Um passeio pelas redes sociais,
esse intrépido passatempo moderno, e logo me deparo pensando em como as pessoas
andam modestas. Em todos os lugares das redes elas se confessam a todo
instante, politicamente desinteressadas, inteligentemente deficientes, indignas
ou incapazes de realizarem qualquer coisa. Ninguém crê ou tem convicção de nada,
a não ser de sua própria imperfeição. Elas se vêem sempre como mutiladas. Frases
como: “o primeiro desejo da inteligência é desconfiar dela mesma” ou “é preciso
coragem para ser imperfeito”, seguido, do clichê socrático, “só sei que nada
sei” e “preferia ser um burro para não sofrer tanto”, entulham os perfis ou se
somam às mensagens diárias que as pessoas enviam umas às outras. Ninguém quer
parecer auto-suficiente. Nos dias atuais isso soa indigno. Vai daí que as
coisas andem tão pantanosas como estão. Ninguém tem a mínima convicção de nada.
Andam todos em círculos esperando a voz de um líder que os indique o caminho.
Com tantas trilhas abertas eu me pergunto o que estão todos ainda esperando
para se enfurnarem em uma delas. Sigam as picadas ou desbravem rotas
alternativas. Parem de ler manuais de auto-ajuda.
Hora da virada
.
Multiplicam-se pelo
mundo os sinais de que uma virada está por vir. Será? As recentes insurgências
no mundo árabe despertaram também as jovens consciências ocidentais contra os
seus tiranos? Os gritos de liberdade empoeirados, ecoaram tão alto e tão longe,
ao ponto de aterrissarem às Puerta del Sol em Madri, passando pelo coração da
máquina econômica mundial e daí para outros inesperados lugares? A julgar pela
disposição dos jovens ocupantes das praças e ruas pelo mundo, não resta dúvida
que essa virada não tarda. As manifestações que eclodem contra o sistema,
provam que as alternativas políticas e econômicas até aqui ofertadas, não
serviram para alterar em nada a rota da exclusão e opressão que por séculos
escravizam alguns homens em beneficio de outros.
A moral duvidosa
Te enganei de novo
.
Os Estados Unidos
anunciaram ontem terça-feira (11) que o serviço secreto (esse mesmo serviço
secreto, que não foi capaz de prever o atentado de 11 de setembro, acusou o Irã
injustamente de está envolvido com o atentado da Panam em 1988; financiou
regimes ditatoriais em toda America latrina; armou e formou o talibã no Afeganistão, etc...) desmantelou
um atentado terrorista que tinha como alvo o embaixador Saudita em Washington Adel
al-Jubeir e missões de Riad e Tel Avid em Buenos Aires. O secretário de Justiça
dos EUA, Eric Holder e o diretor do FBI, Robert Mueller acusaram o governo de
Teerã de tramar os atentados contra um dos maiores aliados dos EUA no Oriente
Médio. A se confirmar as acusações o presidente Marmud Armadinejad, que não é
nenhum santo, terá muitos problemas. Porém,
nem tudo que vem de Washington é digno de fé. Na luta suja pela hegemonia do mundo
os EUA já foram capazes de forjar histórias bem mais cabeludas do que essa que
a imprensa do mundo inteiro vem reportando. Casos recentes envolvendo esse
mesmo serviço secreto deixam dúvidas sobre a autenticidade da história. Em 2003,
logo após os atentados de 11 de setembro, a CIA afirmou que havia armas de
destruição em massa no Iraque. Essa informação motivou a invasão do país de
Saddam. Porém, até aqui, nada foi encontrado. Talvez elas ainda estejam lá,
quem sabe? Com a alta tecnologia que o regime do ditador iraquiano desenvolveu
em anos no poder, ele foi bem capaz não só de desenvolver armas nucleares como
também de afastá-las do alcance do Tio Sam. Com essa vergonhosa mentira os EUA
inauguraram uma página na história em que lideres de grandes nações subvertem a
moralidade para satisfazerem os seus interesses. Não seria surpresa nenhuma
agora que os americanos usassem mais uma vez a sua arma mais eficaz, a
propaganda do medo, para agredir o inimigo que insiste em não se dobrar aos
grunhidos do cão feroz. Quem nos garante
que os americanos não estariam mais uma vez forjando informações para
justificar mais uma barbárie?
