Ondjaki: a poesia da aprendizajem

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Anarquizar as palavras. Remodelar a língua entortando-a até o estado poético. Esse é o esforço empregado por Ondjaki (1977), escritor angolano radicado no Brasil, em seu mais novo trabalho, Há Prendisajens com o xão (o segredo Húmido da lesma & outras descoisas) livro que acabo de ler com grande prazer. Nesse percurso de aprendizagens, Ondjaki procura desvendar os segredos guardados pelas palavras e explorar todo o seu potencial poético. Recriando-as anarquicamente, ele apanha as lições de Manoel de Barros  de que a melhor maneira de poetizar as palavras é adoecendo-as ou infringindo os códigos para renovar os sentidos e revigora as palavras, vitimadas pelo engessamento das convenções. Os sinais dessas prendisajens manoelinas estão por todo o livro. As referências a Manoel de Barros vão desde as insistentes imagens que privilegiam as insignificâncias do mundo: apetece-me des-ser-me;/reatribuir-me a átomo.... (CHÃO). Borboleta é um ser irrequieto./para vestes usa pólen/ tem um cheiro colorido.... (PARA VIVENCIAR NADAS). Para acumular dores/o mais das vezes/ bastou um desamor. (QUE SABES TU DO ECO DO SILÊNCIO?);  à linguagem perpassada pela torção que lhes aniquila a alienação imposta pelo uso cotidiano: a despalavreação/ pode acrescer de uma vida... ou ainda apetece-me chãonhe-ser-me.... Nas extraordinárias imagens que surgem desse exercício lúdico com as palavras reside o maior encanto desse livro. 

lágrima
é uma sensação que escorrega.
mundo está seco de coisas e trans-sensações
assim a lágrima presta-se
a desressequir o mundo.
(...)

(LÁGRIMA, GOTA, LÁGRIMA OU: TODAS DESPEDIDAS DO MUNDO)


(...)
Solidão é uma esteira
Onde se evite cochilar.
(...)

(REENCONTRO COM GOTAS)

O inchaço do coração
Facilita o despalavrear.
A liberdade pode advir
De uma veia.
Com sangue também
Se reescreve a vida.
O suicidado foi um apressado
Para desconhecimentos.
(...)

(INSCRIÇÃO)

Ao implodir todo formalismo, Ondjaki cria uma poesia marcada pelo insólito onde a violação das convenções linguísticas, descondicionam o olhar do leitor, abrindo-o à novas e impressionantes visões sobre o mundo. Ondjaki diverte-se com as palavras, e diverte ainda mais o leitor, criando mundos fabulosos onde os limites para fantasia e à criatividade simplesmente se recusam em existir. A obediência às normas e às convenções são coisas incompatíveis com a poesia desse angolano de temperamento brasileiro.

5 comentários:

Lane Lee disse...

Como diz o próprio Manoel de Barros: Assim,
Ao poeta faz bem
- "Desexplicar" . Ótimo texto, Parabéns.

Paula: pesponteando disse...

Precisa me deixaa assim, com água na boca...isso não é justo, se eu soubesse teria feito de tudo p ir conhecer Ondjaki...o cara é muito bom...atacando de poesia...preciso conhcer...me empresta, vai?

Regina disse...

Não resisti em mergulhar no universo do Ondjaki também... que deliciosa leitura! Que bom que existem pessoas que não nos deixam esquecer da beleza e encanto que tem as coisas simples da vida. Com ele, passamos a ver e pensar objetos e seres de uma outra maneira. Excelente análise a sua, sobre as "prendisajens" da poesia do Ondjaki.

Rogério Soares disse...

Lane, Paula e minha querida Regina, obrigado pela visita. Alegra-me que estejam gostando do que vêem por aqui. Regina sua presença e seu comentário são muito importantes para mim. Meninas, um dos propósitos do Blog é o de divulgar e incentivar novas aventuras pelo mundo literário. Pra mim também foi uma grata surpresa conhecer Ondjaki. A leitura desse livro desmistificou muitas coisas sobre os escritores de origem africana. Um abraço a todas. Beijos na Regina.

Regina disse...

Estarei sempre por aqui...Para mim, é uma honra ler os seus escritos,na maioria das vezes,ainda no prelo.E ouvir quando diz: "Vida,leia um texto que fiz aqui pro blog", "É pra ler em voz alta,gosto de escutar" (risos)...Isso, não tem preço; tem admiração,orgulho, encantamento...Beijos querido.