavaco Silva em comparecer a despedida do maior nome da cultura portuguesa no exterior.

Tanta indiferença ao mais destacado gênio da cultura portuguesa, me fez lembrar a nossa imprensa na ocasião da morte do maior artista de nossa época, Paulo Autran. Na semana em que morreu o ator, em que foram anunciados os ganhadores do Nobel, Tropa de Elite foi sucesso antes mesmo de estrear no cinema, e, estreando, arrebentou – o destaque da capa de Época, revista da editora Globo, foi o furto do relógio do apresentador Luciano Hulk. Em matéria de notícias desinteressante, portugueses e brasileiros rivalizam caninamente.

A relação de Saramago com a sociedade portuguesa nunca foi fácil, ele nunca se afinou com as bases da elite e por isso pagou um alto preço. A cobertura da imprensa e a repercussão de sua morte são reveladores dessa relação, pra lá de conflituosa. Sua versão pouco favorável da maledicência dos poderosos, seu questionamento a castidade da sociedade lusa, bem como seu desacordo com os dogmas religiosos, tão arraigados na cultura portuguesa, mais a sua proverbial feição ao comunismo, nunca foi bem digerida pelos conservadores. Ela acabou de azedar de vez, quando na década de 90, depois que Sousa Lara vetou a candidatura de O Evangelho segundo Jesus Cristo a um importante prêmio da literatura européia.

Tanta indiferença acabou por empurrá-lo de vez para o auto-exílio nas ilhas Canárias, onde viveu os últimos anos ao lado de sua mulher Pilar Del Rio. Imperdoável em sua maneira de pensar e agir, Saramago, manteve-se a distância, mas preservou a pena e a consciência crítica ativa.

Não se admira que, em se vendo pintada de forma tão desfavorável, essa sociedade, refletida nos livros de Saramago, deva-lhe render qualquer homenagem. Se, no entanto, não podemos esperar qualquer gesto de reconhecimento desse tempo ao gênio de um artista como Saramago, resta-nos o conforto de saber que as próximas gerações, bem menos ressentidas do que essa, saberão julgar o escritor e o homem com a devida justiça. Assim esperamos.

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