A moral duvidosa de
Washington nos deixa a todos reticentes com as noticias.
Ainda sobre a memória
“Em nossos livros de
leitura havia a parábola de um velho que no momento da morte revela a seus
filhos a existência de um tesouro enterrado em seus vinhedos. Os filhos cavam,
mas não descobrem qualquer vestígio do tesouro. Com a chegada do outono, as
vinhas produzem mais que qualquer outra na região. Só então compreenderam que o
pai lhes havia transmitido uma certa experiência: a felicidade não está no
ouro, mas no trabalho. Tais experiências nos foram transmitidas, de modo
benevolente ou ameaçador, à medida que crescíamos: “Ele é muito jovem, em breve
poderá compreender”. Ou: “Um dia ainda compreenderá”. Sabia-se exatamente o
significado da experiência: ela sempre fora comunicada aos jovens. De forma
concisa, com a autoridade da velhice, em provérbios; de forma prolixa, com a
sua loquacidade, em histórias; muitas vezes como narrativas de países
longínquos, diante da lareira, contadas a pais e netos. Que foi feito de tudo
isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem
ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser
transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um
provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua
experiência?”
Walter Benjamin –
Experiência e Pobreza – 1933
Memória ameaçada
Vista aérea de Caetité
.
A cidade se modifica
numa velocidade incrível. Em quase 10 anos morando em Caetité eu não pude
deixar de perceber a furiosa transformação urbana dos últimos tempos. Por todos
os lados, crescem arranha-céus. Novos bairros e centros comerciais assentam
onde antes havia pequenas moradias familiares ou mesmo um descampado. Não
bastasse somente alargar-se até onde as vistas não alcançam os imóveis mais bem
situados também são alvo da cobiça e da especulação. De olho em espaços sempre
novos a sanha imobiliária põe abaixo todos os inconvenientes e se sobrepõe a
memória, a história e ao registro de tempos de antanho. Com espaços cada vez mais disputados e valorizados, os velhos
casarões, relíquias de outras épocas, sofrem com a cobiça desenfreada por
espaços privilegiados na cidade. Com a desculpa de que são dispendiosos e
inúteis, economicamente, pouco a pouco eles têm vindo abaixo, seja pelo
abandono dos proprietários ou pelo descaso das autoridades públicas que fazem
vistas grossas ao desmonte do patrimônio. “Não
adianta reclamar contra a transformação grosseira e desnecessária da fisionomia
da cidade – da nossa cidade -, os poderes são surdos pensando que são sábios”,
escreveu Carlos Drummond de Andrade a propósito das insistentes intervenções
urbanísticas no Rio de Janeiro que desapareceram com incontáveis igrejas na
década de 40. “Para que passasse a
grandiosa Avenida Presidente Vargas, primeiro derrubaram a igreja da Imaculada
Conceição e a de São Domingos... depois, pouco adiante, outras duas velhas
igrejas desapareceram, vítimas dum vandalismo que poderia ser evitado: a de São
Pedro Apóstolo, redondinha, com paredes largas de dois metros, argamassadas a
óleo de baleia, e a do Bom Jesus do Calvário, duas vezes secular e que muito
aparece nas Memórias de um sargento de milícias.” Não consta que Drummond
fosse nenhum crente, mas isso nunca foi empecilho à sua sensibilidade. Nesses
tempos de ares tão poluídos valeria a pena subordinar o avanço do cimento à
preservação da memória? Alguns destemidos resistem aos constantes e insistentes
assédios dos novos empreendimentos, sem abdicar das transformações impostas
pelo tempo. “Venham as torres
residenciais ou hoteleiras e que sejam belas e altas e coloridas, levantadas
com os mais sensacionais e variados materiais que a indústria inventa no seu
incansável evoluir. Mas que não lembrem, nem de longe, aquela outra tão citada,
a de Babel – para que possamos, continuar a falar a mesma linguagem de
entendimento e solidariedade que é o melhor alicerce para a edificação de uma
vida comunitária ideal.”
