Os inconvenientes indispensáveis

Almada Negreiros (O prazer de ler)
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O escritor Mario Quintana, mestre da literatura de miudezas, escreveu: "Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores". Desconfio dos primeiros, por isso, prefiro os segundos. Por temperamento, tendo às leituras que desafiam os leitores. Nessas, seguramente, eu poderei encontrar o que falta naquelas; coragem em dizer algumas verdades incontornáveis. Nenhum livro, que recentemente saltou das listas dos mais vendidos ao colo dos leitores, foi capaz de contrariar as expectativas ou de frustrar os anseios dos seus leitores, que por isso, lhes são muito gratos. Os que esgotam os leitores não têm a mesma sorte, nem por isso estão desconfortáveis. Há desconforto maior, creio eu, em viver a pressentir e segregar os inconveniente e as desilusões do mundo, do que ter a sua certeza.


5 comentários:

Joana disse...

Eu não gosto de ser esgotada por nada, muito menos por um livro. Levarem a última gota... não sei. Gosto da sensação mais de transbordo....ser inundada por um livro mas, ao mesmo tempo, puder nadar, mesmo sem haver terra `a vista...

Ana Seerig disse...

Assino embaixo.
Bom livro mesmo é aquele que, mesmo anos depois de tu ter lido, ainda te faz pensar, aquele em que tu te pega pensando de súbito. Não conhecia a frase do Quintana, mas ela é a mais absoluta verdade!

Ah, sim, fiquei imensamente feliz de te ver lá no Gurias e agradeço os elogios.

Até mais,

Arame Farpado disse...

Rogério,
o seu post fez-me pensar sobre os livros que gosto e, consequentemente, no tipo de leitor que sou. A palavra que melhor se enquadrou na auto-definição foi heterogéneo.
Sou impulsivo, leio como tal. Devoro avidamente (e por vezes à pressa) palavras, linhas e páginas, no entanto noutras circunstâncias deixo as palavras dissolverem-se na mente devagar, numa demorada e lânguida leitura.
Para além do enredo, tenho uma paixão pelo livro em si, enquanto ser tri-dimensional. Por vezes compro (agora nem tanto, o dinheiro não estica) livros que à partida imagino que não irei ler nos próximos anos mas que absolutamente tinho necessidade de possuir, de serem meus. Não evitei uma gargalhada quando pensei que essa mania idiota terá imensa utilidade nesta fase pós acordo ortográfico, com o qual estou contra, tendo ainda bastantes livros por ler escritos no "meu" português.
Perdi-me em divagações...
Voltando ao tipo de livro, bem como à minha heterogeneidade, sou consumidor dos dois tipo que refere. Existem livros comerciais que são mais do que aquilo que aparentam. De entre os autores contemporâneos que adoro saliento Haruki Murakami. Enredos viciantes, numa cultura aliciante, bem escritos e bem traduzidos.
Por vezes também gosto de me dedicar a leituras mais trabalhosas, delas retirando prazer, embora nem sempre aconteça. Há quem considere Saramago intragável, eu adoro. Um dos livros que mais "trabalho" me deu ler foi "Mein Kampf" do A.H. Que coisa odiosa. Custou-me igualmente ler Cem Anos de Solidão do G. Márquez, sendo que este último não consegui acabar. Saltei 60 ou 70 páginas, duas gerações de Buéndias e a história seguia igual, uma desilusão total.
Enfim fico por aqui. Neste seu cantinho dou por mim a escrever talvez demasiado e não pretendo aborrecer nem fazer do seu blogue vazadouro das minhas emoções.
Cumps.

Rogério Soares disse...

Joana e Arame Farpado,

Talvez vocês tenham razão. Por vezes, sou assaltado por um radicalismo incontrolável. Isso advém de minhas paixões pelo que não é fácil. Associo-as a algo duradouro e incontrolavelmente sedutor.

Tita disse...

Eu alterno fases extremas. Existem momentos em que adoro desafios, textos que me tragam o novo, o inesperado. Depois preciso deixar os pensamentos maturando em barris de carvalho. Enquanto isso parto para coisas que levam a questionar minha idade mental, como quadrinhos do Calvin, Tintim, Asterix... Claro que tudo isso acabou influenciando minha vida profissional, partindo para ilustrações infantis. Nada como tirar proveito de nossos problemas psiquiátricos! :)