MAIS LIÇÕES DE POESIA - O FERRAGEIRO DE RECIFE


Além dos autores, Mário de Andrade e Ezra Pound, que destaquei no post anterior como exemplos de autoridade literária sobre preceitos constitutivos do oficio poético, forçoso é lembrar outro nome, como o do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, quando o tema é poesia. Nele o rigor da forma e a expressividade do conteúdo exprimem como nenhum outro, até então, um acurado senso critico, traduzido num intransigente apego ao real e a lucidez mais extrema, em oposição ao lirismo e poesia dita inspirada. Acontece que com ele, a poesia deixa de ser etérea, perde seu caráter de oratória e finca pé no chão. Mesmo sendo, eminentemente, um poeta, João Cabral nunca se distanciou das reflexões que envolveram seu trabalho. Como escritor que nunca dissociou a condição e o trabalho de poeta da reflexão estética acerca da essência e função da poesia, Cabral acabou por se tornar, assim como que um, poeta-critico. E foi como poeta-critico que ele nos deixou em versos um sumário de suas idéias fixas. Como Octávio Paz se referindo a Fernando Pessoa alegando, que a biografia desse era sua obra, assim, sucede que com Cabral sua obra fala por si e dita, através de suas normas rígidas a tipologia de sua composição. A seguir um bom exemplo de como o imbricamento crítico de sua visão poética se traduzia em poesia.

O FERRAGEIRO DE CARMONA

Um ferrageiro de Carmona
Que me informava de um balcão;
“Aquilo? É de ferro fundido,
Foi a fôrma que fez, não a mão.

Só trabalho em ferro forjado
Que é quando se trabalha ferro;
Então, corpo a corpo com ele;
Domo-o, dobro-o, até o onde quero,

O ferro fundido é sem luta,
É só derramá-lo na fôrma.
Não há nele a queda-de-braço
E o cara-a-cara de uma forja.

Existe grande diferença
Do ferro forjado ao fundido;
É uma distância tão enorme
Que não pode medir-se a gritos.

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MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. 1994. p. 595

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