A paleta de Juan Miró
O pintor catalão Juan Miró é classificado como
Surrealista. Porém, em comparação com os seus pares, Salvador Dali, René
Magritte e Marx Ernest, que nunca deixaram totalmente a arte figurativa, Miró
parece marcar uma cissão. Cissão que, se não o distancia dessa corrente
vanguardista de todo, distingue suas obras dos demais. Ele radicalizou sua
paleta ao construir um universo de seres disformes, retorcidos no tempo e no
espaço que destoam da tradição de seus antecessores.
Os traços inquietantes que molduram os quadros de
Juan Miró (1893-1983) estão quase sempre associados aos desenhos infantis, aos
sonhos ou mesmo as fantasias mirabolantes de uma mente caprichosa, capaz de
fabular mundos cujos limites são indeterminados. Miró é um provocador. Seu
pincel produziu em mais de 50 anos de atividade, um universo incomum e
extraordinariamente original, inteiramente refratário a lógica convencional das
classificações e das definições enclausurantes. As intrincadas formas que dominam o espaço infinito
da pintura de Miró se divertem indiferentes aos olhares dos que tentam
organizar a pintura, na busca de uma razão de sua existência.
Diante de quadros tão enigmáticos como, Pintura,
Hombre y mujer ante un montón de excrementos,
El
Galo ou El carnaval del
Alerquín, só para ficar com alguns exemplos, o
espectador fica tentado ao exercício de classificação. No entanto, estou
convencido de que sua obra dispensa essa operação catalográfica, na medida em
que toda e qualquer classificação, atribuída a ele, ao invés de esclarecer os
sentidos de sua arte, produz na verdade, um reducionismo patético, que em nada
dignifica o trabalho daquele que desde sempre se tornou inclassificável.
El carnaval de Arlequín - 1924-1925 (aqui)
Miró é o artista por excelência. Seu gênio que não
aceita classificação, também renega os princípios da composição consagrada pela
tradição Renascentista, que por muitos séculos dominou a arte no Ocidente. Ao lado de Pablo Picasso, Braque, Marx Ernest
e outros, ele aboliu a perspectiva, a proporção e fundou uma linguagem própria,
facilmente identificável com suas convicções artísticas, que tinha como única
proposição, a livre expressão. Não se confunda aqui livre expressão, com aquela
noção dominante nas artes contemporâneas, que abusa do sentido da liberdade
conquistada pelo artista moderno, somente para, disfarçar sua canastrice e falta
de sensibilidade diante do fenômeno artístico.
João Cabral de Melo Neto que foi seu amigo e
escreveu sobre ele um ensaio, intitulado Juan
Miró, num dos períodos mais duros da ditadura de Franco, disse dele: “A obra de Miró é, essencialmente, uma luta
para devolver ao pintor uma liberdade de composição há muito tempo perdida. Não
uma liberdade absoluta, nem uma angélica liberação de qualquer imposição da
realidade ou da necessidade de um sistema para abordar a realidade. É sim, uma
luta por libertar o pintor de um sistema determinado, de uma arquitetura que
limita os movimentos da pintura.”[1]. Parece
ser justamente contra os limites como concluir João Cabral - da composição e
por extensão das intenções - que se revoltou o pincel de Juan Miró.
| Autoretrato (Aqui) |
Nele, tempo, forma e espaço foram inteiramente distorcidos criando com isso, um universo particular, habitado por seres que compartilham, com os traços primitivos, semelhança inconteste. Miró é todo intuição. Seu trabalho artístico funde imagens insólitas numa articulação que ressalta uma identidade nova aos elementos díspares, que compõem o quadro. Daí sua associação com a atmosfera onírica própria dos Surrealistas. Porém, Miró vai mais longe. O alegre colorido que emana de algumas de suas telas, revelam um mundo em que as limitações das formas, a plasticidade dos objetos, pertencem a um universo extra-artístico, portanto, estranho a pintura desse catalão, que deu ao imponderável a sensibilidade mais comovente.
[1] O
ensaio encontra-se publicado nas Obras Completas de João Cabral de Melo Neto,
editado pela Nova Aguilar, 1994. p. 719.
A poesia de Affonso Romano de Sant´anna
Imagem tirada daqui
.
O teórico, jornalista, crítico, cronista, poeta e professor Affonso Romano de Sant´anna resolveu a muito tempo encarar o seu oficio (ou melhor, ofícios) de forma insolente. Ele prefere a vida com riscos. E se tornou um risco, e todos nós sabemos bem disso, recusar a indiferença como modo de vida. À cordialidade do senso comum ele interpôs a autonomia de um espírito crítico e fecundo. Sua crença, fundado na ideia de que a cultura liberta o homem da ignorância, tem raízes em autores como Paul Valery, que como Romano de Sant´anna acredita que “o leão é a soma dos cordeiros assimilados”. Em seu mais novo livro de poesia, Sísifo desce a montanha, lançado essa semana na Livraria Cultura em São Paulo, pincei um dos poemas que refletem o caráter desse homem-poeta.
Erguer a cabeça acima do rebanho
é um risco
que alguns insolentes correm.
Mais fácil e costumeiro
seria olhar para as gramíneas
como a habitudinária manada.
Mas alguns erguem a cabeça
olham em torno
e percebem de onde vem o lobo.
O rebanho depende de um olhar
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Politicamente Incorreto
Recado íntimo
Ele é um
prisioneiro de si mesmo. Somente pode soltar seu belo canto de cadeia...somente
ele pode liberar-se de si mesmo e perder-se num presente eterno, sem tempo. Mas
fale para ele não relaxar e lembrar sempre da água de Heráclito, ora num leito
calmo, ora descendo uma cascata, ora evaporando-se num espaço infinito... AME O
PRESENTE, GRITE AO MUNDO, em silencio! Un abbraccio.
Roberto Bolaño e a nova literatura latino-americana
.
Na década de sessenta a
literatura latino-americana, em todos os seus quadrantes, viveu um período de
grande produção literária e súbito reconhecimento internacional, tanto da
crítica especialização como do público.
Foram importantes para
esse reconhecimento nomes com do argentino Julio Cortázar, do colombiano
Gabriel Garcia Marques, esse último ganhador do prêmio Nobel de Literatura em
1989; os mexicanos Carlos Fuentes, Juan Rulfo e Octávio Paz também premiado
como o Nobel, além do peruano Mario Vargas Llosa - Nobel de 2011 - e de alguns
outros.
Também nessa mesma
década, figuras da envergadura do argentino Jorge Luis Borges e do cubano Alejo
Carpentier, gênios do realismo fantástico e do realismo mágico, respectivamente,
voltam a serem alvos do interesse público e completam e cenário de mestres que
emolduraram para sempre, um quadro da literatura latina, que nunca mais saiu de
exposição.
Foi durante esse
período ainda que a América Latina tornou-se pela primeira vez em sua história
uma exportadora de produtos culturais, em uma inversão radical dos pólos de
produção artística que dominava o mundo. O ponto alto dessa reviravolta culminou
com a outorga do Prêmio Nobel de Literatura ao guatemalteco Miguel Angel
Astúrias em 1967.
Grosso modo, o que
caracterizava a literatura desses autores, escusadas as muitas discussões sobre
o assunto, quase nunca resolvido, são: o gosto pela experimentação formal, e um
apurado senso crítico de suas origens históricas. Para isso, eles revisaram
técnicas provenientes do Surrealismo e da literatura estadunidense do século XX,
especialmente a do escritor William Faulkner. Influências que desaguaram no
chamado realismo mágico e na literatura fantástica.
Tão súbito quanto o
surgimento daqueles notáveis escritores para literatura latino-americana, foi o
desaparecimento precoce, nos anos seguintes, do interesse do público pelos
novos autores que sucederam aqueles precursores.
Todavia, esse hiato de
paixões, entre público e autor, que durou uns bons anos, parece ter sido
inteiramente interrompido com o surgimento no apagar das luzes do século XX, do
escritor chileno Roberto Bolaño.
Abdicando do projeto revisionista
da história latina, Bolaño parte em suas obras (formada basicamente por poemas,
contos e romances) pelas trilhas abertas pelo argentino Jorge Luis Borges, para
quem a literatura, se confundia com um labirinto, cheia de possibilidades
formais e temáticas. Seu universo é povoado por escritores, viajantes e
aventureiros urbanos, sempre em busca de alguma coisa. Nessa viagem ele nos
leva rumo a histórias em que putas assassinas, detetives selvagens e nazis,
além de escritores, professores, baderneiros e outros, se confundem a turba
simiesca que povoa a fauna; que alguns insistem em chamarem de vida contemporânea.
Bolaño foi autor de uma
obra consagrada dentro e fora do mundo latino. Sozinho ele resgatou o interesse
do público pelos novos talentos latino-americanos, revigorando assim uma
tradição que ainda tem muita tinta para gastar. Infelizmente ele não poderá
mais gastar essas tintas. Sua obra teve um ponto final em 2003 quando ele foi
vencido pela pancreatite.
1000 frames de Hitchcock
Um ambicioso projeto disponível (aqui) distribui ao
público interessado 1000 frames de 52 filmes (originais e refilmagens) do
mestre do suspense Alfred Hitchcock. É possível acompanhar quadro a quadro as
melhores cenas desse vibrante cineasta, que transformou as salas de cinema num
palco onde desfilavam um universo de sensações. Escolhi, para ilustrar esse
post, a famosa perseguição sofrida pelo personagem de Cary Grant no filme Intriga
Internacional, 1959. Estão faltando alguns frames que intensificariam o pânico
do personagem, como aquele em que o avião bafeja bem pertinho do cangote do
personagem enquanto ele se esquiva pelo milharal. Mesmo assim vale a pena
bisbilhotar o site. Outra informação digna de nota é que essa cena foi
reproduzida pelo diretor Anthony Minghella no filme O Paciente Inglês, 1996.
Vamos tirar a ferrugem da cultura
Enquanto a maioria dos
intelectuais (essa ficção) esquiva-se do desafio de pensar a cultura numa
perspectiva que não seja puramente relativista, o poeta popular, de ontem, hoje
e sempre, marcha na direção contrária. Com irreverência incomum ele desmantela as
estruturas que sustêm a baixaria, e funda, numa visão crítica - falecida a
muito nas consciências - uma imagem poética do mundo contemporâneo. Que
frescor; que alegria, não produz esses fabulosos artistas nos nossos corações.
Das sombras eles anunciam que há vida inteligente e que nem tudo está perdido.
As lições de Suassuna
(...)
e sem escuitar mais acordo,
cravou as espora d´oiro
nos ilhais do belo cavalo branco
de D. Jorge de
Albuquerque
e atirou-se novamente à refrega,
perdendo-se no mar de lanças.
Antero de Figueiredo
As mariposas e os holofotes
.
A imagem que ilustra este post é do personagem Terry
Malloy, interpretado pelo ator Marlon Brando no filme Sindicado de Ladrões. Realizado em 1954 ele foi dirigido por Elia
Kazan. Por essa interpretação Marlon Brando ganhou o seu primeiro Oscar de
melhor ator. Em 1972, quase vinte anos depois, ele foi indicado, e ganhou mais
uma vez, também como melhor ator, dessa vez pelo papel de Don Corleone no filme,
O Poderoso Chefão, do diretor Francis
Ford Coppola.
Na cerimônia de entrega do prêmio, Marlon Brando
protagonizou uma cena digna da sétima arte. Ele fez o que na época, e ainda
hoje, pode ser considerado por muitos como uma heresia; recusou a honraria da
Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e não compareceu
para receber o prêmio. Quando seu nome foi anunciado, surgiu no meio da
platéia, entre os olhares atônitos de Roger Moore e Liv Ullmann, atores
escalados para recepcionar o homenageado, uma representante do ator, sua amiga
Sacheen Little Feather, que, entre as vaias e os aplausos dos presentes,
improvisou um discurso em defesa dos índios americanos.
Mais tarde Marlon Brando disse que sua intenção, ao
declinar do prêmio, era constranger, “uma
indústria que tinha sistematicamente deturpado e denegrido a imagem dos índios
durante seis décadas”. Cansado das frivolidades de Hollywood enquanto o
mundo ardia em chamas na guerra do Vietnam, e os nativos americanos eram
caçados como nos tempos do velho West, Brando relutava em aceitar a ideia de
que um terço da humanidade estivesse parado assistindo aquela celebração fútil,
enquanto tudo isso estava acontecendo sem o menor constrangimento de ninguém.
Ele não poderia ter escolhido melhor vitrine para chamar a atenção do mundo sobre
essas causas. A audiência da cerimônia do Oscar, na época, foi estimada em mais
de 1 bilhão de pessoas. Hoje ultrapassa os três bi.
Em sua autobiografia ele escreveu que considerava já
algum tempo desadequado premiar artistas pelo seu trabalho. Os Oscar da
Academia e o alvoroço que se cria à sua volta elevam segundo Brando, o trabalho
do ator a um nível imerecido. “Com a
quantidade de problemas graves existentes no mundo, torna-se absurdo que um
fato tão inconsequente assuma tais proporções... Conheço pessoas que com seis
meses de antecedência começam a pensar como irão vestidas à cerimônia e se
tiverem alguma hipótese de serem nomeadas começam a memorizar o discurso de
aceitação. E, se ganham, fingem então que as suas palavras são espontâneas, mas
a verdade é que foram ensaiadas desde há muitos meses”.
Definitivamente Marlon Brando não era uma pessoa razoável,
hesitante ou comedida com as palavras, como exigem a carneirada. A severidade
com a qual ele encarou o seu tempo diz muito desse homem que não tolerava
facilmente os holofotes, que alguns insistem em manterem sempre apontados pra
si. Ao rejeita o prêmio que muitos cobiçam Brando investia contra as farsas que
encobrem o mundo das celebridades e também contra uma sociedade que tem como único
desejo na vida sair do anonimato direto para o estrelado.
A
cerimônia do Oscar tem origem, escreveu Marlon
Brando, na obsessão de Hollywood em
autopromover-se; as pessoas do meio sentem uma verdadeira paixão em prestar
tributo uns aos outros... isso tranqüiliza-os acerca do seu valor,
especialmente depois de terem crescido no seio de uma cultura onde impera a
culpa e uma forte pressão pra cada um se evidenciar. Creio que Marlon
Brando foi o último de uma casta de grandes atores que não fazia arte esperando
apenas os aplausos públicos.
Riquezas pelo caminho
Fotos: Regina
Enquanto navegam, aqui
e acolá, os tripulantes dessa nau encontram uns tesouros que enriquecem a
jornada, e em momentos tempestivos, afastam as incertezas desse vasto mundo. Dessa
vez, foram uns regalos preciosos, que muito acalentarão a cobiça dos exaustos
marinheiros, enquanto aguardam a próxima jornada em busca de mais riquezas, que
os conforte e tanjam os riscos da pobreza e outros demônios que assaltam
incessantemente esses tempos.
Carros, Governo, Impostos e outras mutretas que fazem desse país uma vergonha
.
Aprendi que o princípio
básico do capitalismo de mercado é a não interferência do Estado nas ações da
economia. O agente regulador do mercado nas disputas, segundo a óptica liberal,
deve ser, do próprio mercado. Ao estado compete, segundo Milton Friedman, ideólogo
do Neoliberalismo, uma atuação limitada: “Sua
principal função (a do Estado) deve ser a de proteger nossa liberdade contra os
inimigos externos e contra nossos próprios compatriotas; preservar a lei e a
ordem; reforçar os tratos privados” noutro trecho do seu famoso livro
Capitalismo e Liberdade, Friedman atribui outra função ao Estado: “promover mercados competitivos”
estimulando a concorrência e a livre iniciativa. Como vemos, a participação do
Estado na vida econômica, segundo o modelo Liberal, limita-se a umas poucas
ações, nenhuma delas ligadas a regulação, fiscalização ou manutenção da
economia. Qualquer outro papel do Estado causaria o que os “imperdenidos homens
de ideias” chamariam de desordem econômica.
Na teoria a prática é
outra. As recentes medidas que o governo brasileiro adotou para, supostamente,
proteger o mercado nacional contra a especulação internacional, taxando em até
30% os produtos importados, beneficiaram diretamente as montadoras de
automóveis que fabricam no país e penalizaram as empresas que importam os
carros. Em nota, o ministro da economia se apressou em negar que, o reajuste
tenha sido feito para impedir o crescimento das novas marcas, como desejam as
montadoras nacionais. Difícil acreditar nessa história. O que está por trás
disso tudo são interesses econômicos e não a defesa do trabalhador brasileiro
como querem nos fazer acreditar o governo e as empresas.
As intervenções
rechaçadas pelo Neoliberalismo são sempre bem vindas para salvar empresas
ameaçadas pelo livre comércio. Era agora que as ideias de Estado mínimo
preconizadas pelos ideólogos; economia competitiva, livre comércio,
concorrência, deveriam vir à tona. Porém, o que vemos? Mais uma vez o Estado
intervindo a favor das empresas com a desculpa esfarrapada de estar, assim,“protegendo”
o Brasil e o comércio nacional... balela.
Com a entrada da
concorrência chinesa no mercado de automóveis, as montadoras, que há anos
monopolizam o setor, viram o mais promissor mercado consumidor de automóveis do
mundo, mais uma vez ser alvo de outras raposas, e saíram logo à procura do
Estado para refazer o jogo e começar tudo de novo, dessa vez com novas regras. A
livre concorrência responsável, segundo os pensadores do Liberalismo, por
equilibrar os preços e permitir ao consumidor uma opção viável, está sendo
solenemente ignorada, sob a desculpa da ameaça do desemprego.
Segundo matéria do
jornalista Joel Leite (aqui), o carro fabricado no Brasil por essas montadoras
que o governo mima, é o mais caro do mundo. Os produtos são os mesmos, mas os
preços praticados não. Vejam esses exemplos: O Corolla fabricado em três
países, possuem diferenças de preços consideráveis. No Brasil o carro custa, segundo informações do jornalista, US$
37.636,00, na Argentina US$ 21.658,00 e nos EUA US$ 15.450,00. Outro exemplo de
causar revolta: o Jetta é vendido no México por R$ 32,5 mil. No Brasil esse
carro custa R$ 65,7 mil. Joel aponta ainda outros exemplos. O Gol I-Motion com
airbags e ABS fabricado no Brasil é vendido no Chile por R$ 29 mil. Aqui, custa
R$ 46 mil.
Se o Estado realmente estivesse
preocupado com o brasileiro, em vez de penalizar a concorrência, desestimulando
como está fazendo, deveria cobrar das montadoras nacionais preços justos e
competitivos, que pudessem fazer frente aos produtos chineses e não interferir
na competição pelo mercado que empurraria os preços para baixo. Ao acionar
essas medidas o governo salva, não os empregos e a indústria nacional, mas o
lucro exorbitante das montadoras que não se acanham em venderem o mesmo produto
em países diferentes com margem de lucro inexplicável.
Esse governo tem vários
méritos, nenhum deles, porém, está associado às ações econômicas.
Um blog incasto
.
Visitar blog aqui (aviso, esse blog é devastador)
Adoro os blogueiros
portugueses. Sempre que descubro um novo, saúdo com alegria essa descoberta. Prefiro
os lusos aos nacionais. Não me falta ocasião para lê-los. O porquê dessa predileção, eu não sei, as razões ainda me escapam. Talvez,
julgo eu, sem ter certeza, seja o português castiço, que a maneira própria dos
irmãos além-mar me desperte, ocultamente, uma melancolia da língua de Camões. Ou
ainda, a maneira incasta, com a qual eles empregam essa mesma língua, contra as
manadas a caminho do matadouro.
Visitar blog aqui (aviso, esse blog é devastador)
Os artistas e as touradas
O que há em comum entre Goya, Picasso, Hemingway e
João Cabral? À primeira vista nada.
Porém, um detalhe chama a atenção na vida e na obra de cada um desses homens.
Ambos pintaram ou escreveram, em algum momento, sobre as touradas e os
toureiros. As cenas de virilidade e coragem que vinham das arenas despertaram
grande fascínio entre estes mestres, e de alguma forma definiram seus temas artísticos.
Seduzido pelas disputas entre homens e animais dizem
que Goya, chegou a tourear na juventude, fato que talvez explique o encanto
desse pintor por esse espetáculo ao qual dedicou uma série de gravuras e
pinturas que sugerem, com grande comedimento de recursos, as tensões ocorridas
nas Plaza de Toros.
Picasso, assim como Goya, foi outro reconhecido
amante da tauromaquia. Seus feitos
artísticos revelam a paixão por esse esporte tão violento, e ao mesmo tempo,
tão fascinante. Como Goya, ele dedicou muitos de seus trabalhos ao registro de
homens que com destemor incomum enfrentaram seus medos nas arenas de touros
munidos apenas de capa e lança.
Símbolo da cultura Ibérica, as touradas também
inspiraram paixões nos ilustres estrangeiros que viveram na Espanha. Ernest
Hemingway que viveu por lá por muitos anos, enquanto cobria a guerra civil,
acabou se enamorando pelas touradas. Em alguns de seus livros como, Por
quem os sinos dobram e O Sol também se levanta, ele se
rendeu aos duelos sangrentos e bestiais do embate entre homens e animais. Mas
foi em O Verão Perigoso obra não ficcional, que narra uma viagem do autor pela
Europa na companhia de dois grandes toureiros: Antônio Ordoñez e Luis Miguel
Dominguín, que vamos encontrar um Hemingway apaixonado pelos duelos das arenas.
João Cabral de Melo Neto foi outro destacado
admirador das disputas taurinas. Vários de seus poemas enaltecem a figura dos
valentes toureiros, como Manolete “o de nervo de madeira”.
Espetáculo controverso, as touradas inspiram hoje duelos
em outras arenas. Despida de sua mística poética, que a via como metáfora da
existência humana na luta renhida contra os maiores obstáculos ou como queria
João Cabral como, “a vitória da inteligência contra a força bruta”; a alegoria taurina, se dissolveu sob o
discurso de que a luta contra os touros não passa de um exercício de crueldade,
em que uma massa irracional volta todo o seu ódio contra as bestas ferozes de
chifres ameaçadores, pelo simples capricho de infringir ao outro dor e
sofrimento atroz.
Dentro e fora da Espanha as touradas são alvo dos ativistas
dos animais. Talvez por isso, hoje em dia elas sejam vistas com reservas
pela comunidade artística. A exceção talvez seja o peruano Mario Vargas Llosa,
atual ganhador do Nobel de Literatura, que ao contrário de seus pares
literários da atualidade, ainda continua a ver nas touradas um espetáculo poético
com raízes nas profundas tradições da cultura ibérica.
No livro, A
vida dos Animais, o escritor sul-africano J.M.Coetzee, também nobelizado, ver nas
touradas, exaltadas pelos artistas: um indício [de uma estirpe de poetas que
celebram o primitivo]. Mate-se a besta, sem dúvida, dizem eles, mas
transforme-se isso num concurso, num ritual e honre-se o adversário pela sua
força e bravura. Coma-se, também, após se ter vencido, por forma a que a sua
força e coragem entrem em quem a dominou. Olhe-se nos olhos antes de a matar, e
agradeça-se-lhe depois. Cante-se sobre ela. Pode chamar-se a isto primitivismo.
É uma atitude fácil de criticar, de ridicularizar. É profundamente masculina,
machista. Deve desconfiar-se das suas ramificações políticas. Mas, no fim de
contas, há nisto algo atraente do ponto de vista ético”.
O tema é polêmico e muito difícil. O que vocês
acham... dêem sua opinião, são a favor ou contra as touradas.
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